Pense duas vezes antes de reclamar da sua bolsa

Que tal conversarmos sobre um dos temas mais espinhosos na Academia?

Sim, esta é mais uma pistolada aqui no blog.

Não, a vida de um pós-graduando não é fácil.

Conheço bem essa vida, pois fiz graduação, mestrado, doutorado e dois pós-doutorados, fora ter orientado, coorientado ou aconselhado centenas de graduandos e pós-graduandos em diferentes países. Além disso, vim de uma família pobre, então não herdei patrimônio ou ativos. E ainda me casei e virei pai durante o doutorado, tendo que sustentar a minha família com bolsas e bicos por anos, antes de conquistar o meu primeiro emprego acadêmico aos 33 anos.

Só que a dureza da vida depende não apenas de fatores objetivos, mas principalmente de como você encara as coisas.

“Mas, Marco, por que você quer mexer nesse vespeiro?”

Por preocupação com vocês, aspiras. Não apenas no pequeno mundo da ciência, mas também em outros círculos, a saúde mental, emocional e corporal dos jovens está cada vez pior. Um monte de fatores contribuem para isso. Alguns têm a ver com o Zeitgeist e a gente não pode controlar, mas outros a gente pode. Vou focar aqui em um fator crucial que só depende de você: a sua percepção da realidade.

A dor faz parte da vida, mas o sofrimento pode ser evitado. Isso porque o sofrimento depende de como você reage à dor. Dimensionar problemas da forma errada é receita segura para o sofrimento. E costuma levar à depressão ou à ansiedade.

Em tempos de crise econômica, política, moral, ambiental e social, se você não quiser ter um colapso nervoso, é fundamental saber colocar as coisas em perspectiva. A questão nesta reflexão é que muitos pós-graduandos brasileiros reclamam do valor das bolsas de mestrado e doutorado que recebem.

Sim, elas estão mesmo muito desfasadas em relação à inflação, pois sempre demoram anos para serem reajustadas. E, quando o são, geralmente não é compensada toda a perda monetária.

Sim, ganhando bolsa de mestrado ou doutorado numa metrópole, o máximo que você consegue é morar em uma república ou alojamento estudantil, alimentando-se principalmente no bandejão da universidade e caçando lanches grátis em eventos. No interior, a situação fica um pouco menos apertada.

Mas será que realmente dá para falar que um pós-graduando ganha mal no Brasil?

Eu penso que não.

“Mas, Marco, vá para a…”

Calma, antes de me atirar pedras, leia o texto até o final.

Yin e yang

Por um lado, um pós-graduando ou pós-graduanda encaram um volume de trabalho brutal. Se eles aplicassem todo esse tempo e energia em uma profissão “normal” na iniciativa privada, provavelmente colheriam mais recompensas materiais e maior reconhecimento social do que na Academia. E os colheriam mais rápido!

Por outro lado, se comparamos o valor de uma bolsa de doutorado com a realidade salarial brasileira (dá para fazer isso aqui), tomamos um susto. Notamos que um doutorando com bolsa do CNPq ganha 2.200 reais para investir em sua formação. Isso é mais do que 80% dos brasileiros ganham para sustentar as suas famílias.

Não, você não leu errado.

Um doutorando ganha isso, enquanto muitos jovens pobres da classes B e C têm que pagar para fazer graduação e pós-graduação em faculdades particulares. Muitas vezes à noite, tendo que encarar um emprego normal durante o dia. Já imaginou ter que desembolsar uns 3.000 reais por mês para fazer uma especialização (MBA ou outra pós-graduação lato sensu), ao invés de receber uma bolsa de 2.200 reais para se dedicar exclusivamente a um doutorado acadêmico? Já os jovens das classes D e E dão sorte quando sobrevivem até a idade adulta, que dirá cursar o ensino superior.

A maioria dos pós-graduandos brasileiros ainda vem da classe A, então entrar no mestrado ou no doutorado representa uma queda no padrão de vida. Para quem vem das classes mais baixas, ganhar uma dessas bolsas é como ficar rico do dia para a noite. Falo por experiência própria.

Vejamos um outro exemplo. Um postdoc júnior do CNPq ganha 4.100 reais, ou seja, mais do que 92% dos brasileiros! E um professor ou pesquisador de uma instituição pública federal, com título de doutor, começa a carreira no probatório de um cargo concursado ganhando cerca de 9.000 reais. Isso é mais do que ganham 98% da população! Vale notar que professores substitutos e visitantes ganham menos e professores sem doutorado, menos ainda.

Para ser rico no Brasil, não é preciso ser milionário: basta ganhar algo como 6.500 reais por mês. Pois é, a nossa distribuição de renda é péssima. A cada faixa salarial, dá-se um salto.

Isso quer dizer, na prática, que, mesmo entre as subdivisões de cada classe socioeconômica, há verdadeiros abismos. Quem ganha na faixa dos 2% mais ricos, por incrível que pareça, fica anos-luz longe do padrão de vida de quem está na faixa dos 1% mais ricos.

Em uma megalópole como São Paulo, existe ainda a faixa dos 0.1% mais ricos, que vão para o trabalho de helicóptero. Logo, se você ficar olhando apenas para cima, vai passar a vida inteira infeliz. Isso, mesmo que você tenha uma vida boa, trabalhando com algo que faz seus olhos brilharem e tendo as suas necessidades básicas da Pirâmide de Maslow atendidas, além de alguns confortos.

Trabalho vs. riqueza

“Mas, Marco, como pode?! Comparado aos meus amigos dos tempos do colégio, acho que ganho tão pouco…”

Provavelmente, eles escolheram uma profissão que gera riqueza diretamente. Talvez alguns deles nem tenham se formado no ensino superior, mas tenham virado comerciantes ou industriais, por exemplo. Quem gera riqueza diretamente tem acesso a mais dinheiro. Isso não é uma questão de justiça ou injustiça, mas de lógica.

Por sua vez, quem gera conhecimento, como os cientistas, ajuda todos a gerarem mais riqueza. Só que indiretamente, com um delay de décadas, conforme o conhecimento básico é construído e consolidado, sendo, aos poucos, traduzido em conhecimento aplicado. Isso, sem contar que a maioria dos cientistas trabalha como professor universitário, então atua diretamente na formação dos profissionais de nível superior que lideram a sociedade.

Então é mais do que justo que um cientista seja muito bem remunerado por sua importante contribuição à sociedade. Mas faz sentido um cientista pensar que obrigatoriamente deveria estar entre os top 1% da elite econômica?

E daí?

“Mas, Marco, isso quer dizer que não devemos exigir reajustes anuais de bolsas e salários?”

Muito pelo contrário! É óbvio que devemos, sim, cuidar para que o nosso poder aquisitivo não seja corroído pela inflação, considerando indicadores como Selic, IPCA e IGP-M.

Além disso, devemos nos esforçar para dar melhores condições de trabalho aos pós-graduandos. Devemos especialmente pensar em profissionalizar a carreira de cientista, como na Europa ocidental, tratando pós-graduandos não como estudantes, mas como aprendizes com direitos trabalhistas. O nosso trabalho tem enorme relevância para a humanidade e nós também temos família para sustentar.

Contudo, não devemos nos enxergar como vítimas, especialmente em um país tão desigual como o nosso. Por causa da crise que vivemos, muitos pais de família perderam o emprego ou foram morar embaixo da ponte. Imagine como eles se sentem, ao verem jovens da classe A nas redes sociais reclamando do valor de bolsas de mestrado, doutorado e postdoc pagas com o dinheiro dos impostos deles?

Sim, bolsa acadêmica é privilégio, enquanto bolsa social é ato humanitário.

Cada tipo de bolsa concedida pelo governo ao povo tem uma motivação, um público-alvo e um resultado esperado. Assim, todas as bolsas têm sua importância e é nossa responsabilidade entender o sentido de cada uma delas.

“Mas, Marco, isso quer dizer que o governo não deveria oferecer bolsas acadêmicas?”

Novamente, muito pelo contrário. Nem todo privilégio é ruim. Alguns privilégios, do ponto de vista do país, são um investimento. Esse é o caso das bolsas acadêmicas. O investimento na formação de cientistas com dedicação exclusiva, através de bolsas, salários e auxílios, é estratégico para o país. Ele impacta não apenas a ciência, mas também a educação, a tecnologia e a inovação. Juntas, todas essas coisas têm um peso enorme para o desenvolvimento do país e a melhoria na qualidade de vida da população.

O importante é ter consciência de que com grandes privilégios vêm grandes responsabilidades sociais.

“Mas, Marco, isso quer dizer que devo me considerar rico mesmo vivendo de bolsa”

Não é esse o ponto. Uma coisa é preço, outra é valor. Você passa aperto vivendo com uma bolsa de mestrado? Provavelmente, sim. Imagine então alguém que precisa sustentar cônjuge e filhos com um salário mínimo, ou seja, menos grana ainda? Essa é a realidade de metade dos brasileiros, meu chapa.

O ponto aqui é sabermos colocar as coisas em perspectiva. Ao invés de reclamarmos do que não temos, devemos agradecer pelo que temos. Isso não exclui sonhar com uma vida melhor e trabalhar por ela. Acredite, mudar de mentalidade pode aumentar muito o seu nível de felicidade, a sua saúde mental e o seu sentimento de realização.

Empatia e responsabilidade social

Um dos motivos pelos quais a população em geral passou a odiar a Academia e as universidades públicas agora na Era da Pós-Verdade (além das fake news e desinformação virulentas contra nós) é justamente o descolamento da realidade em que muitos de nós vivemos.

Se não demonstramos um mínimo de empatia para com o resto da população, que vive no mundo real, como podemos julgar outras categorias do Estado que concedem a si mesmas aumentos salariais acima da inflação em plena crise? Ou como podemos julgar deputados e senadores que afirmam que seus vencimentos e penduricalhos, somados a salários astronômicos, são insuficientes para levar uma vida digna?

Pare por um momento e se coloque na pele dos outros. O que devem sentir um pai ou mãe de família, dependendo de bolsa família ou auxílio emergencial para os filhos não morrerem de fome, ao ouvirem um professor titular choramingando ao vivo na internet que “é um absurdo ganhar apenas 16 mil reais por mês”?

Pense nisso.

(Fonte da imagem destacada)

Adendo, 21/03/21:

Nesse meio tempo, desde que publiquei este post, veio a pandemia de Covid-19 e adicionou uma camada sanitária à crise econômica e política que já enfrentávamos desde 2013. Pois é, nada está tão ruim, que não possa piorar. Enquanto tem gente que reclama da própria bolsa ou salário, milhões de brasileiros aguardam ansiosamente pelo novo auxílio emergencial, que vai variar de 150 a 375 reais por mês. Sim, entre metade e um quarto do valor pago ano passado. Sim, um valor de apenas 3 dígitos! Já imaginou viver só com essa migalha, em plena pandemia?

Continuo assinando embaixo o que havia dito: pare de reclamar, tome consciência dos seus privilégios e tenha empatia pelas milhões de pessoas que perderam vida, saúde ou emprego. Na verdade, faça alguma coisa para ajudar quem está tentando sobreviver no inferno, ainda mais na situação atual.

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33 respostas para “Pense duas vezes antes de reclamar da sua bolsa”

  1. Genial esse texto, parabéns! Tenho pensado nisso ao menos desde que comecei meu pós-doc e fui ver que ganhava mais do que 90% das brasileiras e dos brasileiros. E acho que isso também se aplica a docentes que reclamam de seus salários e condições de trabalho – sim, podia ser melhor, mas véi, eu, no probatório, ganho mais do que 97% das pessoas no Brasil e 98% das pessoas na Bahia. Em relação às condições de trabalho – vivemos numa quase constante sobrecarga, mas não sei o quanto disso é culpa de docentes e quanto é por causas extrínsecas… E sim, devemos lutar pela melhoria das condições de ensino e pesquisa – mas creio que pela melhoria da Universidade e da Academia como um todo, não pensando apenas nas nossas próprias condições de trabalho.

    Acho que uma questão importante é a falta de interação com outras partes da sociedade. Quem vem de famílias de baixa renda tem esta vivência; mas, no geral, na Academia interagimos muito mais com pessoas da Academia do que com pessoas de fora dela. E isso é uma espada de lâmina dupla: ao mesmo tempo em que não sabemos o que outras partes da sociedade fazem e como vivem, a sociedade não sabe o que fazemos. Não sabem que na pós-graduação fazemos pesquisas de alto nível e por vezes corremos risco de vida fazendo-as – porque não interagimos o suficiente com outras pessoas… Não sabem que docentes na universidade pública fazem muito, muito, muito mais do que dar aula… enfim.

    Novamente parabéns pelo texto!

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    1. Obrigado, Pavel! Concordo plenamente contigo e acrescento: mesmo alguns de nós que viemos de famílias pobres acabamos nos esquecendo de onde viemos, quando ascendemos socialmente. Além disso, a Jornada do Cientista envolve uma profunda transformação pessoal, que também ajuda a esquecer nossas origens. Atire o primeiro jaleco quem, depois de cumprida a jornada, não sente dificuldade em conversar com a família sobre assuntos normais, especialmente política em época de eleições? 😉

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  2. Parabéns por tocar em tema tão polêmico de forma ponderada. Penso que se a Universidade tivesse melhor estrutura para os alunos – alojamentos dignos, bandejão em todas as refeições, transporte subsidiado, xerox e pôsteres gratuitos – o valor da bolsa em si seria menos importante. O fato é que o estudante deve arcar com todos estes custos, além do que necessita para sobreviver. Poucos tem um suporte familiar, que poderia ser compensado por um maior suporte da Academia.
    Abraços!

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    1. Obrigado, Fabrício! Concordo contigo e por isso acho tão importante profissionalizarmos a carreira de cientista, passando a considerar pós-graduandos como aprendizes com carteira assinada e direitos trabalhistas.

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  3. Excelente texto, Marco. Eu vim de uma família pobre e quando entrei no mestrado mudei a minha vida e a vida da minha família. Isso com apenas 1500 reais. Para outros estudantes, naturalmente isso era muito pouco mas para mim era algo incrível: eu estudava, pesquisava, pegava morcego e ainda recebia por isso! Essa luta para reajustes e bolsas é justíssima mas muita gente na academia é elitizada e esquece da realidade da nossa sociedade desigual. Parabéns!

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    1. Obrigado, Renan! Também vim de família pobre e sei o quanto o estudo tem o poder de mudar vidas. As bolsas acadêmicas são especialmente importantes para que estudantes pobres com talento para a ciência possam focar na formação. Isso porque eles não contam com as facilidades que os estudantes da classe A têm em casa, então toda a infraestrutura para a jornada deles acabam vindo via bolsa, auxílios, PPG e universidade.

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  4. Adorei o texto, excelente! Coloca em reflexão pontos importantíssimos do país, sua economia e situação humanitária!

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