Como filtrar informação científica com base na fonte

Em outro post sobre as habilidades transferíveis que aprendemos na Jornada do Cientista, listei em primeiro lugar a filtragem de fontes de informação. Que tal conversarmos mais a fundo sobre ela?

Este post foi inspirado por conversas que tive com meu filho, que curte ciência e tecnologia, e também com vários alunos. Conversas motivadas pelos absurdos que vemos todos os dias nas redes sociais.

Você já reparou no caos de desinformação em que vivemos? No meio de uma pandemia que virou pandemônio, as pessoas não sabem mais em quem acreditar. Por exemplo, na hora de buscarem informações sobre a prevenção da Covid-19, dão a mesma credibilidade a publicações científicas e postagens em redes sociais. Ou seja, a maioria das pessoas não tem a menor noção de como filtrar fontes de informação.

Esse problema é muito antigo, mas vem piorando desde que a internet se popularizou nos anos 90. A situação degringolou de vez a partir dos anos 2000, com o advento das redes sociais em seu formato atual. Nesses primórdios, o mantra de cientistas irritados com boatos de internet era “PowerPoint não é artigo científico!”. Hoje, nos anos 2020, poderíamos atualizá-lo para “WhatsApp não é universidade!”

Não me entenda mal, pois não sou um desses elitistas tolos que saem por aí gritando “maldita inclusão digital!”. Muito pelo contrário, sou um entusiasta de tudo que é free e open: code, data, knowledge, access e gadgets. Acho fantástico que hoje possamos ter acesso a várias Bibliotecas de Alexandria ao alcance dos nossos polegares.

O problema é que ter acesso à informação não basta para ser uma pessoa bem informada. Quando se trata de um assunto extremamente técnico, como a plataforma usada para produzir uma determinada vacina, é preciso ter formação científica. Mais importante, independentemente do grau de especialização do assunto, sempre é preciso saber filtrar as fontes.

Dentro da academia, essa é uma das primeiras habilidades que aprendemos desde cedo em estágios e projetos de iniciação científica. Continuamos lapidando essa habilidade ao longo de toda a carreira, conforme novas fontes vão surgindo, antigas fontes vão se transformando ou novas ferramentas de acesso vão sendo criadas.

Você já parou para pensar em como exatamente fazemos essa filtragem na prática? Usamos múltiplos filtros em sequência, de acordo com o tipo de informação que buscamos em cada caso. Esses filtros representam as categorias de fontes. Aqui, portanto, foco em explicar essas categorias de acordo com quem as produz, quem as certifica e, portanto, quão confiáveis elas são. Isso é fundamental, pois a força e a confiabilidade da ciência vêm justamente dos seus mecanismos de controle de qualidade.

Tradicionalmente, usamos esses critérios para classificar as fontes de informação científica em três grandes categorias: literatura oficial, literatura cinza e literatura não-científica. Contudo, essa classificação está longe de representar a complexidade do cardápio informacional contemporâneo. Vamos então discutir uma classificação mais sofisticada.

1. Fontes oficiais primárias certificadas

Essas são as fontes “padrão ouro” na ciência. Temos diferentes fontes oficiais para diferentes fins. As revistas científicas servem para documentarmos oficialmente e relatarmos aos nossos pares (ou seja, a outros cientistas) as descobertas que acabamos de fazer sobre problemas acadêmicos ou práticos. As patentes também servem para relatarmos novidades, só que focando nas aplicações comerciais e industriais, a fim de garantirmos direitos de exploração. Os livros técnicos são a fonte oficial para fazermos sínteses do conhecimento acumulado sobre diferentes assuntos, dando mais peso ao que está consolidado do que às novidades. Só para esclarecer, conhecimento consolidado é aquele que já foi exaustivamente testado e revisado. Já os livros-texto focam quase inteiramente no conhecimento consolidado, tendo por objetivo servir como ferramentas para o processo de ensino-aprendizagem em cursos de nível superior. Muitas vezes os livros-texto descrevem também como o conhecimento sobre um problema de interesse se modificou ao longo do tempo, conforme novas descobertas aumentaram nossa compreensão sobre os fenômenos relacionados. Vale lembrar também que há diferenças entre áreas da ciência, pois algumas preferem documentar ideias novas em artigos, enquanto outras ficam com os livros.

2. Fontes oficiais primárias não-certificadas

Além dos artigos, patentes, livros técnicos e livros-texto, que são revisados pelos pares, temos ainda outras fontes oficiais na ciência. Só que elas não são revisadas ou passam por uma revisão mais leve. O cardápio de fontes vem ficado cada vez mais amplo e complexo nas últimas décadas. Por exemplo, é cada vez mais comum divulgarmos descobertas primeiro através de preprints. Ou seja, artigos científicos ainda não revisados pelos pares, que depositamos crus em repositórios online. Preprints têm diversas vantagens e desvantagens, mas de um modo geral representam um estágio intermediário no processo de publicação científica. Fora os preprints, temos ainda os trabalhos de conclusão de curso (TCCs), que englobam monografias de bacharelado, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Apesar de esses trabalhos passarem por revisão nas bancas de conclusão, essa revisão foca no desenvolvimento do estudante e não necessariamente na originalidade e qualidade da pesquisa realizada. Ainda temos nesta categoria os trabalhos publicados em anais de congressos, nos quais são relatadas novidades através de resumos não-revisados, que, portanto, não servem para documentá-las formalmente. A exceção nesse último caso é a matemática, ciência na qual é costume publicar novidades na forma de trabalhos completos em anais de eventos. Naturalmente, esses trabalhos completos são revisados pelos pares, assim como se faz nas revistas.

3. Fontes oficiais secundárias

Além das fontes primárias, ainda temos fontes oficiais secundárias que divulgam sínteses sobre temas específicos. Exemplos típicos são os relatórios técnicos, sumários para tomadores de decisões e white papers publicados por ONGs (como a IUCN) ou OIs (como a OMS). O objetivo desses relatórios, produzidos por painéis de cientistas de diferentes países, é sintetizar para a sociedade, especialmente para os tomadores de decisões, o conhecimento sobre problemas de interesse global. Por exemplo, as espécies ameaçadas de extinção ou a origem do novo coronavírus. Essas fontes, apesar de secundárias, também são oficiais e altamente confiáveis. Primeiro, porque seus relatórios são produzidos por painéis de cientistas profissionais. Segundo, porque as informações usadas vêm de fontes oficiais primárias. Logo, nesse caso temos duas camadas de controle de qualidade.

4. Fontes formais de divulgação e educação científica

As pessoas que não trabalham profissionalmente com ciência geralmente acabam tendo acesso ao conhecimento científico através de fontes extraoficiais, porém formais. Neste caso, estamos falando principalmente de reportagens e matérias publicadas na imprensa, incluindo todos os meios existentes hoje em dia, como rádio, TV, jornais, revistas, livros, blogs, podcasts, websites e plataformas de notícias. Também podemos incluir nesta categoria os livros didáticos e as enciclopédias, tanto as abertas (como a Wikipedia) quanto as fechadas (como a Britannica). O que sai nessas fontes de divulgação é fundamental para tornar a ciência acessível à sociedade. Contudo, não pode ser considerado informação primária e nem oficial, servindo para divulgação e educação, mas não para registro de novidades ou tomada de decisões.

5. Fontes informais profissionais

Estamos falando neste caso de cientistas e jornalistas de ciência que divulgam informações criando perfis em redes sociais e outras mídias digitais. Eles não divulgam essas informações através de veículos formais coletivos, como jornais e enciclopédias, mas o fazem de maneira individual e informal. Assim, é preciso consumir o conteúdo dessas fontes com cuidado, mesmo quando a pessoa por trás do perfil é um profissional renomado. Isso porque, via de regra, o conteúdo não passa por checagem de fatos, revisão pelos pares ou revisão editorial. Mesmo que a pessoa em questão seja muito cuidadosa, a revisão pelos pares é a melhor ferramenta de certificação que temos. Fora isso, muita gente boa acaba se deixando levar pelo egocentrismo estimulado pelas redes sociais, colocando o profissionalismo de lado em nome de views, likes e shares.

6. Fontes informais não-profissionais

Já estas fontes também operam nas redes sociais e outras mídias digitais, mas não são produzidas por cientistas ou jornalistas. Podemos citar como exemplo blogs mantidos por amadores que reproduzem matérias publicadas em outras fontes, com ou sem modificações. Ou canais de cortes, que divulgam pedaços descontextualizados do conteúdo produzido por podcasts. Até pode ser encontrado bom conteúdo nessas fontes não-profissionais, mas a proporção de informação confiável é bem menor do que em fontes produzidas por quem realmente lida profissionalmente com informação.

7. Fontes de desinformação

Por último temos o esgoto da internet, agora na Era da Pós-Verdade. Trata-se de diferentes meios de comunicação focados não em divulgar informação científica, mas em divulgar pseudociência, teorias da conspiração e fake news. Ou seja, são fontes destinadas a espalhar mentiras. Algumas chegam até a imitar a estética e o discurso de portais de imprensa sérios, a fim de pegar carona no ethos de veículos profissionais. Vale ressaltar que, atualmente, essas fontes focam sua atuação nos comunicadores instantâneos, especialmente o WhatsApp. Algumas delas trabalham para criar o caos na sociedade, a fim de manterem as pessoas com medo, uma estratégia clássica de governos autoritários. Há veículos que se configuram em verdadeiras “máquinas do ódio“, cuja missão é destruir reputações e fomentar preconceito e ressentimento entre segmentos da população.

Como então devemos combinar esses filtros?

A combinação de filtros que você usa na prática depende da missão que você tem nas mãos. Por exemplo, se você estiver elaborando um projeto de pesquisa científica, com o objetivo de produzir conhecimento original, então é melhor focar quase exclusivamente em artigos publicados em revistas científicas e livros técnicos. Já se o seu objetivo for fazer uma síntese do conhecimento sobre um problema de interesse geral, é melhor combinar artigos, preprints, livros técnicos e relatórios técnicos. Se você não quiser produzir conhecimento novo, mas aprender conhecimento consolidado ao fazer um trabalho para uma disciplina de ensino médio ou graduação, uma combinação de livros-texto, livros didáticos e enciclopédias dá conta do recado.

Fora isso, dentro de cada uma dessas categorias de fontes, você ainda precisa conhecer o escopo de cada veículo. Não é muito eficiente, por exemplo, buscar informações sobre mamíferos em uma revista de botânica. Além de diferenças gritantes de tema, no caso de projetos de pesquisa científica, você ainda precisa conhecer diferenças sutis. Por exemplo, dentro do tema mamíferos, há revistas que tratam de todos os mamíferos, enquanto outras focam em apenas uma ordem, como morcegos. Há ainda vieses a serem considerados, principalmente relacionados à abordagem ou escola de pensamento preferidas por diferentes veículos com escopo supostamente igual. Aprenda como usar bem a literatura.

Passo a passo da filtragem

Resumindo então essa habilidade profissional complexa, siga estes passos para filtrar informação:

1. Evite consumir informação passivamente, pois tem muita gente tentando manipular os seus sentimentos. Busque cada tipo de fonte conscientemente, quando quiser obter informação;

2. Antes de decidir qual fonte consultar, tenha em mente qual é a sua missão. Por exemplo, escrever um artigo científico, produzir uma síntese do conhecimento sobre um problema ou fazer um trabalho de escola?

3. Com base nessa missão, decida de qual tipo de fonte de informação você precisa ou ainda se uma combinação é necessária;

4. Prefira, sempre que possível, fontes oficiais e formais, tomando muito cuidado com fontes informais;

5. Se for mesmo consultar fontes informais, que não passam por checagem de fatos, revisão pelos pares ou revisão editorial, considere-as, na melhor das hipóteses, como pontos de partida, buscando em seguida fontes certificadas;

6. Tendo escolhido as categorias de fontes que vai consultar, peneire os veículos com base em seus escopos e vieses;

7. Não caia em falácias de apelo à autoridade! Ao invés de confiar cegamente em autoridades reais ou percebidas, sempre reflita sobre a qualidade da informação que está consumindo, com base na fonte, no controle de qualidade, na lógica, na retórica e no conteúdo técnico.

Conselho final

Não adianta termos um oceano de informação prontamente acessível, se não soubermos navegá-lo em segurança. O nosso trabalho como cientistas, navegando profissionalmente nesse oceano, envolve não apenas saber como filtrar informação, mas também dar o exemplo. Ou seja, divulgar informação com responsabilidade. Na maior parte do tempo fazemos isso sob a vigilância de revisores e editores. Só que cada vez mais usamos também redes sociais e outras mídias “livres”. Assim, quando nos expressamos em meios sem controle de qualidade pelos pares, precisamos ter o dobro do profissionalismo para não contribuirmos com o caos de desinformação. Neutralidade não existe em nenhuma cultura humana e nem na ciência, mas devemos almejar atuar de forma independente e responsável na sociedade. Sem rabo preso com ideologias, partidos ou políticos de estimação. Um dos sintomas dos tempos doentios em que vivemos é termos transformado a palavra “moderado” em “isentão”, usando-a como xingamento.

(Fonte da imagem destacada)

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