Aprenda as regras do jogo

A vida não é mole, “parça”, então manje dos paranauês.

“Aprenda as regras e quebre algumas”

Dalai Lama

Como não me canso de repetir aqui no blog, é preciso ter um perfil psicológico bem particular para se tornar um cientista profissional. Além disso, você precisa aguentar a pressão de uma carreira de alta performance, na qual o sarrafo só sobe. Uma carreira na qual ficar parado é igual a andar para trás.

Para continuar seguindo em frente e fazendo o seu “corre”, é crucial aprender as regras do jogo. Fique ligado, pois elas não são ensinadas em sala de aula. Tampouco elas são descritas em um manual de instruções oficial fornecido pela sua instituição (apesar de haver alguns extraoficiais por aí). Você as aprende na convivência diária com a sua comunidade.

“Mas, Marco, por que preciso me dedicar também a esse aprendizado ‘soft’, já tendo tantas coisas ‘hard’ a aprender?”

Primeiro, esqueça essa mentalidade gringa de “hard vs. soft“. Para sobreviver na ciência não basta aprender habilidades técnicas, você precisa também de habilidades sociais. As duas skill sets são igualmente importantes.

Portanto, conheça os seus pares e aprenda como eles funcionam. Sabendo bem a qual tribo você pertence, defina um foco na carreira e ajuste-o de acordo com as suas aspirações profissionais, os seus valores pessoais e os valores da sua comunidade. Esses valores coletivos são traduzidos no dia a dia como regras formais e informais. Se você ficar alheio a essas regras, boa parte do seu esforço será em vão. Depois não adianta choramingar, como muitos colegas por aí, que agem como se vivessem em um mundo paralelo e no final se ressentem de “não receberem o devido reconhecimento”.

Acredite: prestar atenção aos costumes da sua comunidade é vital para animais sociais, incluindo os humanos. Isso está gravado nos nossos instintos, então acabamos absorvendo algumas regras óbvias por osmose. Só que outras regras sutis precisam ser percebidas e, depois, internalizadas.

Naturalmente, você não precisa seguir todas as regras o tempo todo. Na verdade, quebrar algumas delas em momentos-chave cria disrupções que podem ser importantes tanto para o seu crescimento profissional quanto para o avanço da ciência. De qualquer forma, você precisa conhecer intimamente todas elas para aos poucos decidir quais seguir ou quebrar.

Para te ajudar a aprender as regras do jogo acadêmico, seguem alguns conselhos práticos.

1. Descubra quais atividades são valorizadas na sua área da ciência

Cada área da ciência tem os seus próprios costumes e valores. As diferenças às vezes são enormes entre áreas. Até mesmo dentro de uma área há diferenças entre instituições, regiões e países. Por isso, mantenha-se conectado à sua comunidade, em diferentes escalas, e troque ideias com os seus pares regularmente.

Procure sentir se o seu círculo próximo valoriza mais pesquisa, ensino, orientação, extensão ou gestão. Dentro de cada um desses pilares da carreira acadêmica, entenda os valores em suas sutilezas. Descubra, por exemplo, se a sua comunidade prefere reportar descobertas científicas em livros, artigos, eventos ou patentes. Se os artigos em revistas forem o meio favorito, procure saber quais revistas são mais valorizadas e por quais motivos.

Por exemplo, não adianta buscar emprego em uma instituição que notoriamente valoriza apenas a pesquisa e depois reclamar que nela a extensão não é pontuada em progressões de carreira. Como dizem no mundo corporativo, você deve se vestir de acordo com o emprego que almeja e não com o emprego que tem.

2. Reflita sobre quais valores coletivos estão em sintonia com os seus valores pessoais

Naturalmente, alguns valores e regras da sua comunidade não vão bater com o seu santo. A menos que você seja uma pessoa sem coluna vertebral. Tudo bem, você não precisa ter 100% de sintonia com o coletivo, até mesmo porque isso é impossível por definição.

Mas você precisa ter um bom grau de sintonia, ou se sentirá o tempo todo como um peixe fora d’água. Pior ainda, será tratado como um peixe fora d’água. Mais importante, você precisa descobrir claramente qual será o custo de desobedecer algumas regras formais ou informais, as quais não consegue engolir de jeito nenhum. Se esse custo for alto demais para você, reflita se não está na área ou na carreira erradas.

Por exemplo, não adianta dizer por aí que publicar artigos é “produtivismo”, mas depois reclamar de nunca ganhar uma bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq.

3. Descubra de que forma é feita a operacionalização desses valores coletivos

Valores são conceitos abstratos, que nós, cientistas, operacionalizamos para o mundo real na forma de pontuação em avaliações. Essa pontuação geralmente é feita usando-se métricas. Sério, acadêmicos têm um verdadeiro fetiche por índices cienciométricos e métricas de produtividade dos mais variados tipos, desenvolvidas para os diferentes pilares da carreira.

Algumas dessas métricas mais gerais ficam bem explícitas no Currículo Lattes e outras métricas mais específicas são reveladas nas avaliações internas de cada instituição, seja para rituais de admissão ou progressão. Estude todas as métricas usadas para aferir a sua perfomance nas atividades que a sua comunidade valoriza e, dentre essas, nas que você decidiu priorizar. Pelo menos em parte, planeje como melhorar a sua pontuação nessas métricas, mas sem abrir mão da ética ou dos seus valores pessoais.

Por exemplo, se, no cadastramento de professores em um PPG, estão exigindo um valor mínimo de fator H, então corra atrás de melhorar a visibilidade dos seus trabalhos.

4. Descubra a maneira mais eficiente de mostrar ao mundo a sua sintonia com esses valores coletivos

Ok, tendo descoberto os valores da sua comunidade a aprendido como exatamente eles são aferidos em diferentes tipos de avaliações, é hora de dar um up no seu game. Ou seja, dependendo dos tipos de avaliação pelos quais você vai passar em curto, médio e longo prazo, aprenda a reportar as suas métricas corretamente e a torná-las extremamente fáceis de aferir.

O segredo aqui, novamente, não é seguir a manada cegamente, fazendo apenas o que os outros fazem. Dedique-se ao que faz sentido para você, considerando os pontos anteriores, e depois registre corretamente as suas atividades. Não adianta ajudar a bater laje, se depois você não tirar selfie na feijoada. O mínimo do mínimo para um cientista profissional que atua no Brasil é manter o Lattes constantemente atualizado com o máximo de acurácia possível. Isso, fora outros currículos e portfólios internacionais, como ORCID, Publons e ResearchGate, para quem deseja se manter conectado à comunidade internacional.

Por exemplo, em cada plataforma, descubra em qual gaveta vai cada tipo de atividade e qual é a melhor forma de descrevê-las. Não faça como aqueles colegas que vivem em um mundo paralelo, mencionados anteriormente, preenchendo o Lattes nas coxas e depois reclamando que “a banca me ferrou”.

5. Ajuste os seus valores de tempos em tempos

Como já dizia Heráclito, “nada é constante a não ser a mudança”. Tudo muda, inclusive valores coletivos e individuais. Portanto, não seja uma pessoa intransigente, que confunde teimosia com virtude. Quando você sentir que está se desconectando da sua comunidade, em termos de missão, visão ou valores, pare e pense: os seus pares estão ficando malucos ou é você quem está ficando desatualizado? Ou será que chegou a hora de você se reinventar profissionalmente? Responder essas perguntas não é trivial e elas merecem uma profunda reflexão em momentos críticos.

Conselho final

Para terminar, reforço o conselho: não adianta você achar que pode viver desconectado dos seus pares e depois reclamar que eles não te valorizam. Seja coerente e lembre-se de que ninguém faz ciência sozinho.

Para saber mais

Ouça também as dicas da Profa. Arcuri, especialmente a número 4!

Você pode até achar que essa dica não se aplica à maioria dos cientistas no Brasil, que são bolsistas ou servidores públicos. Bobagem! Existem muitas oportunidades de ganhar bolsas melhores e mais gordas do que a média ou de aumentar o seu salário através de progressões de carreira, só para ficar nos exemplos mais comuns. Liberte-se da passividade e da autopiedade. Mexa-se!

(Fonte da imagem destacada)

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