Torne-se visível

Conseguir um bom emprego e se estabelecer na Academia são missões cujo sucesso depende muito de visibilidade. Logo, facilite a vida de quem te avalia.

Bom, nem só de aulas e artigos vive um professor.

Todo ano eu participo de comitês e bancas dos mais variados tipos, de seleção de mestrado a contratação de professores. Uma coisa todas elas têm em comum: muita gente sai choramingando no final.

Quem nunca ouviu um acadêmico reclamando que “a banca maldita daquele concurso bobo não soube reconhecer o meu talento evidente”? Sim, infelizmente, a vaidade é uma fraqueza muito comum entre os Jedi (como diria o Prof. Yoda). Mas o ponto aqui não é esse.

O ponto é que muita gente perde boas oportunidades simplesmente porque não sabe fazer um nome. Ou não aparece no radar dos tomadores de decisões. Por exemplo, não adianta ter preguiça de preencher currículos e depois se queixar de que a banca não computou todos os artigos que você publicou.

Bancas de seleção, de IC a professor emérito, trabalham com os dados que têm nas mãos. Portanto, não acredite naquela bobagem pseudo-humilde que alguns colegas pregam pelos corredores: “faça bem o seu trabalho e ele falará por si mesmo”. Nada poderia estar mais distante da realidade, ainda mais em um mundo lotado e online. Alguém que persegue uma carreira de alta performance, hiper-competitiva, precisa se tornar tão visível quanto possível.

Logo, além de fazer boa ciência, faça o seu dever de casa. Estude cada edital minuciosamente, mas não pare por aí. Torne as suas informações de produtividade facilmente acessíveis.

“Ok, Marco, então o que eu posso fazer para me tornar mais visível e aumentar as chances de me avaliarem precisamente?”

Ótima pergunta, meu caro novato! Seguem algumas dicas práticas.

1. Leve o Lattes a sério.

Tudo bem, é chato criar e manter atualizado um currículo Lattes. Mas ele é o RG dos cientistas brasileiros. Você não faz absolutamente nada sem ele, desde pedir uma bolsa de mestrado até progredir verticalmente na carreira.

Cada atividade que você realiza, desde publicar um paper até participar de uma banca de qualificação, deve ser devidamente registrada. Informe-se sobre o que vai aonde e procure entender como as diferentes seções e categorias funcionam. Dá até mesmo para registrar as revisões feitas para revistas. Só que uma informação correta registrada no campo errado ou da forma errada não vale nada.

Em termos de produtividade em pesquisa, deve ser extremamente fácil descobrir pelo menos quais artigos você publicou, qual é o DOI de cada um, qual é o IF das revistas onde eles saíram, quantas citações eles receberam e qual é o seu índice H.

2. Crie perfis nas principais plataformas cienciométricas.

Se você quiser aumentar as chances de ser encontrado em buscas bibliográficas, meta-análises e avaliações cienciométricas em geral, além de receber convites para eventos e projetos, deve se cadastrar em outras plataformas além do Lattes.

Hoje, as mais importantes são Publons, Google, ORCID e Scopus.  A Publons, que recentemente se fundiu à antiga ResearcherID, é a mais importante, porque é nela que você consegue calcular o seu índice H oficial, uma métrica de impacto amplamente utilizada em diversos países, inclusive o Brasil. Além disso, essa plataforma registra as suas atividades como revisor e editor de periódicos, algo que nenhuma outra faz direito.

Naturalmente, a Google Scholar não poderia ficar de fora dessa brincadeira. A eficiência googlônica mostrada nos demais serviços já é amplamente reconhecida também em sua vertente acadêmica, pois a base de fontes (revistas, livros, blogs, sites etc.) cobertas por ele é bem mais diversa do que as das concorrentes. A Scopus acabou não decolando, apesar de ainda ser usada em algumas situações.

Por fim, a plataforma ORCID tem a ambição de se tornar uma espécie de Lattes galático, centralizando as informações que compõem a sua identidade acadêmica internacional. Ela já está bem perto dessa meta.

3. Conecte os seus perfis uns aos outros.

Graças às maravilhas da informática, hoje é possível cruzar todas essas informações automaticamente. Basta você conectar os seus perfis online uns aos outros, usando as ferramentas disponibilizadas por cada plataforma.

O próprio Lattes tem campos para você incluir as informações vindas da ORCID, Publons, Google, Scopus e outras fontes. Sendo você um cientista baseado no Brasil, use o Lattes como o seu perfil principal na internet, que congrega as informações dos demais perfis. E, como um bom networking internacional é fundamental nessa carreira, faça o mesmo com a ORCID.

É isso: Lattes para o Brasil, ORCID para o mundo. Vale lembrar que várias revistas científicas já pedem a sua identidade ORCID tanto para você publicar, quanto para revisar manuscritos. Outras tantas já estabeleceram convênios também com a Publons.

4. Crie um website pessoal.

Se você ainda é estudante ou postdoc, pode criar um website focado em você mesmo, apresentando as informações principais que definem a sua identidade como cientista. Não se esqueça de incluir links para os perfis que criou nas plataformas comentadas anteriormente, além dos handles das suas redes sociais usadas para trabalho. Caso você já seja um profissional estabelecido, pode criar um website do seu laboratório, incluindo informações sobre a sua equipe e as atividades que vocês realizam.

Uma grande vantagem de ter um website é poder criar uma central acadêmica na internet, que faça convergir os visitantes de todos os seus perfis online. Há várias plataformas gratuitas para criação de websites baseados em templates, como WordPress, Wix e Weebly, dentre as mais populares entre cientistas. Você não precisa ser fluente em HTML, PHP, mySQL ou outras línguas alienígenas.

E, sim, informe o seu e-mail de trabalho nesse website pessoal. Essa é a informação mais básica que alguém procura, quando quer te convidar para alguma coisa. Esconder o seu e-mail não vai te proteger de spam, mas de convites, meu chapa.

5. Divulgue as suas atividades nas redes sociais.

Redes sociais são muito úteis para cientistas do século XXI, como expliquei em um outro post. Depois de seguir as dicas anteriores, é hora de divulgar o que você faz. Como tudo que envolve a internet, tome cuidado, pois redes sociais podem ser particularmente tóxicas, se mal usadas. Assim, defina um objetivo e trace uma estratégia de comunicação e marketing pessoal.

Pensamento final

Coloque-se no lugar da banca que vai te avaliar: um candidato que facilita a vida dos examinadores cria simpatia logo de cara, além de minimizar a chance de ser avaliado incorretamente.

Bons exemplos de sites de cientistas:

  1. Bronstein Lab
  2. Jordano Lab
  3. Santana Lab
  4. Guimarães Lab
  5. Gustavo Burin

 

(Fonte da imagem destacada)

8 respostas para “Torne-se visível”

  1. Excelente postagem! Só acrescentaria o Research Gate, um tipo de híbrido do Facebook científico com Linkedin, porém, na minha opinião, bem mais interessante para um pesquisador / cientista em busca de redes e de oportunidades.

    1. Obrigado, Claudio! Concordo totalmente com a sugestão. É que eu já tinha falado bastante sobre o Research Gate no outro post sobre redes sociais. Mas vale a pena lembrar, com certeza.

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