Afinal, por que é tão difícil escrever ciência?! – Parte II: tipos de escritores

Neste post, veremos outros motivos pelos quais é tão difícil escrever os famigerados artigos científicos.

Disclaimer: Essa é uma repostagem de um post que fiz anos atrás para outro blog. O Edu falou que eu podia repostar aqui, então mandei ver. Valeu, Edu! O link para original é esse aqui.

Escreve. Apaga. Escreve, escreve. Apaga, apaga. A página reflete um branco feroz, irritando os olhos. ‘Quem sabe se eu colocar algo na tela ajuda’. Título escrito. Nada. Adiciona autores, instituições. Nada, nada. Troca fontes, deixa as sessões enumeradas nas normas da revista. A única coisa que essa estratégia fez foi ressaltar o quanto você não consegue escrever. Aquele calafrio começa a subir, o estômago começa a revirar, o tempo parece passar mais devagar. ‘Por queeee não consigo escrever?!’. Começa a busca por dicas para tentar escrever, para fazer algo sair. No fim, o sentimento de fracasso bate na porta: ‘Desisto’. Fecha o computador. Na volta para casa, uma neblina densa, pesada, ofusca a capacidade de enxergar algo de bom nisso tudo.

Alguns chamam isso de bloqueio de escrita, mas eu, no auge do meu treinamento médico de oito temporadas de House, acho que essa é apenas mais uma forma de sentir frustração. A “musa da escrita” se manifesta de maneira diferente do que as pessoas acreditam e isso acaba as bloqueando. E, com o bloqueio, vem a frustração. Portanto, precisamos conversar sobre a escrita (de novo!). Mas, desta vez, sobre a ansiedade em torno do processo de escrever.

Como falei no post anterior, acreditamos que a escrita está vinculada a uma espécie de dom. Ela seria uma atividade que requer inspiração. Não a vemos como ela realmente é: uma habilidade que exige treino e trabalho duro. A típica frase proferida por acadêmicos em qualquer nível da carreira (inclusive por este que vos fala) é um exemplo crasso dessa relação entre escrita e inspiração:

“Ah, tem dias em que eu não consigo escrever porque não estou inspirado. Escrevo um parágrafo com muito custo, só para no dia seguinte, no qual estou inspirado, apagar tudo e rescrevê-lo. Agora fico esperando estar nesses dias inspirados para escrever.”  

Falamos isso porque associamos a escrita a pessoas super-criativas, inteligentes, que pensam fora da caixinha (o que quer que isso se­­ja). Pessoas que sentam e cujas palavras jorram dos seus dedos para o papel (J. R. R. Tolkien sempre me vem à mente). Além de não fazerem esforço, tudo sai perfeito. Essas pessoas super-criativas seriam seres iluminados e constantemente inspirados.

Quando não adequamos a nossa escrita a essa imagem ideal – construída pelo imaginário popular – nos sentimos mal. Pensamos que não levamos jeito para a coisa, nos frustramos. “Melhor deixar para tal coleguinha, que parece levar jeito para a coisa.” O que não entendemos é que esse ser ideal é raro. A maioria dos escritores passa mais tempo em outra atividade igualmente importante: a revisão de seus textos.

Voltando ao exemplo crasso: “Escrevo um parágrafo com muito custo, só para no dia seguinte, no qual estou inspirado, apagar tudo e rescrever.” Você decidiu que estava inspirado e escreveu, ou percebeu que estava inspirado porque conseguiu escrever? Perceba que no dia seguinte você já tinha algo escrito, você só melhorou aquilo que já estava escrito, por mais que tenha reescrito completamente o texto. Então, tudo que você chama de inspiração pode não ser nada mais do que revisão do texto. E isso não é ruim. Muito pelo contrário. A revisão é um passo fundamental rumo a uma boa escrita!

Uma boa escrita exige muito esforço por conta disso. Ela é um processo contínuo e longo de revisão múltipla. Você escreve, revisa, escreve, revisa, revisa, revisa, revisa. Até que, depois de 40 versões, tem coragem de mandar o texto para alguém opinar. Você não é um mau escritor porque precisa revisar. É simplesmente um processo natural de todo texto.

Quando você revisa, refina a lógica do seu argumento, conectando as ideias de forma mais clara. Mesmo o “ser ideal da escrita” precisa revisar muito cada texto. É justamente por isso que escrever demanda muito tempo! Você precisa de muitas versões para conseguir ter algo aceitável – e isso não é ruim! Além de ser perfeitamente normal e saudável, é muito mais do que um simples processo. É um estilo de escrita.

Sim, existem estilos de escrita relacionados não ao formato, mas à maneira de produzir um texto. Gosto de pensar (ênfase no pensar) que, portanto, existem dois tipos de escritores: O ser teoricamente ideal, que escreve tudo perfeito na primeira vez; e o ser que precisa escrever e revisar inúmeras vezes.

Ambos estão igualmente corretos e conseguem produzir textos excelentes. São apenas pontos diferentes em um mesmo contínuo de como pessoas escrevem. Só porque você precisa revisar mais, não significa que você é pior. Na verdade, é o contrário: quem mais revisa, geralmente produz textos melhores.

Além disso, as poucas pessoas que eu conheço e que possuem um perfil próximo do “ser ideal da escrita” passam tanto tempo pensando quanto eu passo escrevendo e revisando. Demorei anos para perceber que a atividade de pensar consome o mesmo tempo que revisar. E percebi que a qualidade dos textos produzidos dessas duas maneiras não diferia muito.

Meu ponto é: preste atenção ao seu perfil de escritor. Você se parece mais com o indivíduo que pensa mais ou com o que revisa mais? Sempre é bom lembrar que um não é melhor do que o outro. São apenas duas maneiras diferentes de encarar o processo de escrita. Aceitando o tipo de escritor que você é, a sua relação com a escrita certamente melhorará. Você não sofrerá tanto com expectativas frustradas. Encarar a escrita como um longo processo de revisão múltipla tornará o processo em si muito menos torturante. Naturalmente, escrever continuará sendo um processo longo e trabalhoso. Mas você se sentirá pertencendo ao maravilhoso mundo das letras, sem culpa.

Para quem sofre ou já sofreu com a escrita, recomendo fortemente a palestra do Prof. Robson Cruz: 

Ela tem uma hora e dezessete minutos de duração, mas vale cada segundo. Também sugiro dar uma olhada nos trabalhos dele. A pesquisa dele é justamente sobre sofrimento emocional da pós-graduação e o papel da escrita nesse sofrimento. Então vale a pena tirar alguns momentos do dia para aprender um pouco mais sobre si mesmo.

PS: este texto foi revisado oito vezes (sem contar revisões externas) antes de ser postado originalmente e a versão publicado nem de longe lembra a primeira versão. Depois ele foi revisado mais duas vezes agora na repostagem.

2 respostas para “Afinal, por que é tão difícil escrever ciência?! – Parte II: tipos de escritores”

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