O que faz um trabalho científico ser original?

Chegou a vez de tratar de outro tema vital na academia: a originalidade de um trabalho científico. Muitos só começam a se preocupar com isso no doutorado. Porém, trabalhos originais deveriam ser cobrados desde a iniciação científica. Mas por quê? Aqui explico um pouco sobre os diferentes conceitos de originalidade usados na ciência e seus vieses culturais.

Como comentado em outro post, a originalidade é a principal diferença entre uma monografia de bacharelado, uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado. Enquanto nos dois primeiros níveis nem sempre é necessário apresentar um trabalho original, no terceiro a originalidade é uma condição obrigatória.

Mas o que seria essa tal originalidade? Significa dizer que, em uma monografia ou dissertação, não é necessário gerar conhecimento novo. Basta o aspira resumir o conhecimento acumulado sobre um assunto de sua escolha, muitas vezes sequer sem incluir uma opinião própria. Já no doutorado o aluno é obrigado a apresentar ao mundo uma novidade, senão seu trabalho de conclusão não pode ser chamado de tese. 

“Mas, Marco, o que garante a originalidade de um trabalho na prática? Como diferenciar entre novidade e “mais do mesmo”?”

Essas perguntas não são tão fáceis de responder quanto parecem. A definição da originalidade de um trabalho científico depende basicamente do nível de rigor do curso de pós-graduação, da postura do orientador e da ambição do próprio aspira. Na média, o rigor na definição da originalidade varia muito entre países.

Em muitos cursos de pós-graduação de países latinos, como o Brasil e o México, por exemplo, para uma tese ser considerada original é preciso muito pouco. Por exemplo, o doutorando pode simplesmente tomar como base um trabalho que ache interessante e aí mudar o táxon modelo ou a área de estudo, repetindo todo o resto da fórmula, e mesmo assim sua tese poderá ser aprovada. Obviamente, quem faz isso não está incorrendo em plágio. Só que, por outro lado, tampouco está aprendendo a fazer ciência de ponta. Está apenas aprendendo a repetir fórmulas.

Já em países como os EUA ou a Alemanha, um doutorando precisa ter uma ideia nova e testá-la para que seu trabalho possa ser chamado de tese. Não basta brincar de fazer um pouco diferente. É preciso pensar diferente, identificar os limites do conhecimento dentro do problema de trabalho e, a partir daí, criar perguntas, hipóteses e previsões.

Por exemplo, o aluno pode tomar como base diferentes fatos, hipóteses e teorias relacionadas ao táxon ou fenômeno de interesse, que já foram estudadas por colegas. A partir delas, o aluno faz um raciocínio dedutivo que o leva a criar uma nova hipótese a ser testada em sua tese. É uma lógica do tipo: “presumindo que A e B são verdades, então C deve acontecer”. Pode ser também que o aspira ou seu orientador dêem a sorte de descobrir um táxon, fenômeno, organismo ou ambiente completamente novos. Aí eles dedicam uma tese à sua descrição, ajudando também o conhecimento a avançar.

É claro que essas diferenças culturais nas expectativas quanto aos trabalhos de conclusão não são uma questão de preto-e-branco. Há muitos trabalhos originais e relevantes que são desenvolvidos em países periféricos, assim como trabalhos repetitivos e monótonos desenvolvidos em países centrais. Aliás, nos países centrais, às vezes vemos teses brilhantes que, na verdade, não saíram da cabeça do aluno, mas sim da cabeça do orientador. O orientador pensa de forma integrada em vários projetos, em diferentes níveis e numa escala de tempo grande, e apenas contrata doutorandos que trabalham como testadores das suas idéias. Nesses casos, será que o aspira está realmente sendo bem treinado? Por outro lado, há orientadores em países periféricos que não ficam nada a dever aos seus colegas dos países centrais em termos de criatividade e originalidade e, além disso, treinam seus alunos para fazerem ciência de ponta.

De qualquer forma, não dá para ignorar que, nos países periféricos, o problema mais comum é a falta de treinamento no método hipotético-dedutivo. Isso leva vários orientadores e alunos a seguirem pelo caminho confortável e maçante do “comparar só por comparar” ou “descrever só por descrever”. Eles acabam produzindo teses sem contexto ou justificativa, sobre a “flora da matinha lá da Fazenda do Nhô Lau, que ninguém nunca havia estudado antes”.

Não me entenda mal. Descrições e comparações são fundamentais em qualquer ciência, porém mesmo elas precisam de um contexto bem bolado para se tornarem relevantes. No caso dos inventários de espécies, um assunto sempre polêmico, o mínimo exigido para se considerar um trabalho como original poderia ser, por exemplo, um planejamento que levasse em conta lacunas de conhecimento bem definidas.

Além disso, considerando que a formação de um jovem cientista deveria ser focada principalmente no aprendizado do método hipotético-dedutivo (além de outras habilidades básicas), chega-se à conclusão de que mesmo uma monografia de bacharelado deveria ser baseada em uma pergunta original. Senão, como o aluno vai aprender a usar o conhecimento acumulado para gerar conhecimento novo? Faz sentido obrigar o aluno a simplesmente mastigar e mastigar conhecimento na monografia e na dissertação, só cobrando dele criatividade no doutorado?

Eu acho que não. Aliás, eu tenho certeza que não. Afinal de contas, em uma pós-graduação stricto sensu, queremos formar cientistas prifissionais. A diferença entre os trabalhos de conclusão exigidos nos diferentes níveis acadêmicos deveria ser o grau de complexidade e aprofundamento, e não a originalidade. Desde a iniciação científica, os alunos precisam aprender a encontrar e processar conhecimento com o objetivo de produzir novidades.

Para concluir, sugiro aos aspiras que procurem orientadores que valorizem a criatividade e a originalidade. Muitos alunos com bom potencial acabam mudando de carreira simplesmente por terem uma péssima primeira impressão sobre a ciência brasileira no bacharelado, causada por professores que tratam seus laboratórios como se fossem linhas de produção de fábricas.

Ei, você, que anda desapontado com a Academia: tem muita ciência interessante sendo desenvolvida por aí, inclusive aqui no Brasil! Acorde, pois o seu laboratório não é o mundo! Não deixe que uma experiência ruim defina o conceito que você tem da ciência como um todo. Acredite, elaborar um projeto original dá um trabalhão, mas é infinitamente mais divertido e dá muito mais satisfação.

Sugestões de leitura:

  1. The illustrated guide to a PhD
  2. The best papers are the boldest
  3. Ciência: da filosofia à publicação

(Fonte da imagem de destaque)

4 respostas para “O que faz um trabalho científico ser original?”

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