O caso recente ocorrido na Ilha Grande e como parte da sociedade vê a ciência

Nós, cientistas, precisamos refletir sobre como parte da população nos enxerga. E todos nós, cidadãos, precisamos refletir sobre o poder que as redes sociais nos deram e o perigo dos julgamentos sumários na internet. Leia a reflexão escrita por Diogo Loretto especialmente para este blog.

Nota do dono do blog: a Profa. Maria Alice dos Santos Alves, da UERJ, é uma das pessoas mais honestas e uma das profissionais mais sérias que já conheci em mais de 20 anos de carreira na ciência. Quem já teve a oportunidade de ser aluno, orientado ou colega dela sabe o quanto a professora se preocupa com questões éticas e com a segurança e correção técnica dos métodos de pesquisa que usa. Além disso, ela e outros professores da UERJ promovem diversas ações de divulgação científica e educação ambiental na Ilha Grande e no Rio de Janeiro, além de outras cidades. O linchamento moral pelo qual ela passou na Ilha Grande, na UERJ e na internet, assim como o atentado que a equipe dela sofreu em campo, evidenciam os perigosos tempos em que vivemos. Muitas pessoas se tornaram incapazes de respeitar o próximo, achando que podem passar por cima de leis, instituições e pessoas em nome das suas causas. E as redes sociais, que são ótimas por um lado, por outro reacenderam a tradição medieval dos holocaustos em praça pública. Eu mesmo abandonei por completo o trabalho de campo no meu laboratório, seja para fins de pesquisa ou ensino, porque cansei de ser tratado como criminoso por setores do governo e da sociedade, e até por alguns alunos. Biologia para mim, agora, só no computador.

“Nothing in all the world is more dangerous than sincere ignorance and conscientious stupidity” – Martin Luther King, Jr.

Antes de ler o texto que segue, assista este video para entender melhor o caso:

 

Por Diogo Loretto

Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Oswaldo Cruz, Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios

O recente caso ocorrido da Ilha Grande, RJ, envolvendo a depredação dos equipamentos de pesquisa e ameaças à equipe do Laboratório de Ecologia de Aves, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sob coordenação da Prof. Dra. Maria Alice dos Santos Alves, merece uma reflexão mais ampla do que a estritamente relacionada ao caso em particular.

Quero deixar claro que o meu foco aqui não será propor respostas e fórmulas mágicas ou fazer julgamentos. Minha proposta é que ampliemos a discussão, diminuamos o zoom e toquemos em questões mais gerais relacionadas ao fazer ciência.

Antes, porém, que discutamos o ponto principal deste texto, quero deixar claro que, assim como o restante da comunidade científica, considero que o caso representa um ataque irracional de ativistas ao patrimônio público e à ciência.

O desconhecimento de causa ou o ativismo político-social não podem ser justificativa para ataque físico, linchamento moral ou destruição de patrimônio. Se houvesse algo de errado com a pesquisa do grupo que estava em campo (e não havia!), o caminho correto seria a notificação dos servidores da unidade de conservação, que dispõe de autoridade e caminhos legais para investigação e autuação. Definitivamente não era esse o caso.

Fazer justiça, mesmo que social ou ambiental, com as próprias mãos é fazer a sociedade retornar aos tempos da barbárie.

Dito isto, pensemos de forma mais ampla. Você, que está em uma fase inicial da carreira ou já é, de certo modo, bem experiente, reflita: a ciência que fazemos é, ou deveria ser, imune a esse tipo de “interpretação” por parte da sociedade (sem juízo de mérito)?

Já imaginou que existe uma parcela da nossa sociedade que pode pensar da mesma forma que as pessoas que cometeram o atentado? Ou até pior? Já pensou que essa parcela pode ser grande? Existem duas causas possíveis para isso. Uma é o mais puro desconhecimento. A outra é mau-caratismo. A primeira tem solução, mas a segunda, infelizmente, não. Focarei então o restante de meu argumento no primeiro ponto.

Vale usar este caso para fazermos uma parada estratégica e olharmos para os nossos umbigos, pensando: a pesquisa que fazemos, os métodos que usamos e as nossas atividades técnicas ou intelectuais podem ser interpretadas de forma equivocada, sendo alvo de ações impensadas e impensáveis? Abro novamente o leque de possíveis explicações para três hipóteses (não exaustivas):

  1. A sociedade desconhece a ciência por deficiência educacional básica e os cientistas não estão aptos, ou não querem (também sem juízo de valor), dedicar parte do seu tempo a explicar o que estão fazendo;
  2. A sociedade desconhece a ciência por deficiência educacional básica, os cientistas traduzem os estudos e descobertas que fazem, mas, intencional ou ingenuamente, a transmissão dessas informações não é eficiente. Isto é, o receptor não recebe a mensagem ou não digere o que recebeu. E o emissor emite a mensagem, mas não sabe que o fez de forma ineficiente;
  3. Os métodos e as técnicas usados por cientistas, ou boa parte deles, são realmente questionáveis e haveria uma forma igualmente eficiente e mais ética de responder as mesmas perguntas científicas.

Para a primeira hipótese, haveria, além de um grande problema estrutural na educação brasileira, outro, talvez mais agudo e grave, na formação de nós, cientistas. Em ambos os casos – não estarmos aptos ou não querermos nos comunicar com o restante da sociedade – temos um problema grave, que merece, no mínimo, pesquisa, discussão e debate.

Pensando na segunda hipótese, onde estamos errando na comunicação com a sociedade, para que parte dela considere alguns dos métodos usados no campo e no laboratório como análogos à tortura de animais?

Sobre a terceira hipótese, o que nos impede a percepção de que os métodos que praticamos, ou parte deles, podem apresentar problemas do ponto de vista ético ou do bem-estar animal? Essas questões colocadas atualmente pela sociedade devem ser consideradas? Estamos tão confiantes que fechamos a nossa percepção ao fato de que os nossos métodos e ideias podem e devem ser questionados, desde que de forma embasada e apropriada?

Cientistas são bichos macacos como outros bichos e como os outros macacos, nossos primos. Embora a mudança seja uma constante universal, em escala de tempo mais curta a evolução é conservadora e molda as espécies a continuarem a ser e fazer o que sempre fizeram porque é o que está dando certo.

Isto nos deixa no terreno das próximas perguntas para autocrítica:

A. Fazemos o que fazemos, da forma que fazemos, só porque sempre fizemos?

Ou,

B. Fazemos o que fazemos, da forma que fazemos, porque conhecemos os porquês de ser assim feito, minimizamos riscos e custos e maximizamos ética e profissionalismo?

Métodos, ideias, hipóteses, teses, teorias e leis – nada disso deve ser inquestionável ou imutável simplesmente por tradição. Tudo deve ser continuamente aperfeiçoado a cada novo pedaço de conhecimento gerado.

Já pensou a respeito?

Entenda mais sobre o caso ocorrido na Ilha Grande:

  1. Entidades científicas divulgam manifestações em apoio à pesquisadora Maria Alice dos Santos Alves e equipe da UERJ
  2. Ativistas destroem experimento científico para libertar pássaros na Ilha Grande
  3. Desenevoando a rede de neblina: sobre segurança e ética de captura de animais para pesquisa

Manifestações de apoio à Profa. Maria Alice:

  1. Carta aberta da SBO em apoio à pesquisadora Maria Alice dos Santos Alves/UERJ e equipe
  2. Manifesto da ABECO sobre os ataques em pesquisa em Biodiversidade sofridos pela Profa. Maria Alice Alves
  3. Carta aberta da comunidade científica em biodiversidade

Outras reflexões importantes sobre o tema:

  1. O impacto de nossas pesquisas
  2. Field work ethics in biological research
  3. Towards Improving the Ethics of Ecological Research

 

(Fonte da imagem destacada: The Duckingstool by Charles Stanley Reinhart)

 

Adendo escrito pelo dono do blog em 28/06/18: felizmente, a maioria dos colegas acadêmicos reagiu positivamente a este post e à divulgação dele nas redes sociais. E, mais importante, reagiu bem ao caso no geral e demonstrou apoio à Profa. Maria Alice, inclusive em cartas abertas. Contudo, uma minoria ressentida reagiu ao caso com uma postura do tipo “cientistas não se comunicam com a sociedade, então merecem passar por isso mesmo”. A carreira acadêmica, assim como outras carreiras de alta performance, infelizmente, é caracterizada por intensa competição e desunião entre os seus membros. É uma pena. Espero que as pessoas que hoje ajudam a jogar pedras em colegas injustiçados nunca precisem da ajuda da comunidade acadêmica, quando for a vez delas de passar por injustiças (hoje em dia, nas redes sociais, ninguém está livre disso).

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6 respostas para “O caso recente ocorrido na Ilha Grande e como parte da sociedade vê a ciência”

  1. Me parece que é um pouco exagerado estender à sociedade. Além das 3 hipóteses, uma não contemplada é o ativismo ideológico, mais precisamente o ativismo esquerdista que sequestrou a pauta ambientalista e estende a dualidade opresor oprimido para o que se chama especismo ou animalismo.

    “O animalismo é uma postura pouco conhecida no âmbito do marxismo cultural e consiste, basicamente, na vitimização extrema dos animais e na criminalização do ser humano. ” (Fonte: Guerra aos humanos, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=jqu_Xv12Cc4 )

    Há farto material sobre o tema e é importante ter claro o aparelhamento ideologico das universidades para entender eventos como este por exemplo.

    1. Oi Flávio, obrigado por seu comentário. Não quero, aqui, derivar a discussão para a polarização esquerda vs. direita, que já me cansou profundamente. Quando Diogo e eu nos referimos à sociedade, estamos nos referindo a apenas parte dela, como deixamos claro no post. Felizmente há também pessoas que entendem que, sem pesquisa ambiental, não há proteção da natureza.

      1. Entendo perfeitamente Marco, mas como ex aluno de doutorado da UERJ (2016), posso afirmar a relação que estabeleci. Destaco no entanto que ao tangenciar a questão, de certa forma se dilui o problema como uma questão social mais ampla, quando o recorte é local.

        Desculpe se não é o foro e/ou momento adequado, mas creio que para este evento uma reflexão mais aprofundada não pode ser limitada por uma autocensura politicamente correta, pois a questão é exatamente esta: A ação militante ideológica a partir da perda da neutralidade cientifica com base na transversalidade da Teoria Critica no meio academico, que é claro, se projeta na sociedade e não o contrário…

        De fato, em algum momento a academia deverá se sintonizar com o momento, e a exemplo da propria sociedade, refletir com mais clareza seus esqueletos no armário a bem da verdade, mas compreendo que é um assunto complicado dentro do ambiente corporativo universitário.

        Mas importantissimo dar publicidade ao evento.
        [ ]s

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