O que é um pós-doutorado?

O pós-doutorado, mundialmente conhecido como postdoc ou post-doc, tem várias faces. O que é exigido de você e o que você tem a ganhar são coisas que dependem principalmente do país em que você está e de quem paga a sua bolsa ou salário. Contudo, algumas características valem em toda parte.

 Características gerais:

  1. O postdoc não é um curso e não dá um título, apesar do que muitos pensam. Outros ainda o confundem com o título de Ph.D., que na verdade é a mesma coisa que o D.Sc. brasileiro ou o Dr.rer.nat. alemão (todos são títulos de doutor equivalentes);
  2. É feito tipicamente por recém-doutores (i.e., com menos de 10 anos desde a defesa da tese). Quando um professor pede licença por um ano ou mais para deixar a universidade dele e desenvolver um projeto em outra instituição, ele está fazendo um sabático, e não um postdoc, ao contrário do que se diz erroneamente;
  3. Não exige cursar disciplinas;
  4. Não exige defender uma tese;
  5. Seu foco é a pesquisa, visando resolver algum problema avançado, e gerando publicações mais amadurecidas ou tecnologia de ponta;
  6. Geralmente inclui orientação de alunos;
  7. O ensino e a extensão ficam em segundo plano, na maioria dos casos. Uma das raras exceções são as bolsas PNPD da Capes, que via de regra também envolvem atividades de ensino;
  8. A administração acadêmica costuma ser deixada de lado, pois um postdoc não tem o mesmo poder político de um professor dentro da universidade e, de qualquer forma, todos tentam aproveitar essa fase para se concentrarem em amadurecer as habilidades relacionadas à pesquisa;
  9. Exige muita disciplina para conciliar o projeto pelo qual o postdoc foi contratado com a busca por um emprego estável. No Brasil, muitos cometem o erro de ver o postdoc apenas como um quebra-galho até passarem em um concurso, jogando no lixo a bela oportunidade de crescimento que essa fase da carreira proporciona (veja mais sobre isso ao final deste texto);
  10. Em quase toda parte, o postdoc é a fase da carreira na qual o cientista tem mais liberdade, podendo escolher suas atividades quase à vontade, e aprendendo a fazer networking em um nível mais maduro.

Coisas que mudam de país para país:

  1. Na Europa e nos EUA, o postdoc é considerado um pesquisador associado. O postdoc pode ser tanto bolsista de alguma fundação, quanto ter a carteira assinada pela universidade, uma agência de fomento ou um grande projeto;
  2. Nesses lugares, o postdoc é encarado como uma fase necessária para o amadurecimento do doutor já independente, que sempre sai cru do doutorado em qualquer lugar do mundo. Antes de dois ou mais postdocs em instituições diferentes, nem pensar em se candidatar a um emprego estável como professor ou pesquisador;
  3. Em outros lugares, incluindo o Brasil e a maioria dos países latinos, o postdoc  raramente é visto como um cientista independente, sendo muitas vezes tratado como um aluno ou agindo como tal;
  4. O poder aquisitivo da bolsa ou salário de postdoc varia muito entre países e mesmo entre cidades de um mesmo país, dependendo também da agência que te paga. Por exemplo, as bolsas de postdoc da Fapesp são muito mais gordas do que as do CNPq, mas o quanto a bolsa rende na prática varia muito em função de você morar na capital ou no interior. Contudo, em um país pobre e desigual como o Brasil, não dá para reclamar nem das bolsas mais magras (compare o valor da sua bolsa com a realidade salarial brasileira);
  5. Há ainda a questão da duração. No Brasil, o postdoc clássico dura no máximo 2 anos na maioria das agências de fomento (FAPs, Capes, CNPq etc.), mas pode-se fazer mais de um postdoc, desde que por agências diferentes, e geralmente em instituições diferentes. Contudo, há alguns programas antigos (como o JP da Fapesp) e novos (como o PNPD da CAPES), que têm perfil de pós-doutorado e duram até 5 anos. Na Europa, um contrato de postdoc geralmente dura 2 anos, mas pode se estender por até 6 anos, e a regra é fazer mais de um postdoc em locais diferentes.

No geral, um postdoc é isso. Recomendo fortemente a experiência para todos que desejam se tornar cientistas profissionais. Ninguém sai pronto do doutorado, nem os outliers. Logo, passar um tempo em um grupo de excelência, sob a supervisão de um cientista com renome mundial, sem ter a obrigação de fazer uma tese ou cursar disciplinas, pode ser a oportunidade de dar aquele salto de qualidade que você tanto queria.

Acredite: depois que você cair em um emprego estável, sobrecarregado de funções que não têm nada a ver com pesquisa, desenvolver-se como cientista será muito mais difícil. Muitos recém-doutores promissores acabam esmagados pela universidade, quando são contratados cedo demais, e vão parar no limbo acadêmico. Não tenha pressa de arrumar um emprego estável na Academia. Primeiro, tente se desenvolver o tanto quanto puder.

O terrível vórtice do postdoc eterno

Por fim, deixo um alerta. É muito comum, especialmente no Brasil, jovens doutores que conseguiram a faixa preta ali, na beira do aceitável, logo depois caírem no que chamo de “o terrível vórtice do postdoc eterno”.

“Mas o que seria isso, Marco?”

Simples: passar anos como um “secretário de luxo” de algum professor, ou então passar anos pulando de bolsa em bolsa, sem nunca conseguir passar de fase na carreira.

Isso acontece com alguns jovens doutores que, no fundo, não têm muito jeito para a ciência, mas se conquistaram a faixa preta assim mesmo. São pessoas que passam por debaixo do radar, graças ao nosso sistema focado em números e não em qualidade. Esses jovens não têm chances de competir com colegas da mesma geração que estão de fato vivendo o próprio ikigai na Academia. Assim, quando se candidatam às melhores vagas de postdoc ou a empregos estáveis como professor ou pesquisador, em geral, são obliterados pela concorrência.

Infelizmente, esse risco também é concreto para jovens doutores talentosos, mas que fazem escolhas ruins. Por exemplo, fazer postdoc na mesma universidade onde fizeram o doutorado, transformando orientador em supervisor, porque já se acostumaram com o local. Ou fazer postdoc em um grupo notoriamente ruim, simplesmente porque apareceu uma bolsa fácil.

O pior mesmo são alguns postdocs que, ao invés de tentarem aprender habilidades novas e tirar os papers da gaveta, ficam eternamente se preparando para concursos. E, geralmente, se preparando mal. Alguns deles passam anos a fio competindo sem sucesso para, ao final, se darem conta, meio tarde, que deveriam ter escolhido outra carreira.

Uma parte desses postdocs eternos dá ainda mais azar e acaba sendo explorada por professores picaretas que os transformam em secretários de luxo, prisioneiros da comodidade. “Patrões de fábrica” não estimulam o desenvolvimento profissional de postdocs eternos, mas apenas os usam para gerenciar o laboratório. No começo, esses postdocs são pagos com bolsas. Mas, conforme o tempo passa e eles ficam pouco competitivos até para bolsas, passam a sobreviver com verba de fontes cinza. Alguns se transformam em verdadeiros zumbis acadêmicos.

Sabe aquele colega seu, que já é postdoc há uns 10 anos ou mais, nunca passa em concursos, ainda não publicou um artigo verdadeiramente bom e gasta várias horas por dia cuidando do laboratório no lugar do professor? Aquele mesmo, que 10 anos atrás até parecia um jovem promissor, mas do qual agora ninguém ouve mais falar? Pois é, não caia nessa roubada.

* Publicado originalmente em 2010 e atualizado constantemente.

Sugestões de leitura:

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23 respostas para “O que é um pós-doutorado?”

  1. Marco, bom dia. Trabalho em uma empresa de trânsito e concluí a pouco meu doutorado. Gostaria de fazer meu pós-doc relacionado ao meu trabalho, sou coordenadora da pesquisa de comportamento urbano da empresa. Ou seja, o pós-doc teria que estar relacionado tanto à trânsito quanto ao desenvolvimento da metodologia de pesquisa. Você julga que seja possível conseguir realizar em pós-doc na minha própria aliada a alguma instituição de ensino que focalize a pesquisa em trânsito? qual a melhor maneira de se conseguir essa díade? Obrigada.

    1. Oi Lilian! Não sei como funcionam as coisas na sua área. Seria melhor você procurar alguma professora especializada no tema e descobrir o caminho das pedras junto com ela. Boa sorte!

  2. Oi, Marco! Adorei o seu post! O que vc pode me esclarecer sobre os-doutorado empresarial (PDI)? Quase não há nada no site do CNPq e achei poucos links na internet… : ((
    Obrigada e gde abço!

    1. Oi Rodrigo, nunca ouvi falar em postdoc sem bolsa. Bom, seria o equivalente a trabalhar como voluntário em um laboratório, sem receber pagamento por isso, mesmo tendo título de doutor. Não me parece uma boa decisão. Sem bolsa, você fatalmente terá que arrumar outra fonte de renda, aí não poderá focar adequadamente nas suas atividades como postdoc. Se o laboratório que você tem em vista não tiver uma bolsa de postdoc prontamente disponível, considere a possibilidade de pedir uma bolsa avulsa, tipo do CNPq, Fapesp etc.

  3. Vale a pena dar uma olhada no edital da Fapesp de pós-doc também. Tive a impressão ao ler o edital que para eles o pós-doc serve mais para a instituição (na qual o pós-doc é feito) do que para o bolsista. Ou seja, o foco não é na formação do pesquisador, mas na formação do pessoal de um dado laboratório ou grupo.

    1. Pois é, Vinícius, o objetivo e as características variam mesmo entre agências. Em muitos lugares, do ponto de vista da instituição, o postdoc é apenas um cientista de baixo custo… Aumenta-se a quantidade de bolsas, mas os cargos de cientista com carteira assinada são cada vez mais raros.

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