Sobre a importância de errar

Recentemente eu estava lendo o livro “On Writing” do Stephen King e me deparei com uma frase que me fez pensar sobre a importância de errar. Não só ao escrever, que é o foco do livro. Errar em tudo.

“Sometimes you have to go on when you don’t feel like it, and sometimes you’re doing good work when it feels like all you’re managing is to shovel shit from a sitting position.” – Stephen King, On Writing, p. 78

A frase acima é um dos vários conselhos que King oferece em seu livro para escrever. Esse pensamento, que recomenda escrever independente do produto, fez-me pensar sobre errar. A frase de King é para te motivar a fazer, sem neurose com o resultado. E lá estava eu pensando sobre a importância de errar. O que essas duas coisas tão distantes entre si teriam em comum?

Passei horas deliberando com meu cachorro sobre o assunto, porque ele me cãopreende.

Eu, empolgado, argumentava que essas coisas não tinham conexão entre si. Ele me observava, com seus profundos olhos negros, levando a língua aos lábios. Eu percebi que ele se sentia inquieto porque levantava sua pequena pata dianteira e me mostrava a almofada da pata como se a oferecesse para mim. “Olhe minha patinha, pegue ela” – seus olhos diziam.

Eu, resolvido a ganhar o argumento, reforçava meu ponto, exemplificando o porquê de elas não terem conexão. Ele, obstinado como só um cachorro consegue ser quando quer atenção, continuava me oferecendo a pata, adicionando um leve choro para tentar aumentar o eixo emocional de sua súplica. Mais uma vez, querendo ganhar o argumento, eu explicava para ele o meu ponto com mais calma. “Por favor, me ajude” era o que meu tom de voz dizia. Ele, como um ditador do momento do carinho, colocava sua patinha em minha mão. Ele estava tentando acabar com o meu argumento, claro.

Eu, derrotado, soltei o ar que estava preso em meus pulmões, dando-me por vencido. Estiquei minha mão, aceitei sua patinha e fiz carinho nele. Ele abanou seu rabo demonstrando sua felicidade por ter me vencido. E foi aí que eu percebi: fazer, independente do resultado, geralmente significa errar.

Meu cachorro tentou três vezes até conseguir atenção e carinho, falhou em duas, mas na última conseguiu. Alguém o recrimina por errar nas duas primeiras tentativas? Não. Por que, então, temos tanto medo de errar?

Pessoalmente, penso que é porque nos importamos muito com o assunto. Chame de ego, orgulho, o que achar melhor. O fato é que errar dói muito. Como aqueles bons instintos de caçador-coletor ainda estão ativos dentro de nós, não gostamos de errar. Errar, naquela época, podia significar a morte. Hoje em dia errar significa apenas tentar, principalmente na pós-graduação. Errar dói sim, qualquer pessoa ansiosa sabe disso, mas precisamos entender que errar é um excelente mecanismo de aprendizado – há pesquisas sobre isso.  É por isso que nós, como comunidade científica, precisamos entender o valor do erros.

A pós-graduação, no fim das contas, nada mais é do que uma licença para errar.

Sim, eu sei que há uma cobrança gigantesca para publicar bem, escrever bem, analisar dados bem, fazer experimentos bem, pensar bem. Você tem que fazer tudo bem. E tem que desenvolver essas habilidades para ontem. Mas é só errando muito que você vai conseguir melhorar nessas coisas. Sabe aquele velho lamento: “nossa, precisava ver como meu projeto do início da graduação era horrível. Como eu escrevia mal!”? Provavelmente é verdade, mas sabe porque você pensa isso hoje? Porque você teve coragem para errar naquele tempo.

Muitos gurus do empreendedorismo usam a frase de efeito: “fail fast“. Muitas pessoas não gostam desse lema (1) (2). Eu não tenho uma opinião formada, mas acho que não estigmatizar tanto o erro é um caminho de pensamento interessante.

Pense em quantas vezes o Michael Jordan errava a cesta em seus treinos, ou mesmo durante jogos da NBA, para poder chegar aos recorde que bateu?

E a Marie Curie? Foram inúmeros erros no laboratório, alguns inclusive perigosos para a saúde, até se tornar a primeira pessoa a ganhar dois prêmios Nobel. Por sinal, a sessão sobre carreira da Science de vez em quando solta matérias sobre erros que pesquisadores famosos cometeram e que ajudaram muito na carreira.

Mas, afinal, o que vocês acham disso?

Eu sei que esse texto parece meio de auto-ajuda (talvez seja até uma auto-ajuda para mim mesmo, afinal, eu converso com o meu cachorro). Contudo, eu gostaria de saber a opinião de vocês. É algo muito espinhoso e complexo para ser tratado em um simples post com só um ponto de vista. Que tal debatermos aqui nos comentários então?

 

 

Anúncios

22 respostas para “Sobre a importância de errar”

  1. Vejo os alunos com muito medo de não dar conta, medo de errar, medo de tentar. Tem medo do PIBIC, de escrever um resumo, um relatório… o medo é maior que a vontade de aprender. Eu sempre dou exemplos dos meus erros, para mostrar que é normal errar, e que é importante que alguém venha e aponte onde estamos errando para nunca mais cometermos os mesmos erros. Mas sinceramente estou cansada e não sei mais como fazer para incentiva-los.

    1. É realmente difícil Jeamylle, e posso afirmar que tu não está sozinha nesse sentimento. Já escutei a mesma coisa de mais de uma fonte. E, apesar de eu não ter muita experiência com orientação, entendo teu sentimento. Penso que as causas são inúmeras e não existe uma única resposta. Orientadores não são treinados para gerir pessoas, as gerações mais novas parecem ter mais medo, o que é do orientador e o que é do aluno. Mas, já que a temática do texto é sobre errar vou tentar me manter no tema.
      Imagino que toda tentativa de incentivar os alunos é uma tentativa. Cada vez que o aluno não consegue, é como se fosse um erro para você. Cada erro acumula, minando tua confiança a ponto de “quebrar”. Imagino que o desânimo dos acúmulos de erros vem de querer ver o alunos sendo bem sucedidos e não conseguindo. Mas, será que a cada tentativa de incentivar os alunos você não aprendeu algo? A tua estratégia de compartilhar os teus próprios erros com os alunos não veio dessa tentativa e erro? Então, será que não vale a pena errar mais um pouco para que o incentivo funcione melhor com os futuros alunos?
      É muito difícil; e não ter uma resposta para esse dilema é mais difícil ainda. Mas, quem sabe vale o exercício mental de tentar olhar por outra perspectiva…
      Obrigado por compartilhar sua história! Ela realmente me fez reavaliar algumas coisas!

    2. Pois é, Jeamylle, isso é complicado mesmo. Essa insegurança aumentou muito desde a geração Z. Entre os millenials e iGen, virou pandemia. Fruto de uma educação familiar super-protetora e de uma vida excessivamente online, sem contato interpessoal no mundo real. Não adianta lutarmos contra, temos que achar um jeito de educar essa galerinha. Desafio complexo!

  2. Oi Alexandre, muito bom seu texto.
    Primeiro, ❤ cachorros.
    Estou tendo uma experiencia bem diferente do que já passei até hoje, no meu doutorado. Comecei um experimento recentemente com um oraganismo que nunca trabalhei (camundongo, eu so trabalhei com morcego ate agora) num tópico que nunca nem tinha pensado que ia trabalhar (fisiologia). Por sinal, eu nunca fiz experimentos antes. Daí to errando numas coisas tão basicas que me irritam profundamente. Além disso, meu orientador não sabe comunicar meus erros de uma maneira que eu entenda-os e responda rápido para que eles não aconteçam novamente. Mas tenho certeza que estou crescendo com eles. Talvez se eles doessem menos ou minha recuperação fosse mais rápido, seria melhor pra minha saúde, mas ne… errando que se aprende…

    1. Obrigado pelo elogio!
      Experimentos laboratoriais são o epíteto perfeito para errar na pós-graduação. São tantos detalhes minúsculos
      para as coisas funcionarem que ninguém te ensina, que até você conseguir o experimento já deu muito errado muitas vezes. E não é que as pessoas não querem te ensinar, muitas vezes nem elas sabem que sabem! É como aquele velho ditado sobre comida de mãe e avó: “eu faço a mesma coisa e o gosto não fica igual”. Muitas vezes, são pequenos detalhes que fazem toda a diferença no produto final.
      Então, tente não se puxar para baixo com erros em experimentos – é um processo de adaptação. Eu passei pela mesma coisa que você está passando quando troquei experimentação com crustáceos de água doce para animais marinhos: foram três meses inundando o laboratório até conseguir acertar (sim… isso realmente aconteceu mais de uma vez). Sentir-se mal porque errou é perfeitamente natural, e é até bom – quer dizer que você se importa. O que importa é seguir em frente, tentando sempre aprender com o que errou.

      Obrigado por compartilhar a tua história aqui 😀

  3. Parabéns pelo texto!!! Muito bom!!! Temos que parar de alimentar essa cultura “errar é o fim do mundo” atrelada com várias outras que existem na pós, como a do “conhecimento de todo o saber possível e inimaginável” e, também, a da falta absoluta de humildade (replicada e incentivada entre os alunos de pós que adoram apontar isso nos orientadores e não enxergam que estão fazendo exatamente a mesma coisa). Precisamos respirar mais, fazer mais, errar bastante (mas com um pouco de consciência e entendo cada vez que erra), estudar em cima dos erros, aperfeiçoar e, no fim, acertar ou chegar em outra conclusão ou hipótese tão boa quanto a esperada inicialmente. Errar é parte intrínseca do processo de se tornar um bom cientista. Não tem algo mais gostoso do que ver uma coisa legal que você gerou e pensar “nossa, ralei para ter isso aqui”.

    1. Obrigado Bruno! Tanto pelo elogio quanto pelo comentário. Creio que você conseguiu encapsular muito bem a ideia do texto! Precisamos entender que errar faz parte, tentar aprender com os erros e a valorizar a jornada até chegar no resultado final.

  4. Adorei o texto, Alexandre. Estou refletindo agora sobre meus CTRL+R pensando em cada comando como uma tentativa de acertar a cesta hahahaha.. o que incomoda sobre os erros é justamente (no meu caso) não valorizar tanto as pequenas vitórias, mas ficar desproporcionalmente puta com os erros..
    abs,

    1. Mexer no R é muito isso mesmo! Depois de horas e horas tentando consertar um erro vem a alegria de ter conseguido. Como falamos por aqui: “o R é o videogame da pós-graduação” ahahahah.
      Essa questão de não valorizar as pequenas vitórias é um problema maior do que as pessoas percebem… Acho (ênfase em achar) que muito da ansiedade e depressão que temos na pós-graduação vem de não valorizar as pequenas vitórias. Talvez até valha escrever algo sobre isso aqui. Obrigado pelo comentário!

  5. Belo texto, Alê! Um dos seus melhores! Adorei os comentários dos leitores também. Há um ponto que eu gostaria de ressaltar nessa discussão. Nós erramos muito, sim, o tempo todo. Mas as pessoas que mantém a mente de principiante devem almejar não insistir no erro. Se você faz uma determinada tarefa e ela não dá certo, da próxima vez mude alguma coisa na maneira de fazer. Se você comete um erro que envolve um vacilo com alguém, não basta pedir desculpas: não repita o vacilo.

    1. Valeu Marco!
      Os comentários estão muito bons mesmo, inclusive o teu. Essa parte de “errar com sabedoria” é algo que precisava ficar mais explícito no texto mesmo.
      Vou fazer um update no post daqui uns dias para adicionar toda a discussão que o texto gerou. Assim, quem ler o texto vai ter uma experiência mais completa, com mais vozes adicionadas a narrativa. Para mim, isso é sensacional!

  6. Errar faz parte; mas para mim isso poderia ser mais enfatizado. Quando
    a gente vê uma apresentação bacana numa conferência, ou lê artigo bom,
    é natural ficar impressionado. A gente compara nossos erros, as
    semanas em que nada parecia avançar (nosso interior) com o “marketing”
    das outras pessoas (o exterior delas).

    Um certo cientista tem o seguinte poema, de Piet Hein, esculpido numa
    pedra grande do seu jardim. (A tradução abaixo é minha, e talvez esteja
    errada..)

    > O caminho para a sabedoria?
    > É básico, simples de expressar.
    >
    > errar,
    > errar,
    > e errar de novo.
    > Mas menos,
    > menos,
    > menos
    >
    > —
    > Piet Hein

  7. Comentário do Marcelo Dalosto içado lá do Facebook:

    “Errar é importante, mas há maneiras de errar. Especificamente, você aprende com seu erro, mas aprende muito mais e melhor se você fizer as perguntas certas e analisar de maneira adequada (e isso também requer treinamento). Se a gente entrar na famosa espiral da auto-depreciação (sou um merda, nunca vou ser que nem fulano, por aí vai…), dificilmente o erro será instrutivo. Por isso, não devemos ter medo de errar, mas também devemos ser observadores cuidadosos de nossos erros, para tirar o melhor proveito da situação. Por consequência, fail fast talvez não seja o melhor conselho.”

    Concordo em gênero, número e grau Marcelo. Sempre que errarmos, precisamos pelo menos refletir o porquê erramos e o que podemos melhorar. Até por isso não tenho uma opinião formada com o “fail fast”. Não temos que forçar o erro, mas sim entendê-lo quando ocorrer.

  8. Que texto maravilhoso e muito bem humorado! Parabéns e obrigado.
    Penso que errar é absolutamente natural e essencial para o aprendizado, seja na academia, seja na vida.
    Claro que o erro em si não deveria ser valorizado. Entretanto, o que é feito/aprendido após o erro deveria ser levado em conta e talvez até mesmo contabilizado de alguma maneira.
    O erro pode ser apenas um degrau para se alcançar determinado resultado, que muitas vezes não era esperado em primeiro lugar.
    Me lembro de uma publicação (Journal of negative results), que era motivo de piadas no laboratório. A questão dos resultados negativos (droga x não cura o câncer y, por exemplo) é outro assunto que mereceria um post aqui também.
    Com relação ao erro, como quantificá-lo e utilizá-lo como métrica de produção de um cientista?
    Abraços

    1. Obrigado pelo comentário Fabrício!
      Concordo contigo. A questão realmente não é valorizar o erro, é começar no próximo passo: Dado que errei, o que posso retirar dessa experiência. É até engraçado pensar quantos pessoas sofrem porque um experimento deu errado, quando experimentos sempre dão errado antes de darem certo. Como você disse muito bem, cada erro é um degrau para conseguir executar o experimento da melhor forma possível.

      Muito obrigado pela sugestão de post, é um assunto interessante mesmo!

      Não sei se tem como quantificar o erro, pois não temos um “grupo controle” de pessoas que não cometeram o erro. Além disso, teria que contabilizar que podemos aprender com o erro dos outros, a qual é a forma preferível de aprendizado no meu ver. Contudo, podemos pensar de uma forma um pouco diferente. Há um tempo atrás alguns pesquisadores começaram a postar o que eles chamaram de “Shadow CV”, o currículo oculto que ninguém comenta. Artigos negados, projetos recusados, todas essas coisas estavam lá. Talvez daria para operacionalizar as recusas como “erros” e correlacionar com o currículo real do pesquisador e testar se mais erros correlacionam com “maior sucesso” na academia. Seria um exercício legal, nunca tinha pensado nisso…

      Abração e obrigado pelo comentário!

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.