O que fazer quando você não curte o seu aspira

Eu já havia dado dicas para aspiras sobre como resolver conflitos com o orientador. Agora vou inverter a perspectiva e dar dicas para orientadores novatos que estão encarando os primeiros problemas com seus aspiras.

“Você me diz que seus pais não entendem
Mas você não entende seus pais” – Legião Urbana

A sabedoria do Legião sempre nos ilumina nas horas mais sombrias!

Quando ainda somos alunos, um dos nossos esportes preferidos é falar mal de orientadores e professores. Tudo bem, nem sempre essas relações são fáceis e é natural fazer fofoca, ao invés de tentar melhorar as coisas. Imaturidade faz parte de ser jovem e fofoca faz parte de ser humano.

Só que um dia nós crescemos e começamos a ver as coisas pelo outro lado. Já vi muito orientador novato começar na função dizendo que não será “opressor como os orientadores que teve na vida”. Espere alguns anos e você verá esse mesmo idealista reclamando dos alunos dele. Tem gente ruim e boa dos dois lados e essa história de opressor é muito relativa. Faz parte da função do orientador, por exemplo, dar broncas quando necessário. Ou mesmo convidar alguém a deixar o laboratório. E faz parte do papel de um bom aluno saber baixar a bola e ouvir essas broncas. Relações interpessoais são particularmente desafiadoras, ainda mais no ambiente de trabalho.

Bom, não há como escapar desse desafio, pois formar novos cientistas é uma das tarefas mais importantes na Academia. Na verdade, é uma tarefa virtualmente obrigatória. Nunca ouvi falar em um emprego de cientista que não envolvesse, pelo menos em parte, treinar a próxima geração. Até mesmo um cientista que trabalha em uma empresa privada precisa, de tempos em tempos, orientar novos funcionários.

Considerando isso, deveríamos aprender técnicas de gerenciamento de equipes para sermos orientadores mais eficientes. Só que o mundo real não é assim e essa é mais uma das lacunas de formação que temos que preencher no calor da batalha. Ao longo dos anos, você vai elaborando a sua própria maneira de orientar por imitação, tentativa e erro. No começo é normal apanhar muito.

Mas nem só de apanhar vive um orientador. Há aspiras bons que nos dão enorme satisfação. Nada é mais recompensador do que saber que você deu as condições para uma pessoa vocacionada converter potencial em realizações. Só que há também aspiras ruis, que podem te trazer prejuízos acadêmicos, financeiros e pessoais.

Vale lembrar que o mundo não é preto-e-branco. Há vários tons de cinza entre aspiras bons e ruins. Alguns podem ser ótimos em um ou mais dos traços de personalidade cruciais para a carreira, mas péssimos em outros. Isso causa dilemas terríveis para você, orientador.

Em um primeiro momento, como a entrevista de estágio, identificar o verdadeiro grau de destreza de um aspira em cada um desses traços é muito mais difícil do que parece. É normal cometer erros, pois a gente só conhece mesmo as pessoas na convivência. Por isso períodos probatórios são importantes. Errar muito nas primeiras escolhas faz parte do nosso amadurecimento. O negócio depois é ir apurando o faro a cada nova coorte, filtrando quem tem vocação para cientista. Conheço colegas que são headhunters de mão cheia!

Ok, mas nem todos nós somos mestres na arte de selecionar alunos. O que fazer quando você tomou todos os cuidados, mas mesmo assim aquele aspira supostamente promissor cria problemas no laboratório? Você não pode empurrar a situação com a barriga. O primeiro passo é identificar qual tipo de aspira ruim você tem em mãos.

Os cinco tipos principais de aspiras ruins

Segue um paralelo com o top five de orientadores ruins.

1. Aspira whatever.

Este é o caso mais simples de todos para o orientador. Se o seu aspira não se interessa por papers saídos do forno, não entra imediatamente na fila de empréstimos quando chega livro novo no laboratório, ou não fica obcecado quando você lhe propõe um desafio intelectual, então ele não nasceu para ser cientista.

Ele pode até ser muito inteligente ou bem formado, mas não terá motivação suficiente para fazer descobertas significativas e sobreviver ao moedor de carne que é essa carreira. Infelizmente, esse perfil se tornou assustadoramente comum na geração millennial e agora parece ser o padrão na iGen.

Ou seja, um aspira devagar, quase parando, que não mostra apetite por conhecimento e muito menos pelo próprio projeto, sempre priorizando outras atividades, deve ser educadamente convidado a sair do laboratório sem maiores dramas de consciência.

2. Aspira fraco.

Como eu disse naquele outro texto sobre os traços de personalidade, aproveitar as descobertas e avanços da ciência é para todos. Dá até mesmo para fazer ciência como hobby, ou colaborar com o trabalho de um cientista como se faz hoje na citizen science. Mas fazer ciência de maneira profissional e ganhar o seu pão com ela é para poucos.

Se você notar que o seu aspira apresenta alguns dos seguintes sintomas, cuidado. Ele não consegue entender os seus conselhos? Ele empaca ao tentar elaborar perguntas? Ele acha difícil escrever textos no próprio idioma materno? Ele sempre precisa que os colegas analisem os dados para ele? Ele atira para todos os lados e não consegue ter coerência em suas escolhas? Então é melhor ele mudar de carreira. O difícil é que, às vezes, aspiras desse tipo são até curiosos e perseverantes, o que torna mais difícil a decisão de desistir de orientá-los.

Aqui vale uma ressalva. É perfeitamente normal alunos bem jovens, por exemplo da iniciação científica, terem dificuldade com tarefas corriqueiras. Mesmo os bons alunos precisam de tempo para aprender o beabá e pegar o ritmo. Você, como orientador, deve saber o que pode exigir de alunos de diferentes níveis.

3. Aspira caótico.

Infelizmente, mesmo que um aspira seja curioso e inteligente, se ele não for disciplinado, dificilmente se desenvolverá como cientista. Fazer ciência é muito difícil e não dá para superar os obstáculos da jornada sem um planejamento eficiente e uma boa rotina de trabalho.

Se o seu aspira não consegue respeitar prazos e organizar atividades, é melhor você não continuar como orientador dele, senão vai acabar se estressando e tendo prejuízos sérios. Se o seu aspira se envolve em um milhão de atividades ao mesmo tempo e não se aprofunda em nenhuma delas, nunca chegará a lugar nenhum. Agências de fomento e PPGs não esperam o humor de um aspira ficar favorável para cobrarem produtos concretos. Muitas vezes, se esses produtos não são apresentados, a conta recai sobre você, o orientador.

A única forma de não se estressar com um aspira desses é você ser um orientador igual a ele. Mas aí os dois provavelmente estão perdidos.

4. Aspira frágil.

Um aspira que não sabe lidar com frustração simplesmente não pode ser um cientista profissional.

Na Academia, os recursos são escassos e a competição por eles só cresce. Logo, recebemos respostas negativas o tempo todo. São os raros e valiosos “sins” que nos fazem seguir em frente. Portanto, quem não é resiliente e perseverante acaba desistindo no meio do caminho. Ou pode até mesmo sofrer um colapso emocional. Isso é muito sério, especialmente na época em que vivemos. A saúde mental dos jovens, dentro e fora da Academia, anda péssima.

Preste atenção aos seus aspiras e, se identificar um que seja particularmente frágil, pense seriamente em convencê-lo a buscar tratamento ou, em último caso, mudar de rumo na profissão. Mesmo pessoas bem-nascidas das gerações millennial e iGen são extremamente frágeis. Carreiras de alta performance, imensamente competitivas, como a acadêmica, podem destrui-las.

Lembre-se também de que pessoas com vocação para a ciência, mas que vieram de famílias pobres ou pertencem a minorias, costumam ter baixa auto-confiança. Isso infelizmente é comum mesmo entre pessoas que se tornaram fortes enfrentando as durezas da vida. Elas precisam de acolhimento e aconselhamento para acreditarem mais em si mesmas.

5. Aspira arrogante. 

OK, hoje em dia, muita gente não sabe ouvir. Contudo, a falta de humildade é mortal na ciência.

É a crítica que nos faz crescer como cientistas e tem o poder de transformar um trabalho bom em excelente. São os conselhos dos colegas que nos permitem evitar armadilhas.  São as bancas de avaliação que nos fazem alcançar novos patamares na carreira. Portanto, se você tem a impressão de que falar com um determinado aspira é como conversar com a porta, melhor afastá-lo.

Por outro lado, às vezes um aspira é tão brilhante, que a opinião dele é diferente da do resto do laboratório. Por isso, antes de rotulá-lo como arrogante ou teimoso, sempre esteja você mesmo aberto a visões alternativas e lhe dê a chance de explicar o raciocínio dele.

Qual é o primeiro passo?

Dou aos novatos o mesmo conselho que dei aos aspiras no outro texto: comece tentando consertar as coisas.

Sim, DR é um negócio chato, mas necessário. Muitos problemas de relacionamento podem ser resolvidos com uma conversa franca, de coração aberto e ouvido atento. Se você quiser ir além e usar técnicas sofisticadas, estude um pouco de comunicação não-violenta.

Além de buscar ativamente conversar com o seu aspira problemático, emita sinais claros. Diga claramente quando estiver dando advertência, cartão amarelo e cartão vermelho. Se o aspira continuar vacilando mesmo assim, aí sinto muito.

E se o meu aspira for ruim, mas gente boa?

Fica mais difícil ainda para o orientador “deixar um aspira ir”, se o sujeito em questão for gente boa. O tipo do cara que todos curtem e não pode faltar ao churrasco. Infelizmente, na nossa cultura, confundimos o profissional com o pessoal e desperdiçamos compaixão com quem não a merece.

Muita gente não se dá conta, mas a falsa compaixão tem mais a ver com vaidade do que com caridade. Muitos orientadores adoram posar de “salvadores”, sem construir nada de bom para seus alunos ou a sociedade. Constroem apenas o próprio ego, suprindo uma carência emocional. Isso é bem comum entre “orientadores Peter Pan“.

Se você está começando a montar um laboratório, lembre-se de que está criando um grupo de trabalho e não um “clube do churrasco” com a galera mais zoeira do pedaço. Ser extrovertido ou introvertido, simpático ou sorumbático, social ou reservado, não faz a menor diferença. O aspira tem é que ter apetite.

E se o meu aspira ruim estiver ganhando bolsa?

Aspiras ruins muitas vezes nos colocam em uma sinuca de bico, se não tomamos uma atitude logo e os removemos do laboratório antes que comecem a custar dinheiro mais sério. Esse é o caso de um aspira ruim que ganha bolsa, mesmo que por pouco tempo, e acaba criando um emaranhado de complicações.

É claro que, se o aspira for mesmo muito ruim, deve perder a bolsa e pronto. Contudo, se ele for um pós-graduando, certamente a agência de fomento que pagou a bolsa vai acabar cobrando a verba de volta, se o cara não concluir o curso. Via de regra, se um aspira vai para a defesa de tese e toma bomba, não precisa devolver a bolsa. Ir até o final e ser reprovado faz parte do jogo. O que um pós-graduando não pode é abandonar o curso.

Nesses casos, evite que a cobrança da bolsa recaia sobre o PPG ou, pior, sobre você mesmo. Tem aspiras que são irresponsáveis a ponto de sumirem completamente do mapa. Tem outros que chegam até mesmo a usar dinheiro público para fins pessoais. Converse com o coordenador do curso sobre casos particularmente preocupantes e documente bem tudo que aconteceu.

Muitos se esquecem de que vivemos em um país onde milhões de pessoas sequer têm o que comer ou onde morar, enquanto alguns reclamam de ganhar bolsas de doutorado que valem o dobro do salário mínimo e ainda empurram as próprias teses com a barriga. Pergunte a um aspira batalhador, que veio das classes B ou C, se ele acha a bolsa ruim. Pois é, a maioria dos aspiras nas universidades públicas ainda vem da classe A, o que torna a perspectiva de preço/valor deles bem enviesada.

E se o meu aspira tiver uma base fraca, mas for bom nos cinco traços de personalidade?

Nesses casos, pode valer a pena investir nele. Obviamente, não dá para um aspira analfabeto funcional fazer mestrado, muito menos doutorado. Ele precisa primeiro preencher lacunas de formação, para só depois pensar em cursos de nível superior. Como voar sem antes aprender a andar?

Contudo, se a base do tal aspira não for tão catastrófica assim, pode ser que ele precise apenas de uma chance para correr atrás do prejuízo e alcançar os outros. Naturalmente, um aluno desses terá que trabalhar o dobro ou mais do que os colegas. Então ele terá que ser informado honestamente sobre essa realidade para decidir se quer mesmo fazer esse esforço todo. Você, como orientador, provavelmente também terá que dar mais atenção a ele do que a outro aspira bem formado, então precisa ponderar se está disposto a isso.

O importante nesses casos é que, como eu disse antes, vivemos em um país extremamente desigual. Muitos jovens com vocação para a ciência acabam nem tentando essa carreira, porque deram o azar de nascer em um contexto desfavorecido e a oportunidade sequer lhes foi apresentada. Para muitas famílias pobres não falta apenas dinheiro, mas principalmente informação sobre os múltiplos caminhos que a vida nos oferece. Se você puder ajudar a corrigir esse tipo de injustiça, faça-o.

Conselhos finais

Seja tão seletivo quanto possível ao aceitar novos aspiras no laboratório, pois isso evita muitos problemas futuros. Leve diversos fatores em conta, dos acadêmicos aos socioeconômicos. Defina desde cedo qual é o seu perfil como orientador e que tipo de aspira você é bom em orientar.

Deixe os invejosos lhe chamarem de arrogante, porque depois eles não vão te ajudar a desatar os nós criados por aspiras ruins. Ser um orientador compassivo demais ou “r-estrategista”, como muitos no Brasil, é ruim não apenas para você, mas também para os seus aspiras e a sociedade.

E, por fim, sempre converse abertamente com os seus aspiras e ajuste suas expectativas mútuas. Sugiro, por exemplo, acordar um plano de orientação com eles desde o primeiro mês no laboratório. Também ajuda muito ter registradas em um documento facilmente acessível, como um estatuto, as regras do seu laboratório, incluindo direitos e deveres.

 

*Texto publicado originalmente no livro do blog em 2017 e re-editado agora.

(Fonte da imagem destacada)

3 respostas para “O que fazer quando você não curte o seu aspira”

  1. Ótimo texto Marco!

    Sou aspira mas tenho um comentário que acho que poderia melhorar um pouco a situação dos professores que tem problemas com alunos. Levando em consideração que muitos programas de pós graduação são como concursos públicos, ou seja, quem passar o orientador deve orientar, principalmente no mestrado (onde fiz mestrado foi assim), o orientador meio que fica inibido de poder convidar o aspira a se retirar por conta da bolsa e o compromisso estabelecido com o órgão de fomento. Os programas de pós poderiam passar a adotar relatórios bimestrais para se ter um controle do andamento do projeto do aluno, com o devido consentimento do orientador, como forma de controle até mesmo para que o orientador possa convidar o aluno a se retirar caso ele não cumpra com as suas obrigações. Acho que esse modelo atual de muitos programas exigirem somente uma qualificação (ainda mais no mestrado, após um ano, sendo que pra chegar lá não precisa ter executado absolutamente nada do projeto, somente ter uma introdução, hipóteses e metodologia) acaba deixando os alunos muito soltos (mesmo cumprindo créditos) e tornando muito mais difícil de se detectar quem ainda está empurrando com a barriga ou até mesmo quem já abandonou o barco.

    Abraço.

    1. Obrigado, Cássio! Concordo totalmente contigo. Já tratei dessas questão em outros texto: precisamos de protocolos de acompanhamento dos alunos de PG. Não adianta colocarmos o peso todo apenas em avaliações finais ou semi-finais. Na USP, temos os comitês de acompanhamento de tese, que servem como um controle externo ao orientador. Eles ajudam a coordenação a monitorar se vai tudo bem com aspira, orientador, relação entre os dois, aproveitamento em disciplinas e andamento da tese.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.