Pandemia do novo coronavírus, Parte 13: Saúde Planetária

Excelentes filmes e jogos*, inspirados por pandemias do passado, já vinham nos alertando sobre o tamanho da crise que uma doença não-controlada poderia causar na humanidade. Após mais de 170 milhões de casos e quase 4 milhões de mortes acumuladas no mundo, fora mais de 18 milhões de casos e mais de 500 mil mortes registradas no Brasil, além de mais de 2,5 bilhões de vacinas administradas em vários países, não podemos deixar de pensar em proporções globais. Padrões globais de desigualdade socioeconômica no enfrentamento à Covid-19 trouxeram à tona discussões profundas sobre justiça e saúde planetária. Leia mais sobre isso neste post.

O que é a Saúde Planetária?

Vivemos em um mundo hiper-globalizado, hiper-conectado e hiper-desigual. Considerando esse cenário global, a Saúde Planetária é uma abordagem política e científica que foca em investigar os impactos da aceleração das mudanças ambientais globais na saúde humana. Na definição das Nações Unidas, esses impactos globais se referem principalmente a mudanças climáticas, perda de biodiversidade, poluição e mudanças no uso da terra. Todas essas mudanças estão conectadas entre si de várias maneiras. Quando acontecem juntas, geram riscos para a saúde humana, incluindo saúde mental, doenças não-transmissíveis, doenças infecciosas, desnutrição, deslocamento e conflito. Por conta disso, é necessário que haja ampla adaptação a essas mudanças, para evitar que um cenário global catastrófico e sem retorno se instaure no mundo, o que pode acontecer em um futuro não muito distante. Para evitar esse cenário, precisamos viver e praticar agora uma “Grande Transição” no nosso modo de vida, fortemente determinado pelos padrões de consumo atuais.

Saúde Planetária e mudanças globais

Nações hiper-conectadas precisam cooperar entre si e estabelecer acordos internacionais para minimizar riscos, colocando em suas agendas a biossegurança e as mudanças globais. O último relatório (conhecido como AR5) do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), lá em 2014, alarmou o mundo mostrando que o planeta inequivocamente está aquecendo, tanto na temperatura atmosférica quanto na temperatura do mar. Esse relatório avisa com muita confiança de que os impactos dessas mudanças globais vão agravar ainda mais problemas de saúde já existentes no mundo, principalmente em países pobres, bem como gerar novos problemas em escala global. O objetivo atual para evitarmos esses problemas seria limitar o aquecimento global a apenas 1,5 ºC, o que, segundo especialistas, ainda é possível, com trabalho árduo do mundo como um todo. Em 2022, um novo relatório global (AR6) vai nos atualizar sobre a que pé estamos nessa corrida contra as mudanças globais. Muitos pesquisadores, inclusive eu, aguardam ansiosamente por este relatório histórico.

Quem decide os rumos da Saúde Planetária?

A Saúde Planetária é um tópico que envolve muita urgência e ações práticas focadas em política e governança. As lideranças de diferentes nações participam de eventos alinhavados pela ONU (193 nações são membros) e suas instituições filhas e parceiras, em comitês regionais e globais, como a World Health Assembly (organizada pela OMS), que rolou em maio de 2021, ou a Planetary Health Week 2021, que rolou agora em abril de 2021 (organizada pela Planetary Health Alliance e a USP, apoiados pela UNDP). Esses dois eventos foram bastante importantes e em ambos foram propostas diretrizes para adaptações a mudanças globais. A assembléia da OMS gerou um plano de ação global para vidas saudáveis e bem-estar. Já a Planetary Health Week 2021 está revisando a São Paulo Declaration on Planetary Health (Declaração de São Paulo sobre Saúde Planetáira), que ainda não foi disponibilizada. Cada nação e instituição signatária dos documentos gerados nesses encontros tem o compromisso de seguir com os planos pensados e colocados no papel. A declaração de São Paulo vai apresentar diretrizes para que todos nos envolvamos nessa tão necessária Grande Transição. Iniciativas independentes, como a Global Health 2050, também promovem disseminação de ideias para uma adaptação global, visando saúde e redução de desigualdades sociais.

Conseguiremos conter uma nova pandemia?

Esta é uma das grandes perguntas circulando atualmente no imaginário coletivo. A resposta é: depende. Mas posso dizer com confiança que teremos muito mais chances de conter e até mesmo evitar futuras pandemias, se adotarmos as diretrizes recomendadas para a Grande Transição. Conter uma pandemia depende de muitos fatores que ocorrem em múltiplas escalas, englobando de atitudes individuais até um bom gerenciamento de civilizações inteiras por governos. Além disso, precisamos mais do que nunca de muita inteligência artificial e natural para combater crises globais. Como vimos na pandemia de Covid-19, atitudes simples como usar máscaras corretas da maneira correta e manter o distanciamento social podem ajudar muito a conter novos patógenos. Assim, felizmente, temos excelentes ferramentas científicas em mãos para conter novas pandemias. Entretanto, o sucesso dessa contenção depende da aderência em massa a medidas de prevenção. Essa aderência, por sua vez, depende de comunicação, recursos financeiros e humanos, e fatores intrínsecos de cada bairro, cidade, país ou continente. Ou seja, de uma boa coordenação política entre diferentes atores sociais em diferentes escalas. Adaptação e planejamento devem ser trabalhados constantemente para controlarmos a Covid-19 e nos prepararmos para novas pandemias que fatalmente emergirão no futuro.

(Fonte da imagem destacada)

*Filmes e jogos inspirados por pandemias

Como mencionado lá no começo deste post, pandemias já inspiraram diversas obras de arte, principalmente filmes e jogos. Naturalmente, na arte, algumas coisas são dramatizadas para tornar a narrativa mais envolvente. Contudo, é assustador ver que a liberdade poética dessas narrativas não fica muito longe da realidade em alguns casos. Veja estes exemplos, em ordem cronológica:

12 Monkeys (1995, Terry Gilliam)

Outbreak (1995, Wolfgang Petersen)

Resident Evil (1996, Shinji Mikami)

Shaun of the Dead (2004, Edgar Wright)

Black Sheep (2006, Jonathan King)

Pandemic (2007, Armand Mastroianni)

Contagion (2011, Steven Soderbergh)

World War Z (2013, Marc Forster)

The Last of Us (2013, Bruce Straley & Neil Druckmann)

Poster do filme Contágio, no qual uma pandemia se instaura rapidamente. O filme tem paralelos interessantes com a realidade da pandemia de Covid-19. Fonte da imagem: https://www.ecohealthalliance.org/wp-content/uploads/2011/09/Contagion-movie-poster01.jpg

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