Onze conselhos que todos deveriam ouvir ao ingressar na pós-graduação

A Jornada do Cientista é fascinante, mas também árdua. Nela, boas escolhas fazem toda a diferença do mundo. Vamos conversar sobre desafios e oportunidades.

Como já discutido em outros textos, para se tornar um cientista profissional é preciso ter um perfil psicológico adequado, encontrar um bom orientador, trabalhar duro, pensar de maneira proativa e cuidar da própria saúde. Dar sorte na vida também ajuda muito!

Se você refletiu com muita calma sobre o seu ikigai, escolheu a ciência como carreira e acabou de ingressar em um programa de pós-graduação (PPG), seja como mestrando ou doutorando, este texto foi escrito para você.

Minha inspiração para estes conselhos veio principalmente dos guias escritos por John Thompson (On being a successful graduate student in the sciences), Stephen Stearns (Some modest advice for graduate students) e Raymond Huey (Reply to Stearns: some acynical advice for graduate students), além do Manual do Aluno do PPGE/USP. Não poderia deixar de mencionar também o sensacional Guia Ilustrado para o Doutorado, escrito por Matt Might.

Escrevi este texto originalmente como uma seção do Manual do Aluno do PPG-ECMVS/UFMG. Agora atualizei-o e adaptei-o para o blog.

Vamos aos meus conselhos então.

1. Saiba muito bem porque você ingressou na pós-graduação

A carreira acadêmica é apenas uma dentre várias possíveis para uma pessoa interessada em ciência. Há várias outras carreiras de nível superior honradas, menos sofridas, com maiores chances de sucesso e que pagam melhor.

Portanto, se você está apenas interessado em curtir o status da vida de pós-graduando e aproveitar uma bolsa enquanto não aparece outra coisa, é melhor procurar outro caminho.

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Reflita bem antes de atender o chamado para a aventura. Fonte da imagem.

A pós-graduação acadêmica (stricto sensu) deve ser almejada principalmente por pessoas que amam estudar e não conseguem desgrudar dos livros. Podem ser pessoas que curtem gerar conhecimento novo, mas também pessoas que desejam obter uma formação científica sólida para usar fora da Academia. Se você não gosta de estudar e preferiria arrumar logo um emprego mais prático, é melhor procurar outro caminho.

Além disso, é preciso ter um perfil psicológico muito particular para ter chances concretas de progredir como cientista. Se você não tem fome de conhecimento ou não sabe lidar com frustração, é melhor procurar outro caminho.

Tenha certeza de que é isso mesmo que você quer fazer da vida, pois um mestrado e um doutorado podem até mesmo diminuir a sua empregabilidade no mundo real, ao contrário do que reza a lenda.

Agora, se você é curioso, disciplinado e sabe como levar uma rasteira, mas levantar sem tocar no chão, igual um bom capoeira, então a pós-graduação pode ser um bom caminho para você.

2. A pós-graduação é dura e os títulos conquistados não garantem emprego

Saiba que um bom pós-graduando, apaixonado pela própria linha de pesquisa e comprometido com a tese, dedica muito mais do que 40 horas semanais ao estudo. Apesar de ser necessário buscar um equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal, a pós-graduação definitivamente não é um trabalho “das nove às cinco”.

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Não se engane: o mestrado e o doutorado dão muito trabalho! Fonte da imagem.

O binômio “mestrado + doutorado” representa uma fase da carreira em que o jovem cientista se dedica a fundo ao aperfeiçoamento profissional, saindo ao final com a capacidade de fazer ciência de forma independente. Sacrifícios são necessários.

E mesmo com toda essa dedicação, a competição por empregos estáveis, seja na Academia ou fora dela, sempre foi muito dura nos países líderes da ciência mundial e é cada vez mais brutal no Brasil. As melhores vagas ficam com aqueles que investem mais na própria formação. O que não falta no mercado são doutores desempregados ou atuando em áreas que não eram seu alvo original.

No mundo da ciência, fazer uma pós-graduação, especialmente um doutorado, significa fazer um investimento em uma carreira de alta performance, como no caso de atletas que visam competir nas Olimpíadas. O caminho é duro e não há garantias de sucesso.

3. Você não é feito apenas de mente

É comum jovens pós-graduandos empolgados com a Jornada do Cientista caírem em desequilíbrio e se esquecerem de que, além de uma mente, têm também um corpo e um espírito (em um sentido amplo). Portanto, você deve cuidar dos três e trabalhar para uni-los.

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Não descuide das relações com a família e os amigos. Fonte da imagem.

Além de estudar muito e se dedicar ao seu projeto de pesquisa, procure se alimentar bem, dormir bem, ter um hobby, praticar atividade física, cultivar uma vida social e ir ao médico regularmente.

Àqueles que vivem alguma forma de espiritualidade não é recomendado se afastarem totalmente das suas respectivas comunidades ou práticas.

4. Ser um pós-graduando significa ler muito

Para fazer um mestrado ou um doutorado, não basta assistir aulas, fazer provas, escrever dissertações etc. A principal forma de estudo de um pós-graduando deve ser a leitura independente.

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Um bom pós-graduando ama os livros. Fonte da imagem.

O contato com professores e colegas, as disciplinas e as demais atividades do seu PPG devem servir apenas como um pontapé inicial em diferentes temas. Através da comunidade você descobre os caminhos que existem. Mas são os livros e artigos que realmente te ajudarão a trilhar o caminho que escolher.

Para o bom pós-graduando a leitura nunca é uma obrigação, mas sim um prazer ou mesmo um vício. O bom pós-graduando precisa de tempos em tempos se policiar para estudar menos e não mais.

5. Você faz parte de uma comunidade

Ninguém faz ciência sozinho. E, sendo um pós-graduando, você faz parte das comunidades do seu laboratório, PPG, instituto e universidade.

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Nenhum hobbit é uma ilha.  Fonte da imagem.

Assim, não pense apenas em si mesmo e na sua tese. Esteja sempre disposto a ajudar os seus colegas e contribuir para a solução de problemas comuns.

Além disso, tenha plena consciência dos seus direitos e deveres, e respeite as normas regimentais do seu PPG e da sua universidade, pois quebrá-las significa prejudicar a si mesmo e à toda a comunidade.

6. O seu projeto deve almejar ir além

Não tem sentido dedicar anos de trabalho duro, além de gastar enormes somas de dinheiro público (bolsas + auxílios + infraestrutura), para desenvolver projetos que reinventam a roda.

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Dá mais trabalho seguir por caminhos não usuais, mas só eles te levam aonde ninguém jamais foi. Fonte da imagem.

Um bom pós-graduando deve, com a ajuda do orientador, professores e colegas, ter por objetivo fazer descobertas.

Tanto faz se o projeto é empírico ou teórico, básico ou aplicado, descritivo ou orientado por hipóteses: a originalidade e a criatividade são os denominadores comuns.

7. Aprenda a se comunicar bem

Na Academia, não basta fazer descobertas, inventar novas tecnologias ou desenvolver soluções para problemas práticos. É preciso saber comunicar os resultados do seu projeto aos seus pares e ao público leigo.

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É fundamental aprender a se comunicar bem, inclusive com pessoas de fora do seu círculo habitual. Fonte da imagem.

Assim, estude e pratique a comunicação oral e a escrita, pois elas são fundamentais para o seu crescimento profissional. A melhor forma de praticar é na vida real, ou seja, apresentando palestras e pôsteres em congressos e submetendo artigos para revistas.

Dê uma atenção especial à prática da redação, pois ela é uma habilidade muito menos trabalhada do que a fala.

Mesmo assim, não se esqueça da oratória, pois em muitas situações precisamos nos comunicar presencialmente. Há técnicas para fazer isso de forma eficiente.

8. Considere a crítica como a sua melhor amiga

Uma das principais diferenças entre a ciência e outras culturas humanas é uma verdadeira obsessão pela autocrítica. A crítica é, por exemplo, a base do sistema de revisão por pares, o famoso controle de qualidade da literatura científica.

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Um bom aspira sabe a hora de baixar as orelhas e admitir seus erros, evitando o mimimi. Fonte da imagem.

Saiba que uma informação nova gerada em um projeto nunca é considerada científica de verdade, enquanto não for escrutinada pelos pares. Portanto, ninguém se desenvolve plenamente como cientista, se não souber ouvir, digerir e metabolizar críticas.

No começo do nosso treinamento, geralmente sentimos cada crítica a trabalhos, projetos, artigos, pôsteres ou palestras como uma ofensa pessoal. Contudo, um bom aspira aprende aos poucos a dissociar o pessoal do profissional. E um dia entende que a crítica oferece uma oportunidade ímpar de crescimento.

Lembre-se sempre de que correr riscos, errar, ouvir críticas, aprender com elas e consertar o rumo é o que te faz crescer na vida e na carreira.

9. Use bem o seu tempo

Os quatro anos do doutorado voam. E os dois anos do mestrado simplesmente escorrem por entre os dedos. Desta maneira, use muito bem o seu tempo.

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Planeje muito bem cada passo da sua jornada. Fonte da imagem..

Não proponha projetos grandes demais para o tempo que você tem disponível no mestrado ou no doutorado. Não se envolva com mais disciplinas do que o necessário, pois você deve reservar a maior parte do seu tempo à leitura e à introspecção. Escolha muito bem os congressos que vai frequentar.

Crie uma rotina de estudo e trabalho. Elabore um plano de atividades do começo ao fim do seu curso. Tenha disciplina para respeitar essa rotina e esse plano.

Se você não for naturalmente bem organizado, use um dos vários métodos de gerenciamento do tempo existentes, como por exemplo Metodologia 5S, Pomodoro Technique ou Getting Things Done.

10. Fazendo ciência você contribui para uma cultura milenar

A ciência é uma das grandes culturas milenares humanas, desenvolvida desde a Antiguidade e com raízes na pré-história.

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Talvez você tenha entrado na batalha ontem, mas a nossa guerra é milenar. Fonte da imagem.

A ciência serve para nos ajudar a entender o universo em que vivemos. Ela também serve para nos ajudar a resolver problemas práticos e melhorar a qualidade de vida das pessoas. O conhecimento acumulado por ela transcende séculos, culturas, países e regimes políticos.

Após receber o treinamento dado em um mestrado ou doutorado, você sairá com uma bagagem de conhecimentos e habilidades muito maior do que a grande maioria das outras pessoas. Use essa bagagem para ajudar a tornar o mundo um lugar mais iluminado.

11. Fazendo ciência em um programa público você tem uma responsabilidade social

Ao ingressar em um PPG, mesmo que você não receba uma bolsa de estudos, estará gastando dinheiro público com a sua formação.

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Saiba não apenas receber, mas também oferecer ajuda. Fonte da imagem.

Nossos PPGs, em sua maioria e especialmente nas ciências básicas, são sustentados principalmente por verbas de órgãos governamentais, como Capes, CNPq, FAPs, MEC, MCTIC, MMA e a própria universidade. Os projetos dos professores, que dão infraestrutura para as teses dos alunos, também são sustentados por verbas públicas, em sua maioria.

Assim, descumprir obrigações, fazer apenas o mínimo necessário em disciplinas ou empurrar a tese com a barriga não são opções moralmente válidas.

Lembre-se de que cada real gasto com você poderia ter sido gasto para alimentar ou agasalhar uma família que mora na rua. Isso, em um país onde ainda há milhões de miseráveis e analfabetos. Ganhar dinheiro público para estudar em dedicação exclusiva, ao invés de ter que pagar mensalidade (como quem faz um MBA particular, por exemplo), é um baita privilégio, que deve ser honrado.

O retorno mínimo que você deve à sociedade é levar a sério as atividades do seu PPG e, ao final, desenvolver uma tese de qualidade e adquirir competência científica.

E você pode ir além disso, por exemplo, divulgando o conhecimento estabelecido para o público leigo ou ajudando em projetos que visam prestar serviços à comunidade extra-acadêmica.

Conselho final

Não é preciso ser um gênio para fazer um bom mestrado ou doutorado. Basta ter apetite, disciplina e perseverança.

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Perseverança, acima de tudo. Fonte da imagem.

Sugestões de leitura

  1. Pacotão de dicas sobre a carreira acadêmica: aspiras
  2. Pacotão de dicas sobre a relação orientador-aluno
  3. Livro do blog
  4. How to be a terrible graduate student
  5. A thesis proposal is a contract
  6. Advice for Grad Students (and Senior Faculty)

 

(Fonte da imagem destacada)

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7 respostas para “Onze conselhos que todos deveriam ouvir ao ingressar na pós-graduação”

  1. “Há várias outras carreiras de nível superior honradas, menos sofridas, com maiores chances de sucesso e que pagam melhor.” Isso é verdade para graduado em Biologia?

    1. Não exatamente. Com uma graduação em Bio, você tem varias possibilidades profissionais. É a partir do doutorado que a sua empregabilidade cai drasticamente.

  2. Marco, em primeiro lugar, gostaria de agradecer enormemente pelo seu empenho na divulgação científica! Em segundo lugar, pedir, se possível, alguns pacotões voltados aos graduandos, muitos mais perdidos do que cego em tiroteio kkkkk Mas o bom de suas dicas é que elas são úteis para todos independente da posição que ocupem.

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