O que faz um trabalho científico ser original?

Chegou a vez de tratar de outro tema estressante para a maioria dos alunos: a originalidade de um trabalho científico. Muitos só começam a se preocupar com isso no doutorado. Porém, trabalhos originais deveriam ser cobrados desde a iniciação científica. Mas por quê? Aqui explico um pouco sobre os diferentes conceitos de originalidade usados na ciência e seus vieses culturais.

Como comentado em outro artigo curto, a originalidade é a principal diferença entre uma monografia de bacharelado (também conhecida como TCC), uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado. Enquanto nos dois primeiros níveis não é necessário apresentar um trabalho original, no terceiro a originalidade é uma condição obrigatória. No geral, isso significa dizer que, em uma monografia ou dissertação, não é necessário gerar conhecimento novo; basta o aluno resumir o conhecimento acumulado sobre um assunto de sua escolha, muitas vezes sem nem ao menos incluir uma opinião própria. Já no doutorado o aluno é obrigado a apresentar uma novidade, senão seu trabalho de conclusão não pode ser chamado de tese. Mas o que garante a originalidade de um trabalho? Como diferenciar entre novidades e “mais do mesmo”?

Essas perguntas não são tão fáceis de responder quanto parecem. A definição da originalidade de um trabalho científico depende basicamente do nível de rigor do curso de pós-graduação, da postura do orientador e da ambição do próprio aluno. Na média, o rigor na definição da originalidade varia muito entre culturas, atingindo seu nível máximo nos países anglo-saxões.

Em muitos cursos de pós-graduação de países latinos, como o Brasil e a Argentina, para uma tese ser considerada original é preciso muito pouco. Por exemplo, o doutorando pode simplesmente tomar como base um trabalho que ache interessante e aí mudar o táxon modelo ou a área de estudo, repetindo todo o resto da fórmula, e mesmo assim sua tese poderá ser aprovada. Obviamente, quem faz isso não está incorrendo em plágio. Mas por outro lado também não está sendo treinado corretamente no método científico e nem aprendendo a fazer boa ciência. Está apenas aprendendo um trabalho técnico, uma repetição de fórmulas.

Já em países como EUA e Alemanha, um aluno de doutorado precisa ter uma nova idéia e testá-la para que seu trabalho possa ser chamado de tese. Não basta brincar de fazer um pouco diferente. É preciso pensar diferente, identificar os limites do conhecimento dentro do assunto escolhido e, a partir daí, criar e testar perguntas, hipóteses e previsões. Por exemplo, o aluno pode tomar como base diferentes fatos, hipóteses e teorias relacionadas ao táxon ou fenômeno de interesse, que já foram estudadas por colegas, e a partir delas fazer um raciocínio dedutivo que o leve a criar uma nova hipótese a ser testada em sua tese. É uma lógica do tipo: “presumindo que A e B são verdades, então C deve acontecer”. Pode ser também que o aluno ou o orientador dêem a sorte de descobrir um táxon, fenômeno ou ambiente completamente novos e aí dediquem uma tese à sua descrição, ajudando também o conhecimento a avançar.

É claro que essas diferenças não são uma questão de preto-e-branco. Há muitos trabalhos originais e relevantes que são desenvolvidos em outras culturas que não a anglo-saxã, assim como trabalhos repetitivos e monótonos desenvolvidos no Primeiro Mundo. Aliás, nos países desenvolvidos, às vezes vemos teses brilhantes que, na verdade, não saíram da cabeça do aluno, mas sim da cabeça do orientador. O orientador pensa de forma integrada em vários projetos, em diferentes níveis e numa escala de tempo grande, e apenas contrata doutorandos que trabalham como testadores das suas idéias. Nesses casos, qual é a relevância de uma tese dessas para a formação do jovem cientista? Por outro lado, há orientadores em países subdesenvolvidos que não ficam nada a dever aos seus colegas do Primeiro Mundo em termos de criatividade e originalidade e, além disso, treinam seus alunos corretamente.

Mas não dá para ignorar que, nos países subdesenvolvidos, o problema mais comum é a falta de treinamento no método hipotético-dedutivo. Isso leva vários orientadores e alunos a seguirem pelo caminho confortável e maçante do “comparar só por comparar” ou “descrever só por descrever”, produzindo “teses” sobre a “flora da matinha lá da Fazenda do Nhô Lau, que ninguém nunca havia estudado antes”. Como já comentei em outro artigo, descrições e comparações são fundamentais em qualquer ciência, porém mesmo elas precisam de um contexto bem bolado para se tornarem relevantes. No caso dos inventários de espécies, um assunto sempre polêmico, o mínimo exigido para se considerar um trabalho como original poderia ser, por exemplo, um planejamento que levasse em conta as localidades do país com maior deficiência de estudos sobre o táxon escolhido.

Além disso, considerando que a formação de um jovem cientista deveria ser focada principalmente no aprendizado do método hipotético-dedutivo (além das outras habilidades básicas, como a comunicação escrita e oral), chega-se à conclusão lógica de que mesmo uma monografia de bacharelado deveria ser baseada em uma pergunta original. Senão, como o aluno vai aprender a usar o conhecimento acumulado para gerar conhecimento novo? Faz sentido obrigar o aluno a simplesmente mastigar e mastigar conhecimento na monografia e na dissertação, só cobrando dele criatividade no doutorado? Eu acho que não. Aliás, eu tenho certeza que não. Afinal de contas, em uma pós-graduação stricto sensu, queremos formar cientistas e não pesquisadores. A diferença entre os trabalhos de conclusão exigidos nos diferentes níveis acadêmicos deveria ser o grau de complexidade e aprofundamento, e não a originalidade. Desde a iniciação científica, os alunos precisam aprender a encontrar e processar conhecimento com o objetivo de produzir novidades.

Para concluir, sugiro aos cientistas aspirantes que procurem orientadores que valorizem a criatividade e a originalidade. Muitos alunos com bom potencial acabam mudando de carreira simplesmente por terem uma péssima primeira impressão da ciência no bacharelado, causada por professores que tratam seus laboratórios acadêmicos como se fossem linhas de produção de montadoras de carros. Ei, você, que anda desapontado com a Academia: tem muita ciência interessante sendo desenvolvida por aí! Acorde, pois o seu laboratório não é o mundo! Não deixe que uma experiência ruim defina o conceito que você tem da ciência como um todo. Acreditem, elaborar um projeto original dá um trabalhão, mas é infinitamente mais divertido e dá muito mais satisfação!

Sugestões de leitura:

Anúncios