Descubra o seu próprio caminho!

Você já se perguntou se a ciência é mesmo o seu ikigai? Em mais um texto escrito a convite para o blog, veja o testemunho de alguém que trilhou um caminho não usual.

Por Roberta Bonaldo

Doutora em Biologia Marinha pela James Cook University, Austrália, & produtora na Natural History Brazil Productions 

Graduação, mestrado, doutorado, por vezes pós-doutorado. E, finalmente, professor universitário.

Para muitos que optam pela carreira acadêmica no Brasil, e também no exterior, essa é a trajetória dos sonhos. Se esse for o seu grande objetivo profissional, vá em frente! Mas é sempre bom lembrar que essa não é a única opção viável (e feliz!) para quem recebe uma formação científica.

Sempre fui apaixonada pelas ciências naturais, sobretudo a Biologia. Trilhei a maior parte da jornada mencionada acima, com direito a dois pós-doutorados. Mas, apesar de adorar trabalhar com pesquisa e dar aulas, raramente me imaginava como professora universitária.

Ao longo do tempo, sobretudo durante o pós-doutorado, vi vários concursos públicos para professor universitário abrirem e fecharem. Raramente eu me interessava por algum deles. Muitos dos meus colegas se assustavam com a minha atitude (ou seria falta de atitude?): “você vai deixar passar mais essa oportunidade?”

Essas reações fizeram com que eu começasse a me perguntar o que havia de errado comigo. Afinal, depois de tantos anos trabalhando como pesquisadora, por que eu não tinha vontade de seguir a carreira acadêmica como professora universitária, como a maioria dos meus colegas?

Paralelamente às atividades mais diretamente relacionadas à Academia (escrever artigos científicos e capítulos de livros, coorientar estudantes de pós-graduação, ministrar aulas), sempre me interessei por divulgar o conhecimento produzido na minha área de estudo, a Biologia Marinha. Desde a minha iniciação científica, sempre gostei de escrever matérias para revistas de divulgação e de registrar imagens de animais e recifes tropicais.

Por isso, ao longo da minha carreira, participei de vários programas de televisão falando sobre as minhas pesquisas ou cedendo imagens (Terra da Gente, Globo Repórter). Publiquei matérias em revistas e jornais de divulgação científica (Terra da Gente, Ciência Hoje, Ciência Hoje das Crianças, Jornal da Unicamp) e sites da internet (Ciência Hoje das Crianças online, Explora Magazine), e pesquisei pautas. Também trabalhei como cinegrafista auxiliar para matérias do Domingão Aventura, quadro sobre animais e natureza do Domingão do Faustão.

Levar informações para o público não-especializado sempre me encantou. Aos poucos, fui percebendo que receber uma pergunta de uma criança pelo site do Ciência Hoje das Crianças, do qual fui colunista, me satisfazia tanto quanto debater a minha pesquisa com colegas acadêmicos.

Ao final do meu segundo pós-doutorado, em 2016, decidi me dedicar integralmente à fotografia e à produção de filmes de natureza e vida selvagem. Comecei, então, a trabalhar oficialmente como produtora e cinegrafista auxiliar junto com o meu marido, João Paulo Krajewski. Assim como eu, o João fez graduação em Ciências Biológicas, mestrado e doutorado em Ecologia pela Unicamp, mas desde 2009 trabalha com fotografia e vídeos de natureza.

Quando comuniquei a minha decisão a amigos e colegas acadêmicos, muitos ficaram chocados. Na opinião deles, eu estaria trocando uma carreira praticamente certa (e detalhe: nem concursada eu era!) por um caminho muito arriscado. “Afinal, quantas pessoas vindas da Academia você conhece que trabalham de modo integral na área de mídia?”, alguns me perguntaram.

Mas houve aqueles que apoiaram a minha escolha, sobretudo três dos grandes mentores que tive durante a minha formação acadêmica. O Prof. Ivan Sazima (Unicamp), que foi meu orientador de iniciação científica e mestrado, o Prof. David Bellwood (JCU), meu orientador de doutorado, e o Prof. Paulo Guimarães Jr. (USP), supervisor do meu segundo pós-doutorado. Todos eles disseram, de forma independente, que sempre notaram o quanto eu era apaixonada pelos meus trabalhos paralelos na mídia e que eu certamente deveria tentar essa carreira, se assim desejasse.

O Prof. Sazima, aliás, me ajudou a desenvolver afinidade pela comunicação da ciência desde o início da minha vida acadêmica. Grande cientista nas áreas de História Natural e Comportamento Animal, ele sempre incentivou seus estudantes a publicar suas pesquisas não só em revistas científicas, mas também em veículos de divulgação voltados ao público não-especializado. Por isso, além das publicações acadêmicas, meus colegas e eu com frequência escrevíamos textos com uma linguagem menos técnica, e sempre levávamos câmeras de foto ou vídeo para nossas viagens de campo.

Hoje isso pode até parecer trivial, dada a facilidade de acesso a equipamentos de audiovisual e blogs. Só que eu fiz o meu mestrado no começo dos anos 2000, quando as câmeras digitais começavam a surgir no mercado. Dependíamos de revistas, jornais e programas de televisão para nos comunicar com o público. A internet ainda estava longe de ser um meio amplamente utilizado para se divulgar notícias e conhecimento. E as redes sociais mal existiam. Ter um mentor que me abriu os olhos para a importância da divulgação científica, logo na graduação, certamente fez com que eu tivesse maior familiaridade com a mídia e a enxergasse como uma possibilidade de carreira paralela ou até mesmo principal.

A decisão de mudar o foco da minha carreira foi o meu primeiro desafio, mas outros vieram depois. Apesar de eu sempre ter gostado de tirar fotos e fazer filmes, precisei adquirir maior familiaridade e agilidade com os equipamentos. Enquadramento, foco, exposição… Tudo precisa ser ajustado de forma rápida e correta quando se trabalha profissionalmente com câmeras. Ainda mais em ambientes selvagens. Diferente de quando eu fazia fotos e filmes ocasionalmente, agora preciso saber responder rapidamente com a câmera a diferentes situações.

Fora isso, passei a lidar uma rotina bem diferente e muitas vezes com a falta de rotina. Antes, as minhas viagens de campo eram longas e focadas em um assunto. Agora, as minhas viagens de campo são curtas e cada uma delas tem um foco diferente: filmar um vulcão em erupção no Havaí, um centro de reabilitação de macacos no Congo, uma mina de enxofre na Indonésia ou uma treinadora de cães na Itália. Se antes as minhas leituras giravam em torno de ecologia de peixes e recifes de corais e eram aprofundadas, agora pesquiso os mais diferentes assuntos de forma menos intensiva.

Mas, se algumas habilidades novas tiveram que ser desenvolvidas, outras foram muito bem reaproveitadas nessa transição de carreira. Assim como na vida acadêmica, fazer filmes frequentemente depende de conseguir viabilizar um projeto. Convencer patrocinadores de que um determinado tema é relevante, captar recursos, mostrar que o plano de trabalho é viável. Todas esses são desafios constantes na vida acadêmica e também na mídia!

Como projetos científicos exigem um rigor grande de preparo e também amadurecimento profissional, a experiência de ter trabalhado na área acadêmica me ajuda muito na hora de montar propostas na área de mídia. Fora isso, muitos amigos e parceiros dos tempos de Academia permanecem e frequentemente me ajudam a desenvolver as minhas ideias e checar informações. Porém, nem sempre o que é relevante para um assessor científico também o é para um produtor executivo de televisão. E vice-versa. Essa percepção foi sendo ajustada conforme fui conversando e trabalhando com pessoas da mídia.

Muita gente diz que a minha trajetória profissional é uma exceção. Mas não é bem assim. No Brasil, há um número cada vez maior de estudantes de graduação e pós-graduação se aventurando pelo mundo das imagens e da divulgação científica, sobretudo com a facilidade atual em se publicar um texto ou vídeo de domínio público (obrigada, internet!). Muitos pesquisadores de pautas e até diretores de filmes, sobretudo documentários de natureza, vida selvagem e ciência, são pessoas vindas do meio acadêmico.

Uma amiga minha, pesquisadora de assuntos para documentários de uma companhia internacional, comentou comigo que muitas pessoas vindas da Academia se ajustam bem a essa função. Isso porque na carreira científica somos treinados para termos um rigor muito grande na hora de levantar informações sobre um determinado assunto. Além disso, geralmente contamos com uma rica rede de amigos e colaboradores em diferentes áreas da ciência. Também conhecemos novidades e particularidades dos sistemas e espécies que estudamos, que podem se tornar assuntos espetaculares dentro de um documentário.

Passados dois anos da minha mudança de rumo profissional, sou muito feliz pela escolha que fiz e muito grata pelas experiências que tive durante a minha jornada acadêmica.

Quer saber se eu fiz a escolha certa? Para mim não existe certo e errado nessas coisas.

Tenho certeza de que eu seria uma pessoa muito feliz e dedicada caso tivesse seguido na Academia. Mas algo que aprendi com essa mudança é a importância de manter o foco no seu objetivo, mas sem perder de vista novos caminhos e oportunidades que possam surgir.

Desejo uma feliz carreira para você – seja lá qual for o caminho que decidir trilhar!

Sugestões de leitura:

  1. The great escape: charting a career outside of academia
  2. How my student has explored career interests outside academia
  3. Why it is not a ‘failure’ to leave academia
  4. What academics can learn from business I: the hats a PI (or grad student) wears
  5. Desafios fora da Academia: trabalhando em ONG – Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ)
  6. Desafios fora da Academia: trabalhando em Unidade de Conservação
  7. Eu, a academia e a participação na revisão do plano diretor municipal
  8. De onde vem a desvalorização dos biólogos?

Assista também uma palestra sobre o tema, gravada no Instituto de Biociências da USP:

(Fonte da imagem destacada)

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17 respostas para “Descubra o seu próprio caminho!”

  1. Adorei o post, Roberta!
    Será inspiração para muitas pessoas que se sentem “presas” por estarem a tanto tempo no mundo acadêmico, mas que desejam sair por que se interessam mais por outra ocupação que também pode de repente trazer retorno e estabilidade mais rapidamente. E “retorno” pode ser financeiro (ultimamente, o mais crítico), ou mesmo se sentir mais útil para a sociedade, ou mais feliz e menos estressado e indignado rsrsrs.
    Eu vejo que estamos formando um bando grande de pós-docs amedrontados com o futuro de suas carreiras. Muitos se sentem desgastados logo que defendem seus doutorados, por não terem perspectiva de emprego. A falta de emprego no Brasil é preocupante e todo dia a mais é um dia a menos de bolsa rsrsrs. Que descobrir o próprio caminho se torne mais fácil ao ter contato com histórias legais como a sua!

    abs,

    1. Oi Renata, muito obrigada pelo comentário, fico muito feliz que tenha gostado do texto. Como você disse, espero que ele seja útil para outras pessoas, sobretudo aquelas que não estejam totalmente realizadas com suas escolhas profissionais. Abraço!

  2. Reflexão necessária e bem-vinda. Sou professora universitária com interesses diversos também (rs) e fico muito feliz quando vejo profissionais, especialmente biólogos, seguindo uma carreira que não a acadêmica. Parabéns e boa jornada – a todos nós!

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