Revisão por pares: escapando do fogo amigo

Ninguém gosta de ouvir críticas e as culturas latinas lidam especialmente mal com elas. Contudo, críticas são um dos pilares da ciência e não se produz conhecimento sólido sem se dar a cara a tapa. Neste artigo explico um pouco sobre como ela é feita e porque não está atualmente está meio complicada.

Partindo do começo. O veículo mais importante para comunicar descobertas científicas são as revistas especializadas (conhecidas também como periódicos ou journals). A comunicação escrita, tanto impressa quanto online, é excelente, pois permite que o trabalho mantenha sua forma original indefinidamente, por gerações e gerações, sofrendo muito menos deturpação do que na comunicação oral. Portanto, quando um cientista faz uma descoberta, ele a relata na forma de um artigo, que deve ser submetido a uma boa revista especializada na área geral na qual ele se enquadra.

Assim que um manuscrito chega a uma revista, ele é recebido por um editor geral ou um editor de área. Esse profissional tem a missão de checar se o trabalho se enquadra no escopo (tema, táxon, abordagem etc.). Em caso afirmativo, ele checa também se o manuscrito foi preparado segundo as normas exigidas. Se o artigo estiver dentro do escopo e formatado corretamente, ele é repassado aos revisores anônimos (conhecidos também como referees). Os revisores são encarregados de dissecar o trabalho: sua originalidade, sua relevância, sua estrutura lógica, a validade dos seus argumentos, sua clareza e até mesmo sua ortografia e gramática.

Depois de terminarem a revisão, que pode demorar de semanas a meses (dependendo das exigências da revista), os revisores enviam seus pareceres ao editor encarregado do artigo. Com base nesses pareceres e em sua própria opinião, o editor toma uma das decisão sobre aceitar ou não o manuscrito, e sobre e precisar ou não de modificações (leia mais sobre isso aqui). Uma coisa muito importante a ser aprendida por um aspirante a cientista é manter-se calmo durante a revisão. Esse trabalhoso processo editorial visa garantir a qualidade dos artigos publicados e também tenta diminuir a subjetividade da revisão, já que incluem-se opiniões de outros colegas, e não apenas do editor. No geral, o sistema funciona bem e muitas vezes o artigo melhora substancialmente após a revisão. Contudo, atualmente alguns problemas tem aparecido ou se agravado.

Hoje há um número enorme de cientistas profissionais competindo por espaço em revistas. Em algumas áreas, até mesmo as mais específicas, centenas de artigos são submetidos mensalmente a uma meia dúzia de revistas. As melhores estão especialmente saturadas (principalmente as com bom prestígio ou fator de impacto acima da mediana da área). Como publicar custa muito dinheiro, ainda mais se a revista tiver uma versão impressa, tornou-se preciso escolher os artigos que entram não apenas com base no mérito, mas também com base no espaço disponível em cada edição. Algumas ótimas revistas tem até mesmo cotas fixas de rejeição: no mínimo 80% dos artigos submetidos são recusados de cara. Isso já acontecia há tempos em super-revistas como Nature e Science, porém se tornou comum até mesmo nas revistas especializadas. Para manterem-se nessas cotas, os editores associados buscam qualquer motivo para rejeitar um artigo, não importa que ele seja relevante e bem escrito. Basta uma falhazinha, mesmo que leve, para levar um artigo à recusa. Às vezes classificam-se com falhas coisas que, noutros tempos, seriam vistas apenas como divergências de opinião.

Mas isso não é o pior. Como cada manuscrito é revisado por dois ou três colegas, muitos editores têm a política de só publicar artigos que tenham aceitação unânime por todos. Em alguns casos, mesmo que todos os revisores recomendem a aceitação, caso tenham sugerido mudanças substanciais, o artigo acaba sendo recusado do mesmo jeito. Isso é muito preocupante, pois são ínfimas as chances de um trabalho realmente inovador ser aceito logo de cara por unanimidade. Pensem nos casos do Mendel e do Hennig. Quem confirma o que já é aceito e, com isso, afaga o ego das autoridades, tem muito mais facilidade de publicar. Quem pensa diferente e tenta mudar paradigmas, contrariando “dogmas de pelúcia”, acaba sendo sistematicamente bloqueado. Isso é especialmente problemático para cientistas em começo de carreira, independente da nacionalidade, porque eles ainda não tem o crédito vindo de uma boa reputação; na verdade, não são nem conhecidos. Quem é conhecido e respeitado publica o que quiser, mesmo quando fala besteira. Por isso, jovens cientistas precisam trabalhar dobrado para que suas idéias virem artigos. Por causa da saturação, o sistema está colapsando.

O que fazer então, já que temos que publicar de qualquer jeito? Estamos numa fase estranha, complicada. O que eu sugiro é fazermos nossa parte e bem feita: além de produzirmos boa ciência, temos que caprichar ao máximo na redação dos artigos. A arte de sobreviver ao peer review pode ser aprendida com grandes mestres e treinada obstinadamente, fazendo as chances de aceitação aumentarem com o tempo. Cientistas iniciantes devem se contentar em publicar principalmente em revistas menores e, eventualmente, em revistas top, por melhores que sejam seus artigos. Com o tempo vai se ganhando o tal crédito de publicação, mas mesmo cientistas seniores enfrentam rejeição maciça nos dias de hoje. De qualquer forma, deveríamos repensar o sistema de publicação científica, para garantirmos que a ciência continuará aberta a novidades e discordância, mantendo-se oxigenada.

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* Publicado originalmente em 2010.

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