Vá para um retiro de escrita

O fim do ano se aproxima, época ótima para fazer um balanço. Quero compartilhar com vocês algo incrível que experimentei recentemente.

Caros leitores,

Geralmente, na carreira de cientista, a conclusão de um projeto, ou pelo menos do grosso dele, se dá quando a primeira versão do artigo principal é submetida à publicação. Nada é mais prazeroso do que fechar o ano cumprindo essa missão! Seguindo essa vibe, este post se refere a uma estratégia que experimentei este ano e que me ajudou muito a terminá-lo sem pendências.

No início do ano, comecei a trabalhar em um novo projeto aqui na Massey University. Nesse projeto, investigamos o risco de emergência de novos vírus zoonóticos, focando em doenças relacionadas à Covid-19. Para começar, propus que modelássemos a distribuição de morcegos que podem ser hospedeiros de coronavírus, de forma reprodutível e atualizável, já que novos hospedeiros potenciais são identificados a toda hora.

Esse projeto exigiu longas horas de trabalho, após um bom planejamento. Só que, na reta final, quando os resultados já estavam prontos e eu poderia começar a lapidar o manuscrito, bateu uma estafa (lá para o fim de outubro). Eu entendi que precisaria de um boost no final do semestre para que pudesse submeter o manuscrito antes das férias e, assim, conseguir descansar. Então tive um insight. Pensei que seria extremamente benéfico para a minha saúde mental, criatividade e produtividade ir para um retiro de escrita! Um lugar no qual eu poderia focar, escrever em paz em um ambiente novo, fora do trabalho e fora de casa.

Nesse momento rolou uma serendipity. Uma organização científica da qual participo ofereceu dois writing retreats no mês de novembro. O objetivo era permitir que pesquisadores pudessem dar um gás em seus projetos em um ambiente calmo, fértil e que proporcionasse sinergia com gente de diferentes áreas. A organização é a Te Punaha Matatini, um grupo de cientistas que se juntou para resolver problemas complexos unindo profissionais de disciplinas diferentes. Eu me inscrevi para dois desses retiros e acabei sendo aceita em ambos. A seguir vou contar um pouquinho como foi cada um.

Ōtaki

O primeiro aconteceu em um lugar lindo, à beira do rio Ōtaki. O lema do retiro era “mahia te mahi” (em português, “faça o trabalho”). Esse lema vem do provérbio maori “mahia te mahi, hei painga mo te iwi“, que significa “faça o trabalho para o benefício das pessoas”.

E assim eu fiz. Em apenas dois dias, consegui fazer uma versão apresentável das figuras, tabelas principais e resultados do artigo. Também me inspirei e gerei um primeiro draft da discussão, com referências e mensagens principais. Haja produtividade! Tudo isso regado a comida vegetariana, rodeada por físicos, estatísticos e designers, curtindo banhos de rio e yoga entre um intervalo e outro.

O sítio em que estávamos tinha vários locais agradáveis e com internet para se trabalhar, em meio a jardins, decoração aconchegante, sempre ouvindo pássaros, abelhas e o rio ao fundo. Era mesmo um lugar especial. Tinha até um cachorro super fofo que me acompanhou até o rio de águas cristalinas. Veja algumas fotos a seguir.

Tenda (Yurt) aconchegante, onde eu fazia yoga e pensava. Foto: Renata Muylaert.
Cachorros são altamente recomendados em retiros :). Foto: Renata Muylaert

Ōtautahi

O segundo retiro foi um pouco mais fora de mão, mas igualmente importante para que eu conseguisse finalizar o manuscrito. Tive que pegar um voo (meu primeiro voo pós-lockdown de 2021) para a ilha sul em Ōtautahi/Christchurch. Do aeroporto pegamos um taxi para chegar a uma mansão (nosso B&B) saída dos livros da Agatha Christie. Decoração antiga, lustres grandes, credenzas e papéis de parede vintage aliados a uma internet oscilante me ajudaram a pensar offline.

Troquei ideias sobre os mais variados assuntos com arqueólogos, ecólogos, especialistas em cultura maori e até computeiros que também estavam no retiro. Foi uma imersão diferente e integradora, pois, por conta da pandemia, o contato pessoal com pesquisadores de áreas diferentes ficou ainda mais difícil.

Nos dois dias e meio desse segundo retiro, consegui melhorar a cadência da discussão e disparar um manuscrito pronto para os coautores revisarem. Quando a minha meta principal nesse retiro foi alcançada, pude ficar ainda mais tranquila, conhecer mais o lugar e as pessoas que estavam lá. Ao final do segundo dia, passeamos por Christchurch depois de jantar com o pessoal do retiro em um restaurante mexicano. Na última manhã, antes de pegar o voo de volta, ainda conseguimos visitar a galeria de arte da cidade, que ficava logo em frente ao retiro. Veja algumas fotos a seguir.

Foto aérea do meu primeiro voo pós-lockdown de 2021, rumo ao retiro de escrita em Chirstchurch. Foto: Renata Muylaert.
Última noite do retiro em um restaurante mexicano com o pessoal da Te Pūnaha Matatini. Data science, arqueologia, cultura, open data, genômica e scifi e games foi um pouco do que conversamos durante esse agradável retiro. Foto: Zac.
Escultura maori na galeria de arte de Christchurch. Foto: Renata Muylaert.

Em ambos os retiros, o fato de eu não estar no meu home office ou laboratório só ajudou a arejar a mente e clarear os pensamentos. Falar sobre o artigo com pessoas que não faziam ideia do que eu pesquiso também foi essencial para escrever de forma clara e sucinta o filet mignon (ou coração do palmito) da discussão.

Então, caros leitores, considerem com carinho a ideia de fazer um retiro. Após essas duas experiências novas, cumpri a meta de submeter o artigo no último dia de trabalho do semestre. Não sobrou nem faltou tempo, então pude sair de férias com uma tranquilidade muito maior do que a habitual. Inclusive, caso você tenha curiosidade, o preprint do manuscrito está aqui.

Quando um artigo empaca, ou para que um artigo não chegue a empacar, uma imersão em um retiro de escrita pode ser a salvação. Planejem ir para um lugar calmo, onde possam fugir da rotina e se proteger de interrupções, com momentos para interação e lazer pré-definidos. Isso tudo sem impor interações pesadas demais, como intermináveis reuniões ou sessões de apresentação. Essa liberdade no cronograma nos alivia das enormes pressões que sofremos no dia-a-dia acadêmico. Além disso, ela nos permite ser mais criativos na escrita, liberando espaço mental para solucionarmos problemas de storytelling, estilo e síntese, a fim de reportarmos de forma mais eficiente as descobertas que fazemos.

Estrutura do retiro

Um ponto importante é que os retiros de escrita dos quais eu participei foram organizados por outras pessoas. Ou seja, eu não tive nenhuma dor de cabeça de ter que comprar passagem, organizar acomodação, alimentação, ou cobrir gastos. Então é importante que o organizador do retiro tenha em mente que quem vai se beneficiar mais com o retiro muito provavelmente serão os participantes. É importantíssimo que o organizador dê o mínimo de dor de cabeça possível para os participantes. Se a experiência não for stress free, não compensa!

Um retiro de escrita pode também ser uma iniciativa individual, e aí o organizador só precisa pensar nas suas próprias necessidades. Por um lado, se perde a interação com outros acadêmicos imersos no mesmo submarino, mas por outro pode se ganha ainda mais solitude para entrar em um estado de flow.

Outro ponto importante de qualquer retiro de escrita é que a estrutura do retiro é bastante solta, já que praticamente tudo no programa proposto é opcional. No modelos dos dois retiros que participei, a comida é servida em certos horários (também soltos) após um rápido Karakia. Sociais (tipo um vinho com a galera) e tours locais (tipo apresentar a fazenda e o rio, contar histórias) acontecem, mas não há pressão de participar ou mesmo interagir. E para garantir a energia para a escrita, café, chás e lanchinhos ficam disponíveis o tempo todo.

Após o jantar, se houver uma roda de discussão sobre um tópico importante, há compreensão e só participa quem quer. No primeiro retiro, teve uma roda de discussão sobre o sistema de financiamento a pesquisa na Nova Zelândia. Eu tinha que trabalhar, mas não podia deixar de ouvir sobre esse assunto, então fiquei sentada fora da roda, trabalhando e ouvindo de vez em quando (o clássico multitasking).

Reforçando, caso você queira organizar um retiro de escrita, pense nesse ponto: precisa ser o mais stress free (em português, de boaça) possível para os participantes. Outra coisa importante: pense nas people skills dos anfitriões do retiro. A vibe tem que ser leve e acolhedora. E nunca, de maneira alguma, obrigue os participantes do retiro a assistir seis apresentações de ’12’ minutinhos sobre projetos ou resultados de outros pesquisadores. Retiro de escrita não é confêrencia nem bootcamp!

Mensagens finais

Caso vocês consigam aplicar essa dica e participar de um retiro, ou caso consigam organizar um retiro dos seus próprios laboratórios, contem para a gente como foi! Já que este é o nosso último post do ano, desejo tudo de bom a vocês. Aproveitem bem os feriados, as festas, o recesso e as férias. Nos vemos em 2022!

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