De onde vem a desvalorização dos biólogos?

Texto escrito por Regina A. S. Alonso*

(Publicado originalmente como artigo na revista Bioletim em 2004)

Somos biólogos, mas será que sabemos realmente qual é o valor da nossa profissão? Se sabemos, porque então não nos valorizamos como tantas outras categorias que lutam por seus direitos? Vejam a força que têm, por exemplo, o Sindicato dos Metalúrgicos, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Conselho Regional de Medicina (CRM).

Por que a nossa categoria não tem força sequer para garantir que cargos com perfil de biólogo sejam ocupados por biólogos? Imagino que todos se lembrem do absurdo concurso do IBAMA realizado em 2002, em que se permitiu a inscrição de pessoas com qualquer curso superior. Acho que tenho algum conhecimento de causa para discorrer sobre o assunto, pois não sou uma bióloga stricto sensu; minha primeira formação é outra, na área de humanas. Antes da Biologia, fiz administração de empresas, e sinto-me em condições de comparar os dois cursos em termos de esforço pessoal exigido, cultura profissional e retorno no mercado de trabalho. Então vamos lá, um pouco de vivência pessoal.

Em termos de esforço, acreditem, um biólogo tem que estudar muito mais do que um administrador para receber o diploma. Não que administração seja um curso fácil, pelo contrário, requer todo o esforço exigido por um curso superior. No entanto, o currículo de Biologia é muito mais denso; a carga de teoria que temos não se compara ao que é ensinado na administração. A um biólogo não bastam os conhecimentos passados pelo professor em sala de aula, é necessário ir mais a fundo, pesquisar em livros, atualizar-se a respeito do que está sendo estudado, pelo próprio caráter dinâmico da ciência.

Mas então, se a Biologia prepara tão bem seus profissionais, porque o retorno financeiro é tão baixo? Na minha opinião, em parte por nossa própria culpa, pela nossa cultura profissional. Não temos força como categoria, somos desunidos e acreditamos que qualquer coisa que se pague pelo nosso trabalho é suficiente, quando não trabalhamos de graça. Somos ainda idealistas ingênuos num mundo capitalista. Diversas vezes, vi biólogos extremamente capacitados, com títulos de mestrado e doutorado, dando cursos em universidades em troca de estadia e passagem. Humildemente eles dizem: “Eu não recebo nada, mas pelo menos posso conhecer uma cidade nova…” Isso é uma vergonha! Perguntem a um administrador se ele vai fazer alguma palestra de graça em algum lugar. Um caso em um milhão! Mas por que então não valorizamos nosso trabalho? Na realidade não sabemos como fazer isso, não faz parte da nossa formação, nem tampouco da nossa cultura profissional.

Fomos educados para servir a um ideal, para seguir os passos dos biólogos pioneiros como se ainda vivêssemos na época dos naturalistas, sacrificando a vida pela ciência, vivendo como franciscanos à margem do mercado. Nossa ambição é egoísta e restringe-se a sermos conhecidos no nosso “mundinho científico” à esperança de um dia sermos recompensados pelo resto do planeta. A ambição pelo conhecimento é até louvável, mas vivemos sob as leis do mercado e precisamos de bem mais que isso para uma qualidade de vida decente. Um administrador, ao contrário, recebe sua formação voltada para o mercado, aprende logo nos primeiros semestres a fazer “marketing pessoal”, a elaborar seu currículo, a salientar seus pontos fortes e disfarçar os fracos, a barganhar salário, a ser arrogante. Enquanto isso, nós continuamos insistindo na falsa humildade das velhas sandálias havaianas. O mercado acaba por julgar pelas aparências, pagando R$ 1.500,00 reais para um trainee recém-formado em administração de empresas e R$ 400,00 para um biólogo especializado em ecoturismo. E, assim, a situação vai se perpetuando, não importando mais o valor real do seu trabalho, mas o quanto ele parece valer.

Enquanto nós, biólogos, continuarmos aceitando estas condições do mercado, não haverá nenhuma razão para a mudança. Pensem nisso!

* Formada em Inglês pela Cultura Inglesa, em Administração de Empresas pela EAESP-Fundação Getúlio Vargas e em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Ecologia pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente trabalha como tradutora científica, sendo dona da empresa Katzenhaus Traduções.

Nada melhor do que os cartuns do Libardi para ilustrar o problema:

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20 Replies to “De onde vem a desvalorização dos biólogos?”

  1. Terminei biologia e resolvi fazer um mestrado na área. Após me deparar com esta triste situação, hoje faço parte do time que “começou tudo do zero”. Estou dando inicio a uma nova graduação, “nutrição”. Espero que o mercado de trabalho seja mais favorável para esta área. E eu particularmente resisti por 2 anos em tomar esta decisão. Hoje em dia percebo que se eu continuasse só com a minha formação de bióloga, infelizmente teria duas alternativas: (1) Me contentar com sub-empregos (pois eu considero a consultoria ambiental um desrespeito para a nossa classe, haja vista a forma como tratam e a demora ao realizar pagamento); (2) Fazer um doutorado, receber uma miséria (bolsa de doutorado não dá para sustentar família) e entrar para o time do pessoal que estuda para ser professor de Instituições Superiores Públicas. Daqui pra lá, seriam + ou – 5 anos, sem contar com o tempo para passar em um concurso público para professora (que sabemos, não é fácil). Enfim, desejo muita boa sorte para a galera que continua na profissão e desejo sinceramente que esta realidade mude.

  2. O CRBio é uma Merda, aqui no MT não podemos fazer nada há serias restrições no mercado de trabalho em se tratando de serviços na área de meio ambiente, aqui biólogo é para dar aula, você não consegue protocolar nada na SEMA-MT, trabalhos em sua área de formação e atuação, se você não anexar a ART de um engº qualquer você não consegue nem protocolar os processos….. é uma humilhação, uma palhaçada, uma sacanagem fora de serie!!!!!!!!
    Os Biólogos que entraram com mandato de segurança e protocolaram seus processos muitos estão com processos sérissimos envolvendo o CREA que os esta processando….. uma palhaçada!!!!!!

  3. Esse texto pode ser usado para a biomedicina, acho que é ainda pior, pois além de ser um curso novo, existem os farmaceuticos que ocupam parte de nossa extensa possibilidade profissional e nao abrem vagas para nòs, sendo que o curso de biomedicina é focalizado em sua maior parte na àrea de anàlises clìnicas.

  4. Se todos deixarem de pagar a anuidade, a atenção se volta para nós. Alguém disposto ? Haverão muitas formas de reinvindicar, nao é mesmo ?!

  5. Além dos conselhos, nós também fazemos pouco pela valorização. Sou bióloga, mas quando trabalho com biólogos, são os profissionais que mais dão problema, que mais enrolam. Nossa formação é muito generalista e não nos instrui para a vida profissional. Entrei em contato com diversos biólogos e vários conselhos para tentar aperfeiçoar o projeto de Lei 5755, que trata do piso salarial do biólogo. Sabe quantos me responderam? Se não cobrarmos nada e não fizermos bem o nosso ofício, nada mudará mesmo… vamos passar o resto da vida apenas reclamando…

  6. vocês biólogos tem que fazer em primeiro lugar, fundar seu sindicato pra ter força. cobra do conselho a fiscalização, porque o conselho é um órgãos fiscalizador da profissão .vocês tem que cobra mesmo.

  7. Como valorizar a classe com conselhos ausentes!!!!!!!!!!! É um problema de organização! Até pra que um biólogo apresente uma ART é um problema! Pois cadê a representação estadual! Não é problema do profissional individual, mas da organização de classe! Enquanto as outras profissões tem as representaçõ
    es de seus conselhos no estado, nós aceitamos ter uma representação regional!

    1. Glaucia, concordo, mas a mudança tem que partir de nós, biólogos individuais. Temos que prestar mais atenção às eleições do respectivo conselho, fazer pressão em casos importantes, cobrar posicionamento quando o conselho vem com o velho papo de “não é da nossa alçada” etc. É o mesmo problema pelo qual passamos na democracia brasileira de um modo geral. Escolhemos não participar ativamente da política e depois nos sentimos alijados da mesma. Os membros do CFBio e do CRBio não vêm de Marte, mas saem do nosso próprio meio. Minha sugestão é nos envolvermos mais com a vida política dos nossos conselhos, direta e indiretamente.

  8. Fiz o seu caminho inverso. Terminei o bacharelado em Biologia pela UFPB e, quando vi que iria ser desvalorizado no mercado, comecei o bacharelado em Administração pela mesma universidade. Hoje, sou bancário da Caixa Econômica e começando um MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Se eu não tivesse começado do zero após ter me formado, provavelmente, estaria desempregado e em depressão. Se eu pudesse voltar no tempo, talvez não faria o curso de Biologia novamente justamente pelas péssimas imposições do mercado para esse profissional. Como realização pessoal, atingi minhas expectativas, mas, como investimento financeiro, foi uma completa furada!

    1. Flávio, realmente a única razão para insistir numa carreira de biólogo é ser obcecado pela Biologia (meu caso, rs), porque o retorno profissional é minguado mesmo e poucos conseguem ganhar o suficiente para sustentar uma família sem problemas. A maioria esmagadora muda de carreira ou acaba em subempregos por muitos e muitos anos. Nem estatísticas sobre destino profissional o CFBio faz…

  9. Imaginem os bióligos fazendo greve? Quem se importa com isso? Muita gente vai até achar bom que alguns pesquisadores parem seus trabalhos em determinadas áreas de conflito. Nosso país é rural, deveria haver uma legislação obrigando a fazendas maiores de 10.000 ha a contratarem biólogos para monitoramento da biodiversidade das reservas legais. Além de determinadas vagas em empresas e cargos públicos. Acredito que o principal responsável é o CRBio que não faz nada, absolutamente nada pra defender os interesses da classe. Alías, alguém ouviu o CRBio se manifestar alguma vez durante a repercussão da reforma do Código Florestal? Essa instituição é falência do biólogo.

    1. Vocês estão confundindo as funções de Conselhos e Sindicatos! SINDICATOS defendem categorias profissionais, CONSELHOS atuam para proteger a sociedade de maus profissionais e, desta forma, indiretamente, defendem a atuação dos bons profissionais, regulamentando-a e fiscalizando-a.

    2. Não sei a qual CRBio vcs estão vinculados, mas o CRBio-03 (RS e SC) se manifestou sobre o Código Florestal, criticando e se posicionando sobre as falhas da proposta de reforma… além disso em nível nacional houve a edição das Resoluções CFBio 213/2010 e 300/2012 que procuram garantir uma formação mínima para que Biólogos possam atuar em serviços nas três grandes áreas de bacharelado da Biologia (Meio Ambiente e Biodiversidade; Saúde; Biotecnologia e Produção); foi graças à manifestação do CFBio que o Conselho Nacional de Educação retirou o curso de Ciências Biológicas da resolução que reduziu a carga horária mínima de diversos bacharelados para 2400 horas, garantindo as atuais 3200horas de carga horária mínima para formar um bacharel em Biologia… portanto o sistema CFBio/CRBios tem atuando sim em defesa da qualidade profissional do Biólogo…. porém a atuação em defesa do profissional diretamente deve ser cobrada dos SINDICATOS que existem, mas muitas vezes não têm força devido ao reduzido número de associados

  10. Muito interessante o texto. Existe um movimento para compilar assinaturas de Biólogos em favor da valorização da classe. Julgo que seja muito pertinente que pesquisadores de referência apoiem o manifesto…

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