A universidade como um dos faróis da sociedade

Quando foi a última vez que você, cientista, se sentiu valorizado de verdade?

Pois é, vivemos tempos complicados, não apenas no Brasil, mas no mundo.

Muita gente se vê como uma espécie de messias e diz defender “a causa mais importante do mundo”, passando por cima de tudo e de todos em nome dela. Fazem pregação 24/7 nas redes sociais e até mesmo ao vivo, no cafezinho do corredor da universidade ou no almoço de domingo com a família. O ponto é que algumas dessas causas são realmente importantes, mas elas não são as únicas. Então como tornar o mundo um lugar melhor, sem ser capaz de ouvir o que a pessoa ao seu lado considera melhor? Antes de arrumar o mundo, primeiro arrume o seu próprio quarto.

Enquanto muitos agem como “especialistas em tudo“, vamos colecionando crises. Temos sérios problemas econômicos, sociais, políticos, morais e ambientais a resolver. Muitos desses problemas não requerem conversas de boteco, muito menos “textão” ou “lacração” em redes sociais. Ou, pior ainda, memes no “zapzap”. Eles requerem pareceres técnicos bem fundamentados e debate aberto envolvendo vários setores da sociedade. A solução de qualquer problema coletivo sempre passa pelo debate público, principalmente quando ele surge e também na hora de tomar decisões. Contudo, quando o problema envolve conhecimento técnico, não há debate que se sustente sem evidências científicas.

Pense no caso do Novo Código Florestal Brasileiro, promulgado em 2012 (Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012). Enquanto alguns dos nossos políticos trabalhavam no projeto de lei (PL nº 1.876/99) que deu origem ao novo código, a maior parte da sociedade, incluindo acadêmicos, não tinha a menor noção do que estava acontecendo. Qualquer cientista com boa formação básica em Ecologia, Conservação ou Ecopolítica conseguiria detectar facilmente a fragilidade dos argumentos usados para defender a maioria das mudanças. O novo código, especialmente antes das últimas alterações no texto e dos vetos presidenciais feitos por pressão social, simplesmente relaxava de forma absurda a proteção da vegetação nativa no país. Isso, ao mesmo tempo em que acontecia uma crise hídrica diretamente ligada ao desmatamento. O timing não poderia ter sido pior.

O show de horrores que veio com a descoberta desse PL aos 45 minutos do segundo tempo mostrou o pior da sociedade contemporânea. Ao invés de as pessoas sentarem e ouvirem umas às outras, o Brasil se dividiu entre torcidas rivais, como em um jogo de futebol: ambientalistas vs. ruralistas. Como se as únicas possibilidades existentes fossem banir o agronegócio por completo ou abraçá-lo sem restrições. Há 50 tons de cinza entre esses dois extremos.

Essa polarização obtusa, que só vem piorando desde então, é um triste reflexo do nosso Zeitgeist: extremismo, intolerância e aversão à autoridade. Aqui ressalto a questão da autoridade, no sentido de uma pessoa com capacitação sobre um tema técnico. As respostas para muitos dos pontos polêmicos do novo código já estavam todas disponíveis na literatura científica, construída por autoridades acadêmicas. Não seria preciso sequer fazer mais estudos para saber, por exemplo, que os limites arbitrários propostos originalmente para proteção das matas ciliares não tinham o menor embasamento técnico.

Muitos se perguntaram: então onde estavam os cientistas ambientais (biólogos, ecólogos, geólogos, geógrafos, engenheiros florestais e afins) que não acompanharam esse PL desde o começo e não dialogaram prontamente com os políticos? Muitos responderam: eles estavam no alto da Torre de Marfim, cuidando dos laboratórios deles sem se importar com a sociedade. A verdade, novamente, tem 50 tons de cinza.

Alguns cientistas brasileiros vivem não no alto, mas no porão da Torre de Marfim, em posições de irrelevância acadêmica e social. Mas, felizmente, muitos outros têm renome nacional ou mesmo internacional. Alguns são lideres da ciência e se envolvem também na solução de problemas práticos da sociedade. Então como poderíamos fazer com que a ciência brasileira se tornasse ainda mais relevante no cenário acadêmico mundial e, especialmente, mais participativa no mundo real? A resposta à primeira parte dessa pergunta, relacionada à relevância acadêmica dos cientistas brasileiros, eu já abordei em vários textos no livro do blog. Vamos então à segunda parte.

É senso comum dizer que a Academia precisa se aproximar mais da sociedade. Sim, concordo, mas precisamos pensar melhor sobre como fazer isso. Cientistas precisam se expor mais, por exemplo, dando palestras fora da universidade (especialmente em escolas e clubes), prestando serviços à comunidade dentro da especialidade deles, participando de audiências públicas e fornecendo opiniões sobre assuntos técnicos à imprensa. Todas essas atividades são fundamentais, mas apenas ajudam a enxugar gelo, se nos limitarmos a elas.

Entretanto, quando falamos de relevância social, não podemos nos esquecer de que muitos cientistas são professores universitários. Logo, eles não trabalham apenas na geração de conhecimento novo, o que por si só é a maior contribuição que qualquer cientista dá para a humanidade. Além disso eles ajudam a formar os novos profissionais de nível superior que fazem o país funcionar: biólogos, médicos, engenheiros, advogados, veterinários, sociólogos, pedagogos e tantos mais. Essa também é uma enorme contribuição social.

Isso, sem contar as atividades de extensão desenvolvidas nas universidades públicas e privadas. Elas vão desde o atendimento médico da população carente nos hospitais universitários até o aconselhamento jurídico gratuito e a elaboração de material didático escolar. Isso, só para dar alguns poucos exemplos em um mar de contribuições diretas.

Pensando nisso, e focando mais especificamente na formação de professores, temos que levar muito a sério a qualidade da educação científica que damos aos colegas que vão atuar nas escolas. A impressão que eles causam nos alunos sobre o que é a ciência, como ela é feita e para que ela serve faz toda a diferença no quanto a sociedade como um todo valoriza e entende a Academia. Ela também é decisiva no quanto a sociedade se interessa por temas técnicos e compreende a importância de buscar conhecimento em fontes seguras e de checar as evidências e os argumentos, antes de curtir ou compartilhar fake news.

Penso que a nossa participação na sociedade deveria ir além. Voltando ao exemplo do Novo Código Florestal Brasileiro, vemos que a atuação de alguns cientistas junto ao congresso nacional e à imprensa, mesmo que quase no fim do jogo, fez muita diferença. Imagine então se houvesse mais cientistas em cargos legislativos e executivos, como vemos em países desenvolvidos? Poderíamos, sim, ter revisto o código, que precisava de atualização, mas juntando ao caldo de opiniões leigas os pareceres técnicos de cientistas.

Pense na mulher mais poderosa do mundo: Angela Merkel, chanceler alemã. Ela é química quântica, tendo trabalhado na Academia por alguns anos. Mas um dia ela resolveu ir para a política. Não que cientistas necessariamente se tornem políticos melhores do que os outros. O ponto não é esse. O ponto é ter mais gente que entende de ciência fazendo política. Felizmente, vemos cada vez mais cientistas se mobilizando nesse sentido e alguns se esforçam até para formar bancadas acadêmicas.

Deveríamos parar de nos contaminar, dentro das universidades e institutos de pesquisa, com a polarização política obtusa que tomou conta do Brasil nos últimos anos e chegou a um nível tóxico agora nas eleições de 2018. É obvio que cada cientista, como cidadão, pode e deve ter opiniões sobre temas políticos, além de se manter informado sobre o que acontece ao seu redor, ajudando a resolver os problemas da sociedade.

Entretanto, é profundamente lamentável ver cientistas pregando em público sobre temas técnicos que não dominam. É profundamente lamentável ver autoridades acadêmicas misturando suas opiniões pessoais com as opiniões oficiais vinculadas aos seus cargos. É profundamente lamentável ver professores, técnicos e alunos se digladiando no papel de cabos eleitorais em redes sociais, aulas e assembleias. A Academia não é o lugar certo para exibir as cores do partido A ou B. Não deveríamos seguir os outros, mas sim criar as nossas próprias tendências.

A Academia deveria ser apartidária, uma força política em si mesma, capaz de dialogar de igual para igual com as outras. Governos e políticos vêm e vão, mas a ciência permanece viva ao longo dos milênios. Ela é uma das cinco grandes culturas humanas transtemporais e transnacionais.

Nas outras quatro grandes culturas, há instituições que cumprem o papel de faróis da sociedade. Pensemos, por exemplo, no que representam o Museu do Louvre, o Templo Eihei-ji, o Comitê Olímpico Internacional, o Vaticano ou o Estádio Lumpinee, entre tantas outras instituições. Independe de você ser membro de uma delas ou mesmo gostar delas ou do que promovem, essas instituições servem como norte para milhões de pessoas no mundo, nos campos da filosofia, arte, religião e esporte.

O mundo se deixa perturbar de tempos em tempos por modismos políticos ou ideológicos na escala dos anos ou décadas, enquanto esses faróis da sociedade permanecem acesos na escala dos séculos e milênios, servindo para as pessoas não perderem de vista uma perspectiva maior. A luz desses faróis não é apenas admirada, mas também ativamente procurada em meio à escuridão.

Nos países desenvolvidos, as pessoas olham para o esporte em busca de superação, para a religião em busca de conforto, para a arte em busca de inspiração, para a filosofia em busca de reflexão e para a ciência em busca de conhecimento. Infelizmente, no Brasil, apenas os quatro primeiros faróis estão acesos (e mesmo assim, não plenamente), pois a maioria vê a Academia com desdém ou mesmo desprezo.

No meio dessa polarização tóxica, virou moda considerar a ciência uma atividade inútil, um mero passatempo de acadêmicos que desperdiçam dinheiro público. Virou moda falar mal das universidades. Mesmo pessoas que nunca sequer pisaram dentro de uma delas se sentem qualificadas para desqualificá-las. Virou moda as pessoas enxergarem os cursos superiores como meros inconvenientes para se obter diplomas que, na melhor das hipóteses, servem apenas para conseguir empregos mais bem remunerados (como se diploma ainda garantisse emprego). É o reflexo de uma sociedade culturalmente pobre, que não valoriza educação, ciência e tecnologia, e de acadêmicos pouco comunicativos, que não sabem fazer propaganda do trabalho que realizam.

As grandes universidades, como Oxford, representam verdadeiros templos do conhecimento. Isso porque a força delas não vem apenas da ciência, a cultura com a qual geralmente são identificadas. Ela vem da integração das cinco grandes culturas humanas em um único lugar, de uma comunicação eficiente e de uma participação ativa na sociedade. Só em uma boa universidade você consegue encontrar ciência, filosofia, arte, esporte e religião convivendo em paz. E a importância dessa integração deve ser explicada à população.

E uma universidade, assim como seus cientistas, só são levados a sério quando demonstram isenção e moderação. Essas são atitudes que se espera de quem dedica a vida ao conhecimento e à reflexão. Não adianta pedir espaço para dar a sua opinião como autoridade, na hora em que a sociedade precisar resolver um problema técnico, se você age como cabo eleitoral no dia a dia, não como perito. Nenhum cidadão respeita como autoridade acadêmica um cientista que defende a bandeira de um partido ao invés da bandeira do conhecimento. Uma postura isenta e moderada é ainda mais importante na Era do Pós-Verdade.

Que, no futuro, as universidades brasileiras possam ser mais independentes, verdadeiros faróis para a nossa sociedade. Lugares onde se enxerga mais longe e onde o futuro começou ontem.

*Atualizado a partir do texto original publicado no meu livro “Sobrevivendo na Ciência“, em janeiro de 2017.

Sugestão de leitura:

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(Fonte da imagem em destaque: os faróis de Gondor, no filme The Lord of the Rings: The Return of the King – Jackson 2003)

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7 respostas para “A universidade como um dos faróis da sociedade”

  1. Ótimo artigo, Marco. Infelizmente essa atitude anti-academia já vem de muito tempo. Me lembro claramente lendo as notícias da Folha de São Paulo no período de 1996 – 2001, quando ainda era estudante de doutorado, sempre negativa quanto às universidades. Já naquele tempo percebia o descaso da sociedade com a academia, imbuída na famosa frase que ouvi freqüentemente na carreira: “Você trabalha ou só dá aula?”. Não tenho acompanhado a situação no Brasil, mas não acredito que isso tenha mudado.

    1. Oi Eduardo, também me lembro dessa animosidade e ignorância nos anos 1990, quando estava na graduação. Mas pior que isso vem de ainda antes… Nos séculos XVIII e XIX a sociedade estava enamorada da ciência, por causa dos avanços tecnológicos revolucionários que ela propiciou. Mas a relação academia-sociedade começou a azedar ainda no século XIX, com a publicação do livro do Darwin (Sobre a origem das espécies). Depois, anos anos 1950, outra fonte de tensão foram os estudos sobre os males provocados pelo fumo, que provocaram uma reação verdadeiramente mafiosa da indústria. Nos anos 1960, foi a vez de piorar a tensão ambiental, quando o livro da Carson (A primavera silenciosa) e vários outros estudos começaram a apontar os males do DDT. A indústria e muitos políticos entenderam desde aquela época que a melhor forma de vencer a guerra de narrativas não era buscar contra-evidências a favor do fumo ou do DDT, que não existem, mas sim desacreditar os acadêmicos. Hoje estamos no ápice da desconfiança em relação à Academia, com vários políticos, à esquerda e à direita, se aproveitando da modinha anti-ciência para ganhar popularidade. Por isso vivemos coisas surreais, como o movimento anti-vacinação.

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