O que é uma defesa de tese?

Para trocar de faixa na Academia não basta escrever uma tese: é preciso também defendê-la publicamente. Quer entender melhor como funciona esse desafio?

Você passou de dois a quatro anos cursando disciplinas e participando de workshops, congressos e seminários. Organizou grupos de estudo com os seus colegas de PPG. E trabalhou no mesmo projeto por todos esses anos. Assim, quando a reta final se aproxima, é normal se sentir cansado. Muitas vezes, aflora também a ansiedade. Isso porque poucos momentos geram mais tensão entre pós-graduandos do que a defesa da tese. Sim, defesa é coisa séria, mas não há motivo para desespero. Vamos conversar sobre as coisas que uma defesa envolve.

Uma defesa nada mais é do que um ritual acadêmico, no qual você, aspira, apresenta à sua comunidade o projeto que desenvolveu durante o mestrado ou doutorado. O objetivo é convencer os seus pares de que você merece o título em questão. Assim, a defesa é um desafio que marca uma transição de etapas na Jornada do Cientista. No fundo, ela é também um tipo de peer review. A diferença é que nela é avaliado não apenas o seu trabalho, mas também o seu desenvolvimento pessoal como cientista.

Sim, a defesa é uma avaliação abrangente e rigorosa. Contudo, não pense que ela é a mais dura pela qual você passará na carreira. Por exemplo, quando você submete um manuscrito para publicação em uma revista cientifica, o sarrafo é muito mais alto. Além disso, enquanto na defesa são você e o seu orientador que escolhem os revisores, em uma revista essa é uma prerrogativa do editor, mesmo que ele possa aceitar sugestões. Logo, o seu manuscrito é avaliado por colegas de fora do seu círculo social imediato, que não estão nem aí para você e vão julgar o seu trabalho com distanciamento.

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Doutoranda tentando publicar o capítulo 2 da tese, meses após a defesa, depois de alguém já ter publicado algo parecido. Fonte da imagem.

Esse distanciamento visto nas revistas, porém não nas defesas, torna as coisas bem mais tranquilas do que a maioria dos pós-graduandos imagina. Dessa forma, encare com profissionalismo a sua defesa, mas não entre em pânico. Primeiro, porque, se você levou o curso a sério e realmente escreveu a tese sem terceirizá-la, ninguém sabe mais sobre o assunto específico tratado nela do que você. Segundo, porque a defesa não é a última avaliação desse tipo que você enfrentará na carreira. Além das submissões de manuscritos, mais para frente você terá que encarar bancas de concurso, que são muito mais duras. Trate de ir se acostumando.

Por falar em costumes, reflita também sobre uma outra coisa muito importante: defesa não é formatura. Ambas são rituais acadêmicos de conclusão, mas a diferença entre elas é enorme, conceitual. Na formatura de graduação, já está tudo resolvido. O título de bacharel ou licenciado já lhe foi outorgado e você apenas comemora a conquista. Assim, é ótimo curtir o momento junto com os seus entes queridos, incluindo parentes, amigos e pets.

Por sua vez, a defesa não é uma comemoração. Ela é um exame e é bom ter clareza sobre isso. É comum no Brasil um candidato a mestre ou doutor convidar a família. Contudo, a experiência nem sempre é agradável para não-acadêmicos. Na defesa, ao contrário da formatura, você ainda não conquistou o título. Logo, pode ser que as coisas não saiam como você espera.

Sim, pode “dar ruim” no dia. Como eu disse anteriormente, a banca não avalia apenas o seu trabalho escrito e a respectiva apresentação oral, mas também a solidez da sua formação como cientista. Logo, os seus familiares e amigos terão que assistir os revisores dissecarem não apenas a sua tese, mas também você. Mesmo que a banca faça apenas críticas construtivas, de forma educada, aos ouvidos de quem não é acadêmico a arguição sempre parece cruel. Tipo aquela cena em que Conan, o Bárbaro, é crucificado em uma árvore, sendo comido vivo por abutres.

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Arguição em uma banca de doutorado. Fonte da imagem: Conan, the Barbarian (Milius 1982).

Considerando isso, voltemos ao ritual em si e falemos sobre as expectativas da banca. No mestrado, espera-se que o candidato tenha tido um primeiro contato formal com o método cientifico e as habilidades necessárias para se tornar um cientista profissional, desenvolvendo pela primeira vez um projeto simples. Esse projeto pode ter levado à produção de conhecimento novo ou não, dependendo da área. O problema investigado pode até ter sido proposto pelo orientador, mas o projeto em si deve ter sido aprofundado pelo candidato.

No doutorado as expectativas são mais altas. Espera-se que o projeto seja mais complexo, gerando de fato uma tese que produziu conhecimento novo, e que ele tenha sido executado de forma autônoma pelo próprio candidato. Em alguns casos, o problema investigado na tese é proposto pelo orientador, mas o mais comum no doutorado é a ideia vir da cabeça do aluno. O orientador, nesse segundo caso, ajuda-o a lapidar e polir e ideia. Quem almeja um título de doutor deve provar que, ao longo dos quatro anos de formação, dominou todas as habilidades básicas da carreira e se tornou um cientista independente, capaz de fazer pesquisa por conta própria.

Recorramos a uma analogia singela para entender o que se espera de projetos em diferentes níveis. Na iniciação científica, você anda de bike com rodinhas. No mestrado, você anda sem rodinhas, mas com o orientador segurando o banco. No doutorado, é a primeira vez em que você anda sem rodinhas e sem ajuda, com o orientador apenas apontando o caminho e avisando sobre o carro que dobrou a esquina. De qualquer forma, em todos esses casos, o mais importante é demonstrar que você é capaz de subir na bike, apesar da insegurança, e pedalar até tomar gosto pela coisa.

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Aspira curtindo seu projeto de iniciação científica. Fonte da imagem.

Ao pedalar a sua bike, uma hora você verá o fim da rua chegando. É o momento do ritual de passagem. Na maioria dos PPGs brasileiros, ele inclui uma apresentação oral, que dura por volta de 50 minutos. Ela é seguida por uma arguição, na qual cada membro da banca tem até 60 minutos para fazer perguntas ao candidato. A minha própria defesa de doutorado, por exemplo, durou 4:30 horas, com direito a coffee break.

Na parte final, a banca costuma pedir a todos que se retirem da sala, para que ela possa fazer um conclave. Esse é o momento em que os membros conversam livremente sobre suas impressões a respeito da tese e do candidato. Ao final do conclave, a banca produz uma fumaça branca ou preta, chama de volta o candidato e o público, e anuncia a decisão: habemus doctor ou deu ruim.

As opções de decisão sobre a tese variam entre áreas da ciência, países, universidades e PPGs. De um modo geral, elas se parecem com as decisões sobre um manuscrito submetido à uma revista: (i) aprovada como está; (ii) quase-aprovada, condicionada à entrega de uma nova versão corrigida; (iii) reprovada (game over). A maioria dos PPGs pede que cada membro tome a sua própria decisão. Depois, computa-se o placar e a decisão final é a da maioria. Outros PPGs dão ao presidente da banca a prerrogativa de tomar a decisão sozinho, cabendo a ele ouvir e ponderar as opiniões dos membros.

Infelizmente, na vibe paternalista de hoje em dia, não existe mais o glamour de receber qualificações à tese e ao título, como por exemplo “magna cum laude” ou “summa cum laude”. Esse paternalismo começou com aquelas competições fajutas nas escolas, em que todo mundo ganha troféu de participação, e hoje chegou à pós-graduação. Não existe nada pior para preparar um jovem cientista para a realidade de uma carreira dura e competitiva

Bom, voltando ao ponto. A apresentação oral deve ser feita de forma dinâmica, como uma boa palestra. Não é o momento de cuspir erudição sobre o público ou contar todos os pormenores metodológicos do seu projeto. Você deve focar nos objetivos, decisões-chave, resultados principais, conclusões e implicações. Os detalhes você deixa para o texto. Conte uma boa história para as pessoas presentes.

Ao contar essa história, demonstre estar seguro sobre as escolhas que fez. Obviamente, na ciência não existe certeza sobre as interpretações de fenômenos naturais. Mas é possível ter segurança sobre porque você fez determinadas interpretações e não outras, ou sobre porque você escolheu determinados métodos e não outros. Você precisa ser capaz de explicar e defender desde a relevância do problema geral investigado na tese até a adequação de determinado equipamento usado para medir uma variável operacional.

Essa segurança convence a banca de que você se apropriou do projeto. Você pode concordar com uma crítica feita na arguição e concluir que deveria ter realizado uma determinada análise de outra forma. Você pode até mesmo admitir que não tem resposta para algumas perguntas. Não tem problema. Você só não pode é dar uma resposta do tipo “fiz isso, porque o meu orientador mandou”. Ou, o pior dos mundos, “não sei por que fiz isso”.

Independente de conseguir responder a maioria das perguntas ou não, acima de tudo, respeite a banca. Ela é composta por três a cinco pessoas que aceitaram a tarefa ingrata de perder horas e mais horas lendo um trabalho extenso (e nem sempre bem escrito), além de doar um dia inteiro do precioso tempo delas para o ritual. E essas pessoas sofrem uma pressão descarada de alguns orientadores para aprovar o candidato. Não é divertido ser banca. A não ser nos raros casos de defesas de alunos bons e humildes, que enchem a todos de alegria. Portanto, não seja aquele candidato imaturo e arrogante, que fica rebatendo tudo que a banca diz, sem ouvir de verdade.

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Respeite a sua banca. Pessoas mais experientes geralmente enxergam desdobramentos que você nem imagina… Fonte da imagem.

O mais importante é saber ouvir com atenção plena as críticas. Pode ser que, devido à tensão do momento, você não compreenda direito o que um membro da banca falou. Tudo bem, faça anotações e depois pense sobre cada ponto com calma.

Além disso, mesmo que algum membro da banca faça observações equivocadas, mantenha a compostura. É claro que, se houver algum membro vaidoso demais, que chegue a transformar o momento em um showzinho particular, é melhor o seu orientador abatê-lo antes que seja tarde demais. Tome muito cuidado com quem você convida para a banca.

De qualquer forma, lembre-se de que, em um momento como a defesa, sob forte pressão emocional, às vezes é difícil diferenciar crítica de ofensa. É tentador se colocar no papel de vítima. Fuja dessa tentação e mantenha a calma e a humildade. Cabe ao seu orientador te resgatar de situações verdadeiramente tóxicas. Só não cabe a ele responder as perguntas por você.

Aliás, um erro muito comum entre orientadores novatos é defender a tese no lugar do candidato. A banca quer saber o quanto o aluno se desenvolveu e quão academicamente maduro ele se tornou. Ela presume de antemão que o orientador sabe muito do assunto e, portanto, não está interessada em apreciar a erudição dele. Banca não é mesa-redonda de congresso.

Por fim, deixo mais um conselho: lembre-se sempre de que a tese é sua e não do seu orientador. Então assuma a responsabilidade e encare o desafio de frente.

 

(Fonte da imagem destacada)

*Texto publicado originalmente no livro do blog em 2017 e re-editado agora.

5 respostas para “O que é uma defesa de tese?”

  1. Bom post Marco! Você acha que poderíamos ou deveríamos sutilmente diminuir o tempo de arguição no Brasil? Com até 1 hora por membro, uma banca de 5 membros pode render mais de 4 horas só de arguição, considerando que o orientador não costuma falar muito. Já vi defesas durarem mais de 6 horas sem breaks, o que talvez dê à defesa uma característica de tortura, ainda que o tema seja super legal.

    1. Obrigado, Rê! Na Alemanha, o candidato tem 20 min para apresentar a tese e cada membro da banca tem 15 min para argui-lo. Eu acho que deveríamos fazer assim. O ponto é que o peso da avaliação não fica todo na defesa, como aqui. A pessoa vai sendo avaliada de várias formas, em diferentes etapas do doutorado, incluindo provas orais.

      1. Oi Marco,

        Interessante! No meu caso eu só tive que qualificar e depois terei que defender. No meu ppg não rola comitês de acompanhamento para minha turma, mas a partir do primeiro semestre de 2019 temos que fazer um pequeno relatório semestral de 2 páginas falando sobre o andamanento do projeto e relatando eventuais problemas. Acho uma boa ideia diminuir o tempo de arguição contanto que o acompanhamento das atividades e amparo seja mais frequente ao longo do doutorado. 15 minutos parece pouco para avaliar uma tese extensa e até mesmo uma tese interessante e complexa. Mas caso ela esteja redondinha, pode ser suficiente. O lance é que nem sempre uma discussão longa é proveitosa..

        1. Então, esse é o ponto. Lá na Alemanha, só vai para a defesa uma tese que está redondinha. As etapas intermediárias de acompanhamento e avaliação servem justamente para detectar problemas desde cedo e apontar soluções em tempo hábil. A defesa acaba sendo mais um ritual do que uma avaliação, ao contrário do que acontece no Brasil. E olha que lá nem existe PPG: doutorado é um contrato direto com o orientador, sem disciplinas ou créditos. Mas existem muitas estâncias de controle e avaliação externa, como comitês, exames orais, qualify etc.

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