O que o Seu Miyagi tem a nos ensinar sobre habilidades transferíveis?

Daniel-san, não cabe todo mundo dentro da Academia. Aceite essa realidade e aprenda desde cedo a vender o seu peixe no mundo real.

(Este é o primeiro texto que escrevo, depois de compilar o segundo livro do blog. Se esse livro tiver boa repercussão, quem sabe não rola um terceiro daqui a um tempo?)

Sabe quando você descobre que, jogando videogame desde pequeno, aprendeu inglês enquanto se divertia? Ou então quando você nota que, nas pescarias de fim de semana com o seu tio, adquiriu habilidades que hoje usa no trabalho de campo? A vida é cheia de crossovers.

Por falar em crossover, naquele outro post sobre acordar e sentir o cheiro do café, mencionei uma questão vital para quem está na Jornada do Cientista. Infelizmente, essa questão ainda é pouco discutida no Brasil. Estou falando das habilidades transferíveis.

Sim! Cientistas aprendem várias habilidades e algumas delas são transferíveis. Isso quer dizer que elas podem ser usadas fora da Academia. Na verdade, até mesmo fora da ciência. Você nunca tinha pensado sobre isso? Pois é, não fico surpreso.

Estou ligado, dentro da Academia, em geral conversamos apenas sobre os temas técnicos e raramente discutimos a carreira em si, muito menos caminhos alternativos. O problema é que apenas uma porcentagem ínfima dos aspiras que ingressam na jornada consegue se estabelecer na Academia, seja como professores universitários ou pesquisadores de institutos.

A peneira é assim cruel, porque essa é uma carreira de alta performance, hiper-competitiva, com poucas oportunidades, ligada a um perfil bem específico, que exige um investimento gigantesco e não oferece garantia alguma. Ingressar nessa carreira e fazer pós-graduação stricto sensu é como decidir se tornar maratonista profissional, em nível olímpico.

Muita gente se ilude, pois quem chega ao final dessa maratona ganha recompensas maravilhosas, então os casos de sucesso enchem a vista. O que não contam aos aspiras é que essas recompensas são reservadas para poucas pessoas. O ponto é que todo mundo pode se envolver com ciência de alguma forma, como no caso das incríveis iniciativas de ciência cidadã que rolam atualmente. Só que tornar-se um cientista profissional e viver da pesquisa é outra história. Antes de embarcar na jornada, reflita sobre o seu ikigai.

Se a ciência for mesmo o seu ikigai, lute pelo seu sonho! Mas mantenha a mente aberta para caminhos alternativos. Por exemplo, terminar a maratona, mas decidir usar as suas habilidades fora da Academia, não é vergonha alguma e tampouco desperdício de dinheiro público. O investimento que o país faz na formação científica de milhares de jovens, em diferentes níveis, é essencial para o nosso desenvolvimento. Contribuem para esse desenvolvimento tanto os mestres e doutores que se tornam acadêmicos, quanto os que vão trabalhar como cientistas profissionais em empresas, ONGs, OIs e governos. Também são fundamentais os jovens que usam sua formação científica fora da ciência, até mesmo em sua vida cotidiana como cidadãos.

“Ok, Marco, mas que habilidades transferíveis são essas que aprendemos sem notar?”

Sabe aquela cena icônica do filme “The Karate Kid” (John G. Avildsen, 1984)? Aquela mesma em que o Seu Miyagi demonstra para o jovem Daniel-san que toda a “bricolagem” feita por semanas, na verdade, era puro kihon (基本) de karate? Foi um dos plot twists mais maravilhosos da história do cinema!

Espero que você tenha uma epifania parecida e perceba que o treinamento que está recebendo na sua graduação, mestrado, doutorado ou pós-doutorado serve para um monte de outras coisas além de fazer pesquisa científica.

Vamos então ao nosso próprio plot twist!

1. Filtragem de fontes de informação

As pessoas têm se afogado no tsunami de informações divulgadas na imprensa e nas redes sociais. A maioria não consegue separar o joio do trigo, misturando fontes confiáveis com fábricas de fake news ou até máquinas do ódio. Contudo, na Academia, aprendemos desde a iniciação científica como buscar e identificar informação de qualidade dentro de cada contexto. Cientista só se contamina com informação ruim se quiser ou se estiver sofrendo de cegueira ideológica, porque treinamento não falta. Já pensou que essa habilidade vale ouro não apenas para cientistas, mas para quaisquer cidadãos?

2. Delimitação e operacionalização de problemas

O primeiro passo para desenvolver um projeto de pesquisa científica, desde um humilde projeto individual de IC até um poderoso temático de silverbacks, é delimitar um problema de interesse. Sabe o que é isso? É, a partir de uma curiosidade que despertou a sua motivação, descobrir em quais contextos teóricos essa curiosidade se insere e o que as pessoas já sabem sobre o tema. Depois, elaborar e lapidar uma pergunta de trabalho derivada dessa curiosidade até ela ficar respondível em termos lógicos e práticos. Por fim, o que fazemos é operacionalizar essa pergunta através de uma série de expectativas concretas sobre o que devemos observar no mundo real. Saiba que fora da Academia essa habilidade é dominada por pouquíssimas pessoas, disputadas a tapa pelo mercado.

3. Coleta, curadoria, análise e interpretação de dados

Além de sermos treinados para filtrar informação e tornar problemas tratáveis, ainda aprendemos como contrastar expectativa e realidade. Para fazermos esse contraste, precisamos lidar com volumes enormes de dados. Coletamos dados em campo, laboratório, bibliotecas, arquivos públicos e privados, bancos de dados e muitas outras fontes. Depois ainda temos que computar esses dados de forma organizada, seguindo as boas práticas em data science, de modo que eles possam ser usados de forma eficiente por nós e por outros cientistas, décadas depois. Estando os nossos bancos de dados bem curados, em cada projeto específico ainda fazemos inúmeras análises gráficas e numéricas, com diferentes níveis de complexidade. Muitas vezes, aprendemos a programar em múltiplas linguagens para tratar e analisar os nossos dados. A cereja no bolo é interpretar os resultados dessas análises. Estão faltando data scientists no mercado, que são muito bem pagos. Acorde, pois você pode ter muito mais qualificação nessa área do que imagina.

4. Trabalho em equipe

Ninguém faz ciência sozinho. Sério, aquela imagem do cientista louco e solitário, típica de desenhos animados, não poderia estar mais longe da realidade. Mesmo quando uma pessoa publica um “artigo cowboy” (leia-se, como única autora), para chegar a esse produto final ela interagiu direta ou indiretamente com centenas de colegas em eventos, visitas e mensagens. Ainda por cima essa pessoa dialogou com as ideias dos colegas na literatura. Fora isso, hoje em dia, os nossos projetos envolvem colaborações cada vez mais internacionais e transdisciplinares. Desde cedo aprendemos a trabalhar em equipe, buscando unir esforços com pessoas que têm experiências, habilidades e conhecimentos complementares aos nossos. Conforme avançamos na jornada, começamos a liderar equipes e fazer o papel de mentores. Não existe uma atividade humana sequer onde essa habilidade não seja útil.

5. Comunicação

Já que, na ciência, trabalhamos o tempo todo em equipe, acabamos desenvolvendo nossas habilidades de comunicação. Temos que dialogar e negociar diariamente com os nossos colegas de laboratório, PPG, departamento, instituto e universidade. Temos que argumentar por escrito com editores, revisores e leitores em revistas científicas. Temos que argumentar oralmente com diferentes públicos em congressos, audiências públicas, reuniões técnicas, lives e outros eventos. Mesmo quando não recebemos treinamento formal em comunicação escrita e oral durante a pós-graduação, acabamos aprendendo pelo menos um pouco na prática. Em qualquer carreira, muitas portas se abrem para uma pessoa que sabe se comunicar bem.

6. Retórica

Considerando que trabalhamos em equipe, precisamos nos comunicar e disputamos recursos escassos, desenvolvemos também, nem que seja na marra, alguma habilidade em retórica. Ou seja, aprendemos a arte de convencer os outros sobre a importância das nossas descobertas, a viabilidade dos nossos projetos e a validade dos nossos pontos de vista. Por exemplo, o processo de publicar um artigo em uma revista científica envolve não apenas fazer boa ciência, mas empregar uma excelente retórica. Nas über-revistas, surrealmente competitivas, a retórica chega a ser ainda mais importante do que o conteúdo. Assim, um cientista que desenvolveu boa retórica tem uma habilidade valiosíssima em qualquer outra carreira e na vida.

7. Resiliência

Por fim, falemos de uma habilidade particularmente importante: a capacidade de apanhar e seguir em frente. A maioria das respostas que recebemos na carreira acadêmica é “não”. Os nossos projetos nunca dão certo de primeira, sempre tendo que começar tropeçando na forma de pilotos e sofrer vários ajustes, às vezes até redirecionamentos. A cada transição de etapa na jornada precisamos competir com os nossos colegas por vagas, bolsas e empregos, sendo que na maioria das vezes perdemos e precisamos tentar outra vez. O tempo todo competimos em nível nacional e internacional por atenção em agências de fomento, revistas, editoras e eventos, geralmente tendo que insistir múltiplas vezes até emplacarmos algumas propostas. Quem está na jornada há mais tempo sabe ainda que temos que aguentar ciclos extremos de escassez e abundância no fomento. Depois de anos e anos na jornada, quem não quebra no meio do caminho pode se tornar uma pessoa muito mais forte, capaz de aguentar frustração estoicamente. Se essa não é uma habilidade extremamente útil, então qual outra seria?

Moral da história

É muito difícil sobreviver à Jornada do Cientista e se estabelecer na carreira acadêmica. Mas não é impossível, tanto que tem gente que consegue. Então por que você não seria uma dessas pessoas bem-sucedidas? De qualquer forma, mantenha a mente aberta para as oportunidades e caminhos alternativos que aparecerem ao longo da jornada. Décadas depois de suas aventuras adolescentes, o Daniel-san acabou virando vendedor de carros e o Johnny Lawrence, sensei. Só que não assim, de primeira. Os caminhos deles não foram lineares, certinhos, mas sinuosos e cheios de reviravoltas. Como todo caminho na vida real. Não desanime, pois os muitos anos de treinamento pelos quais você passou no mínimo serviram para te dar habilidades transferíveis que são valiosíssimas.

E você?

Quais outras habilidades transferíveis você aprendeu ao longo da sua jornada? Conte-nos mais sobre elas nos comentários!

Histórias reais de mudanças de carreira

Veja aqui relatos de cientistas que deixaram a Academia para seguir outros rumos profissionais. São histórias muito inspiradoras, que ilustram os argumentos apresentados neste post.

  1. Descubra o seu próprio caminho
  2. Da Biologia à McLaren: habilidades da carreira para a vida
  3. The great escape: charting a career outside of academia
  4. Why it is not a ‘failure’ to leave academia
  5. Desafios fora da Academia: trabalhando em ONG – Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ)
  6. Desafios fora da Academia: trabalhando em Unidade de Conservação

(Fonte da imagem destacada: The Karate Kid, 1984)

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12 respostas para “O que o Seu Miyagi tem a nos ensinar sobre habilidades transferíveis?”

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