Como escrever um résumé

Já que menos é mais, que tal aprender a fazer um currículo fitness? 💪🏼

Você já se sentiu profundamente entediado ao preencher o Lattes? Imagina então as pessoas que compõe bancas de seleção e precisam avaliar dezenas de currículos (CVs) nesse delicioso formato? 😱

O pior é que treinamos a elaboração de CVs longos e prolixos desde criança, na iniciação científica. E não basta construir o CV uma vez e atualizá-lo de tempos em tempos. Frequentemente temos que reformatá-lo por completo, dependendo da oportunidade que estamos disputando no momento: bolsa, emprego ou auxílio.

Além dessas personalizações on demand, há diferentes formatos gerais de CV. Um deles, sobre o qual já escrevi, é o memorial. Trata-se de um CV beeem longo, romanceado, mas que pode ser gostoso de ler e extremamente informativo, se bem escrito.

“Para nossa alegria”, há ainda um outro formato que vai na contramão da prolixidade: o résumé!

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1. O que é um résumé?

A ideia é criar uma versão enxuta do seu CV. Bem enxuta mesmo. Enxuta à vera!

Em um bom résumé, você foca apenas nas categorias de realizações que são essenciais no contexto de uma disputa específica. E, dentro dessas categorias, ao invés de apresentar tudo, faz uma seleção dos itens mais importantes.

Por exemplo, em um résumé para disputar um emprego de professor universitário nos EUA, você não vai listar todos os 50 artigos que publicou até o momento. Via de regra, entram apenas os 5 melhores, que fariam brilhar os olhos de qualquer avaliador.

E, muitas vezes, você precisa mandar PDFs desses artigos junto com o material de inscrição. Poucos lá fora ainda acreditam cegamente em numerologia acadêmica. A maioria dos avaliadores e contratadores quer ler os seus melhores trabalhos, auto-selecionados, para entender mais a fundo que tipo de cientista você é.

2. Para que serve?

Quase não se usa résumés no Brasil. Mas isso, na Academia, porque no mercado de trabalho privado a regra é vender o seu peixe através de résumés e não CVs enfadonhos.

Contudo, na América do Norte e na Europa, eles são um must, especialmente em concursos para professor ou pesquisador. Eles são fundamentais até mesmo para conseguir vagas de postdoc.

Ao invés de fazerem como no Brasil e convocarem todos os inscritos para uma gincana sessão de provas, nos países top da ciência mundial primeiro rola uma short list. Ou seja, com base nos documentos preliminares (résumé e statements), a banca escolhe de dois a cinco candidatos mais promissores. Esses são os finalistas, convidados a comparecer à instituição para serem avaliados pessoalmente. Geralmente, isso é feito através de entrevistas, palestras e conversas com professores, técnicos e alunos. E não através de provinhas.

Felizmente, algumas agências de fomento à ciência brasileiras, sejam governamentais ou privadas, também trabalham com résumés ao invés de CVs extensos. A Fapesp, por exemplo, pede esse tipo de documento no processo de submissão de propostas e o chama de súmula curricular.

A Fundação Humboldt, que patrocina pós-doutorado júnior e sênior na Alemanha, também curte résumés. Ela tem um formato próprio para o que chama de curriculum vitae de duas páginas.

Portanto, fique ligado nessas dicas, tanto se você estiver se candidatando a um emprego de professor ou à uma vaga de postdoc no exterior, quanto se estiver pedindo verba para um projeto (especialmente em SP).

3. Qual deve ser o conteúdo?

O conteúdo é determinado pela instituição contratante ou agência de fomento. Portanto, como de costume, leia com atenção o edital e siga à risca as instruções.

Via de regra, o tamanho de um résumé varia entre 2 e 4 páginas, no máximo. Sim, é minúsculo mesmo, ainda mais se comparado ao Lattes completo (fritas acompanha🍟)! A ideia é impressionar o comitê sem firulas, indo direto ao ponto. Você precisa ser tão eficiente quanto o Shakyamuni Buddha em seu sermão da flor-de-lótus.

Na Alemanha (lá vem o Marco com esse exemplo de novo…) e nos EUA, um résumé típico, usado para disputar uma vaga de postdoc, costuma focar em:

  1. Formação acadêmica;
  2. Projetos financiados e verba externa acumulada;
  3. Publicações revisadas por pares;
  4. Achievements (honrarias, distinções e prêmios).
  5. Outras coisas, de acordo com o perfil da oportunidade

“Mas, Marco, que outras coisas são essas?”

Por exemplo, em qualquer concurso para professor ou pesquisador, vão querer que você inclua também uma seção sobre os cargos que já ocupou nas suas instituições anteriores. Você vai ter que contar que foi doutorando na Universidade X, postdoc no Instituto Y e, por último, professor adjunto na Universidade Z.

Já se a briga for por uma vaga de docente em uma college americana ou Fachhochschule alemã, mais voltada para o ensino do que a pesquisa, inclua uma seção sobre ensino. Por exemplo, fale das disciplinas que ministrou, cargos que ocupou em colegiados de graduação e pós-graduação, treinamentos pedagógicos de que participou e por aí vai.

Em concursos com perfil mais sênior, tipo Reader no Reino Unido, é importante incluir também uma seção sobre os serviços que prestou à Academia. É aqui que entram os principais cargos administrativos ocupados, incluindo posições na diretoria de sociedades científicas renomadas.

Em todos os casos, se houver espaço, inclua também uma seção bem sucinta, apresentando a sua visão acadêmica. Pode ser, por um exemplo, uma frase ou duas definindo que tipo de cientista você é e quais são os seus interesses principais. Olhe a minha apresentação, por exemplo:

“The unifying goal of my research is to connect the dots between data and ideas, to make syntheses and help improve theories. My main research interest are the assembly rules of complex systems formed by species interactions. I am also strongly committed to educating young scientists and popularizing science.” – Marco Mello

4. Como escolher o que entra em cada seção?

“Mas, Marco, como falar dessas cinco ou mais categorias em apenas duas páginas?!”

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Pense com calma na hora de fazer as suas escolhas. Fonte da imagem.

Pois é, meu caro aspira, quem disse que ser cientista era fácil? 🤪 O segredo é não incluir todos os items que pertencem a cada uma das categorias mencionadas na seção anterior, mas ranqueá-los e estabelecer uma linha de corte.

Por exemplo, ao invés de listar todos os seus artigos, você provavelmente terá que focar apenas nos artigos peerreviewed e, dentre eles, escolher os top 5. Dependendo do tamanho das outras seções e das regras de formatação do résumé (fonte, tamanho, margens etc.), talvez role até um top 10, o que facilita a sua vida. Se você tiver publicado um livro que fez muito, mas muito sucesso mesmo, de repente vale a pena ele tomar o lugar de um dos artigos.

“Mas, Marco, como exatamente eu defino os meus artigos top 5?”

Meu caro aspira ou novato, depende da oportunidade em questão. Novamente, sintonize a sua escolha com o perfil da vaga.

Supondo que você está disputando uma vaga de postdoc, escolha os 5 artigos que mais chamam a atenção no seu CV, com base na reputação ou impacto de cada revista, número de citações que o artigo recebeu ou outros critérios cienciométricos da moda. Algumas instituições exigem que métricas específicas sejam informadas para cada artigo. Se for esse o caso, siga as instruções. O ponto é que, nesse tipo de disputa, o mais importante é focar no glamour. 🥂

Por outro lado, se você estiver pedindo grana para um projeto, escolha os 5 artigos que mais bem demonstram a sua aptidão para desenvolver e linha de investigação proposta. Nesse caso, a sintonia temática 📡 é mais importante. Assim, priorize artigos sobre o tema, o modelo ou o método utilizados no projeto.

Agora, atenção! Se você tiver também um outro artigo megaboga, em uma revista boladona, inclua-o mesmo que ele não tenha tanto a ver com o tema do projeto. Ou seja, às vezes vale a pena fazer um mix fitness de sintonia e glamour na sua seleção, com um pouco de soja, mas contendo também saborosas castanhas-do-Pará.

Vale lembrar que, lá fora, acadêmicos dão muito valor à quantidade total de verba externa que você conseguiu captar ao longo da carreira. Isso porque, ao invés de dependerem apenas de orçamentos governamentais fixos, muitos departamentos estrangeiros vivem também de verbas avulsas captadas via overhead. Ou seja, a grana extra que a Fapesp, por exemplo, chama de reserva técnica institucional. Trata-se de uma porcentagem da verba total do seu projeto que é entregue diretamente à sua instituição para ser aplicada em infraestrutura, e não no seu projeto. Portanto, quanto maior o seu poder de convencimento de financiadores externos, mais benefícios financeiros você traz para a sua instituição.

5. Pensando fora da caixinha

Assim como os CVs e memoriais, um résumé não precisa ser chato, burocrático, sorumbático, taciturno ou macambúzio.

Você pode e deve pensar fora da caixinha. Dependendo da situação, e se você tiver liberdade para isso, por que não fazer um résumé no formato de infográfico? Veja o résumé da colega abaixo: ficou sensacional!

Vale ressaltar que ela tinha total liberdade de formato, pois elaborou esse résumé para usar no LinkedIn como forma de dar um boost em sua recolocação profissional. Pelos comentários no link da legenda vocês podem aferir o sucesso dela.

resume infografico curriculum
Um excelente résumé feito fora da caixinha, no formato de infográfico! Fonte da imagem.

6. Resumo do résumé

  1. Um résumé é um CV mega-enxuto, com no máximo 4 páginas, que foca apenas nas principais realizações da sua carreira;
  2. Um résumé é usado principalmente na fase preliminar de uma disputa por bolsas, empregos e auxílios em países da América do Norte e Europa, mas algumas agências de fomento brasileiras também curtem esse formato;
  3. Em um résumé, geralmente você foca em formação, projetos, publicações e achievements, além de outras categorias específicas a cada caso;
  4. Para decidir o que entra no seu résumé, ranqueie as suas realizações dentro de cada categoria curricular e corte, por exemplo, o top 5 de cada uma, sintonizando os seus critérios de seleção com o perfil da oportunidade;
  5. Um résumé pode ser feito em formatos inovadores, até mesmo como infográfico, dependendo da finalidade.

7. Exemplos de résumés

  1. Résumé da Profa. Sharlene Santana, atualmente na Universidade de Washington, feito em 2010, quando ela ainda era uma postdoc na Universidade de Massachusetts.
  2. Résumé da Profa. Judith Bronstein, da Universidade do Arizona, EUA.
  3. Résumé gráfico da engenheira Priscila Ferreira, usado como propaganda no LinkedIn.

Sugestões de leitura

  1. Résumé
  2. Writing an effective academic CV
  3. Roteiro para elaboração da súmula curricular (Fapesp)

 

(Fonte da imagem destacada)

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6 respostas para “Como escrever um résumé”

  1. Legal o post Marco! Em alguns meses envio pela primeira vez um pedido de bolsa para pós-doc, sempre bom ler opiniões sobre o résumé! Infelizmente, ainda não tenho muitas publicações (uma publicação e um artigo que será submetido logo). Espero que conte que um de meus resultados foi apresentado em diversas conferências e workshops internacionais. Também vou enfatizar as bolsas e prêmios que consegui. Dedos cruzados!

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