Revisão por pares: escapando do fogo amigo

Ninguém gosta de ouvir críticas e as culturas latinas lidam especialmente mal com elas. Contudo, críticas são um dos pilares da ciência e não se produz conhecimento sólido sem se dar a cara a tapa. A solidez do conhecimento científico vem justamente desse auto-policiamento: não basta sair por aí dizendo qualquer coisa, é preciso apresentar evidências, justificar seu raciocínio e buscar a aprovação da comunidade. Uma parte fundamental desse processo é a revisão por pares em revistas (peer review). Neste artigo explico um pouco sobre como ela é feita e porque não está funcionando bem hoje em dia.

Partindo do começo. O veículo mais importante para comunicação de descobertas científicas são as revistas especializadas (conhecidas também como periódicos ou journals). A comunicação escrita, tanto impressa quanto online, é excelente, pois permite que o trabalho mantenha sua forma original indefinidamente, por gerações e gerações, sofrendo muito menos deturpação do que na comunicação oral. Portanto, quando um cientista faz uma descoberta, ele a relata na forma de um artigo, que deve ser submetido a uma boa revista especializada na área geral na qual ele se enquadra.

Assim que um manuscrito chega a uma revista (apesar de só escrevermos em computadores, ainda usamos o termo “manuscrito” para o artigo crú, ainda não diagramado), ele é recebido por um editor geral ou um editor de área, dependendo do tamanho da revista. Esse profissional tem a missão de checar se o trabalho se enquadra no escopo (tema geral, táxon, abordagem etc.). Em caso afirmativo, ele checa também se o manuscrito foi preparado segundo as normas exigidas (fonte, tamanho de página, divisão em seções, número de palavras etc.). Se o artigo estiver dentro do escopo e formatado corretamente, ele é repassado aos revisores anônimos (conhecidos também como referees ou reviewers): dois ou mais cientistas que trabalham na mesma área do artigo – podem ser especialistas no tópico, no táxon ou em algum método especial usado. Os revisores são encarregados de dissecar o trabalho: sua originalidade, sua relevância, sua estrutura lógica, a validade dos seus argumentos, sua clareza e até mesmo sua ortografia e gramática.

Depois de terminarem a revisão, que pode demorar de semanas a meses (dependendo das exigências da revista), os revisores enviam seus pareceres ao editor encarregado do artigo. Com base nesses pareceres e em sua própria opinião, o editor geralmente toma uma das seguintes decisões: (1) aceitar o artigo como está, (2) aceitar o artigo após uma pequena revisão, (3) aceitar o artigo após uma grande revisão, (4) rejeitar a versão atual do artigo mas permitir a submissão de uma nova versão, (5) rejeitar o artigo após ele ser revisado por dois ou mais colegas, ou (6) rejeitar o artigo sem nem mandá-lo para revisão. O caso 1 é raríssimo, praticamente nunca ocorre; por melhor que seja um trabalho, ciência é um negócio complicado, e um mesmo fato sempre pode ter mais de uma interpretação. Cabe ao autor, nos casos 2 ou 3, decidir quais críticas acatará e o quanto aceitará mudar seu artigo. No caso 4, dependendo das críticas, deve-se pensar se vale mesmo a pena mesmo mudar substancialmente o artigo e ressubmetê-lo à revista, ou então mandá-lo para outra revista. Os casos 5 e 6 não dão alternativa; é bola para frente e começar tudo de novo noutra revista. Depois que você recebe a decisão do editor, fazer a revisão do manuscrito  geralmente é um processo longo e complicado, mas que pode melhorar muito o seu trabalho.

Uma coisa muito importante a ser aprendida por um aspirante a cientista é manter-se calmo durante a revisão. Todos colocamos muito sangue, suor e lágrimas num manuscrito e ouvir críticas a ele não é fácil. Mas é preciso manter o sangue frio e ler profissionalmente as críticas, a fim de distinguir bem as boas das equivocadas, e aproveitar as que são realmente úteis. Como cientistas são humanos, obviamente acontece de algumas críticas serem pouco profissionais ou até mesmo pessoais. Sim, críticas pessoais são possíveis, porque em algumas revistas, o processo é apenas cego do lado do autor: os revisores sabem quem escreveu o artigo. Alega-se que isso dá a possibilidade de um revisor recusar o serviço antes de começá-lo, devido a problemas pessoais ou conflitos de interesse com o autor. Nas revistas que trabalham no modo duplo cego, muitas vezes é fácil para um revisor experiente deduzir pelo menos de qual grupo de trabalho o artigo veio. Não importa: se você receber uma crítica pesada ou injusta, mantenha-se zen. Largue a revisão por um tempo e volte a ela depois, de cabeça fria. Reclamar dos revisores não vai aumentar as chances de o seu artigo ser aceito. Ninguém está nem aí para seus sentimentos, ainda mais em um mundo lotado e competitivo.

Esse trabalhoso processo editorial visa garantir a qualidade dos artigos publicados e também tenta diminuir a subjetividade da revisão, já que incluem-se opiniões de outros colegas, e não apenas do editor. No geral, o sistema funciona bem e muitas vezes o artigo melhora substancialmente após a revisão. Mas atualmente alguns problemas tem aparecido ou se agravado.

Hoje há um número enorme de cientistas profissionais competindo por espaço em revistas. Em algumas áreas, até mesmo as mais específicas, centenas de artigos são submetidos mensalmente a uma meia dúzia de revistas. As melhores estão especialmente saturadas (principalmente as com bom prestígio ou fator de impacto acima da mediana da área). Como publicar custa muito dinheiro, ainda mais se a revista tiver uma versão impressa, tornou-se preciso escolher os artigos que entram não apenas com base no mérito, mas também com base no espaço disponível em cada edição. Algumas ótimas revistas tem até mesmo cotas fixas de rejeição: no mínimo 80% dos artigos submetidos são recusados de cara. Isso já acontecia há tempos em super-revistas como Nature e Science, porém se tornou comum até mesmo nas revistas especializadas. Para manterem-se nessas cotas, os editores associados buscam qualquer motivo para rejeitar um artigo, não importa que ele seja relevante e bem escrito. Basta uma falhazinha, mesmo que leve, para levar um artigo à recusa. Às vezes classificam-se com falhas coisas que, noutros tempos, seriam vistas apenas como divergências de opinião.

Mas isso não é o pior. Como cada manuscrito é revisado por dois ou três colegas, muitos editores têm a política de só publicar artigos que tenham aceitação unânime por todos. Em alguns casos, mesmo que todos os revisores recomendem a aceitação, caso tenham sugerido mudanças substanciais, o artigo acaba sendo recusado do mesmo jeito. Isso é muito preocupante, pois são ínfimas as chances de um trabalho realmente inovador ser aceito logo de cara por unanimidade. Pensem nos casos do Mendel e do Hennig. Quem confirma o que já é aceito e, com isso, afaga o ego das autoridades, tem muito mais facilidade de publicar. Quem pensa diferente e tenta mudar paradigmas, contrariando “dogmas de pelúcia”, acaba sendo sistematicamente bloqueado. Isso é especialmente problemático para cientistas em começo de carreira, independente da nacionalidade, porque eles ainda não tem o crédito vindo de uma boa reputação; na verdade, não são nem conhecidos. Quem é conhecido e respeitado publica o que quiser, mesmo quando fala besteira. Por isso, jovens cientistas precisam trabalhar dobrado para que suas idéias virem artigos. Por causa da saturação, o sistema está colapsando.

O que fazer então, já que temos que publicar de qualquer jeito? Estamos numa fase estranha, complicada. O que eu sugiro é fazermos nossa parte e bem feita: além de produzirmos boa ciência, temos que caprichar ao máximo na redação dos artigos. A arte de sobreviver ao peer review pode ser aprendida com grandes mestres e treinada obstinadamente, fazendo as chances de aceitação aumentarem com o tempo. Cientistas iniciantes devem se contentar em publicar principalmente em revistas menores e, eventualmente em revistas top, por melhores que sejam seus artigos. Com o tempo vai se ganhando o tal crédito de publicação, mas mesmo cientistas seniores enfrentam rejeição com certa freqüência, atualmente. De qualquer forma, temos que repensar o sistema todo de publicação científica, para garantirmos que a ciência continuará aberta a novidades e discordância, mantendo-se bem oxigenada. Talvez uma saída a curto prazo seja incentivarmos a criação de mais revistas de boa qualidade em cada área, além de tentarmos melhorar as que já existem, mas que estão meio caídas.

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* Publicado originalmente em 2010.

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