Pandemia do novo coronavírus, Parte 11: aerossóis, máscaras e a construção do conhecimento científico

A decisão recente da OMS de mudar o foco do combate à Covid-19 para a transmissão por aerossóis pode parecer simples. Só que ela envolve brigas políticas, mudanças de paradigma e uma belíssima investigação histórica. Dela podemos tirar várias lições sobre ciência e política.

Resumidamente, a primeira recomendação da OMS no começo da pandemia de Covid-19, em março de 2020, era focar na higiene de mãos e superfícies e no distanciamento físico de 1.5 m entre pessoas. Depois adicionaram a recomendação para usarmos máscaras caseiras. Contudo, essas recomendações se baseavam em um paradigma ultrapassado em epidemiologia.

Foi preciso que uma cientista muito criativa, vinda de fora da área de biológicas e da saúde, pensasse fora da caixinha. Com a colaboração de uma excelente historiadora, ela integrou diferentes campos do conhecimento, trouxe novas peças para a mesa e remontou o quebra-cabeças.

Ao rever suas recomendações oficiais com base nessa nova interpretação, a OMS mais uma vez demonstrou ser uma instituição extremamente séria e confiável, comprometida com a tomada de decisão baseada em evidência.

Para entender melhor essa história fascinante, que envolve um erro gravíssimo causado por confiança cega em um velho paradigma, leia a matéria original, clicando na manchete a seguir:

Aqui não vou comentar detalhadamente a matéria, pois recomendo fortemente que você separe um tempo, pegue um chá e a leia com calma, na íntegra. Quero apenas reforçar algumas das principais lições que podemos tirar dela:

1. Nesta pandemia de Covid-19, o nosso foco deve estar na transmissão pelo ar do novo coronavírus. Não adianta, por exemplo, reabrirmos escolas e universidades apenas colocando potinhos de álcool em gel nas salas, sem que reformemos seus sistemas de ventilação e garantamos o uso adequado e recorrente de máscaras PFF2.

2. “A verdade é filha do tempo e não da autoridade” (Galileu Galilei). A ciência não trabalha com o conceito de verdade absoluta, muito menos ditada por autoridades acadêmicas ou políticas. A força da ciência como cultura humana vem justamente da sua obsessão pelo autopoliciamento e revisão constante de consensos.

3. A ciência é feita muito mais de boas perguntas do que de boas respostas. Portanto, todo paradigma que vai ganhando status de verdade absoluta, sem nunca poder ser questionado, merece desconfiança.

4. Problemas como as pandemias e o surgimento de novos vírus zoonóticos são complexos e dinâmicos. Quando a ciência procura respostas, além destas acaba encontrando muitas novas perguntas.

5. Toda vez que respostas para perguntas complexas ou decisões importantes se baseiam em números mágicos vindos de fontes incertas, desatualizadas ou não-científicas, questione esses números mágicos. De onde eles vieram? As novas evidências ainda os apoiam?

6. Quando novas evidências contradizem previsões derivadas de uma teoria bem aceita, é hora de rever a teoria. Mesmo as teorias mais sólidas, como a evolução ou a mecânica clássica, passam regularmente por expansões e atualizações. Isso é ainda mais importante quando milhões de vidas estão em jogo em um curto espaço de tempo.

7. Conforme uma pessoa avança na carreira acadêmica e se torna silverback, deve manter a mente de principiante e saber ouvir os mais novos. Os maiores peritos têm a responsabilidade de ficar antenados com todas as novidades, inclusive aquelas que contradizem suas crenças.

8. É perfeitamente normal que até instituições como a OMS cometam erros em uma situação de crise global, como uma pandemia causada por um novo patógeno. Instituições são feitas de pessoas e pessoas cometem erros. A diferença é que instituições sérias como a OMS se mantêm abertas ao diálogo e a novas evidências. Mudar de opinião face a novas evidências é sabedoria e demonstra compromisso com o acerto, não com o erro.

9. Deposite sua confiança em pessoas e instituições que admitem seus próprios erros e sabem mudar de opinião. Desconfie de quem tem certeza de tudo o tempo todo ou propõe soluções milagrosas para problemas complexos.

(Fonte da imagem destacada)

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