Doses homeopáticas de escrita: Parte 1

Quem nunca teve o temido “branco” na hora de escrever? Aquele famoso bloqueio de escrita? Nessa série de posts, preparei algumas dicas que me ajudaram (e ainda ajudam) a superar o travamento. Espero que ajudem vocês também.

As mãos estão estáticas. Você não as reconhece – é como se não fossem suas. Aquelas mãos já calejadas de tanto mexer em puçás, redes de neblina, pipetas; mãos que, até agora, faziam coisas. “Acho que é melhor evitar pensar nisso”, você pensa ao encarar o monitor. Mas o monitor pisca e também parece não responder. Aquela tela branco-ofuscante parece lhe afrontar: “Não consegue né?”. Você respira fundo, tenta esquecer tudo e digita algo. Digita mesmo? Você olha para tela e… nada. As mãos estão estáticas.

Artigos científicos são um dos pilares da ciência – e um dos mais essenciais. É neles que divulgamos os frutos de anos de trabalho. É neles que buscamos ideias e inspiração. Sem artigos, não saberíamos o que outros pesquisadores estão fazendo.

Apesar de parecer improvável, cientistas, assim como jornalistas e escritores, necessitam escrever para sobreviver na profissão. Se você não escrever, como os seus pares saberão quais problemas você tem resolvido?

Dado o papel central da redação na vida do cientista, não é de se espantar que soframos com bloqueio de escrita. Muitas vezes sabemos o que escrever, mas simplesmente não conseguimos. Afinal, se escritores profissionais sofrem com bloqueios, por que nós não sofreríamos?

Com tanta coisa em jogo, era de se esperar que cientistas soubessem lidar melhor com o branco. Porém não é o que vemos por aí. Por ter passado por diversos desses bloqueios ao longo da minha (ainda jovem) carreira, acabei desenvolvendo alguns métodos para continuar escrevendo, mesmo quando o universo parece conspirar contra.

Neste e nos próximos três posts pretendo compartilhar alguns desses métodos comportamentais que usei. Porém, antes de iniciar, um disclaimer:

A leitura é um dos pilares da boa escrita. Quem lê muito sabe sobre o que escrever, mas às vezes não consegue. As palavras fogem dos dedos, a mente parece não colaborar. Por isso, o bloqueio de escrita que analiso nestes textos não se refere à pessoa que nunca lê, quer escrever e não consegue. O verdadeiro bloqueio de escrita atinge a pessoa que lê muito, mas está travada, muitas vezes por fatores psicológicos.

Se você não lê, estas dicas não vão te ajudar.

Mas, se você lê, espero que estas dicas te ajudem.

Dica 1: Gravar você falando sobre seu trabalho com alguém

Possivelmente, alguém deve ter comentando que entende o seu trabalho quando você o apresenta oralmente. Tem a ver com o famoso domínio do tema. Porém, na hora de escrever parece que algo quebra na comunicação. Tudo isso só contribui para aumentar o seu nervosismo e o seu medo de escrever.

Se for esse o seu caso, que tal gravar você mesmo explicando o seu trabalho para um colega?

Sim, isso mesmo. Grave um audio ou video, enquanto você conta o que descobriu no seu projeto para alguém da sua confiança. Depois transcreva tudo no editor de texto da sua preferência.

Pode parecer uma dica tola. Porém, problemas complexos às vezes podem ser solucionados de maneira simples. Algo tão banal quanto transcrever uma conversa pode ser o pontapé que faltava para você começar a escrever. Depois da transcrição, você só precisará revisar o texto. Transcrever dá trabalho? Sim, mas vale a pena!

Começar a escrever em uma tela em branco é difícil, mas revisar um texto é bem mais fácil.

Por isso, minha sugestão é simples. Chame um amigo para conversar, ligue o gravador ou celular, e dê um testemunho tranquilo sobre o seu projeto. Chegando em casa, transcreva o que você falou. Esse será seu texto inicial, que te permitirá passar para a próxima fase: a revisão. Mas o melhor de tudo é que você já terá um material com o qual trabalhar!

Em momentos de muita tensão com a escrita, lembre-se: ninguém espera uma primeira versão perfeita. Nem o Tolkien escreveu o Senhor dos Anéis de primeira. Mesmo um gigante como ele trabalhou em inúmeras versões e ainda contou a ajuda de revisores e editores. Afinal de contas, a primeira versão se chama rascunho (ou draft) e não “arquivo de submissão”.

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8 respostas para “Doses homeopáticas de escrita: Parte 1”

  1. Bacana o post! (Lembra-me da ideia de programar com o pato de borracha.) Uma coisa que eu faço é imaginar um ouvinte interessado, ou que estou trocando emails com alguém. Para ajudar, tenho um sapinho simpático (de plástico) na frente do meu teclado. Ele fica olhando para mim, ansioso para aprender mais, e eu vou tentando explicar pra ele o que tenho a dizer.

    1. Gostei dessa tática Tássio! Ela parece ser boa para outra coisa também: tentar encontrar as falhas de lógica no texto. Quando escrevemos sozinhos pode ficar muito difícil encontrar esses erros de raciocínio, então possivelmente a dica do sapo/pato de borracha deve ajudar bastante! Vou testa-la nos próximos textos. Abraço!

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