Não basta fazer, tem que mostrar!

Biólogos infelizmente não sabem vender seu peixe, como já comentado em outro artigo. Tradicionalmente, alunos de Biologia são levados a acreditar que as ciências, especialmente a Biologia, são uma espécie de sacerdócio. Essa mentalidade tosca cria a falácia de que um biólogo só é digno, se sofrer, abdicar dos bens materiais, viver quase como um asceta e trabalhar de graça; senão ele é um “capitalista imundo”. Essa cultura do coitadinho, naturalmente, desvaloriza profundamente a profissão. Não aprendemos sequer a divulgar nosso trabalho direito para os pares e o público leigo. Aqui neste artigo mostro porque essa falsa modéstia é tola e explico como fazer um bom marketing pessoal.

Antes de mais nada, vamos deixar claro: Biologia é profissão, não sacerdócio! Biólogos precisam morar, comer, ir ao médico e sustentar a família, como qualquer ser humano. Biólogo também é gente, cacildis! Chega desse papo de “amo minha profissão, então trabalho de graça”. É muito fácil seguir essa ideologia pseudo-altruísta (diga-se de passagem, vaidade hippie), quando papai paga as contas. No mundo real, dos empregadores e assalariados, vivemos todos do suor do nosso rosto. Precisamos acabar com costumes esdrúxulos, como um doutor hiper-qualificado viajar meio mundo para dar um curso de graça. Já viu algum engenheiro ou executivo fazendo esse tipo de caridade tola para quem não precisa? Cobrar pelo seu trabalho não é ser mercenário ou “capitalista imundo”: é ter os pés no chão e reconhecer o valor prático e moral de um dia de trabalho. É claro que o trabalho voluntário é nobre e importante, mas ele deve ser feito em paralelo ao trabalho remunerado, e apenas onde e quando é necessário. Se quiser entrar no voluntariado, por exemplo, vá cozinhar ou contar histórias uma vez por semana em um orfanato, ao invés de dar um workshop de graça para um público que poderia perfeitamente pagar por ele.

Voltando ao tema, já que pessoas do mundo real vivem do próprio suor, é preciso valorizar nosso trabalho. Não adianta um cientista fazer descobertas brilhantes, se não as divulgar na forma de publicações (veja outro artigo sobre isso). Além dessa divulgação oficial em documentos impressos que duram para sempre, é preciso também fazer propaganda dos seus trabalhos em congressos. Uma coisa alimenta a outra. Mas a propaganda não deve parar por aí.

A chave é o marketing pessoal. Há multidões de biólogos por aí disputando atenção em revistas e congressos. Um artigo simplesmente publicado ou uma palestra simplesmente apresentada podem não surtir o efeito desejado, mesmo que a revista ou o congresso sejam bons. A grande pergunta é: “como me destacar na multidão?”. Antigamente, a construção da sua reputação profissional, combinando uma produção relevante com uma divulgação eficiente, passava quase que exclusivamente por esse binômio revista-congresso. Só que vivemos na Era da Internet, onde boa parte da nossa interação social acontece nas redes sociais. Um biólogo moderno precisa fazer uso desses meios de comunicação eletrônicos para melhorar seu marketing pessoal.

Mas como funciona isso na prática? Basta eu chegar no Facebook e dizer: “olhem o artigo que publiquei, o melhor do mundo sobre esse assunto, seus manés”? Não, é claro que não. Divulgação arrogante é uma péssima forma de marketing pessoal. Como diria Vinícius de Morais, “o homem que diz sou não é, porque quem é mesmo é não sou” (Canto de Olattes). Um bom marketing pessoal, no mundo científico, é feito através de uma divulgação sem auto-avaliação. Revistas modernas, como as do grupo PLoS, até mesmo fazem esse trabalho por você, colocando matérias sobre o seu artigo em vários meios virtuais.

É muito simples. Publicou um artigo novo? Vá ao Facebook, Twitter, LinkedIn, Mendeley, ResearchGate, Academia ou outra rede social e publique um post sobre ele. Faça isso também em mailing lists científicas especializadas, como as do Yahoo!Grupos, usadas no mundo todo. Pode escrever apenas uma manchete com o link baseado no DOI (esse código universal, colocado logo após o endereço http://dx.doi.org/, leva direto à página oficial do seu artigo no site da revista). Se o título do seu artigo for informativo e atraente, use-o. Ou então escreva um micro-resumo sobre as descobertas feitas no artigo. Mande também o PDF do seu artigo por e-mail para pessoas-chave, que tenham muito a ver com o tema, sejam respeitadas na área e que você conheça pessoalmente. Divulgar o seu trabalho para os hubs da sua especialidade pode ser muito eficiente, pois essas pessoas tem o poder de espalhar rapidamente uma notícia. Mas não exagere, mandando toneladas de e-mails sempre para as mesmas pessoas; escolha muito bem os destinatários e não floode a caixa postal de ninguém. O fundamental nesse tipo de divulgação é não se auto-avaliar: cabe aos leitores essa tarefa. Um autor deve julgar o seu próprio trabalho apenas antes de submetê-lo à revista, não depois que ele sai; o que você pode vir a fazer posteriormente é rever algumas idéias, depois de receber o feedback dos leitores.

Além disso, para incrementar o seu marketing pessoal, participe de comunidades virtuais, fóruns online e mailing lists profissionais na Internet sobre os temas científicos que mais te interessam. Ajude seus colegas, compartilhe seus conhecimentos e informações. Não se furte também a dar entrevistas para jornalistas sobre temas científicos que domina e a publicar artigos de divulgação para leigos em jornais e revistas. Tudo isso somado vai te ajudar a construir uma boa reputação e a ficar conhecido no seu mundinho científico e até mesmo fora dele. Alguns biólogos e outros cientistas são tão bons em divulgação para públicos variados e fazem o marketing pessoal de forma tão eficiente, que acabam ficando famosos de verdade, como a Suzana Herculano-Houzel e o Miguel Nicolelis.

Vale ressaltar: ficar famoso, dentro ou fora da ciência, não tem absolutamente nada de errado! Geralmente, quem critica os biólogos pop (os bons, não os picaretas) o faz por pura inveja. São colegas apagados, incompetentes, irrelevantes na Academia, que não suportam ver os outros sendo aclamados. Citando o Tom Jobim: “no Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Aí inventam desculpas ideológicas nonsense para dizerem que os bons divulgadores são todos farsantes.

Concluindo, estude e trabalhe duro, como sempre recomendo. Mas não se limite a isso: mostre ao mundo o seu trabalho e participe de congressos e redes sociais. Seja ativo também em comunidades científicas e não-científicas do mundo real. Muitos biólogos brilhantes acabam nunca se tornando conhecidos, simplesmente porque têm medo de se mostrar.

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5 Replies to “Não basta fazer, tem que mostrar!”

  1. Seu Herege

    hehe… sabe.. Nas minhas aulas de comunicação científica, eu comento com os alunos sobre publicação – e que é sempre bom ver quantas entradas no google seu nome tem. Fácil. Só ir no google e colocar “Fulano da silva” O legal é ver que, um-dois dias depois de um artigo seu sair on line, aumentará de 10 a 100 entradas (depende do artigo). Uma semana, de 50 a 200. E por ai vai. Falo isso porque os alunos estão em vias de enviar o primeiro manuscrito, e isso dá um ânimo pra eles. Usando as táticas que vc propôs, creio que esse número dobra a cada período!

    Na próxima turma, vou testar! E colocar o fator de impacto da revista como co-fator! hehehe
    Abs

  2. Adorei o artigo, gostaria de ter lido isso a uns 10 anos atras quando começei a trabalhar com a iniciativa privada… O ponto que eu mais gostei é o “uma divulgação sem auto-avaliação”, como isso é dificil! Sempre que voce fala sobre algo que criou, nas redes sociais e foras delas , voce precisa dizer por que aquilo é relevante, mas como fazer isso sem palavras de avaliação? Sempre penso nisso como um ponto delicado, onde é dificl achar o equilibrio entre divulgação e exagero…

    1. Victor, não é fácil mesmo achar um equilíbrio. A dose certa e o tom certo vêm com o treinamento e a experiência. Por exemplo, não tem problema dizer “até onde sabemos, este é o primeiro artigo que investigou o tema X”, desde que você tenha feito um levantamento bibliográfico realmente extensivo. Por outro lado, pegaria mal dizer “este é o melhor estudo sobre o tema Y feito até o momento, sendo que os anteriores eram todos falhos”.

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