Pandemia do novo coronavírus: Parte 3 e carne

No dia 11 de março de 2020, a OMS declarou oficialmente que o mundo estava enfrentando uma pandemia de COVID-19. Com diversas quarentenas e lockdowns instaurados globalmente, as pessoas precisaram adaptar-se a novas rotinas. Com essa tentativa de adaptação surgiram muitas dúvidas a respeito da origem do coronavírus, da cura e de como poderíamos prever novas pandemias. Uma dessas perguntas chegou até mim pela Lia Kajiki, que queria saber se mudanças no nosso hábito alimentar poderiam reduzir o risco de contágio por patógenos. Venha comigo discutir este tema na parte 3 do nosso pacotão sobre pandemia.

Este post aborda uma discussão iniciada no Twitter e, depois, nas lives do nosso blog. Aqui eu desenvolvo um pouco melhor a minha resposta a este tópico tão complexo. Vou focar na relação entre patógenos virais, consumo de produtos de animais, humanos e mudanças globais.

O SARS-Cov-2 é um vírus que causa a COVID-19. Vírus são partículas minúsculas que se utilizam de células para se reproduzir. Sem uma célula hospedeira, eles não podem se reproduzir, pois não possuem organelas celulares. No processo de entrar na célula hospedeira e comandá-la a fabricar milhares de cópias de si mesmos, os vírus acabam destruindo-a. A partir daí, os novos vírus podem entrar em novas células e repetir o processo. Mas de onde veio esse novo coronavírus, que antes não parasitava células humanas?

​Até o momento, a origem do SARS-Cov-2 ainda é incerta. Não há evidência alguma de que ele foi criado em laboratório e tudo indica que sua origem foi natural. Contudo, não sabemos exatamente qual animal foi o hospedeiro último logo antes dos humanos, causando os primeiros surtos da doença em Wuhan, China. Sabemos que um dos agregados iniciais da doença em seres humanos era de pessoas que haviam circulado pelo mercado de Wuhan, onde são vendidos diversos animais silvestres para consumo (alimentício e medicinal).

Muitos vírus importantes que causam doenças em humanos (SARS-Cov, Hendra, Nipah, Ebola, HIV etc) são zoonóticos e surgiram por transmissão indireta (por exemplo, alimento contaminado com vírus). Isso foi o que, muito provavelmente, também aconteceu com o SARS-Cov 2. Sabemos disso, pois ao avaliar o genoma desse vírus, descobrimos uma alta similaridade com coronavírus de outros mamíferos, como os pangolins e os morcegos. Portanto, os coronavírus da COVID-19 têm uma ancestralidade muito próxima aos coronavírus desses animais.

Então alguém comeu um morcego ou um pangolim e ficou doente? Simples assim?

Não é tão simples assim. Um vírus de um morcego pode saltar para um ser humano de forma indireta, como o que aconteceu com a Nipah vírus em Bangladesh. A fonte mais provável de infecção nesse caso foram frutos infectados com o vírus. Esses frutos infectados basicamente eram frutos que haviam sido mordidos por morcegos infectados, e portanto, carregavam saliva com vírus.

Só que o contágio também pode ocorrer por mordida, contato com material infectado ou ingestão de carne infectada. Por isso e por outros motivos importantíssimos (como a lei de proteção aos animais silvestres ou o fato de esses animais não serem vacinados) desencorajamos ao máximo o consumo de carne de animais silvestres!

O contato descuidado com a carne, bem como o manuseio e ingestão de carne mal cozida, podem transmitir diversos patógenos e parasitas, seja essa carne provinda de animais domésticos ou silvestres. E, não, isso não é um problema só na China. Basta pensar nas condições sanitárias da maioria dos mercados centrais de muitas cidades brasileiras, onde são vendidos vários animais vivos em gaiolas.

Novos patógenos podem levar ao surgimento de novas doenças, como no caso da assustadora COVID-19. Entretanto, uma vez que um patógeno consegue se replicar em humanos, o fato de as pessoas serem onívoras ou vegetarianas não vai mudar a chance de uma epidemia se estabelecer. Uma vez que o patógeno se replica irrefreavelmente no ser humano, aí não adianta mais controlar a dieta. Já é tarde demais.

Isso significa que é importante que haja protocolos muito sérios de saúde para produzir, transportar, comercializar e preparar carne. E esses protocolos existem, mas ainda assim não são perfeitos, como podemos ver nos surtos de COVID-19 em trabalhadores de frigoríficos e distribuidoras de carne. Não apenas por conta da COVID-19, é importante repensarmos a forma como temos produzido carne, considerando especialmente o confinamento feito na criação intensiva e a falta de variabilidade genética nos animais de produção.

É importante ressaltar que o Brasil, embora seja um grande consumidor de carne e também o país com mais cabeças de gado do mundo, está longe de ter como padrão o confinamento intensivo das boiadas. Por conta disso e da urgente necessidade de se reduzir o desmatamento, o país está investindo muito na intensificação da produção de gado. A criação intensiva de bois cresce rapidamente no país. Entretanto, caso o crescimento seja muito acelerado, haverá mais poluição (aumento da pegada de carbono), baixa qualidade de vida animal e mais desmatamento.

Mas não era pra reduzir o desmatamento?

Sim! Quando se desmata uma floresta nativa primária, a floresta que cresce no lugar não terá a mesma qualidade da original. E, quando se desmata uma floresta, muitos animais morrem no processo. Os que não morrem acabam fugindo da área desmatada para novas áreas, como outras florestas, fazendas, vilas e cidades. Isso leva a um aumento no contato entre pessoas e animais silvestres.

Este contato pode aumentar a chance de contágio por um novo vírus, por exemplo. Desta forma, a combinação desses fatores aumenta a nossa susceptibilidade a doenças emergentes zoonóticas. Ligou os pontos? Os impactos ecológicos da pecuária são bastante preocupantes. Por isso devemos escolher com cuidado de qual produtor compramos a carne que servimos nas nossas mesas, pensando em novos mecanismos de certificação. Deveríamos também repensar a quantidade de carne que consumimos.

O que podemos fazer?

Nos ambientes naturais, o mais importante seria frear a caça e o tráfico ilegal de animais silvestres. Essas atividades, além de criarem vários outros problemas, vêm acompanhadas de péssimas condições de transporte e manuseio para os bichos e para os humanos em contato com eles.

Enquanto consumidores, temos algum poder de escolha dos produtos que utilizamos. Assim, as nossas escolhas podem apoiar ou não o status quo da produção de carne. Não precisamos de um mundo feito apenas de pessoas que não comem nenhuma carne, mas precisamos de um mundo cheio de pessoas que praticam o consumo consciente na medida do possível, e não somente em relação à redução no consumo de carne.

Mudanças no hábito alimentar reduziriam os riscos de uma nova pandemia?

É importante ressaltar que o risco de spillover (salto de um vírus animal para um ser humano) que leve a uma pandemia em humanos é muito difícil de prever, mas já conhecemos importantes fatores ecológicos que se correlacionam com hotspots de doenças (áreas de alto risco). O risco de doenças emergentes infecciosas é alto em regiões tropicais florestadas que sofrem rápidas mudanças no uso da terra e onde a biodiversidade de mamíferos é alta.

Essa descrição te lembra o Brasil? Pois é, nosso país é um forte candidato a apresentar novos patógenos potencialmente perigosos, juntamente com diversas áreas do sudeste asiático. Dá uma olhada no sudeste do Brasil aqui:

Picture3
O mapa mostra o risco estimado de eventos de emergência de zoonoses após considerar tamanho da população humana local. Adaptado a partir de: Allen, T., Murray, K. A., Zambrana-Torrelio, C., Morse, S. S., Rondinini, C., Di Marco, M., Breit, N., Olival, K. J., & Daszak, P. (2017). Global hotspots and correlates of emerging zoonotic diseases. Nature Communications, 8(1), 1–10. https://doi.org/10.1038/s41467-017-00923-8

Sabemos também que mudanças climáticas podem contribuir para o espalhamento de novas doenças e catástrofes naturais (como o aumento de mortes por malária, enchentes e secas). E o aumento desordenado da pecuária intensiva não é favorável para amenizar as mudanças climáticas.

Por isso, caro leitor, tenha em mente que cada escolha individual tem, sim, peso para o que acontece globalmente, principalmente durante e após a atual pandemia.

Podemos prever novas pandemias? 

Estimar o quanto cada um dos diversos fatores mencionados aqui influencia o surgimento e espalhamento de um novo patógeno é uma tarefa complexa e cheia de incertezas. De qualquer forma, temos um grande volume de conhecimento acumulado ao longo dos séculos desde a descoberta dos microorganismos.

Pandemias anteriores, como a gripe espanhola de 1918 e a SARS de 2003 também foram oportunidades em que pudemos aprender muito. Sabíamos que era só uma questão de tempo até uma nova pandemia surgir e já vínhamos nos preparando para esse cenário. Contudo, prever exatamente quando, onde e como surgirá uma nova pandemia é extremamente difícil. O mapa de calor mostrado anteriormente é uma das ferramentas úteis para focarmos esforços de vigilância epidemiológica e evitar que novas pandemias se alastrem.

Mais difícil ainda do que avançar a parte científica da solução desse tipo de crise é coordenar a parte política. Uma pandemia só pode ser prevista ou controlada através da ação conjunta de vários atores sociais, incluindo profissionais da saúde, cientistas, professores, políticos, líderes comunitários, empresários, militares e cada um de nós individualmente, como cidadãos. Mais importante do que saber o que devemos fazer para superar a crise é aderir a ações positivas e dar bons exemplos.

Então volto a reforçar: pense nas suas escolhas e em como elas podem moldar esse novo mundo.

Mensagens finais

  1. Animais silvestres são fundamentais para manter serviços ecossistêmicos, não passam por inspeção sanitária e são protegidos por lei. Portanto, não devem ser consumidos.
  2. O crescimento desordenado da pecuária intensiva pode causar aumento na poluição e no desmatamento, aumentando o risco de surgimento de novos patógenos.
  3. O aumento do contato entre seres humanos e animais silvestres provocado pelo desmatamento leva a um aumento no risco de novas doenças zoonóticas.
  4. O consumo consciente pode nos ajudar a enfrentar a pandemia e a crise climática.
  5. Ações integradas de vigilância epidemiológica em diferentes níveis são necessárias para o controlar o que estamos enfrentando e para nos preparar para o que ainda está por vir.

Agradecimentos

Agradeço demais a Lia pela troca de ideias e a Marco e pela revisão do texto.

Leituras recomendadas

  1. ccu cgg cgg gca As doze letras que mudaram o mundo
  2. Is the coronavirus pandemic related to meat production and consumption? We ask the experts
  3. Will COVID-19 change our food habits?
  4. Cattle ranching intensification as a key role on sustainable agriculture expansion in Brazil
  5. Event 201
  6. Fontes para a arte da capa: Creazilla e Our World in Data

 

6 respostas para “Pandemia do novo coronavírus: Parte 3 e carne”

  1. Oi Renata, fiquei super feliz que a nossa conversa virou um artigo aqui. Como você menciona logo no começo, o assunto é complexo e tem muitas facetas a serem exploradas, porém você apresentou argumentos importantes e que refletem uma pesquisa ampla. Até então, vi pouquíssimas iniciativas discutindo o assunto na mídia e no meio científico, então muito obrigada por contribuir com a discussão.

    A vida de todos os seres gira, em grande parte, em torno da alimentação. Observamos as mais diversas formas de co-evolução morfológica e comportamental na obtenção de energia/alimento. Eu acho curioso que nós, que temos tanta tecnologia e conhecimento, na maior parte optamos ignorar pensar sobre.

  2. Excelente texto Renata. Aprendi muito com as informações compartilhadas por você. Adicionalmente, aproveito a oportunidade para parabenizar a todos do Sobrevivendo na Ciência, pela maneira super didática com que tratam temas muitas vezes complexos.

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