Representatividade das mulheres na ciência

Olá pessoal,

Recentemente tive a alegria de passar uma semana discutindo habilidades para jovens cientistas e diversidade na ciência durante um workshop latino-americano focado em mulheres na física.

Desde que entrei para o mundo acadêmico em 2007, nunca havia visto um evento assim no Brasil. Da mesma forma, este ano assisti pela primeira vez uma mesa redonda sobre mulheres na ciência e organizei o primeiro simpósio sobre comunicação científica no CBMz 10.

Ou seja, parece que estamos falando mais sobre mulheres na ciência e as mulheres estão falando mais sobre ciência. Assim, inspirada por esses eventos recentes, resolvi escrever sobre viés de gênero no mundo acadêmico, focando na representatividade das mulheres.

O ponto é que seres humanos são cheios de vieses, a maioria deles inconsciente.

Nós, cientistas e aspiras, somos humanos e, portanto, também temos vieses. Não estamos livres deles, por mais sistemáticos e metódicos que sejamos no nosso dia-a-dia. Além disso, ser uma pessoa inteligente não significa fazer sempre boas escolhas na vida ou sempre enxergar o mundo de maneira objetiva.

Assim, vivemos em uma sociedade machista e o mundo acadêmico reflete essa realidade. Isso quer dizer que observamos sexismo diariamente nas instituições acadêmicas brasileiras. Isso causa sofrimento a mulheres e outros grupos negligenciados, como pessoas de gêneros não-binários.

Apenas 30% dos cientistas no mundo são mulheres, e este valor este valor não reflete proporcionalmente o percentual de mulheres na população (49.58%). Este fenômeno global é o chamado viés de gênero (gender bias).

No Brasil, professoras brancas não chegam a 20% do total de professores de pós-graduação. Imagine então quantas devem ser as professoras negras? Menos de 3%!  Esse é um exemplo gritante de viés de gênero somado a outros vieses, como o racismo. Para piorar o quadro, ser mulher implica em não desfrutar de diversos privilégios dados aos homens, que muitas vezes não se dão conta de quão privilegiados são.

Para ilustrar esses vieses e privilégios, vejamos alguns fatos e situações que ocorrem frequentemente no mundo acadêmico:

  1. Conferências, bancas e comitês com poucas ou nenhuma mulher são bastante comuns. São as famosas menferences, himposiums e all-male panels;
  2. Há uma falta de modelos de comportamento (role models) femininos para aspiras. Reflita sobre os seus cinco principais role models na ciência. Quantos são mulheres?
  3. Homens são frequentemente mais premiados do que mulheres em eventos de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática);
  4. Homens são mais associados a cursos de ciências exatas e mulheres a cursos de humanas e biológicas. Este viés pode ser implícito e você pode testar o seu aqui (Leia as condições e vá para o teste de gênero);
  5. Mulheres sofrem assédio em ambientes de trabalho mais frequentemente do que homens;
  6. À medida que se progride verticalmente na carreira científica, a proporção de mulheres cai. Ainda que o viés de gênero em uma etapa de carreira seja minimizado, existe uma lacuna de gênero (gender gap). Ela nada mais é do que um menor número de mulheres em cargos mais altos comparado aos homens. Isso acontece tanto em termos de remuneração quanto em termos de poder político e prestígio. Ok, sabemos que nas universidades públicas brasileiras os salários e bolsas de produtividade são padronizados. Eles variam em função do nível atingido na carreira e dos cargos administrativos assumidos. Contudo, mesmo assim há gender gap na progressão vertical e na atribuição de bolsas de produtividade;
  7. Na ciência, homens em média são mais produtivos do que mulheres. Sobre isso, vale muito a pena ler este artigo de síntese baseado em meta-análise, que traz uma discussão interessante sobre o assunto. A conclusão é de que, na verdade, mulheres têm a mesma taxa de sucesso em publicação de artigos científicos do que homens. Contudo, esse sucesso não se traduz em cargos, financiamentos ou comitês na mesma proporção observada entre homens;
  8. Mulheres deixam a carreira de cientista para serem mães e, depois, têm dificuldade para voltar a ela em dedicação exclusiva. Nos EUA, quase metade das mulheres cientistas deixam de trabalhar integralmente na área após terem o primeiro filho. Iniciativas de licença maternidade e paternidade são uma novidade recente para bolsistas no Brasil, mas há relatos sobre a enorme dificuldade de ser mãe durante a pós-graduação. E, após a maternidade, há uma flutuação natural na produtividade das pesquisadoras, o que nem sempre é atenuado nas avaliações aplicadas por programas de pós-graduação, bancas de concurso ou outras instâncias seletivas.

Por que o viés de gênero pode ser um problema?

Todos esses vieses e lacunas comentados podem desencorajar mulheres a seguirem carreira na ciência. Além disso, a criação de estereótipos e discriminação é danosa para muitas delas. Dessa maneira, o viés de gênero pode perpetuar por gerações a falsa noção de que as mulheres não são aptas para cargos de chefia na Academia. Até mesmo algoritmos podem refletir o viés de gênero, ilustrando ainda mais a complexidade deste fenômeno. 

Por fim, o viés de gênero pode diminuir a produtividade de um grupo de pesquisa. Isso porque a produtividade aumenta com a diversidade da equipe, que promove uma diversidade de pontos de vista. Visões diferentes aumentar a chance de se chegar a soluções criativas, em última instância, aumentando inclusive a qualidade de vida do grupo mal representado. Organizações como a FAO e algumas empresas focadas em inovação já reportaram que diminuir o viés de gênero aumenta a produtividade.

Existem alternativas para diminuir o viés de gênero

O primeiro passo para contribuir para a diminuição do viés de gênero na ciência começa por reconhecer que ele existe e fazer algo para diminui-lo. A seguir, listo algumas das soluções que foram discutidas durante o workshop e que podem ser aplicadas no seu dia-a-dia. Dicas são bem-vindas nos comentários!

Você pode fazer parte da solução:

  1. Inclua mulheres no seu grupo de trabalho e as ouça;
  2. Cuidado com o mansplaining (algo como “homenxplicação”). Esse é um fenômeno sexista super comum no ambiente de trabalho;
  3. Achou um artigo legal? Envie o pdf para suas colegas mulheres! 
  4. Reflita se você objetifica mulheres e pense em como poderia mudar isso;
  5. Coloque-se no lugar da outra pessoa, desenvolva a sua empatia;
  6. Se você ainda não sabe quais comportamentos podem ser considerados assédio moral ou sexual, veja esta cartilha;
  7. Quer mais mulheres no congresso que você está organizando? Considere fazer este congresso em locais que sejam amigáveis a crianças. Procure incluir serviços profissionais de childcare ou babysitting e disponibilizar espaços reservados para famílias. Neste link há algumas dicas de baixo custo que podem ser úteis;
  8. Vai defender seu mestrado ou doutorado? Componha uma banca diversa, que não inclua apenas homens. Sim, os candidatos podem dar sugestões e montar a banca junto com o orientador.

O cenário para as mulheres na ciência é positivo

Apesar de a jornada do cientista ser árdua, mais ainda para mulheres e outras minorias, há um movimento grande tentando melhorar as coisas e você pode fazer parte dele (veja a seção a seguir).

Por exemplo, o acesso à educação para as mulheres melhorou muito nos últimos anos. Estamos em um século cheio de oportunidades para avançar. O significado de ser cientista não deve estar mais atrelado a um homem branco e idoso, desleixado com a aparência, de jaleco, segurando um tubo de ensaio.

Sim, estereótipos podem ser mudados, assim como mentalidades. Uma das características mais incríveis dos seres humanos é a sua capacidade de se adaptar e realizar coisas imprevisíveis. Acredite que os seus pares na ciência, até a pessoa mais machista que você conhece, podem mudar.

Por fim, essa mudança pode ser potencializada pelas redes sociais. Podemos procurar e compartilhar orientações de diversas maneiras. Há uma cultura crescente que estimula o uso das mídias sociais para mudanças sociais efetivas na ciência, incluindo a busca por igualdade de gênero. Comece compartilhando este post! 

Para saber mais:

  1. O que foi apresentado no workshop (clique em Videos&Files)
  2. Estatísticas globais – Global Survey of Scientists (Laura Merner – AIP)
  3. How the entire scientific community can confront gender bias in the workplace
  4. Em quem você pensa quando ouve “cientista”?⁣
  5. Ciência e Mulher
  6. Revista Mulheres na Ciência
  7. Para mulheres na ciência
  8. 500 Women Scientists
  9. World forum for women in Science – Brazil 2020
  10. Onde as cientistas não têm vez
  11. Gender balance of the faculty and chairs of N. American EEB departments

Agradecimentos

Agradeço imensamente a todas as mulheres incríveis que conheci durante o workshop. Agradeço ao Marco pela revisão do post.

(Fonte da imagem destacada)

4 respostas para “Representatividade das mulheres na ciência”

  1. Algo que gosto bastante da minha vida acadêmica é sempre fui orientado por mulheres! Dalva, Karen, e Eli. E entre outros mestres e mestras que tive, teve Miltinho e Marco Batalha, mas também teve Lina e Haydée. A minha banca de doutorado foi puramente masculina, mas foi uma coincidência, sem qualquer intencionalidade nisso. ^^

    1. Muito legal Pavito! Eu nunca tinha pensado em diversidade em bancas até recentemente, quando tivemos que montar a minha. Graças a minhas amigas e a muitas discussões produtivas que tivemos, conseguimos montar uma banca diversa 🙂

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