O que faz uma tese ser memorável?

Você provavelmente gostaria que a sua tese mudasse o mundo. Mas está preparado para que ela não o faça?

“Está pronta” – você pensa – “Está finalmente pronta”. Foram quatro (ou cinco?) anos da sua vida só pensando nela. Você andava com ela, almoçava com ela, respirava-a. Um pedaço seu está ali dentro – sangue, suor e lágrimas. Agora, segurando-a nas mãos, seus olhos e lábios denunciam o carinho que têm por ela. Ambos sorriem quando a veem. Mas, no meio desse sentimento afetuoso, um sentimento sombrio surge no horizonte, como uma nuvem carregada antes da tempestade: “será que foi suficiente? Será que vão gostar?”. Infelizmente, é com esse gosto amargo que você encaminha aquele pedaço de você para a banca.”

Todos sonhamos com a tese perfeita. Ideias inovadoras que mudarão a forma como vemos uma determinada área. “A minha tese mudará o mundo!”, você sonha.

Mas isso raramente ocorre.

Salvo raras ocasiões, as teses tendem a ser uma mistura de boas ideias com alguns problemas. Os problemas são os mais variados, por exemplo, de execução, inferência ou até de escrita. Mas todos eles possuem uma causa comum: ali está um cientista em formação. Infelizmente, quando essas limitações são reveladas, muitos doutorandos perdem o chão.

A tão sonhada publicação no estrato A1 do Qualis CAPES, que iria alavancar a sua carreira, foi por água a baixo. Nada de Prêmio CAPES de Tese para você… Todos os anos de doutorado foram inúteis: “como não enxerguei esse problema?? Como vou conseguir um emprego agora?”.

Não falarei sobre as pressões e as dificuldades de escrever uma tese. O objetivo não é esse. Meu objetivo é mostrar para você, aspira, que toda história tem dois lados (ou mais) e avaliar todos eles é vital para aprendermos e também para o nosso bem-estar pessoal. No caso das teses, há pelo menos o lado profissional e o lado pessoal.

O lado profissional

Apesar da competição por posições na academia ser ferrenha, durante uma banca as expectativas dos jogadores são variadas.

Você espera fazer uma tese que vai revolucionar o mundo, render muitas publicações e garantir um emprego.

A comissão examinadora (i.e., banca), por outro lado, espera que você demonstre independência suficiente para ser considerado um cientista profissional. Ou seja, a banca costuma avaliar não apenas a sua tese, mas principalmente a sua capacidade de raciocinar, resolver problemas e concluir tarefas. Além, é claro, do seu desenvolvimento durante o doutorado, geralmente relatado pelo seu orientador.

Pense na banca de doutorado como um exame de carteira de motorista. O avaliador não está interessado em averiguar se você é um piloto profissional ou um motorista normal. Ele avaliará se você aprendeu as habilidades que a auto-escola se propôs a ensinar. Caso você as tenha aprendido, está aprovado; caso contrário, precisará tentar outra vez.

Uma ocorrência frequente em bancas é ver um aspira pedindo desculpa pelos erros cometidos. Agora coloque-se na pela da banca. Você quer um pedido de desculpas ou prefere saber como o aspira reagiu ao erro? Ou seja, já que errar faz parte de ser cientista, você prefere saber se o aspira é apologético ou se ele aprendeu com o erro?

Alexandre, isso é muito bonito, mas eu sempre escuto a banca ressaltar onde e quanto o aluno publicou.

Sim, somos avaliados com base na quantidade e qualidade do que publicamos. Inclusive, temos evidências de que há uma correlação positiva entre a data da primeira publicação e o sucesso acadêmico.

Porém, antes de continuar lendo este texto, por favor, lembre-se destas palavras: “capacidade de concluir tarefas”.

Na Academia, e em muitos outros ramos profissionais, somos avaliados principalmente com base nas tarefas que concluímos. No caso de um doutorando, as publicações são apenas uma dessas tarefas. Entre os seus colegas de pós-graduação, você provavelmente será avaliado, sim, com base na qualidade das suas contribuições científicas. Contudo, para uma banca de defesa ou seleção, um aspira que publica os resultados da tese não necessariamente demonstra que é brilhante. Ele demonstra acima de tudo que termina as tarefas que se propõe a fazer.

São esses sinais menos evidentes que as bancas buscam. Os sinais de que você está pronto para ganhar o status de cientista profissional.

Na próxima vez em que você pensar que a sua tese não é boa o suficiente, pense nos sinais que você está enviando à comunidade. Você está concluindo as suas tarefas? Consegue andar sozinho? Afinal de contas, quantos cientistas ganharam o famigerado prêmio Nobel com suas teses de doutorado? (Spoilernenhum).

O lado pessoal

O lado pessoal tende a ficar oculto nas teses por um bom motivo: as pessoas não gostam quando alguém lhes mostra que estão erradas. Aspiras são particularmente sensíveis a isso, pois muitos sofrem com a síndrome do impostor.

Sabe aquele experimento que você teve que repetir porque algo deu errado?

Sabe aquele manuscrito que voltou cheio de comentários dos revisores?

Sabe aqueles seis meses que você passou em um laboratório no exterior e que não renderam nenhuma publicação?

Todas essas experiências fazem parte do seu aprendizado. Por mais que você tenha tido que repetir um experimento, agora você sabe porque isso foi necessário. Os comentários ao manuscrito certamente nunca serão esquecidos. Os seis meses que você passou fazendo intercâmbio certamente ampliaram sua visão sobre a ciência.

São essas experiências que você levará para o resto da sua carreira. São essas experiências que te amadurecem profissionalmente. São essas experiências que farão você passar de aspira para faixa preta e depois novato. Os artigos que você publicou alguma hora se tornarão defasados, mas as experiências ganhas ao elaborá-los e os erros com os quais você aprendeu ficarão com você para sempre.

Conclusão

Quando a nuvem de tempestade se adensar, lembre-se: você está no doutorado para APRENDER a trilhar o caminho. Quando estamos explorando caminhos novos, erros são comuns e fazem parte. Assuma os seus erros, afinal todos devemos aprender com eles. No fim, quando tudo tiver passado, são essas experiências que tornarão a sua tese memorável.

 

(Fonte da imagem da capa: PhD Comics)

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8 respostas para “O que faz uma tese ser memorável?”

  1. Bom dia, primeiramente registro a importância do tema debatido. A inserção de um estudante na ciência é algo que realmente mexe nos pilares da individualidade e prepara o sujeito para os desafios da carreira.

  2. Oi Alexandre,

    obrigada pelo post. Estou para defender “daqui a pouco” e isso me ajudou a olhar as coisas de uma perspectiva diferente. Muita gente que faz doutorado é perfeccionista, portanto lidar com a imperfeição do processo é muito frustrante. E a gente tende a ficar tão obcecado com a tese que ela é a única coisa que você vê no caminho, ela “é o fim do caminho”, “só que não” né.. Precisamos injetar na nossa mente que a defesa é apenas o começo da sua vida profissional. E o doutorando muitas vezes nos faz esquecer disso, é tanta energia que a tese demanda que acabamos escravizados pela tese (ou por nós mesmos, ou por falta de noção?). Somos sugados pela tese, e frequentemente no último ano do doutorado vemos as pessoas mais tristes, mais estressadas, mais apáticas, desmotivadas e com mais cabelos brancos (ou com menos cabelo?). E simplesmente é assim que as coisas são e todo mundo simplesmente olha o doutorando e já reconhece rsrsrs.. Eu tentei minimizar o sofrimento durante o doutorado lendo muito sobre saúde mental na academia e tentando não entrar naquela caverna escura com a tese (my precious). Mas no fim, acho que virei aquela doutoranda estressada e sobrecarregada. Não sei se consegui fazer muito diferente do que se imagina para o estereótipo de doutorando em fim de tese. Acho que momentos assim fazem parte do envelhecer.. Talvez compense fazer um post sobre “paciência” na vida acadêmica rsrs.. pq estudamos por 10 anos ou mais pra chegar até a defesa e sair desempregado (porque não tivemos “tempo” de procurar algo antes da defesa) e mais inseguro do que quando entramos na faculdade rsrsrs..
    abs!

    1. Seu comentário é um poço de lições Renata, obrigado por compartilhar!

      Eu só consegui entender todo o processo de doutoramento agora, dois anos após a defesa. Nós realmente mergulhamos de cabeça na tese e tendemos a esquecer de tudo que nos cerca. Esquecemos que a tese é um caminho de aprendizado, e não um fim. No final da minha tese eu era esse estereótipo de doutorando que você comentou com uma diferença: eu estava com mais cabelos brancos E com menos cabelos rsrsrs.
      Parabéns pelo esforço de tentar não se tornar o estereótipo. Só de perceber que é um problema já vai terminar o doutorado anos-luz na frente da maioria (eu incluso).
      Com o tempo aprendi que detectar um problema e conseguir lidar com ele são coisas muito distintas. Ambos exigem um alto grau de maturidade profissional e de auto-conhecimento que precisam ser treinadas e que a vida tende a ensinar (nem sempre, mas né…).
      Por último, o tema é excelente! É realmente algo que precisa ser abordado mais a fundo aqui no blog. Há um descolamento entre o tempo que as coisas levam para acontecer na ciência, e o tempo que as coisas levam para acontecer na vida real. Um dos maiores exemplos ditos é o famigerado “tempo de revisão” das revistas que está ficando cada vez mais curto por causa das pressões da vida real.

      Enfim, tem muito pano para manga nisso aí! Obrigado novamente pelo comentário!

    2. Excelente comentário, Rê! No final das contas, é normal a gente chegar cansado e estressado no fim do doutorado, porque se trata de uma jornada longa, complexa e árdua. O que a gente não pode é terminar destruído, seja física ou emocionalmente. A sensação final tem que ser de vitória e realização, não de colapso ou libertação. Esses também são sinais sutis que os acadêmicos mais experientes observam nos mais novos. Naturalmente, uma parte do nosso bem-estar na Academia depende do ambiente em que trabalhamos, incluindo as condições institucionais e a relação com os superiores hierárquicos. Mas uma outra parte ainda maior depende apenas do nosso mindset. Aprender a equilibrar as emoções, a ter paciência e a colocar as coisas em perspectiva faz parte não apenas do aprendizado acadêmico, mas do aprendizado da vida. Uma das nossas metas aqui no blog é justamente ajudar os aspiras a mudarem seu mindset, a fim de tomarem as rédeas do próprio destino.

  3. Eu digo que no meu doutorado fiz um monte de coisas, inclusive escrever a tese… Essas coisas incluíram coorientar ICs, publicar artigos da IC e do mestrado, colaborar em outros trabalhos (inclusive publicar um artigo de forma independente de docentes), etc… Via a tese como uma das coisas que tinha que fazer, mas não a única, e isso no lado profissional…

    1. Concordo. A tese realmente é só uma das coisas para se fazer durante o doutorado. O problema é que algumas vezes vejo o pessoal colocando peso demais na tese, e esquecendo todas essas habilidades que você aprende fora da tese.
      Obrigado por levantar esse ponto também muito importante Pavel!

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