Inovar ou incrementar, eis a questão

Aproveitando a deixa do post sobre o porquê de publicar em revistas menores e a atual pandemia, vamos continuar o papo sobre publicações e produtividade.

Ultimamente, somos perseguidos pela palavra “inovação”. Sigo esperando o momento em que estarei em frente ao espelho de manhã, fazendo a minha higiene bucal, e alguém surgirá tentando me convencer de que preciso inovar a forma como escovo os meus dentes.

A ciência, como as demais atividades humanas, não foge dessa moda. Várias fontes de financiamento à pesquisa (aquelas que ainda restam) dizem buscar projetos que propõe ciência inovadora.

Independente de qualificarmos essa moda como certa ou errada, a questão é muito mais profunda. Isso porque ninguém define claramente o que é inovação.

Então como é possível navegar no mar revolto do fomento à pesquisa sem ter um destino claro?

Bom, pense que você está construindo um muro. Sim, um muro.

A era dos muros | Wall Street International Magazine
Um muro 🙂 Foto retirada de: https://wsimag.com/pt/economia-e-politica/24424-a-era-dos-muros

Para construir um muro, você precisa de tijolos e cimento. Sem eles, não há muro. É como diz o ditado: “um tijolo sozinho não faz murão”. Mas vários tijolos empilhados e com a quantidade certa de cimento transformam-se em algo maior do que os tijolos sozinhos.

Nesta belíssima analogia (#ironia), podemos pensar que os tijolos são os estudos publicados em revistas menores. Ou seja, estudos locais, focados em um determinado modelo e não em grandes teorias, que não tentam resolver os problemas da vida, do universo e de tudo mais. Muitas pessoas pensam que esses estudos são desnecessários e não deveriam ser financiados por não inovarem o suficiente.

Mas será que esses estudos inovam ou não? A maioria das pessoas dirá que não, mas cada uma delas explicará o seu não de uma forma diferente. Essa multiplicidade de explicações reforça a ideia de que eles realmente não inovam? Para ser sincero, não sei.

Quando entro nessa discussão, me pergunto: “eu consigo construir um muro só com um tijolo desses?” Apesar de não levar a uma resposta definitiva para a questão da inovação, essa pergunta a coloca em perspectiva. Ela nos mostra que nem todos os estudos são tão importantes quanto achamos. Contudo, mesmo os estudos menos importantes possuem algum valor. Esses estudos menores, teoricamente menos inovadores, compõem a base do nosso muro. Sem eles, a estrutura colapsa.

Um belo exemplo da importância das partes para constituir o todo são as meta-análises. Nesse tipo de trabalho, cientistas usam todos os tijolos disponíveis sobre um determinado problema e avaliam a sua força de evidência para responder alguma pergunta de escopo mais amplo. A meta-análise é, portanto, uma boa ferramenta para avaliarmos a robustez do muro. E essa avaliação é impossível quando ainda não há tijolos suficientes no muro, por menores que eles sejam.

A diferença entre um tijolo e o muro é um dos motivos pelos quais os cientistas falaram para não usarmos a fosfoetanolamina no tratamento do câncer alguns anos atrás. Também é o motivo para tomarmos cuidado com a hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. Olhar isoladamente para uma substância supostamente milagrosa no calor de uma crise é como olhar para um tijolo solitário: faltam todos os outros tijolos para avaliarmos a robustez do muro.

Portanto, devemos investir somente em ciência inovadora? Não sei, mas você consegue construir um muro sem tijolos?

 

Gostaria de agradecer ao Prof. Dr. Paulo Cunha da Lana (Professor Titular na UFPR) por ter me chamado a atenção para este tópico. Ele dividiu os tijolos e o muro em ciência incremental e ciência inovadora, respectivamente. Não sei se esta terminologia é dele, mas foi ele quem me apresentou a ela. Por isso, dou-lhe crédito.

 

3 respostas para “Inovar ou incrementar, eis a questão”

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