Há vida depois da faixa preta acadêmica?

Depois que você conquista a faixa preta acadêmica (i.e., título de doutor), ainda há muitos desafios pela frente.

Lembro-me de quando eu ainda era um jovem padawan, fazendo iniciação científica aos trancos e barrancos, em um cenário de crise. Virar professor universitário parecia um sonho tão distante, que beirava o impossível. E eu tinha a impressão de que a conquista desse título era o fim da aventura.

“Sabe de nada, inocente!” (Washington, 2014)

Ok, tudo começa com você trilhando a Jornada do Cientista. Só que a conclusão dela não representa o fim da carreira, mas sim o começo da fase independente. Há todo um sistema de ranking acadêmico, que organiza as suas novas conquistas na “vida adulta”. E, como diria Raul, um bom cientista não pára na pista. Logo, galgar mais degraus é uma consequência natural para quem se mantém aberto ao aprendizado.

É a mesma lógica das artes marciais orientais. Quando você recebe uma faixa preta, com ela ganha o direito de abrir o seu próprio dojo e ensinar a sua arte para neófitos. Conforme você vai acumulando méritos dentro da comunidade, mestres mais antigos podem lhe conferir dans. Ou seja, aquelas listras que você coloca na ponta da sua faixa. Cada arte tem um sistema próprio de graduação vertical e horizontal antes e depois da faixa preta. Essas listras simbolizam que você continua aprendendo habilidades novas e está amadurecendo na prática.

Aqui explico de maneira sucinta quais são os dans na carreira de professor universitário. Grosso modo, alguns deles são conquistados via concurso público e outros através de avaliações internas. Isso depende do regimento de cada universidade ou das leis de cada estado ou país.

Há dois tipos principais de concurso de professor: admissão e progressão.

Os concursos de admissão são usados para selecionar novos professores, como comentei em um outro texto. Eles servem tanto para novatos finalmente conseguirem um emprego acadêmico, quanto para veteranos mudarem de emprego.

Por sua vez, os concursos de progressão servem para avaliar se um cientista merece avançar no ranking acadêmico, colocando mais um dan em sua faixa preta. Há dois tipos de progressão: vertical, quando você muda de cargo, e horizontal, quando você sobe um degrau dentro do mesmo cargo. Por exemplo, quem passa de adjunto a associado progride verticalmente, enquanto quem passa de adjunto I a II, horizontalmente.

Uma coisa que sempre se espera de um professor ao progredir verticalmente é que ele se envolva cada vez mais com a gestão universitária, ocupando cargos administrativos. Os direitos também vão aumentando ao longo da carreira, sendo que um titular tem grande poder político dentro da universidade. O salário aumenta moderadamente nas progressões horizontais e consideravelmente nas verticais.

Veja uma comparação resumida entre os títulos e cargos da carreira de professor universitário. Os números sobrescritos levam a explicações detalhadas.

Dan Nome Cargo ou título? Título mínimo necessário Estabilidade Tipo de concurso Enfrenta concorrência?
Professor Substituto ¹ Cargo Mestrado Temporário Admissão Sim
Professor Visitante ² Cargo Doutorado Temporário Admissão Sim
Professor Assistente Cargo Mestrado Vitalício ³ Admissão Sim
Professor Adjunto/Doutor ⁴ Cargo Doutorado Vitalício Admissão/Progressão Sim
Professor Livre-Docente ⁵ Título Doutorado N/a Progressão Não ⁶
Professor Associado Cargo Livre-docência/Doutorado Vitalício Progressão Não
Professor Titular Cargo Livre-docência/Doutorado Vitalício Progressão Sim/Não ⁷
Professor Aposentado ⁸ N/a Mestrado Vitalício N/a Não
Professor Emérito ⁹ Título Doutorado N/a Progressão Sim
  1. Este costuma ser o cargo que proporciona o primeiro emprego acadêmico à maioria dos cientistas no Brasil. Isso porque, durante a fase formativa, só contamos com bolsas para o nosso sustento, ao contrário do que ocorre em outros países da Europa e América do Norte. O contrato dura de um semestre a dois anos. Esse tipo de edital é aberto, quando um professor da casa entra de licença ou faz sabático. Ou quando alguém se aposenta ou morre, mas a universidade não tem verba para repor a vaga imediatamente. Aliás, quando falta grana na universidade, surgem outras possibilidades para um aspira experimentar a docência no ensino superior, mesmo estando ainda na faixa marrom. Por exemplo, como bolsista didático, a exemplo do que ocorre na UNESP e ocorria nas federais na época do Reuni. É uma experiência bem mais profunda do que o estágio em docência exigido dos bolsistas da CAPES.
  2. Pode se tornar visitante desde um novato em seu primeiro emprego acadêmico até um aposentado que resolve realizar uma missão especial em pesquisa, ensino ou extensão em outra universidade. Este é o cargo que abarca a maior diversidade de pessoas em diferentes estágios da carreira. O contrato costuma durar de um a três anos. Geralmente, abre-se esse tipo de edital vinculado a programas maiores, focados na oxigenação da universidade.
  3. Todo cargo público no Brasil se torna vitalício somente após a pessoa ser aprovada no estágio probatório, que via de regra dura três anos, com duas avaliações, uma na metade e outra no fim.
  4. O nome desse cargo é professor doutor em algumas universidades, como as estaduais paulistas, e professor adjunto em outras, como as federais. Pessoas que entram na universidade no cargo de assistente podem cursar o doutorado nela ou em outra instituição. Caso conquistem o título, progridem automaticamente para doutor/adjunto. Hoje, dada a gigantesca concorrência no mercado acadêmico (leia-se, multidão de doutores desempregados), é raro as universidades públicas abrirem concursos para assistente, sendo que a carreira costuma começar no degrau dos doutores.
  5. Professor livre-docente é um título convertido automaticamente em cargo de professor associado nas estaduais paulistas. Contudo, nas federais, salvo raras exceções, não há mais a livre-docência, sendo a progressão para associado julgada através de avaliação interna. A livre-docência equivale à Habilitation, sistema adotado na Alemanha e outros países europeus.
  6. No concurso de livre-docência, o candidato não disputa uma vaga com concorrentes. A missão é atingir o patamar de excelência exigido pela banca e pela unidade de lotação (departamento, instituto ou faculdade). Espera-se que o candidato demonstre um grau de maturidade e liderança equivalente ao “meio da carreira” (mid career) em sua respectiva área. Concursos de livre-docência são abertos periodicamente pelas universidades que adotam esse sistema.
  7. Em um concurso de titular, podem aparecer concorrentes internos e até mesmo externos, vindos de outras universidades. Nas estaduais paulistas, os externos também precisam ser livre-docentes ou possuir título equivalente. O candidato interno, caso não saia vencedor, não perde seu emprego, mas apenas deixa de fazer a progressão. Concursos de titular são abertos raramente, quando alguém nessa posição se aposenta ou morre, salvo vagas milagrosas cedidas pela reitoria através de remanejamento. O cargo de titular remonta aos tempos em que ainda havia o sistema de cátedras. Nas federais, não é necessário ser associado para se candidatar a titular, sendo possível dar um salto quântico de adjunto para titular. Na verdade, nas federais, desde a última mudança no plano de carreira, os concursos de titular passaram a ser feitos por avaliação interna, sem concorrência.
  8. Um professor pode se aposentar de qualquer cargo em que estiver no momento, seja ele assistente, doutor, associado ou titular. Quando um professor se aposenta, ele pode continuar contribuindo para o corpo docente como voluntário, mas isso varia conforme a demanda de cada instituição. E um aposentado pode ainda ir trabalhar em outra instituição como visitante.
  9. Professor emérito é um título honorífico, conferido a pessoas que deram uma enorme contribuição à ciência e à universidade onde trabalharam. Geralmente, esse título é concedido a aposentados, mas não necessariamente só a eles. O agraciado é escolhido através de uma votação feita dentro da instituição que concede o título. Pode-se dizer que este título seria o equivalente à faixa vermelha do Brazilian Jiu-Jitsu.

Moral da história

Como não me canso de repetir, a faixa preta é o fim da Jornada do Cientista, mas não da carreira. Ela marca uma mudança de fase, a partir da qual você começa a caminhar por conta própria. Nunca se considere pronto. Nunca pare de aprender. Nunca pare de conquistar dans, até um dia chegar a grão-mestre. Mantenha uma mente de principiante.

(Fonte da imagem destacada)

 

11 respostas para “Há vida depois da faixa preta acadêmica?”

  1. Pessoal, curto muito os textos aqui do blog! Tenho uma sugestão (procurei no site e não achei), que é como escolher palavras-chave para artigos, teses, etc. Ainda é um mistério profundo para mim, nunca me ensinaram qual é o racional para fazer isso. Abraços!

    1. Obrigado, Raul! Quanto à escolha de palavras-chave, posso te dar algumas dicas:

      1. Não repita termos já usados no título.

      2. Use termos que liguem o seu estudo ao problema maior de onde veio a pergunta trabalhada nele.

      3. Use termos que chamem a atenção de pessoas interessadas em “personagens” importantes do seu estudo, sejam eles métodos, táxons, ambientes, abordagens ou o que mais for importante no seu contexto.

      4. Escreva os termos de maneira consistente com o que você encontra na literatura, sem mudar a grafia.a

      5. Tente incluir algumas buzzwords, ou seja, termos que estão quentes na sua área temática, chamando grande atenção.

      Um abraço,

      Marco

  2. Gostei do texto, esclareceu algumas coisas para mim!

    O pós-doc para mim, na verdade, foi uma fase essencial. Foi no pós-doc que aprendi melhor como um PPG funciona (pois é só sabia como eu funcionava num PPG! rs), aprendi a ministrar disciplinas inteiras e não aulas, ganhei experiência em orientação, enfim. Eu diria que foi essencial para eu desenvolver um trabalho melhor como professor.

    Uma pergunta: A progressão para titural ainda se dá por concurso ou é também uma avaliação por uma comissão interna?

    Uma curiosidade: Meu pai foi um exemplo de professor de fora que passou em um concurso pra professor titular, na UnB, lá por 2002. 🙂

    Uma informação adicional: no meu estágio probatório são três os relatórios que entrego… depois de 6, 18 e 30 meses.

    1. Oi Pavel, obrigado! Caraca, tu tem que apresentar relatório também com 6 meses de cargo?! Que legal que o seu pai foi um exemplo desse caso especial mencionado!

      E, sim, concordo plenamente, o postdoc é uma fase fundamental da carreira. A minha preferida, na verdade. Não recomendo que ninguém vire professor, sem antes ter sido postdoc, como disse em outro texto. Senão, a chance de você ser esmagado pela universidade e parar de se desenvolver é enorme.

      Com relação ao concurso de titular, nas federais realmente as coisas mudaram. Quando houve a reestruturação da carreira, lá pelos idos de 2012-2013, o concurso de titular das federais ficou igual ao concurso de livre-docente das estaduais paulistas. Não há mais concorrência por vagas limitadas, todo mundo que conseguir pular o sarrafo estabelecido vira titular. Aqui nas estaduais paulistas continua sendo uma disputa com concorrência e chance de perder para um externo.

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