Pandemia do novo coronavírus, Parte 12: missão da OMS à China

Após o aniversário de um ano da pandemia, o que sabemos sobre as origens do novo coronavírus? Este post se baseia no relatório da OMS feito após a visita de um painel de peritos à China no começo de 2021. Além disso, vamos falar sobre o que é esperado das instituições filiadas a ONU para os próximos anos, em termos de saúde pública e vigilância sanitária em escala planetária.

Nosso primeiro post no pacotão sobre a pandemia do novo coronavírus saiu em 13/03/2020, dois dias após a OMS ter declarado oficialmente que a Covid-19 era uma pandemia. Muita coisa aconteceu desde então e os milhões de brasileiros que estão vivendo pesadamente a crise tiveram que se adaptar de inúmeras formas.

Após mais de um ano, o novo coronavírus já não é tão novo assim. Mas então o que descobrimos sobre as origens dele? Ele veio mesmo da China? O vírus saltou de um hospedeiro naturalmente ou foi criado em laboratório? Uma equipe recrutada pela OMS foi até a China em janeiro de 2021 e coletou evidências para explorar as possíveis origens do SARS-Cov-2.

O que foi essa missão da OMS à China?

A OMS executou a Fase 1 de investigações para entender melhor como o novo coronavírus começou a circular em Wuhan, China. Para isso, uma equipe internacional multidisciplinar foi selecionada, trabalhando conjuntamente com uma equipe multidisciplinar de especialistas chineses.

Diversas visitas in situ foram feitas ao longo de 28 dias (incluindo 2 semanas de quarentena para os pesquisadores que vieram de fora da China), o acesso a dados inéditos foi garantido e discussões sobre diferentes perguntas foram realizadas. A equipe foi composta por 17 especialistas chineses e 17 especialistas vindos de outros países.

Onde surgiu a nova doença?

Os sintomas dos primeiros casos foram diagnosticados em dezembro de 2019 (N = 174 casos). Aparentemente, nenhum caso de Covid-19 ocorreu antes disso, com base na extensa pesquisa e testagem em pacientes que tiveram síndromes respiratórias antes de dezembro. Não se chegou a nenhuma conclusão sobre o papel do mercado de Huanan na origem do surto. Isso porque muitos dos primeiros casos foram associados ao mercado de Huanan, mas um número similar de casos foi associado a outros mercados e alguns casos não estavam associados a mercado algum.

Quando surgiu a nova doença?

A estimativa das primeiras infecções não-detectadas foi baseada em dados de genética molecular e modelos epidemiológicos. A partir desses métodos, é possível estimar quando o paciente zero não-identificado começou a transmitir o vírus. O relatório aponta que as primeiras transmissões de COVID-19 em humanos podem ter se iniciado nos meses anteriores a dezembro de 2019. As estimativas pontuais para a época até o ancestral mais recente do vírus patogênico em humanos variaram de final de setembro ao início de dezembro, mas a maioria das estimativas foi entre meados de novembro e início de dezembro. Ou seja, o vírus já estava circulando em humanos antes dos primeiros casos que foram detectados em dezembro de 2019. Isso quer dizer que não podemos inferir que o vírus surgiu em Wuhan com 100% de confiança.

Como se deu a transmissão inicial?

Várias amostras de pacientes que passaram pelo mercado de Huanan tinham genomas virais idênticos. No entanto, os dados também mostraram que alguma diversidade de vírus já existia na fase inicial do surto em Wuhan, sugerindo cadeias de transmissão não-amostradas, além do cluster de mercado de Huanan. Não houve relação aparente entre exposição a carne crua ou a mamíferos e infecção.

Quem são os hospedeiros?

De acordo com o relatório, mais de 80.000 amostras de animais silvestres (mamíferos e aves) e de criação foram coletadas na China e nenhum resultado positivo de anticorpos foi obtido para o SARS-CoV-2, tampouco foi detectado material genético do novo coronavírus antes e depois do surto na China. Morcegos-ferradura e pangolins carregam vírus bastantes similares ao SARS-Cov-2, os quais chamamos de SARS-like coronaviruses. Entretanto, nenhum dos vírus identificados até então em morcegos e pangolins é suficientemente semelhante ao SARS-CoV-2 para ser considerado seu progenitor direto. Além disso, a alta suscetibilidade de visons e gatos ao SARS-CoV2 sugere que outras espécies de animais podem atuar como reservatórios potenciais. Isso quer dizer que há ancestralidade do novo coronavírus em morcegos, mas não quer dizer que morcegos passaram a doença para humanos.

Como o SARS-cov-2 chegou ao mercado de Huanan?

De 923 amostras, 73 deram positivo para o novo coronavírus em superfícies (amostras ambientais), indicando que ele pode ter chegado lá por pessoas, animais infectados ou produtos contaminados. Entretanto, nenhum dos produtos de origem animal amostrados no mercado ou em outras áreas, incluindo mercados e distribuidores de produtos, na China deram positivo, embora essas amostras do ambiente tenham sim, dado positivo (Figura 1). Os autores do relatório chamam esses produtos animais (gado, aves, animais selvagens de criação) de domesticated wildlife products. Traduzimos isso como produtos de animais silvestres domesticados. Ao final de dezembro de 2019, dez stands vendiam animais ou produtos derivados de animais como cobras, aves (galinhas, patos, gansos, faisões e pombas), veados, texugos, coelhos, pequenos roedores, porcos-espinhos, ouriços, salamandras e crocodilos. De acordo com os registros, cobras, salamandras e crocodilos foram comercializados vivos. Outros produtos vendidos estavam congelados, como aves ou carne bovina após a remoção de pelos e vísceras. Serpentes e salamandras foram abatidas antes de serem vendidas, mas os crocodilos estavam vivos quando vendidos.

Entretanto, produtos refrigerados na época não foram testados e eles podem ser relevantes na cadeia de transmissão, como vemos no cenário atual da Covid-19.

Figura 1. Mapa do Mercado Huanan, mostrando a localização de stands onde produtos animais eram vendidos. Os resultados dos testes ambientais positivos para SARS-Cov-2 estão em amarelo e os casos de COVID-19 confirmados em humanos são mostrados em vermelho. Áreas onde foram detectados produtos de origem animal estão hachurados em azul escuro. Imagem adaptada por R. L. Muylaert a partir da Figure 2 da seção Animal and Environment Studies, disponível no relatório original.

Resumo da missão sobre a origem do vírus

Por fim, a equipe examinou quatro cenários (Figura 2) para introdução do novo coronavírus em humanos: (1) transmissão zoonótica direta para humanos (spillover); (2) introdução por meio de um hospedeiro intermediário e spillover para humanos em seguida; (3) introdução através da cadeia alimentar (produtos refrigerados); e (4) introdução por meio de um incidente de laboratório. Para cada um desses cenários, a equipe deliberou um valor de risco qualitativo, considerando as evidências disponíveis. A síntese dessa avaliação foi a seguinte:

  1. A transmissão zoonótica direta para humanos é considerada uma via de possível a provável;
  2. A introdução por meio de um hospedeiro intermediário é considerada uma via provável a muito provável;
  3. A introdução do vírus a partir de produtos da cadeia alimentar, incluindo produtos refrigerados, é considerada uma via possível;
  4. A introdução através de um incidente de laboratório foi considerada uma via extremamente improvável.
Figura 2. Análise de cenários para explicar a emergência do novo coronavírus. Imagem adaptada por R. L. Muylaert a partir da Figure 1 da seção Possible Pathways of Emergence, disponível no relatório original.

Próximos passos

Análises futuras esclarecerão as correlações espaciais e temporais dos dados levantados, corrigindo vieses de amostragem e rastreando produtos congelados de fornecedores até o mercado de Huanan e outros mercados. Além disso, o monitoramento contínuo de morcegos-ferradura no sul da China e em outras áreas de sua distribuição esclarecerá mais sobre a origem do novo coronavírus. De acordo com análises recentes, estima-se que o SARS-Cov-2 divergiu do seu ancestral mais próximo em morcegos lá em 1969, então a história recente desse vírus antes dos primeiros casos em humanos ainda precisa ser desvendada.

A conclusão da Fase 1 dessa missão acabou levando ã criação de um novo grupo de especialistas para apoiar pesquisas futuras para rastrear a origem da pandemia. Esse grupo de especialistas foi recentemente aprovado pela OMS e você pode encontrar mais informações sobre ele aqui.

Além de investigar ameaças à saúde planetária, como o novo coronavírus e outros vírus emergentes, o grupo buscará trabalhar com base no conceito de Saúde Única nas próximas fases de trabalho. As ações desse grupo terão como alvo prevenir novas pandemias e também informar medidas que evitem o colapso dos sistemas agroalimentares. Este grupo de especialistas desenvolverá ações junto a organizações como a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) e OIE (Organização Mundial da Saúde Animal).

O novo coronavírus é perigoso e atualmente mata cerca de 86.000 pessoas por semana no mundo. Embora ele seja vírus mais estudado de todos os tempos, ainda há muitas perguntas sem resposta sobre como ele surgiu e como evitar que novos vírus similares ou mais perigosos surjam. Iniciativas como esta podem ajudar a esclarecer as coisas e ter mais segurança contra próximas pandemias.

Na íntegra

Estudo global convocado pela OMS das origens do SARS-CoV-2: China (em inglês)

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