Como sobreviver a um cartel de citação

A ciência é uma cultura maravilhosa, mas que tem um lado sombrio onde moram seres estranhos, como os cartéis de citação. Aprenda a identificá-los antes que eles te ataquem.

Sente e pegue um chá de boldo, porque este é mais um papo sobre um tema indigesto.

“Mas, Marco, o que é um cartel de citação?”

Talvez você nunca tenha ouvido falar sobre esses cartéis, porque o assunto ainda não é discutido abertamente no Brasil, ainda mais com aspiras e novatos. É muito comum as pessoas só se darem conta de que eles existem, depois de um bom tempo de carreira, quando começam a entender melhor as engrenagens da Academia. Muitas nunca se dão conta e continuam a acreditar no mito da meritocracia .

Por falar em se dar conta, eu já havia escrito sobre o “clube da citação” anos atrás. Contudo, aqui vou usar esse outro apelido que se consolidou para nomear o fenômeno na mídia especializada em ciência. Há certa divergência entre veículos como Times Higher Education, The Chronicle of Higher Education e Retraction Watch quanto à definição exata do que seria um cartel de citação. Seguindo uma ou outra definição, algumas pessoas vêm tentando operacionalizar esse conceito através de algoritmos para detectar subgrupos suspeitos em redes de citações. Tirando a média do uso corrente, podemos dizer o seguinte:

Um cartel de citação é um grupo de cientistas ou revistas que estabelecem um acordo de citar os artigos uns dos outros praticamente de forma exclusiva, mesmo quando seus artigos não são as melhores escolhas, ou até mesmo quando eles são escolhas erradas.

Assim, trata-se de um comportamento antiético, que inevitavelmente cruza a fronteira da fraude em algum momento. Esse comportamento é um dos sintomas da gamificação do nosso sistema de avaliação baseado em números. Todo sistema que confia cegamente em números vira presa fácil da malandragem. Muita gente acaba pegando atalhos que fazem seus números crescerem magicamente.

Esse crescimento mágico prejudica a ciência em vários níveis. Por exemplo, caso um cartel inclua silverbacks, primeiro ele vai se retroalimentando e depois pode acabar atraindo até citações externas. Para piorar, muitos cartéis não apenas priorizam as citações internas, como boicotam as citações externas, fingindo que os trabalhos dos grupos concorrentes não existem.

Além de esse boicote feito por cartéis prejudicar as carreiras de jovens cientistas em busca de citações, ele ainda varre divergências importantes para debaixo do tapete. A comunidade da área começa a ter a falsa impressão de que todas as descobertas sobre o tema de interesse são feitas apenas pelos membros do cartel. Isso dá ao cartel poder suficiente para construir paradigmas falsos, mas duradouros, que atrasam o avanço do conhecimento e resultam até mesmo em danos diretos à sociedade.

Contudo, é importante separar o joio do trigo, pois tem coisas que parecem efeito de cartéis, mas não são. Primeiro, todos temos um viés inconsciente para a autocitação, que aumenta com a nossa produção científica e tempo de carreira. Isso porque, obviamente, conhecemos muito melhor os nossos próprios papers do que os papers alheios. Afinal de contas, o que produzimos é a expressão concreta do nosso olhar pessoal sobre um determinado fenômeno. Assim, temos que nos policiar o tempo todo.

Segundo, várias revistas limitam o tamanho dos artigos e o número de referências que cada artigo pode conter. Logo, quando o espaço é apertado demais, tem gente que acaba cortando os trabalhos alheios e priorizando os próprios, o que é natural. Contudo, é preciso tomar cuidado com isso e buscar um equilíbrio.

Terceiro, muitos aspiras fazem o jogo de um cartel sem nem perceberem, porque simplesmente seguem as recomendações de seus orientadores. Conforme um orientador manda incluir uma citação aqui e outra ali, além de remover algumas, pode estar sutilmente priorizando um cartel. Precisamos conscientizar os aspiras desde cedo para a necessidade de diversificarem suas citações e as fazerem corretamente.

“Ok, Marco, então isso é um cartel de citação. Mas o que eu tenho a ver com isso?”

Saiba que toda área da ciência tem um ou mais cartéis de citação. Caso você comece a se destacar na sua área, uma hora alguém vai tentar te recrutar para um deles. Se você não aceitar o convite, terá que arcar com um custo.

Esse custo pode ser alto, então quero te ajudar a minimizar o prejuízo. Afinal de contas, dá muito mais trabalho jogar o jogo da ciência honestamente. Sem entrar para um cartel, você demorará mais a receber citações e os seus indicadores cienciométricos crescerão mais devagar. Isso te colocará em desvantagem em relação aos gângsters da ciência na hora de disputar recursos escassos.

Tudo bem se assustar, a coisa é séria mesmo. Mas não entre em desespero, pois tem muita gente tentando reduzir os danos e até mesmo combater os cartéis. Enquanto isso, como você pode sobreviver a um cartel de citação?

1. Trabalhe duro e capriche nas suas publicações

Nunca podemos ignorar a possibilidade de que os nossos trabalhos não estejam sendo citados, simplesmente porque são ruins ou porque os publicamos apenas em revistas inexpressivas. Então não acuse os outros antes de refletir sobre o seu próprio CV. Tendo isso em mente, anime-se: quanto melhores forem os seus trabalhos, mais difícil será ignorá-los. Isso pode parecer otimista demais, mas é a mais pura verdade. Por mais que os cartéis tentem fingir que os seus trabalhos não existam, quanto mais novidades você descobrir ou quanto mais inovadores forem os seus papers, maiores serão as chances de você crescer apesar de eventuais boicotes. Vai demorar mais, porém será um crescimento sólido e sem rabo preso. Portanto, não tenha preguiça, não procrastine e redobre os seus esforços, caso queria crescer fora de um cartel. É mais ou menos como sobreviver na cadeia sem entrar para uma facção.

2. Tente publicar pelo menos alguns trabalhos em revistas top

Ter um portfólio científico equilibrado, incluindo revistas de diversos tamanhos e escopos, é importante por diversas razões individuais e coletivas. Tendo isso em mente, saiba que uma parte do seu portfólio precisa incluir revistas cheias de glamour, que encham as vistas da comunidade. Nem que elas sejam poucas, você precisa ter pelo menos algumas publicações que brilhem. Não é uma questão de ego, mas de visibilidade. Revistas top, em geral, são lidas e citadas por muito mais gente, além de serem levadas mais a sério, não só pela Academia mas também pela imprensa. Trabalhos excelentes, mas publicados em revistas menores, muitas vezes permanecem no limbo por décadas ou nunca saem dele. Portanto, invista tempo, energia e dinheiro em publicar um pouco nas top 10 da sua área. Ou, dentro da sua área, ao menos publicar regularmente em revistas acima da mediana de impacto.

3. Torne-se visível

Não basta trabalhar duro, caprichar e publicar em revistas top. Você precisa também investir em marketing pessoal. Ou seja, não basta fazer, você tem que mostrar! Existem centenas de milhares de cientistas no mundo, publicando literalmente milhões de artigos todos os anos. Então por que as pessoas prestariam atenção em você, que está começando sua carreira em um país periférico? Portanto, faça propaganda dos seus trabalhos em congressos, simpósios, visitas, estágios, seminários, workshops, lives, currículos online e redes sociais acadêmicas. Não espere a atenção vir até você, corra atrás dela usando boas estratégias.

4. Faça citações honestas, abrangentes e inclusivas

Não adianta reclamar de não te citarem, se você tampouco citar os outros direito. É muito fácil dar a impressão de que você é a pessoa mais antenada do mundo, se citar só o mainstream. Ou seja, trabalhos recentes, publicados em revistas top e por gente famosa de países centrais. Apesar de essa ser uma forma eficiente de gerar ethos percebido e cavar espaço em revistas top, isso é fazer ciência de forma desonesta. Saiba por que, como e quanto citar. Portanto, lembre-se de que a ciência não é feita apenas por silverbacks-homens-brancos-velhos-anglo-saxões, mas também por mulheres, negros, indígenas, jovens, latinos e vários outros grupos sociais. Uma postura inclusiva, além de ser mais honesta e humana, cria uma boa reputação de profissionalismo, que se converterá naturalmente em atenção. Malandragem e desonestidade se combatem com transparência e empatia, acima de tudo.

5. Crie laços sólidos com a sua comunidade

Vivemos em um mundo líquido, no qual os raros laços sólidos ainda existentes valem ouro. Se você estiver construindo uma carreira sem a proteção oferecida por um cartel, crie as suas próprias redes de apoio. A ciência é uma cultura humana e as citações estão longe de serem puramente objetivas. As pessoas tendem a citar mais as pessoas que elas conhecem, que admiram e com as quais têm boas relações, simplesmente porque elas lhes vêm primeiro à mente. Portanto, integre-se à sua comunidade e receberá citações como uma consequência natural. Frequente eventos nacionais e internacionais. Participe das sociedades acadêmicas da sua área. Compartilhe as soluções que você encontrar para diferentes problemas, depositando material em repositórios, bancos de dados e redes sociais.

“Gentileza gera gentileza”

Gentileza, 1980

Pensamento final

“Queimando agora, queimando depois, o malfeitor sofre duplamente. Feliz agora, feliz no futuro, a pessoa virtuosa duplamente se regozija. ”

Shakyamuni Buddha

Para saber mais

  1. The Gollum Effect: The Issue of Research Opportunity Guarding in Academia

(Fonte da imagem destacada)

3 respostas para “Como sobreviver a um cartel de citação”

  1. Interessante… Eu não achava que isso era tão comum. Agora acho que estarei preparado 🙂

    Queria sua opinião sobre algo que eu estou em dúvida (uma situação hipotética, nunca precisei enfrentar este dilema mas o post me fez pensar como seria). Imaginemos que exista um artigo muito bom sobre um assunto, sem nenhum problema (sem plágio, com desenho amostral válido, estudo bem planejado e bem feito) que seria um trabalho importante de ser citado; mas imaginemos que você saiba, por fontes extra-oficiais, que a pessoa que publicou aquele trabalho não é ética no desempenho das suas funções profissionais (por exemplo, que ela regularmente assedia moralmente pessoas que orienta). Isso seria um motivo válido para deixar de citar esse artigo? Vamos supôr que deixar de citar este trabalho não prejudicaria nenhum cientista em início de carreira.

    Eu fico em dúvida porque por um lado, deixar de citar fere a objetividade na ciência, que não é totalmente objetiva mas objetividade é importante mesmo assim; por outro lado, a citação aumentaria os indicadores de uma pessoa que não atua de forma ética.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Obrigado, Pavel! Realmente os cartéis quase não são discutidos aqui no Brasil. Mas eles existem e estão à espreita, nas sombras…

      Cara, excelente pergunta, que leva a vários experimentos mentais. E se pensássemos em outro exemplo, só que em outra grande cultura humana, como a arte? A pergunta nesse caso seria: deveríamos continuar ouvindo os discos do Michael Jackson e dançando os passinhos dele (#quemnunca), mesmo depois de ele ter recebido tantas acusações sérias? Eu sou da opinião de que uma coisa é a obra, outra é o artista. Você pode gostar de uma, mas não de outra. Ou pode gostar de ambas. Ou ainda desgostar de ambas. Nesse exemplo específico, cabe lembrar também que há muitas controvérsias sobre as acusações e que ele não foi condenado em nenhuma das investigações.

      Ninguém é perfeito na vida real e todo mundo pode ser “cancelado” hoje em dia por algum ponto de vista. Para piorar, julgar pessoas que nem conhecemos direito, com base em relatos que não vivenciamos nós mesmos, é um caminho seguro para cometer injustiças. Eu aprendi com um mano lá do Oriente Médio, filho de carpinteiro, assassinado pelo Estado ainda jovem por causa de perseguição religiosa e política, que não devemos julgar os outros.

      Voltando ao seu exemplo acadêmico. Cara, uma coisa é o cientista, outra é a obra. Um trabalho de pesquisa bem feito, mesmo que por uma pessoa odiosa, ainda representa uma aproximação válida sobre a realidade. Nossa missão não é justamente desvendar a realidade? Logo, se um trabalho é válido e representa a melhor citação em um caso, deve ser citado. A exceção seria o trabalho ter sido mal feito ou ter se baseado em métodos eticamente condenáveis. Aí seria outra história, tipo a medicina nazista.

      Além disso, não se esqueça de que todos somos inocentes, até que se prove o contrário. Se o cientista em questão não foi acusado, investigado, julgado e condenado seguindo os devidos ritos legais, então nem devemos colocar em cheque a reputação dele. A Academia é um ambiente muito tóxico, em que todos falam mal de todos o tempo todo. Eu sempre fico com o pé atrás quando ouço relatos assim. Já vivenciei experiências concretas de ver acadêmicos serem demonizados pela comunidade, mas depois serem inocentados, sendo impossível reconstruir suas reputações.

      Curtido por 2 pessoas

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