Nunca é bom o suficiente

Não dependa de tapinhas nas costas para seguir em frente na academia.

“Um homem ia com o filho levar um burro para vender no mercado.
– O que você tem na cabeça para levar um burro estrada afora sem nada no lombo enquanto você se cansa? – disse um homem que passou por eles.
Ouvindo aquilo, o homem montou o filho no burro, e os três continuaram seu caminho.
– Ô rapazinho preguiçoso, que vergonha deixar o seu pobre pai, um velho, andar a pé enquanto você vai montado! – disse outro homem com quem cruzaram.
O homem tirou o filho de cima do burro e montou ele mesmo. Passaram duas mulheres e uma disse para a outra:
– Olhe só que sujeito egoísta! Vai no burro e o filhinho a pé, coitado…
Ouvindo aquilo, o homem fez o menino montar no burro na frente dele. O próximo viajante que apareceu na estrada perguntou ao homem:
– Esse burro é seu?
O homem disse que sim. O outro continuou:
– Pois não parece, pelo jeito como o senhor trata o bicho. Ora, o senhor é que devia carregar o burro em lugar de fazer com que ele carregasse duas pessoas.
Na mesma hora o homem amarrou as pernas do burro num pau e lá se foram pai e filho aos tropeções, carregando o animal para o mercado. Quando chegaram, todo mundo riu tanto que o homem, enfurecido, jogou o burro no rio, pegou o filho pelo braço e voltou para casa.”

O Velho, o menino e o burro – Fábulas de Esopo

Você já se sentiu como o velho dessa fábula, ao passar por avaliações acadêmicas, sejam elas formais ou informais? Conforme a gente avança na Jornada do Cientista, e mesmo depois que a concluímos, essa sensação vai aumentando cada vez mais.

Pode ser que você tenha acabado de publicar um artigo que te encheu de alegria. Você e a sua equipe fizeram uma descoberta maneiríssima, que merece ser reportada ao mundo. Levou anos para concluirem o projeto, depois de muito sangue, suor e lágrimas, superando até mesmo uma empacada. No final, o artigo acabou encontrando um lugar ao sol em uma revista top de área, na qual todos querem publicar.

Só que aí, ao passar por uma banca de progressão de carreira, um colega, inspirado por outra fábula de Esopo, diz que a revista está “verde demais”. Ele diz que só é ciência de verdade o que sai na Nature, Science ou PNAS.

Pode ser que você venha, há anos, ministrando uma disciplina da qual se orgulha. Gasta tempo e energia com novas atualizações a cada edição. Sente um enorme prazer ao dar as aulas e guiar as práticas. As avaliações de todas as turmas ficam concentradas entre o bom e o excelente. Alguns alunos comentam contigo, muito tempo depois de formados, o quanto a sua disciplina foi inspiradora e influenciou suas carreiras.

Só que aí, ao participar de uma plenária sobre o currículo da graduação, um colega militante ataca a sua disciplina do nada. Ele diz que a ementa dela está ultrapassada e que a pedagogia usada não está de acordo com a ideologia dominante na sua universidade.

Pode ser que você mantenha um excelente canal que te dá muita satisfação. Nele, você posta vídeos de divulgacão científica que produz com o maior capricho. Muita gente de fora da academia te dá feedbacks empolgantes, dizendo o quanto você os ajudou a entenderem temas que pareciam alienígenas. Você até já passou dos 100 mil inscritos, com direito a plaquinha e tudo mais.

Só que aí, durante o cafezinho em um congresso, um silverback debocha da sua iniciativa de extensão. Ele diz que cientista de verdade não perde tempo com divulgação científica, mas foca em publicar papers.

Pode ser que você já tenha orientado um monte de aspiras ao longo da sua carreira. Hoje, muitos deles ocupam posições de destaque em universidades, institutos, escolas, empresas, ONGs, OIs e órgãos públicos. Você chegou a criar laços de amizade com alguns deles. Juntos, publicaram artigos coerentes que construíram um corpo de conhecimento sólido.

Só que aí, em uma rodada para concessão de bolsas de produtividade, o comitê decide que não foi suficiente. Outro colega, cuja maioria dos alunos sequer publicou suas teses ou conseguiu emprego, ganha a bolsa na sua frente só porque orientou ainda mais gente.

Pode ser que você tenha ocupado dezenas de cargos administrativos na sua universidade, desde comissões até órgãos colegiados. Pegou essas missões sem glamour, porque não gosta de ficar sob os holofotes, mas sabe a importância de contribuir para a máquina continuar girando. Participou inclusive da comissão para escolha da nova marca de papel higiênico usada no instituto, super-macia, que parece um carinho íntimo.

Só que aí, ao prestar um concurso para professor titular, um membro da banca te humilha. Segundo ele, esse portfólio rico em cargos médios não quer dizer nada, porque você nunca pegou um cargo de chefia.


Qual seria a resposta correta para todas essas situações?

Revidar os ataques na hora, porque levar desaforo para casa faz mal ao fígado? Não revidar, mas guardar rancor e criar vendettas? Simplesmente engolir o sapo, porque é mais importante ter paz do que ter razão?

Ou será que, na verdade, você deveria ter feito tudo diferente, como o velho da fábula, mudando constantemente o seu jeito de fazer ciência só para agradar aos outros?

A resposta correta é parar, respirar e fazer uma profunda reflexão.

Você precisa entender que, em carreiras de alta performance, patologicamente competitivas, o que você faz nunca é bom o suficiente para todos os colegas, em todos os contextos, o tempo todo. Por mais que você se esforce para aprender as regras do jogo e segui-las à risca, sempre haverá algum ressentido para desdenhar as suas conquistas.

Por isso, aprenda desde cedo que, para ser capaz de apanhar e seguir em frente, a sua motivação deve vir de dentro de você mesmo.

Não espere tapinhas nas costas. Mantenha-se aberto à crítica, mas faça as coisas em que acredita sem depender de validação externa. Prove o seu valor explicitamente à sua comunidade apenas quando necessário, em avaliações formais, mas não leve tão a sério os resultados delas.

Isso porque, por um lado, é importante ser água, já que costumes mudam no tempo e no espaço, inclusive no pequeno mundo acadêmico. Por outro lado, apesar de a água tomar a forma do recipiente onde é colocada, podendo se apresentar também como vapor ou gelo, ela permanece sempre água.

Para ser água clara, reflita sobre os seus valores pessoais e estabeleça as suas metas profissionais com base neles. Descubra o seu ikigai. Só assim você será capaz de manter sua saúde, saborear suas conquistas e curtir sua jornada.

Lembre-se também de que bons mentores são fundamentais. Faz toda diferença do mundo ter uma pessoa madura e experiente ao seu lado, que cuide de você e te ajude a colocar o velho, o menino e o burro em perspectiva. Já se você for o mentor da relação, saiba ser um porto seguro para os seus aspiras em meio a um oceano de toxicidade.

(Fonte da imagem destacada)

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11 respostas para “Nunca é bom o suficiente”

  1. Excelente texto Marco, suas ideias sempre me despertam profundas reflexões e aprendizados. Através desse texto visualizei cenas do meu mestrado. Obrigado!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado, Cassiano! Fico feliz em poder ajudar vocês a tomarem uma espécie de red pill acadêmica. A gente precisa sair do modo automático e pensar melhor sobre um monte de coisas.

      Curtir

  2. Tenho lido os textos por que a assinatura me avisa. Tem sido muito útil como um roteiro do que ainda nem sei se vou conseguir (hahaha). E a parte mais básica da temática dos textos vai ao encontro do que consegui até o momento…

    Agradeço muito por este serviço de ciência solidária!

    Curtido por 2 pessoas

  3. Muito legal Marco.

    Adoro essa fábula e volta e meio me lembro dela.

    Tem um pensamento que eu gosto e que também tem uma mensagem ligeiramente similar:

    “Não viva dando muitas explicações
    Seus amigos não precisam,
    seus inimigos não vão acreditar,
    e os estúpidos não iram entender…
    Então guarde-as para quem realmente a mereças!”
    Autor desconhecido

    Abraço!

    Curtido por 2 pessoas

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