Não basta fazer, tem que mostrar!

Biólogos infelizmente não sabem vender seu peixe, como já comentado em outro artigo.

Tradicionalmente, alunos de Biologia são levados a acreditar que as ciências são uma espécie de sacerdócio. Essa é uma mentalidade tola, que cria a falácia de que um biólogo só é digno, se sofrer, reclamar da vida o tempo todo e viver como um asceta.

Essa cultura desvaloriza profundamente a nossa profissão. Não aprendemos sequer a divulgar os nossos trabalhos de maneira eficiente para os nossos pares e o público leigo. Aqui neste post, mostro porque a falsa modéstia é um tiro no pé e explico como fazer um bom marketing pessoal.

Antes de mais nada, vamos deixar claro: Biologia é profissão, não sacerdócio! Biólogos precisam morar, comer, ir ao médico e sustentar a família. Biólogo também é gente! Chega desse papo de “amo minha profissão, então trabalho de graça”. É muito fácil seguir nessa falsa modéstia, quando se vem de uma família da classe A. Gente que vive no mundo real não conta com pais ricos, patrimônio ou ativos para segurar a barra nas entressafras.

Voltando ao tema, já que gente do mundo real vive do próprio suor, é preciso valorizar o nosso trabalho. Não adianta um cientista fazer descobertas brilhantes, se não as divulgar na forma de publicações dos mais variados tipos (veja outro artigo sobre isso). Além dessa divulgação oficial em documentos escritos e perenes, é preciso também fazer propaganda dos seus trabalhos em congressos. Uma coisa alimenta a outra. Mas a propaganda não deve parar por aí: use também a internet.

A chave é um marketing pessoal bem feito. Há hordas de biólogos por aí disputando atenção em revistas e congressos. Um artigo simplesmente publicado ou uma palestra simplesmente apresentada podem não surtir o efeito desejado, mesmo que a revista ou o congresso sejam bons. A grande pergunta é: “como se destacar na multidão?”

Antigamente, a construção da sua reputação profissional, combinando uma produção relevante com uma divulgação eficiente dela, ficava praticamente restrita a esse binômio revista-congresso. Só que vivemos na Era Digital, onde boa parte da nossa interação social acontece online.

“Mas, Marco, como isso funciona na prática? Basta eu chegar nos blogs, canais, podcasts, redes sociais e dizer: ‘olhem o artigo que publiquei, o melhor do mundo sobre esse assunto’? “

Não, é claro que não. Divulgação arrogante é uma péssima forma de marketing pessoal. Como diria o poeta:

“O homem que diz sou não é, porque quem é mesmo é não sou” .

Vinícius de Morais, “Canto de Olattes

Um bom marketing pessoal, no mundo científico, é feito através de divulgação sem autoavaliação. Revistas modernas, como as dos grupos Nature e PLoS, fazem boa parte desse trabalho por você, colocando matérias sobre o seu artigo em vários meios virtuais.

É muito simples. Publicou um artigo novo? Dê um pulo nas redes sociais acadêmicas e publique um post. Faça isso também em mailing lists e fóruns científicos especializados, que ainda resistem ao tempo.

Pode escrever apenas uma manchete com o link baseado no DOI. Esse código estável, colocado logo após o endereço http://dx.doi.org/, leva direto à página oficial do seu artigo no site da revista. Se o título do seu artigo for informativo e atraente, use-o. Ou então escreva um micro-resumo sobre as descobertas feitas no artigo.

Mande também o PDF do seu artigo por e-mail para pessoas-chave, que tenham muito a ver com o tema, sejam respeitadas na área e que você conheça pessoalmente. Ou seja, conecte-se aos hubs da sua área temática. Divulgar o seu trabalho aos hubs é muito eficiente, pois essas pessoas têm o poder de espalhar rapidamente uma notícia. Mas não exagere, mandando toneladas de e-mails sempre para as mesmas pessoas. Escolha muito bem os destinatários e não floode a caixa postal alheia.

Novamente, o fundamental nesse tipo de divulgação é não se autoavaliar: cabe aos leitores essa tarefa. Um autor deve julgar o seu próprio trabalho silenciosamente apenas antes de submetê-lo à revista, não depois que ele sai. O que você pode vir a fazer depois da publicação é rever suas ideias, depois de receber o feedback dos leitores.

Além disso, para incrementar o seu marketing pessoal, ajude os seus colegas, compartilhe conhecimento e informação. Crie uma boa reputação na sua comunidade, antes de fazer marketing pessoal.

Não se furte também a dar entrevistas para jornalistas sobre temas científicos que domina e a publicar artigos de divulgação para leigos em jornais, revistas e portais. Construa uma boa relação com a assessoria de imprensa da sua universidade, escrevendo press releases sobre os novos papers do seu lab.

A soma dessas iniciativas vai te ajudar a construir uma boa reputação e a ficar conhecido dentro do seu mundinho científico e até mesmo fora dele. Alguns cientistas são tão bons em divulgação para públicos variados e fazem marketing pessoal de forma tão eficiente, que acabam ficando famosos de verdade, como a Suzana Herculano-Houzel e o Miguel Nicolelis.

Vale ressaltar: ficar famoso não tem absolutamente nada de errado! Geralmente, quem critica os biólogos pop (os bons, não os picaretas) o faz por pura inveja. São colegas apagados na academia e na sociedade, que não suportam ver o sucesso alheio.

“No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”

Tom Jobim

Estude e trabalhe duro. Mas não se limite a isso: mostre ao mundo o seu trabalho. Seja ativo também em comunidades científicas e não-científicas do mundo real. Muitos biólogos brilhantes acabam nunca se tornando conhecidos, simplesmente porque têm medo de se mostrar.

(Fonte da imagem destacada)

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12 respostas para “Não basta fazer, tem que mostrar!”

  1. Seu Herege

    hehe… sabe.. Nas minhas aulas de comunicação científica, eu comento com os alunos sobre publicação – e que é sempre bom ver quantas entradas no google seu nome tem. Fácil. Só ir no google e colocar “Fulano da silva” O legal é ver que, um-dois dias depois de um artigo seu sair on line, aumentará de 10 a 100 entradas (depende do artigo). Uma semana, de 50 a 200. E por ai vai. Falo isso porque os alunos estão em vias de enviar o primeiro manuscrito, e isso dá um ânimo pra eles. Usando as táticas que vc propôs, creio que esse número dobra a cada período!

    Na próxima turma, vou testar! E colocar o fator de impacto da revista como co-fator! hehehe
    Abs

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  2. Adorei o artigo, gostaria de ter lido isso a uns 10 anos atras quando começei a trabalhar com a iniciativa privada… O ponto que eu mais gostei é o “uma divulgação sem auto-avaliação”, como isso é dificil! Sempre que voce fala sobre algo que criou, nas redes sociais e foras delas , voce precisa dizer por que aquilo é relevante, mas como fazer isso sem palavras de avaliação? Sempre penso nisso como um ponto delicado, onde é dificl achar o equilibrio entre divulgação e exagero…

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    1. Victor, não é fácil mesmo achar um equilíbrio. A dose certa e o tom certo vêm com o treinamento e a experiência. Por exemplo, não tem problema dizer “até onde sabemos, este é o primeiro artigo que investigou o tema X”, desde que você tenha feito um levantamento bibliográfico realmente extensivo. Por outro lado, pegaria mal dizer “este é o melhor estudo sobre o tema Y feito até o momento, sendo que os anteriores eram todos falhos”.

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