A impermanência e o sofrimento

Crises revelam o pior ou o melhor de cada pessoa. Qual lado seu você quer que emerja?

O filósofo grego Heráclito dizia que nada é constante a não ser a mudança.

Segundo ele, é impossível banhar-se duas vezes no mesmo rio. Isso porque, mesmo que você entre nas águas sempre em um mesmo ponto, elas já correram desde a última vez. Logo, a água que você toca é outra, então o rio também já não é mais o mesmo.

Nem o rio, nem você, nem nada permanece igual. Alguns séculos antes de Heráclito, o Shakyamuni Buddha também já havia entendido isso. Um dos pilares dos seus ensinamentos é o conceito de impermanência. A impermanência é como uma grande roda, que nunca pára de girar e faz com que até mesmo a mais bela das flores um dia murche.

Por que chorar pela linda flor perdida, se tivemos o privilégio de contemplá-la? Já que tudo de mais precioso um dia acaba, não podemos nos apegar a nada. O melhor é apreciar cada coisa durante o tempo que nos é dado, vivendo no presente. Não devemos reclamar do que perdemos, mas sermos gratos pelo que tivemos.

Não cultivar essa gratidão leva a uma dor adicional desnecessária. E a vida já é repleta de dor, seja ela física, emocional ou espiritual. Sobre a dor não temos controle. Mas podemos escolher não sofrer, porque o sofrimento vem da nossa reação à dor. Essa reação é o tema da parábola das duas flechas.

Se a vida lhe causar dor através de uma flechada, como por exemplo agora neste momento de profunda crise mundial, não atire uma segunda flecha em você mesmo. Por exemplo, se você já está obrigado a permanecer em quarenta, não adianta ficar constantemente reclamando do isolamento. Quebre o clico dor-sofrimento: acolha a sua dor, processe-a e tente tirar algo de bom dela.

Encontrar o lado bom da dor é um aprendizado difícil, mas que nos faz amadurecer de maneira muito profunda. Passamos a ver beleza tanto na flor, quanto na não-flor, porque o vazio é a forma e a forma é o vazio. Aprendemos que nunca perdemos nada de fato, porque nunca tivemos a posse real de nada.

O ponto é que todos vamos perder muitas coisas nos próximos meses. Desde sonhos até entes queridos, passando por empregos. Agora, mais do que nunca, a nossa resiliência, compaixão e empatia serão postas à prova. Precisamos nos manter abertos à mudança, ao invés de lutar contra ela.

Essa mudança imediata nas nossas vidas é inevitável, porque o mundo já mudou. Portanto, podemos enxergar essa crise como uma oportunidade de mudança espontânea além da mudança forçada. Crises são como a dança de Shiva: momentos em que se destrói para se poder construir.

O que você quer construir? Repense os seus valores, as suas metas e a sua rotina. Repense como tem tratado a si mesmo e aos outros. Repense o que realmente importa na sua vida.

Vida e morte estão pulsando e o solo está exposto. Agora é a hora de plantar as sementes do futuro que você quer ver desabrochar.

“Quem acreditou
No amor, no sorriso, na flor
Entao sonhou, sonhou…
E perdeu a paz
O amor, o sorriso e a flor
Se transformam depressa demais” – Tom Jobim

(Imagem destacada: foto de uma sakura por Marco Mello)

 

4 respostas para “A impermanência e o sofrimento”

  1. Marco,

    obrigada por esse e texto que tem um final perfeito e abre tantos caminhos para reflexão. Eu precisava ler isso, e principalmente ouvir Meditação.
    Essa situação delicada que milhões de pessoas estão passando também vai passar.
    Uma amiga me disse que as pessoas são como uvas. Quando você as aperta, se pode ver como elas são por dentro. Agora é o momento de sentirmos quem somos e quem queremos ser..

    abraços

    1. Oi Rê, de nada! Fico feliz que o texto tenha provocado reflexão. Crises são momentos em que a vida re-embaralha as cartas. Devemos focar na nova mão que recebemos e não na mão da rodada anterior.

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