Paciência na academia

A informação viaja distâncias geográficas incríveis até chegar na nossa frente. E tudo isso se torna acessível na ponta dos nossos dedos em instantes. Mas será que tanta rapidez é mesmo necessária? Sei que isso parece chamada do Fantástico, só que precisamos conversar sobre como a paciência é fundamental para cientistas.

O estômago queima. A mão treme. A boca seca. O coração sobe até a garganta. É aquela maldita sensação de perda de controle surgindo novamente. A sensação da presa que pressente o predador. Os olhos ficam atentos a qualquer micro-movimento, o corpo se prepara para fugir. O problema é que não há predador. Você está em casa. Na frente do computador. Esperando o e-mail chegar. De novo.

Na atual geração da tecnologia, informações são enviadas em milissegundos a qualquer lugar do planeta. Celebridades são feitas e desfeitas na mesma velocidade. Quem não se lembra de “lá vem o Marcos“? Ou de “para nossa alegria“? Você se lembra de há quanto tempo esses vídeos viraram memes? Ou sabe o que essas pessoas estão fazendo agora?

A resposta geralmente é não para ambas as perguntas. Curtimos e compartilhamos esses memes em instantes – e os esquecemos na mesma velocidade.

Isso não funciona apenas para memes na internet. Uma boa parte da nossa vida gira nessa velocidade estonteante. Produtos novos saem a cada instante e, junto com eles, um conteúdo gigantesco é gerado em uma velocidade incrível. Poucos dias após o lançamento oficial de qualquer produto tecnológico, já temos diversas reviews sobre ele: “Analisando o produto X”, “Comparando X e Y”, “Vale a pena trocar Y por X?”. Tudo isso cansa a mente. Qual foi a última vez que você comprou um celular ou foi ao cinema sem ser bombardeado por informações?

Nós acabamos nos acostumando a lidar (ou não) com essa quantidade de informações, afinal, quase tudo hoje em dia gira nessa velocidade. Porém, o que acontece quando nos deparamos com alguma atividade que se desenrola em outro ritmo?

Ficamos apreensivos e ansiosos. Ficamos esperando mais e mais informação, que deveria chegar em segundos. Apertamos F5 que nem maníacos. O ponto dessa história é que não estamos mais acostumados a esperar.

É aí que a vida contemporânea colide com a vida acadêmica.

Quase todas as atividades da vida acadêmica giram em tempo geológico. Após a submissão de um artigo, por exemplo, se você tiver sorte de todos aceitarem revisar o artigo de primeira (o que não é comum), vai demorar pelo menos um mês para receber uma resposta inicial. Caso a resposta não seja totalmente negativa, você ainda terá que revisar o artigo, responder aos revisores e passar por mais uma rodada de revisão. E outra. E talvez ainda mais outras. Todo esse processo pode levar um ano, até que o seu artigo seja finalmente publicado.

Tudo isso para apenas para um artigo. Agora, assim como uma andorinha só não faz verão, um artigo só não faz carreira. Para ter uma carreira, você precisará de alguns (ou vários) artigos. Portanto, você precisará passar pelo mesmo processo repetidas vezes até que começar a aparecer no radar dos colegas

Dada a lentidão do processo de publicação, quanto tempo você acha que leva até montar uma lista de publicações respeitável e ser reconhecido na sua área?

Muito tempo – muito mais do que o tempo de um mestrado+doutorado (ou até pós-doutorado).

É por isso que todo cientista precisa ter paciência. Eu falo isso tanto para vocês quanto para mim. Também sofro com o passo da tartaruga acadêmica. Até por isso que este texto é focado em todos nós. Então, como fazer para diminuir esse ritmo frenético?

Para essa parte eu peguei umas dicas importantes com a Renata aqui do blog, porque eu não sou muito bom nisso ainda e estou em constante reavaliação.

Um passo importante é entender que esse ritmo frenético de movimentação e feedback constante é viciante. Esse ritmo nos torna dependente das notificações; e, como qualquer vício, é difícil parar. Parar, portanto, vai exigir um esforço consciente e não será fácil.

As formas para diminuir ou controlar esse vício e desacelerar a mente são as mais variadas. Meditação é um bom caminho a seguir, pois esse tempo mergulhado dentro de si mesmo vai te forçar a parar e pensar em outra coisa (ou nada). Para quem quiser um ponto de onde começar, o professor Rafael Loyola, da UFG, tem um blog sobre meditação do tipo mindfulness. Confira lá. Tirar as notificações automáticas do celular e do computador também são bons caminhos para diminuir a ansiedade e a expectativa.

Mas, no fim das contas, para controlar o vício você tem que retomar as próprias rédeas quando recebe retorno de e-mails, mensagens, notícias e atualizações.

O que vai dar certo ou não dependerá muito de você, de como você funciona, pensa e reage a informações. Assim, você vai precisar de uma boa dose de auto-conhecimento. É por isso que eu te aconselho fortemente a consultar um terapeuta. Eles possuem um treinamento específico para ajudar qualquer um a se conhecer melhor. 

O que me cabe é só alertar que parar, esperar, ficar em silêncio, tudo isso faz parte de ser humano. O Louis CK, inclusive, tem um esquete cômico sobre como evitar esses momentos que nos prejudicam. Então, abraçar a quietude de vez em quando é essencial para uma vida longa e próspera na academia.

5 respostas para “Paciência na academia”

  1. Ótimas dicas Alexandre. Eu brinco que na pós-graduação esquecemos que somos humanos, até que chegam as gastrites, enxaquecas, insônias e ataques de pânico. A falta de paciência e a ansiedade impedem que o aluno fique em paz. A busca pelo auto-conhecimento e auto-cuidado são muitas vezes deixadas de lado e não deveria ser assim, ainda mais considerando que muitas vezes a pós-graduação marca o início verdadeiro da vida adulta, quando as mães não lavam mais as nossas meias e os boletos se acumulam cada vez mais. Vejo alguns colegas tão workaholics que parecem estar na facção Abnegação da saga Divergente rs. O pós-graduando precisa se cuidar mais e ter paciência para planejar sua vida para além do projeto “meu doutorado, minha vida”.

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