O falso dilema “história natural vs. hipóteses”

Na Ecologia, ainda é comum haverem discussões acaloradas entre defensores de uma abordagem naturalista e de uma abordagem baseada em teoria. Independente dos argumentos dados por membros de um ou outro lado, no fundo esse é um falso dilema: avanços importantes são obtidos tanto de um jeito quanto de outro. Mas, no fundo, qual é a diferença entre essas duas abordagens?

Pode-se dizer que a História Natural é a mãe da Biologia moderna, estando aí incluída a Ecologia. Até o século XIX não havia grande especialização por parte dos cientistas interessados nos seres vivos: era praxe um mesmo pesquisador estudar vários grupos de organismos ou mesmo vários tipos de fenômeno em sua carreira; alguns estudavam praticamente tudo, da vida às rochas. Contudo, conforme o conhecimento foi se acumulando, ficou cada vez mais difícil ser tão generalista. Logo, os cientistas foram se especializando em organismos ou fenômenos específicos. Além disso, com o aprofundamento do conhecimento obtido em cada ciência biológica, foram surgindo teorias que buscam dar um sentido maior às diversas descobertas acumuladas. Com isso, a Ecologia foi tomando uma feição mais parecida com “hard science”, ou seja, uma ciência que não se baseia apenas em discutir uma coleção de casos, mas sim em confrontar esses casos com um pano de fundo teórico mais abrangente. Essa é a chamada abordagem teórica, que tem por objetivo descobrir regularidades e leis na natureza, que possam explicar fenômenos que observamos em diferentes organismos.

Contudo, a abordagem naturalista também evoluiu. Pode-se chamar de História Natural moderna os estudos em Ecologia que são focados nos organismos, visando explicar fenômenos inerentes ao grupo de estudo em questão, sem almejar generalizações que sejam válidas para diferentes táxons. Os naturalistas modernos trabalham com perguntas e hipóteses, usando o método hipotético-dedutivo da mesma maneira que os ecólogos teóricos ou os ecólogos empíricos que trabalham orientados por teorias. Na verdade, mesmo naturalistas clássicos como Darwin e Mendel trabalhavam com perguntas e hipóteses originais e interessantes. Assim, os naturalistas também geravam teorias no final da contas, mesmo que restritas aos táxons estudados. Muitos deles, como os dois famosos citados, acabaram gerando até mesmo teorias altamente abrangentes.

Desta maneira, história natural não é sinônimo de trabalho sem pergunta. A descrição de um sistema natural é um passo importante em qualquer estudo biológico, porém não é um fim em si mesmo. Mesmo uma descrição de espécie, no fundo, visa gerar uma hipótese. Descrições puras só avançam realmente o conhecimento, quando são usadas para apresentar à Ciência algo inteiramente novo. Mesmo assim, coisas novas sempre acabam sendo comparadas com o as já conhecidas de alguma forma, levando também a novas hipóteses e teorias.  Infelizmente, alguns ecólogos não têm criatividade para elaborar perguntas  e hipóteses originais, então passam a carreira toda apenas descrevendo por descrever; e, em quase todos esses casos, descrevem apenas variantes de sistemas já bem conhecidos. Eles se defendem dizendo que são naturalistas à moda antiga; fique claro que isso é uma falácia. Todo ecólogo pesquisador, seja naturalista ou teórico, é um cientista e como tal deve ter por objetivo entender os padrões encontrados na natureza em termos dos processos que os geraram.

* Publicado originalmente em 2010.

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