Revisão em crise!

Como já comentei em outros artigos, o sistema de revisão por pares, apesar de ter várias vantagens, tem também sérios problemas. Esses problemas se tornaram mais graves nos últimos anos, devido a profundas mudanças no modo como os artigos são publicados. Hoje, o peer review está nitidamente em crise e é difícil enxergar uma saída a curto prazo. Essa crise é sentida principalmente de duas formas: (i) está cada vez mais difícil conseguir revisores para um artigo e (ii) a maioria dos revisores atrasa muito a entrega do parecer ou faz o serviço nas coxas. Neste artigo, comento cinco fatores que, na minha opinião, levaram a essa crise e como poderíamos tentar resolver cada um deles.

1. Os temas de pesquisa estão cada vez mais especializados.

O conhecimento científico avançou muito nos séculos XIX e XX, e a quantidade de fatos, hipóteses, teses e teorias acumuladas em cada campo de estudo cresce exponencialmente, tendo atingido números astronômicos nas últimas décadas. Isso fez que com que muitos cientistas se especializassem cada vez mais em suas linhas de pesquisa, de modo a conseguirem digerir essa quantidade enorme de informação e também para aumentarem a chance de fazerem novas descobertas. Isso tornou difícil hoje em dia achar revisores para um artigo, que não sejam co-autores freqüentes, ex-orientadores ou colegas da mesma universidade ou projeto dos autores. É comum que bons revisores, especializados num determinado assunto, acabem recebendo o mesmo manuscrito tosco duas ou mais vezes de diferentes revistas: você o mata, mas ele sempre volta, igual a um highlander

Possíveis soluções: não criar mais revistas hiper-especializadas, mas sim aumentar o número de revistas, sem subdividir as áreas. Ou convidar os revisores pensando em diversificar as especialidades, por exemplo, pegando um que entende do táxon, outro que entende do tema e outro que entende dos métodos. Em alguns casos, é inevitável ter que convidar colegas próximos do autor.

2. Fazer uma revisão dá trabalho demais e você não ganha nada por ela.

Para fazer uma boa revisão, você precisa acima de tudo ter muita familiaridade com o tema. Mesmo assim, revisar um manuscrito científico dá trabalho e representa uma grande responsabilidade. Até quem tem grande experiência gasta no mínimo algumas horas com cada manuscrito. E, no final das contas, a maioria das revistas nem mesmo te dá acesso à versão final do trabalho. Haja espírito altruísta para topar ser revisor! Antigamente, era até um prazer fazer esse serviço, porque sabíamos que estávamos contribuindo para manter a qualidade da literatura científica. Contudo, hoje em dia, já que a maioria das revistas top está em poder das grandes editoras internacionais, você ainda vê a editora lucrando rios de dinheiro com um artigo que nasceu a partir de pesquisas feitas com verbas públicas e de uma revisão feita gratuitamente. Some-se a isso a pressão do “publish or perish”, que gera uma enxurrada de trabalhos feitos porcamente. O resultado disso tudo é que cada vez menos colegas se dispõem a revisar manuscritos e aqueles que ainda topam o serviço revisam uma quantidade bem menor do que antigamente.

Possíveis soluções: pessoas funcionam na base de incentivos. Então os revisores de artigos deveriam passar a ser remunerados em dinheiro, quando trabalharem para editoras comerciais. E a revisão de um modo geral, independente de quem pede o serviço, deveria passar a contar pontos em nossos currículos acadêmicos, ajudando a conseguir bolsas, empregos e projetos.

3. Ninguém tem tempo para revisões.

Para conseguir se estabelecer na carreira de cientista, ou mesmo para se manter competitivo já depois de ter um emprego, é preciso trabalhar cada vez mais e mais. A competição por vagas e verbas é feroz e só piora. O único jeito tem sido estabelecer prioridades e segui-las. O problema é: quem vai investir tempo e energia em revisões, se elas não dão retorno financeiro e nem científico para quem as faz? Melhor escrever cada vez mais e mais artigos, pois são eles que garantem o pão nosso de cada dia.

Possíveis soluções: as mesmas comentadas no tópico anterior. A revisão tem que gerar algum benefício concreto para o revisor, que não pode se sentir explorado.

4. Todo mundo quer publicar na mesma meia dúzia de revistas. 

O Culto Apocalíptico do Fator de Impacto criou um verdadeiro congestionamento nas revistas bem ranqueadas no Journal Citation Reports. Mesmo havendo dezenas de revistas científicas na área de Ecologia, todo mundo quer publicar nas mais citadas, porque as agências de fomento do Brasil e de alguns outros países presumem que a única forma de avaliar a qualidade de uma revista ou de um cientista é através da mais rasteira cienciometria numerológica. Como eu já disse várias vezes, deixamos de fazer o nosso jogo para fazermos o jogo das editoras internacionais; trocamos a seriedade pela comodidade. Em última instância, são as editoras que definem hoje quem é um bom cientista ou não. Em conseqüência desse engarrafamento, algumas revistas têm filas de artigos tão longas, que fica difícil conseguir revisores para todos. Em alguns casos, estamos falando de vários artigos com o mesmo tema geral esperando para serem avaliados pela mesma revista.

Possíveis soluções: o mais lógico seria deixar de cultuar cegamente o fator de impacto, e voltar a escolher revistas com base em critérios qualitativos, como escopo, prestígio, viés etc. Como sei que isso não vai acontecer, pelo menos a curto prazo, outra solução seria largar o modelo antiquado de revistas impressas, organizadas em volumes e números, e passar a publicar artigos apenas em formato eletrônico e em fluxo contínuo. Isso eliminaria a desculpa da falto de espaço, que tem gerado sérios problemas.

5. Alguns colegas estão abusando do papel de revisores.

A competitividade doentia no meio acadêmico, que antes era um “privilégio” de áreas com maior inserção no mercado, como a farmacologia, agora contamina todas as áreas de pesquisa, desde que a cienciometria virou religião. Nesse ambiente altamente competitivo, alguns cientistas com mau caráter aproveitam os pedidos de revisão para sabotarem competidores. Uma revisão é um prato cheio para quem deseja arruinar ou pelo menos atrasar as publicações de colegas ou grupos concorrentes, a fim de conseguir prioridade ou maior visibilidade. Assim, independente da qualidade do trabalho, o editor de uma revista pode acabar recebendo para um mesmo manuscrito um parecer altamente favorável, um favorável e outro extremamente desfavorável. Se o editor tiver personalidade e não tiver preguiça, num caso desses ele vai botar tudo na balança cuidadosamente e conferir se alguém exagerou e para qual lado. Mas a realidade, infelizmente, não é essa atualmente. Como as revistas mais competitivas dão cotas de rejeição aos seus editores, de modo a diminuir a fila e fazê-la andar mais rápido artificialmente, eles ficam felizes com qualquer desculpa para rejeitar um artigo. Com isso, às vezes basta um parecer sacana para derrubar um trabalho bom. E há ainda editores altamente arrogantes, que ficam “nervosinhos” com autores que questionam suas decisões. Antigamente, quando a relação autor-editor era mais direta e a competitividade era menor, o diálogo era mais aberto e produtivo. Agora, os frios sistemas de submissão online e a competição insana por espaço em revistas mataram o diálogo.

Possíveis soluções: os editores-chefes das revistas devem cobrar mais seriedade e comprometimento dos editores de área, botando numa lista negra os que são notoriamente mal-intencionados (quando você é da área, é fácil separar o joio do trigo). E os editores de área devem deixar a preguiça e a arrogância de lado, e passar a ouvir as queixas dos autores, que muitas vezes têm fundamento.

Conclusão

Para os autores, publicar está cada vez mais doloroso. Para os editores, encontrar revisores está cada vez mais difícil. Para os revisores, fazer revisões compensa cada vez menos. Para as grandes editoras, o lucro desonesto à custa de cientistas tolos só cresce. E, para a comunidade científica como um todo, o estresse só aumenta. Já está mais do que na hora de acordarmos e repensarmos algumas práticas editoriais.

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