Como montar uma mesa redonda

Que tal voltarmos a falar sobre congressos e seus rituais?

Passo a passo

Para montar uma mesa redonda, primeiro arrume um grande pedaço de madeira. Depois, trabalhe-o até que ele fique plano e com formato circular. Por fim, adicione pernas.

Sacanagem! 😆

Por que elas costumam ser tão chatas?

Falando sério agora. Quem nunca morreu de tédio assistindo uma mesa redonda em um congresso científico? Ou até mesmo participando de uma? Ninguém consegue assistir três ou mais palestras de 30 min em sequência, sem ao menos fazer uma pausa para ver vídeos de gatinho no celular.

E ficamos todos ansiosos pelo debate! Ele é o clímax da sessão: o momento em que palestrantes e público podem interagir uns com os outros. Só que parece que ele nunca chega! Quanto maiores e mais numerosas as palestras da mesa, mais a nossa atenção e a nossa paciência se evaporam. No final, estão todos vendo vídeos de gatinho no celular, até mesmo o pessoal que já palestrou. Pior que muitas vezes o debate murcha, porque atrasos foram se acumulando ou simplesmente porque não reservaram tempo suficiente.

Eu noto três erros mais frequentes, tanto em eventos nacionais quanto internacionais:

  1. A mesa não tem um problema norteador que lhe dê coerência;
  2. A mesa tem palestrantes demais participando ou eles falam demais;
  3. A mesa termina meio que no vácuo.

O pior é que esses erros são cometidos sistematicamente, na esmagadora maioria dos eventos. Parece que os cientistas não conseguem sair desse default e arriscar novos formatos.

Claro que uma parte da culpa, como sempre, é da vaidade acadêmica. Muitos colegas acham que são o centro do universo. Logo, a palestra deles é muito mais importante do que as palestras dos outros ou do que o debate. Mas cabe à organização do evento e ao moderador da sessão afogarem esses narcisos. Uma mesa é uma sessão coletiva, não um palco individual.

Chato também é quando a mesa termina que nem um filme experimental, sem conclusão. Você fica sentindo falta de uma moral da história. Mesa redonda é diferente de sessão de palestras avulsas, embora muita gente confunda as duas coisas.

Coisas que deveriam ser consideradas

Bom, esses erros geralmente refletem um fato: as pessoas não pensam direito sobre o sentido de uma mesa. Para que serve? Onde habita? Do que se alimenta?

Uma mesa serve para congregar cientistas que sacam muito de um determinado problema acadêmico ou prático, a fim de, junto com o público, começarem a elaborar sínteses e soluções.

Assim, não adianta organizar uma mesa como se fosse uma simples sessão de palestras. Isso é receita certa para algo cansativo e sem pé nem cabeça. As palestras individuais em uma mesa servem para apresentar, sucintamente, a visão de cada participante sobre o problema, aquecendo todos para o que realmente importa: o debate.

O que deveria ser considerado então, ao se montar uma mesa redonda?

  1. Qual é o problema a ser debatido?
  2. Quanto tempo o congresso disponibilizou?
  3. Quem entende desse problema e está trabalhando ativamente nele?
  4. Qual é a diversidade mínima de visões que deveriam ser contempladas?
  5. Espera-se algum produto concreto ao final?

Vamos examinar esses pontos um a um.

A mesa precisa fazer sentido 

Não adianta montar uma mesa sobre um tema geral demais, com cara de livro texto, e esperar que ela seja interessante. É preciso que se defina um problema claro para nortear as palestras e o debate. Os organizadores devem aproveitar a oportunidade incrível de ter mentes brilhantes todas reunidas em um mesmo local para finalmente promover avanços e levar aquele campo do conhecimento a um novo patamar.

O tempo não pára

Dependendo de quanto tempo a organização do evento destinou à mesa, você vai poder convidar mais ou menos gente. Eu sugiro reservar no máximo 10 min para cada palestra individual. E nunca destine menos do que 30 min para o debate. Lembre-se de que você congregou essas pessoas para facilitar a sinergia delas entre si e com o público. Essa sinergia só vai emergir, se você lhe der tempo.

Não adianta chamar só silverbacks 

Ao se elaborar a lista de convidados para a mesa, não adianta focar apenas nos silverbacks da área. É natural que você pense primeiro nesses grandes nomes, que acumularam grande experiência e já deram ótimas contribuições. Contudo, nome não basta. É preciso que os participantes da mesa estejam ativamente produzindo conhecimento sobre o problema a ser debatido. Também é bom fomentar a oxigenação da área. Colegas academicamente mais jovens costumam trazer novas perspectivas, insights fresquinhos, que podem arejar o entendimento sobre o tema. Por isso, às vezes compensa mais chamar um bom postdoc ou pós-graduando, tipo um rising star, do que um professor veterano. Pondere bem essas coisas e misture gerações na mesa.

Uma boa mesa deve cobrir mais de um ângulo

Como o objetivo de uma mesa é fomentar o debate, o ideal é chamar pessoas que têm visões variadas. Quanto mais amplo e interessante for o problema, mais fácil é promover essa diversidade. Por exemplo, podem ser pessoas que abordam um mesmo problema a partir de diferentes disciplinas, como Ecologia, Matemática ou Sociologia. No caso de temas polêmicos, é essencial chamar gente que representa diferentes lados da treta. A contradição gera debate, facilitando enxergar buracos e limites, e permitindo alcançar soluções.

O mais legal é quando a mesa dá frutos

É meio sem sentido estabelecer como objetivo de uma mesa redonda apenas a própria mesa em si. Por que não aproveitar e, a partir do debate, convidar os participantes a produzir algo concreto depois do evento? Se o norte da mesa for um problema acadêmico, o produto final pode ser um artigo de síntese. Por outro lado, se o debate girar em torno de um problema prático, a sinergia de mentes pode resultar em um white paper com recomendações para a sociedade. Há muitas possibilidades. Veja, por exemplo, este caso.

Conclusão

Mesas redondas bem organizadas têm o potencial de alavancar o progresso em uma área da ciência. No mínimo, elas conseguem atrair a atenção de jovens talentos e manter a área viva. Portanto, quando você tiver a oportunidade de organizar uma delas, reflita sobre o sentido geral da coisa, fuja da mesmice e inove!

Sugestões de leitura

  1. Para que servem congressos
  2. 4 Tips for Planning and Hosting a Successful Roundtable
  3. Chairing Sessions

 

(Fonte da imagem destacada: Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, Evrard d’Espinques, 1470)

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6 respostas para “Como montar uma mesa redonda”

  1. Muito boas essas sugestões! Uma vez participei de uma mesa redonda no workshop de ecologia do movimento, em Rio Claro; foi uma experiência linda e um dos highlights da minha carreira. A mesa redonda tinha boa parte destas características que você falou: dela participarem Juan Morales (um silverback top mas top mesmo de movement ecology), Marcos Luz (um físico que trabalha com ecologia do movimento), e eu, um mero pós-doc que dá aula de ecologia do movimento mas não trabalha com o assunto diretamente. rs As apresentações tinham no máximo 10 minutos, e depois era basicamente uma discussão, ou sessão de perguntas/respostas; e foi bem legal, porque tinha um tema definido – dificuldades e desafios na análise estatística do movimento -, tinha pessoas com boa capacidade de responder as perguntas, e nenhum dos palestrantes queria ficar falando mais que os outros. Naquele mesmo evento teve outra mesa redonda relacionada a desafios na coleta de dados.

    Mas são poucas mesas redondas que realmente funcionam como mesas redondas… Vejo mais séries de palestras com algumas perguntas no final. Então, algumas coisas que eu gostaria de adicionar às suas sugestões:
    – Pensar não só em o quanto a pessoa entende e trabalha com o assunto, mas quão bem ela sabe participar de discussões… Existem pessoas que são realmente especialistas na área mas que gostam muito mais de falar do que de ouvir, acho que isso atrapalha mesas redondas;
    – A quem estiver moderando, se lembrar que 1) é pra moderar, não pra ficar falando (rs), e 2) no geral o público quer ouvir o que as/os palestrantes tem a dizer, não quer ouvir perguntas na plateia que começam dizendo “serei breve” e se extendem por cinco minutos sem nem fazer a pergunta direito (rs[2]). Quem modera muitas vezes pode ter que interromper, e isso não é ruim, isso faz parte da moderação;
    – Quem tiver moderando, prestar atenção nas inscrições, porque sempre pode ter aquela pessoa sentada no fundo querendo fazer uma pergunta desde o fim da última palestra e ser ignorada;
    – Se não há um tema bem definido e há um silverback top mas top mesmo na área, é provável que as perguntas sejam direcionadas todas a ele ou ela… Isso pode ser bem chato para outros palestrantes. Mas às vezes todo mundo resonde e discute a interação fica bem legal… Acho que vai do tema da mesa redonda e da mediação dela.
    – E acho que perguntas por escrito são legais, mas nunca devem ser a única possibilidade… Se a timidez não lhe permite fazer a pergunta, nenhum problema que ela seja por escrito, mas não se deve negar a possibilidade de interação falada (já vi evento que as perguntas eram todas por escrito). 🙂

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