Como apanhar e seguir em frente

Ninguém bate mais forte do que a vida. Você precisa aprender a lidar com isso.

Desde pequeno, sempre fui fã do Sylvester Stallone. Sério, muita gente “inteligentinha” gosta de rotulá-lo como um mero brucutu dos anos 80, mas os filmes dele são cheios de lições de vida.

Talvez uma das cenas mais inspiradores da obra do Sly seja o sermão épico em “Rocky Balboa” (2006), o sexto (e talvez melhor) filme da série sobre o boxeador que não foge de um bom desafio.

O protagonista, Rocky, tem um filho adulto, que culpa a fama do pai pela própria incapacidade de vencer na vida. Cansado do mimimi, Rocky resolve então passar um baita sermão no pimpolho.

Façamos uma pequena pausa na leitura para assisti-lo:

A essência desse sermão é:

Mas não é sobre quão duro você bate. É sobre o quanto você consegue apanhar e seguir em frente e continuar tentando, é assim que se vence.” – Rocky Balboa

“Mas, Marco, o que isso tem a ver com a carreira acadêmica?”

Meu caro aspira, muita gente valoriza a agressividade no nosso pequeno mundo. Essas pessoas acham que o caminho mais fácil para chegar ao topo é diminuir os colegas e puxar o tapete deles. Só que muitos desses bullies acadêmicos não conseguem lidar com frustração e caem pelo caminho.

Sente-se, que lá vai mais uma pistolada!

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É fundamental aguentar firme “de não em não”, até ouvir um “sim” que renova as suas forças.. Fonte da imagem.

Tanto se você decidiu fazer mestrado e doutorado para se tornar um cientista profissional, quanto se pretende aprender a ciência para depois usá-la em outra carreira, deve tomar consciência de uma coisa:

A esmagadora maioria das respostas que recebemos na Academia é “não”.

Quando você submete um manuscrito à publicação, é comum ele ser rejeitado múltiplas vezes e passar por umas três ou quatro revistas até ser aceito por alguma.

Geralmente um terço ou menos dos candidatos são aprovados em seleções de mestrado e doutorado nos melhores programas de pós-graduação.

Concursos para professor muitas vezes têm 100 candidatos inscritos (todos eles doutores!) disputando uma única vaga.

Logo, ou você aprendeu em casa a lidar bem com a frustração, ou terá que desenvolver essa habilidade para ontem. Sério, se qualquer revés tira você do prumo, melhor buscar outra atividade profissional.

“Mas, Marco, como então devo reagir a uma derrota?”

Com uma atitude positiva e proativa. Sempre! Siga esta fórmula, depois de receber aquele “não” que doeu nos ossos.

1. Faça um pequeno luto

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Como já dizia Joseph Campbell lá nos anos 1940, precisamos resgatar o significado de rituais como o luto em nossa sociedade. Foto por Marco Mello.

Costumamos pensar que o luto cabe apenas nos momentos em que perdemos um ente querido.

Contudo, o poder desse importantíssimo ritual vai muito além disso. É muito saudável nos recolhermos em um período de introspecção e reflexão depois de qualquer tipo de perda ou derrota significativa. Ou mesmo quando encerramos um etapa importante de algum projeto profissional ou pessoal.

Pense em como você se sentiu no dia seguinte à defesa da sua monografia, mestrado ou doutorado. Ou no dia seguinte à aprovação em uma seleção para postdoc ou um concurso para professor. Não dá um vazio? De repente, aquele mega-desafio termina e ficamos sem outro imediato. Deveríamos tratar também esses momentos de vitória como períodos de luto.

Assim, antes de reagir à derrota ou mesmo à vitória, pare, respire e, acima de tudo, cale-se por alguns dias ou semanas. Sério, cara. As pessoas simplesmente não conseguem calar a boca hoje em dia, principalmente nas redes sociais. Mas o silêncio cura!

Você pode fazer um pequeno luto, por exemplo, logo depois de ter um manuscrito da sua tese rejeitado por uma revista top.

Ou logo depois de ser reprovado em uma seleção de mestrado ou doutorado naquele programa que você tanto admira.

Ou logo depois de não ter vencido um concurso para professor na universidade dos seus sonhos.

Você verá que as suas ideias ficarão mais claras e as suas emoções, mais equilibradas. Só assim você terá chances concretas de vencer na próxima tentativa.

2.  Assuma a responsabilidade

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Não ponha a culpa nos outros. Fonte da imagem.

É claro que nem sempre a culpa por uma derrota é sua. O que não falta na vida é trapaça, injustiça e acidentes. Shit happens…

Contudo, presumir que a culpa é sua te devolve as rédeas da sua vida. Você sai de uma posição reativa e se coloca em uma posição proativa, na qual não depende dos outros para se levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Voltando ao exemplo do manuscrito, não crie teorias da conspiração para explicar porque o editor não curtiu o seu trabalho. Pense que ele não emplacou por culpa sua, que poderia ter caprichado mais na redação, feito uma análise mais acurada ou, simplesmente, mirado em um alvo mais adequado.

No caso da não-aprovação em um processo seletivo de pós-graduação, não diminua a conquista dos colegas bem-sucedidos. Muita gente entra numa bad vibe e fica dizendo que o processo foi viciado, que os professores do programa não sabem elaborar provas, que os colegas são carreiristas etc. Esse tipo de atitude faz você entrar no vórtice do mimimi e afundar cada vez mais.

A derrota em concursos para professor é ainda mais comum do que em seleções de mestrado e doutorado. Infelizmente, já vi muitas pessoas acharem que basta chegar na semana da disputa de cara lavada, que o currículo delas falará por si só. Não poderiam estar mais erradas. Mesmo os melhores candidatos precisam trabalhar duro para terem chances concretas de vitória, pois a maioria das decisões acontece naquele espaço ínfimo entre os décimos de pontos. O que não falta por aí são excelentes profissionais desempregados.

E lembre-se de que uma derrota local em um desafio específico não significa uma derrota global na sua carreira, muito menos na sua vida. Saiba colocar as coisas em perspectiva.

3. Tente descobrir onde errou

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Aprenda com os seus erros. Fonte da imagem.

Depois de ter colocado a cabeça no lugar e assumido a responsabilidade, é hora de descobrir exatamente o que deu errado. Quanto mais complexa for a meta a ser alcançada, maior é o número de coisas que podem não sair como esperado.

Se você teve a sorte de o seu manuscrito ir para revisão antes de ser rejeitado, vai poder examinar com cuidado os pareceres emitidos pelos revisores e pelo editor. Esse exame post mortem pode ser revelador e transformador, se você tiver humildade suficiente para receber críticas.

De repente, o que te tirou do páreo naquela seleção de pós-graduação foi desatenção ao enunciado das questões, algo que pode ser facilmente corrigido em uma próxima tentativa. Mas pode ter sido uma base conceitual meio frouxa, coisa mais difícil de resolver, mas não impossível. Um currículo fraco, por sua vez, provavelmente envolverá um esforço adicional de pelo menos um ano para finalizar projetos que você deixou pela metade.

Talvez você tenha naufragado no último concurso para professor, porque inventou desculpas para si mesmo, deixando a preguiça ou o medo te paralisarem. Ou talvez você não tenha escolhido direito o concurso, teimando em disputar uma vaga que não tem a ver contigo. Ou talvez você não tenha vencido simplesmente porque não é tão bom quanto pensa. Nunca deixe de considerar essa possibilidade.

Toda atividade complexa envolve mais de uma etapa. Logo, é importante examinar o que aconteceu em cada uma delas. Identifique os pontos centrais que o levaram à derrota e classifique-os em graus de severidade. Usando esse mapa de terra arrasada, tente avaliar se foi apenas uma derrota pontual ou uma derrota definitiva, sem segunda chance.

4. Reflita se vale mesmo a pena tentar de novo

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Uma linha tênue separa a persistência da teimosia. Fonte da imagem.

Caso você julgue que foi apenas uma derrota pontual e, portanto, é possível tentar de novo, pense bem se essa é a coisa certa a fazer.

Muitas vezes na vida ficamos empacados em projetos que não valem a pena, desperdiçando tempo e energia. Isso acontece com desde hobbies até casamentos. O mesmo vale para a carreira acadêmica.

Nem sempre acertamos a mão e, algumas vezes, escrevemos manuscritos que são simplesmente ruins e deveriam ser deixados para morrer em paz.

Ou insistimos em entrar em um programa de pós-graduação que não tem nada a ver com nossas metas de carreira, só porque alguns colegas de laboratório passaram nele.

Ou temos um desempenho miserável em um concurso para professor, porque não levamos em conta que o perfil da vaga não dava match com o nosso.

Se, por um lado, devemos lutar pelos nossos sonhos, por outro devemos escolhê-los com cuidado. Não vale a pena insistir em uma meta que não é realmente nossa, mas que adotamos só para seguir a manada ou agradar a terceiros. Reflita sobre o seu ikigai.

5. Refaça a sua estratégia e ponha-a em prática

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Não adianta fazer uma coisa sempre do mesmo jeito e esperar resultados diferentes a cada tentativa. Fonte da imagem.

Tendo feito esse trabalho de reconstrução pessoal, é hora de voltar à prancheta e, depois, arregaçar as mangas.

Rescreva o seu artigo, seguindo as sugestões dos revisores ou até mesmo mudando um pouco a abordagem do trabalho. Se a primeira revista o rejeitou sem chance de re-submissão, submeta-o a uma segunda, aproveitando a revisão recebida.

Prepare-se para a próxima seleção de mestrado ou doutorado de outra forma, focando especialmente nos pontos que te derrubaram da última vez. Não tenha preguiça de recomeçar o plano de estudos do zero.

Vá para o próximo concurso de professor com outra atitude, tendo feito o seu dever de casa. Não pense que a banca é obrigada a te amar; conquiste-a!

Só não vale entrar num círculo vicioso de arrogância, achando que o mundo te deve alguma coisa e não te compreende.

A gente costuma considerar arrogantes apenas as pessoas que se acham melhores do que as outras. Mas quem se faz de vítima também é arrogante. Arrogância é se achar especial, seja positiva ou negativamente.

Conselho final

Eu sempre recomendo a aspiras e novatos que pratiquem atividade física regularmente, a fim de manterem sua saúde física e mental. Neste caso, sugiro especificamente que você experimente uma arte marcial. Nada melhor do que a disciplina e a moral do bushido para nos ensinar resistência e resiliência.

Sugestão de leitura

foda-se

A dor é o melhor mestre:

Você nunca vai desenvolver todo o seu potencial e descobrir quem você realmente é e do que é capaz, enquanto não passar por frustração, dor e um verdadeiro batismo de fogo. Assista outro sermão épico do mesmo filme. Neste caso, um velho treinador dá uma lição de moral em um pupilo talentoso, mas mal agradecido e imaturo:

Por fim, toque Raul:

(Fonte da imagem destacada)

 

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3 respostas para “Como apanhar e seguir em frente”

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