O que é um argumento no texto científico?

A essência da ciência são os argumentos. Mas será que realmente aprendemos a construí-los direito? Leia este post convidado e descubra mais!

Por Renata de Paula Orofino

Professora do Centro de Ciências Naturais e Humanas, Universidade Federal do ABC. Coordenadora do Laboratório de Argumentação no Ensino de Ciências.

Uma cientista e seu irmão caminham por uma fazenda.
O irmão diz:
– Olha! As ovelhas estão tosquiadas.
– É – diz a cientista – deste lado.

Algumas das afirmações que fazemos sobre o mundo natural extrapolam as evidências que temos sobre ele. Na piada acima, levamos ao extremo a construção de afirmações usando apenas a informação fornecida pelas evidências coletadas.

A ciência pode ser definida como a atividade humana de procurar explicações naturais para o que observamos no mundo à nossa volta. Essa definição de Kenneth Miller deixa clara a relação entre o fenômeno observado e a explicação construída. Coincidentemente, é sobre explicações e observações que eu gostaria de conversar.

Argumentar é articular o raciocínio. Aristóteles apostava as fichas dele em uma área específica, a Lógica, como ferramenta para entender de que forma uma ideia justifica a outra. A filosofia atualmente divide suas fichas entre mais áreas para entender como algumas ideias são fundamentadas em outras ideias, como chegamos a conclusões necessárias e nem sempre verdadeiras ou a conclusões plausíveis e muito convincentes.

A lógica de Aristóteles cabe apenas em um dos pedacinhos da história. Precisamos estudar as regras de inferência e argumentação. A inferência é o processo mental usado para construir uma conclusão. O argumento, por sua vez, é a explicitação dessa conclusão, explicando as razões (justificativas) que guiaram o processo de inferência. Para leitores mais próximos à filosofia, percebem que estou chamando de justificativa o que normalmente chamamos de premissas. São apensa dois nomes para uma mesma coisa e justificativa é um nome que todos nós compreendemos facilmente. Uma ótima indicação de leitura pra entender um pouco melhor esse lance de premissa e conclusão é esse aqui.

Retomando, tínhamos que a ciência é a construção de explicações com base em observações. Percebemos o processo de inferência (construção) e o argumento (explicações justificadas pelas observações). Em ciência, portanto, as observações são as justificativas para as explicações propostas. Logo, fazer ciência nada mais é do que argumentar.

Daqui, poderíamos seguir diferentes caminhos:

1. Como fazer observações que possam ser aceitas como justificativa para as explicações científicas?

2. Por que algumas explicações não necessariamente decorrem das observações?

3. Como é possível construirmos mais de uma explicação para um mesmo conjunto de observações?

4. Qual conhecimento conceitual prévio é preciso dominar para construir explicações científicas nos dias de hoje?

5. Por que a comunidade científica não olha apenas para a plausibilidade de uma explicação científica, na hora de julgar se aceita ou não as explicações construídas por um(a) cientista?

Não quero, porém, perder o foco do que me trouxe até aqui: 

6. Como cientistas aprendem a argumentar?

7. Como percebem a necessidade de argumentar?

8. Quais conhecimentos filosóficos auxiliam uma pessoa a argumentar cientificamente?

Argumentar é uma das (várias) coisas que cientistas aprendem pela prática (de forma implícita), não como parte formal da formação de nível superior. Para certas pessoas, esse aprendizado pela prática se dá de forma suave (afinidades pessoais, treino em outros contextos e analogias, o que parece mais certo ou mais bonito em cada momento). Contudo, para a grande maioria, esse aprendizado não é tão suave, pois argumentar se mistura com o uso esperado da gramática, com a correção ortográfica, com detalhes do estilo pessoal de escrita, com regrais gerais do gênero literário do qual o artigo científico faz parte e até com a facilidade e segurança de escrita de modo geral. Poderíamos estender esse raciocínio para diversas práticas da ciência, como a redação e a divulgação científica, o gerenciamento de pessoas, a busca por financiamento…

Essa forma implícita de aprender a argumentar nos leva a um cenário em que cientistas conseguem argumentar, mas não têm consciência de que sabem fazê-lo, não argumentam de forma sistemática, nem (o que é pior!) valorizam o papel da linguagem argumentativa. Ainda no conjunto das consequências, tais cientistas não sabem ensinar seus orientandos(as) a argumentarem. Respondendo brevemente às perguntas 6 e 7, percebemos que cientistas não necessariamente aprendem (no sentido formal da palavra) a argumentar e muito menos que cientistas percebem a necessidade de aprender a argumentar de forma sistemática. Também seria possível responder brevemente a pergunta 8. Uma explicação científica é a conclusão e as observações (organizadas em evidências) são as justificativas que sustentam a conclusão.

Vamos pensar nas observações. Nem toda observação é um dado científico e nem todo dado científico é uma evidência. Evidência é um conjunto organizado de dados inscritos de uma ou mais formas (texto, tabela, gráfico, esquema) e considerado confiável e válido para embasar uma explicação (Gott e colaboradores). A ideia de evidência, portanto, está atrelada à forma como um dado é mensurado, a sua pertinência com relação à pergunta de pesquisa, à comparação dos dados com dados coletados por outras pessoas, aos vieses (sociais, econômicos, etc.). Se você quer ir mais longe nesse conceito de evidência, dá uma olhada aqui.

Ainda sobre as observações e dada a ideia de evidência, para escrevermos bons argumentos científicos precisamos ter alguns conhecimentos técnicos como: observar e descrever fenômenos, ou coletar dados a partir de experimentos; identificar variáveis, dados e evidências, diferenciando um do outro; interpretar tabelas, gráficos, esquemas e resultados estatísticos; analisar criticamente variáveis e dados coletados, comparando-os e associando-os com dados de outros trabalhos já existentes.

Eu sei que até agora estava falando que as observações eram a justificativa para as conclusões. Não quero me desmentir, apenas quebrar em partes menores o que chamei de observações. Consideramos que o conhecimento construído e acumulado até o momento é fato. Fazemos isso para que possamos continuar construindo conhecimento (e quando um conhecimento que embasa outros é modificado, toda a cadeia de conhecimentos muda também). Tais conhecimentos são nomeados de conhecimento conceitual prévio. Não é à toa que aprendemos um zilhão de conceitos durante a graduação. Isso ocorre para que o conhecimento construído até agora esteja compartilhado e possa ser usado de base para a construção de novos conhecimentos. Então, parte da construção das justificativas para as explicações científicas são explicações científicas anteriores, feitas por pessoas que nasceram antes de você ou por você mesmo no trabalho anterior.

Há justificativas melhores do que outras e isso faz toda a diferença na hora de construir explicações científicas. Se você escolheu realizar determinado método de coleta porque todos os trabalhos anteriores usaram aquele método, a sua justificativa é mais fraca do que se você escolheu realizar determinado método dadas as qualidades teóricas, as afinidades do método com o tipo de trabalho, e as limitações tecnológicas e financeiras. Nos resultados de um artigo, espera-se ver construídas as justificativas que sustentarão as diferentes discussões a serem feitas a seguir. Ali você deve explorar os dados de forma clara, detalhando as observações feitas, com imagens, esquemas e limitações. Quando chegar na discussão, retome como cada observação serve de justificativa para as diferentes explicações propostas por você.

Nós nos temos em alta conta, achamos que temos o raciocínio claro e organizado. Até termos que explicar o nosso raciocínio em voz alta. Quem nunca se viu gaguejando ideias que estavam ultraclaras na caixola? Você pode falar em voz alta quando estiver só, escrever em um papel e reler, ou alugar um ouvido amigo para te ajudar. Como em um efeito terapia, você vai identificar falhas e vai conseguir arrumá-las. Feito isso, você tem nas mãos o máximo de justificativas para uma conclusão e pode definir quais são importantes de serem colocadas no artigo e quais são muito óbvias para gastar tinta no papel.

Tome cuidado com o tipo e generalidade de conclusão que suas justificativas permitem que você construa. Antes uma conclusão aceitável para um pequeno conjunto de dados do que você sendo motivo de chacota por tentar dar um passo maior do que a perna. Escreva as conclusões e releia, critique, retome. Verifique se as justificativas permitem de fato a construção daquela conclusão, se você precisa incluir um limitador (exemplos: em quase todos os casos, normalmente, no tratamento x ou y, etc.). Ainda sobre as conclusões, hipóteses são explicações provisórias sobre fenômenos, que serão confrontadas com as evidências coletadas e podem vir a ser refutadas. Retome e repense quais são as hipóteses do trabalho, discuta o quanto das hipóteses testadas de fato foram corroboradas e quais as hipóteses que se seguem do seu trabalho.

A noção de observações (justificativas) para explicações naturais (conclusões) é uma das pedras fundamentais da construção da ciência. Como dica geral para ser fluente na linguagem argumentativa, coloque suas ideias no papel. Ao escrever você percebe que é gostoso ver uma ideia ocupando algumas páginas do Word, você perde o medo de não conseguir, você tem o que editar e arrumar (acredite, é muito mais fácil escrever um texto mais ou menos e ir tornando o texto cada vez mais bonito do que escrever a Ilíada em uma tacada só), você se apropria da norma culta e dos jargões da sua área de trabalho.

Sugestões de leitura:

  1. Miller, K. R. 2008. Only a theory: Evolution and the Battle for America’s Soul. Viking Penguin. New York.
  2. Klein, D.; Cathcart,T. 2008. Platão e um Ornitorrinco Entram Num Bar… – A Filosofia Explicada com Senso de Humor. Editora Objetiva. Rio de Janeiro.

 

(Fonte da imagem destacada)

2 respostas para “O que é um argumento no texto científico?”

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