Afinal, por que é tão difícil escrever ciência?!

Neste post, veremos um dos motivos pelos quais é tão difícil escrever os famigerados artigos científicos.

Disclaimer: Essa é uma repostagem de um post que fiz anos atrás para outro blog. O Edu falou que eu podia repostar aqui, então mandei ver. Valeu, Edu! O link para original é este aqui.

O despertador toca. Aquele som agudo, alto, penetra fundo na sua mente e te desperta. Um novo dia começou, de uma forma nada agradável. Você levanta, sonolento, pensando: ‘por que eu tenho que levantar mesmo?’. Você toma café da manhã e vai para o laboratório. Chegando lá, liga o computador, faz café, senta na frente do computador, abre o Word. Dá um pequeno, mas demorado, gole de café. Olha para a tela e pensa: “agora a mágica vai começar!’.”

Todos aqueles longos meses de experimentos, sofrimentos, leituras noturnas de artigos (porque era o tempo que sobrava). Todas essas experiências preparando você para esse momento único. “Vou escrever a minha tese agora”. Dois minutos se passam. Nada, nenhuma ideia. Após mais cinco minutos (que parecem uma hora), nada acontece. O piscar do cursor do Word parece intimidador. Todas as palavras fugiram dos seus dedos — e você achando que tinha tudo delineado na sua cabeça, né? A partir daí é só ladeira abaixo. Dúvidas começam a surgir, você não sabe por onde começar. O desespero toma conta. Você não consegue escrever aquilo que vinha planejando há anos.

Achou essa descrição similar a alguma coisa que aconteceu contigo? Ou com alguém que você conhece? “Meu deus, como ele sabe?” Será que eu deveria virar vidente?

Apesar de eu gostar de acreditar que sim (#AlexandreVidente), isso é apenas um quadro muito comum entre cientistas, independentemente da fase da jornada em que eles se encontram. Todos cometemos dois erros fundamentais que destroem qualquer tentativa de escrita.

O primeiro é pensar que é só sentar e escrever, que a escrita vem da inspiração. O segundo é pensar que a nossa primeira versão será o melhor texto de ciência já escrito ever. Que o mundo será lindo e todos vão amar o que você escreve logo de cara. Além de estar longe da verdade, essa frustação é contraprodutiva. Não produzimos com a qualidade que queremos e vivemos sob essa pressão para escrever. Sempre na beira da ansiedade e podendo virar depressão. O que podemos fazer contra isso?

O ponto que quero mostrar neste texto é que precisamos praticar mais. Pode parecer estranho pensar em praticar escrita, mas não é. Em qualquer atividade que fazemos, das mais simples às mais complexas, é necessário treino.

Esportes requerem que você não só treine os movimentos em si, mas também o seu corpo. Instrumentos musicais, nem se fala. É só olhar o filme Whiplash – Em Busca da Perfeição. Cozinheiros passam anos treinando até abrirem seus restaurantes. Há documentários, como Chef’s Table, que dizem que uma pessoa só se torna chef depois dos 45 anos.

Até os seus experimentos ficam melhores com mais prática. No início, tudo é difícil. Você pensa muito no que faz e os movimentos são desengonçados. No final, todas as tarefas parecem automáticas – você colocou os tips de 0,1 ml próximos das pipetas que vai utilizar para isso. Os tips de 0,05 ml, no entanto, estão mais próximos do PCR, pois são os últimos a serem utilizados. Tudo virou uma linha de montagem. A essa altura dos experimentos, você não quer nem mais a ajuda de outras pessoas, porque elas atrapalham o seu fluxo de trabalho.

Então por que acreditamos que escrever não precisa de treino? Escrever é uma atividade como qualquer outra.

Todos os autores de sucesso escreveram e continuam escrevendo — e muito — todos os dias. Faz parte do ofício deles. Por que não fazemos o mesmo? “Mas eu preciso de algo para escrever Alexandre! Não é assim, sair escrevendo qualquer coisa! Eu me sinto culpado quando escrevo coisas que não são sobre a minha tese!”. Aqui cabem duas provocações.

Primeiro, por que escrever sobre qualquer coisa é ruim? Segundo, será que esse sentimento de culpa, além de paralisante, não vem da forma como você encara a escrita? Ou seja, será que essa culpa não vem do “só escrevo porque preciso”? E se você tentar mudar a sua relação com a escrita, a sua relação com o teclado? Fixe um horário na sua agenda, de meia hora que seja, para você apenas escrever e nada mais, seja sobre qual assunto for, em qual estilo for.

“Hoje eu vi uma borboleta com uma asa ‘defeituosa’”. A parte mais basal (que eu tenho certeza que tem um nome, mas eu não sei) parecia ‘comida’”. Isso deve influenciar muito a habilidade de voo dela. Como será que isso influencia a aerodinâmica dela? É bem provável que influencie até a sobrevivência dela, mas nunca li nada sobre. Estranho. Nota pessoal: eu realmente gosto de usar aspas” – Alexandre Palaoro, dia 21 de outubro de 2014 (primeiro ano do doutorado).

Como vocês podem perceber, essa passagem sobre uma típica sessão de escrita se refere a algo do meu dia-a-dia. Na época não tinha nada a ver com minha tese. Só uns dois anos depois é que eu percebi que gostava de morfologia funcional e isso acabou sendo agregado às minhas pesquisas. O objetivo desse treino é simples: modificar a sua relação com o teclado e com a tela branca. Quanto mais confortável você estiver ao escrever, melhor. Da próxima vez, encarar a tela branca não será tão intimidador.

Em suma, a mensagem para vocês levarem para casa é: escrevam mais! Qualquer coisa serve! Façam um diário se necessário. Escrevam um blog, se preferirem. O importante é transformar a escrita em hábito. O site http://750words.com usa essa ideia para ajudar as pessoas (mais sobre isso em outro post). O segundo é: descubram como vocês funcionam e adequem sua rotina de escrita a vocês. E lembrem-se: escrever perfeitamente logo de cara não é uma expectativa realista. Quase sempre é mais produtivo você escrever muito e depois pensar e corrigir do que pensar muito e escrever pouco.

8 respostas para “Afinal, por que é tão difícil escrever ciência?!”

  1. Ótimo texto. Estou exatamente na fase de conclusão de tese e tenho sentido muitas dessas dificuldades, ainda mais em home office e no meio de uma pandemia. O texto do Pavel é excelente, também. Vou tentar colocar essa tecnica do snack writing em prática. Ultimamente tenho feito preparação de figuras, mapas e tabelas quando não consigo escrever. Mas confesso que às vezes não tenho nem sequer vontade de olhar para minha tese.
    Obrigada por compartilharem um pouco da experiência de vocês.
    Abraços

  2. Legal! É bem isso mesmo né, quando as ideias não vem e não sabemos o que escrever e ficamos olhando olhando olhando olhando olhando infinitamente para a tela…

    Eu adotei no doutorado a técnica “snack writing”, sobre a qual li em algum lugar que não acho mais. A ideia é escrever 30 minutos a duas horas por dia, tempo no qual vc foca exclusivamente na escrita… E o restante do tempo fazer outras coisas. Mas, fazer esses 30 minutos todo dia de trabalho.

    Inclusive, ter a prática da escrita pode ajudar em prova escrita do concurso! Eu escrevi os textos das provas como se fossem textos de blog, e deu certo 🙂

    E aproveito pra fazer uma propaganda de um texto sobre escrita que eu escrevi uns anos atrás, no último ano do meu doc, que acho que pode ter coisinhas úteis ainda: https://anotherecoblog.wordpress.com/2014/02/16/nao-consigo-escrever-como-faz/

    1. Exato! Muitas vezes ficar olhando a tela em branco só aumenta a sensação de impotência. A prática ajuda muito a lidar com isso.

      Não sabia desse snack writing. Valeu pela indicação.
      É incrível como existem várias técnicas que usam o mesmo processo básico de tornar a escrita um hábito. Consigo até imaginar uma disciplina na qual a função seja só colocar a galera para escrever frequentemente e pegar esse hábito…

      1. Sim! Eu queria oferecer uma disciplina optativa assim… Encontros de uma hora, nos quais as pessoas só ficaram sentadas em uma sala com computadores, escrevendo. E eventualmente leriam coisas que outras pessoas escreveram!

    2. Esse teu post é ótimo, Pavel, tinha lido tempos atrás. Melhorar na escrita, assim como em qualquer habilidade, é uma questão de aprender técnicas e depois praticá-las exaustivamente. Esperar pela inspiração é coisa de filme. Na vida real, nada substitui disciplina e constância.

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