Carta de recomendação: fiança científica

Você provavelmente já pediu uma carta de recomendação a um professor, se estiver trilhando a Jornada do Cientista. E, se você já estiver em uma fase mais avançada da carreira, certamente já teve que escrever uma carta dessas. Aqui no Brasil as pessoas acham que isso é uma mera formalidade burocrática, mas recomendar um colega a outro é um dos rituais científicos mais sérios que existem.

Após uma conversa com a Cinthia Brasileiro e outros colegas, decidi escrever um post sobre as principais questões envolvidas e por que essas cartas devem ser levadas muito a sério. Este post é focado nos colegas faixas pretas novatos, que acabaram de se tornar professores, pesquisadores e orientadores.

Vamos direto ao ponto. Uma carta de recomendação é uma fiança. Quem tem mais a perder nessa história é quem escreve a carta e não quem a recebe ou a exige. Escrever uma carta de recomendação é como aceitar ser fiador do colega que a pediu, sendo que, ao invés de colocar o seu dinheiro em risco, o que você arrisca é a sua reputação. Poucas coisas queimam mais o filme de um cientista do que recomendar um colega ruim. Você demora anos ou décadas para ser reconhecido, mas basta uma escorregada feia para jogar seu nome no lixo acadêmico.

Mas, Marco, a coisa é mesmo tão séria? Sim! Em países de primeiro mundo, como Alemanha e Inglaterra, às vezes uma boa carta de recomendação tem mais peso em um processo seletivo do que o currículo do candidato. Ela pode fazer a diferença entre conseguir ou não aquela tão sonhada vaga de mestrado, doutorado ou postdoc. Pode pesar até mesmo em concursos para um cargo estável de pesquisador ou professor. Quem já participou de bancas de seleção dos mais variados tipos sabe que a mania brasileira que eu chamo carinhosamente de “concurso gincana” não faz o menor sentido (veja aqui o porquê). Mas isso é uma outra história.

Bom, já que no Brasil, infelizmente, candidatos, fiadores e empregadores não costumam levar esse tipo de fiança muito a sério, emerge a pergunta: em que situações principais uma carta de recomendação pode ser importante para um aspira brasileiro?

  1. Estágios ou formação no exterior: no caso de vagas acadêmicas remuneradas em países hub da ciência (EUA, Alemanha, Inglaterra, França, Austrália etc.), incluindo estágios de graduação, pós-graduação sandwich ou integral (mestrado e doutorado) e postdoc, quase todos os potenciais financiadores pedem uma ou mais cartas.
  2. Empregos no exterior: ao se candidatar a empregos estáveis de pesquisador ou professor no exterior, boas cartas são fundamentais. Não estou exagerando: é a combinação da carta de intenções com o résumé e as cartas de recomendação que define se um candidato vai ou não para a tão sonhada short list.
  3. Cursos concorridos no Brasil e no exterior: cursos extra-curriculares muito concorridos no Brasil e no exterior geralmente pedem cartas de recomendação no processo seletivo. Nos países que mencionei anteriormente, há cursos condensados sobre assuntos avançados, do tipo summer schools ou winter schools (dados durante as férias), que são disputados a tapa por pós-graduandos do mundo todo. No Brasil, alguns cursos de campo muito famosos (EFA, EcoPan etc.), que têm o poder de alavancar a carreira de um jovem ecólogo, também pedem cartas de recomendação. Uma boa carta pode fazer toda a diferença para você ser selecionado.

Voltando então ao ponto. O que significa uma carta de recomendação para cada lado envolvido na história?

Para o candidato:

  • Uma carta pode fazer toda a diferença do mundo em um processo seletivo. Para o mal ou para o bem. Assim, só peça esse tipo de favor a alguém que seja honesto, te conheça muito bem, goste de você, respeite o seu trabalho ou seja uma autoridade na área em questão. De preferência, peça a carta a alguém que seja todas essas coisas ao mesmo tempo. Pedir uma carta de recomendação a um orientador ou professor com o qual você não se deu bem (seja por culpa sua, dele ou de ambos) é dar um tiro no pé.
  • Nunca peça uma carta de recomendação a alguém que não te conheça direito. Isso é o cúmulo da folga e faz com que uma pessoa que nem sabia que você existia passe a não te respeitar.
  • Em hipótese alguma peça para ler a carta antes de enviá-la. Ou você confia plenamente na pessoa ou então não pede a ela.

Para o potencial orientador ou empregador:

  • A carta serve para ajudar a avaliar o potencial como cientista e a adequação do candidato ao perfil da vaga em questão, quando você não conhece a pessoa direito.
  • Quanto mais renomado for o professor que escreveu a carta, mais peso ela tem. Ser recomendado por uma grande autoridade é uma honra, que dá ao orientador uma boa dose de confiança no candidato.
  • Uma carta de recomendação em conjunto com uma carta de intenções dá informações muito mais preciosas do que um mero currículo, ou pior, uma provinha a la vestibular. Um entrevistador experiente consegue ler várias mensagens subliminares nessas cartas, relacionadas principalmente à criatividade, iniciativa, disciplina, apetite e sociabilidade do candidato. Por exemplo, uma carta formal demais, sem cor, apenas cumprindo tabela, atesta que o autor não estava muito empolgado em recomendar o candidato e que, portanto, ele não deve ser bom. Já uma carta vibrante mostra que o candidato pode ser um ponto fora da curva, que cria ondas significativas no contínuo espaço-tempo por onde passa. Uma carta informativa é muito reveladora.

Para o fiador:

  • Como eu já disse, escrever uma carta de recomendação é se tornar o fiador acadêmico da pessoa que a pediu. Se, por excesso de generosidade ou de ingenuidade, você der um testemunho positivo para alguém que não o merece, e a pessoa por milagre for aprovada na seleção, cada besteira que ela vier a fazer depois terá o seu nome marcado a ferro.
  • Brasileiros tendem a ser bonzinhos demais com conhecidos (mesmo que sejam cruéis com desconhecidos). Mas guarde a sua compaixão para quem a merece. Se algum mané, que mandou mal como seu aluno, orientado ou empregado, te pedir uma carta, não a escreva. Dê alguma desculpa esfarrapada ou simplesmente diga “não”, mas não seja tolo a ponto de assinar a fiança de alguém que muito provavelmente vai te envergonhar. E nunca, em hipótese alguma, escreva uma carta detonando a pessoa; isso é vil demais e pode te deixar com fama de fofoqueiro.
  • Se você aceitou escrever uma carta de recomendação, capriche. Nada de escrever uma carta padrão, formalzinha. Presumindo que a pessoa em questão mereça de fato ser recomendada, realce bem as qualidades dela e deixe bem claro porque ela é o candidato certo para aquela vaga. O potencial empregador ou orientador tem que ficar com a impressão de que mais ninguém seria tão adequado.

Vamos brincar agora de trocar as bolas:

O candidato se colocando no lugar do fiador: você daria um voto de confiança importante a alguém que nem conhece direito? Você daria um voto de confiança importante a alguém que já falhou contigo antes? Pois é… Então não peça cartas de recomendação a professores que não te conhecem ou com os quais você já vacilou. Simples assim.

O fiador se colocando no lugar do potencial orientador: todo mundo tem aquele coleguinha de turma que é muito gente boa: o Zé das Couves. O Zé é maneiro mesmo, a alma da festa, mas sempre manda mal nas provas e apenas assina os trabalhos de grupo, sem contribuir com nada. Em outras palavras, o Zé é um verdadeiro parasita e nem deveria estar na universidade. Agora imagine que um professor, que você admira a respeita, chega para você e pergunta: “O Sr. Couves veio aqui me pedir estágio, mas eu nunca ouvi falar dele: o que você acha dele?”. Sinceramente, você elogiaria o malandro e o recomendaria para a vaga só por ele ser gente boa, sabendo que você vai prejudicar o professor e deixá-lo extremamente decepcionado contigo? Se você fosse o tal professor, gostaria de ter esse exú trancando o seu laboratório? Pois é… (obrigado pela alegoria, Cinthia!)

O fiador se colocando no lugar do candidato: escreva uma carta que gostaria de receber como candidato. Lembre-se do poder que essa carta pode ter para mudar a carreira e até mesmo a vida da pessoa que vai recebê-la. Pense em todas as cartas mornas ou negativas que já te escreveram e não siga esses exemplos. Faça exatamente o contrário. Não aceite escrever uma carta para alguém que você não possa recomendar com entusiasmo irrestrito. E, nunca, nunca mesmo, seja tão preguiçoso a ponto de falar: “escreve aí a carta que depois eu assino”; isso é muito pior do que não fazer a carta.

Agora com respeito à essência da fiança em si: o que uma boa carta de recomendação deve conter?

  1. Contexto: onde, como e quando o autor da carta e o candidato se conheceram. Por exemplo: “orientei o João Espertão de 2002 a 2004, quando fazia IC, na UFMG. Na época ele desenvolveu o projeto X, que foi publicado nas revistas A e B”.
  2. Qualidades: o que destaca o candidato na multidão. Pode ser uma habilidade que ele tenha, uma teoria que domina, um táxon no qual é perito, um bom perfil de líder, uma perseverança fora do normal, uma inteligência digna da Mensa etc. Por exemplo, se o cara já publicou em revistas top como Ecology, Oecologia ou Oikos, ou quiçá Science ou Nature, fale enfaticamente sobre isso.
  3. Defeitos: em geral, evite falar sobre o que o candidato tem de ruim. Mas, se pedirem isso explicitamente (algumas cartas têm formato padronizado, com tópicos fechados), veja como pode expor as fraquezas do candidato sem derrubá-lo. Sim, isso é difícil mesmo. Evite bobagens como “o maior defeito dele é não desistir nunca”.
  4. Adequação: explique o que o candidato tem a ver com a vaga em disputa e porque ele é a melhor pessoa para preenchê-la. Seja um bom vendedor da carreira alheia. Esta é a parte mais importante da carta. Por exemplo: “Considerando que a vaga de postdoc aberta exige um perfil relacionado a redes ecológicas, acho que o João seria a melhor pessoa para preenchê-la, pois além de ter feito doutorado sobre interações do tipo X, em um dos capítulos da tese ele abordou a estrutura de redes do sistema que estudou. Vale ressaltar que o capítulo em questão foi publicado na PNAS e entrou para o ‘editor’s choice’ da Science. Além disso, João fez o famoso curso de verão da University of Shrubberies, Niland, marco na área de redes complexas.”.
  5. Meme: termine a carta com uma mensagem final que grude na cabeça do entrevistador como um bom meme de internet, agindo no subconsciente dele de modo a aumentar as chances do candidato. Pode ser, por exemplo, uma anedota curta sobre algo impressionante que o candidato já fez. Tipo: “ainda lembro aquele dia, quando o João convenceu a maior autoridade mundial em shrubberies de que a tese dele mudaria a forma de as pessoas pensarem sobre Ni“.

Bom, espero ter esclarecido as principais dúvidas que a maioria dos aspiras tem sobre as cartas de recomendação. Escrevi este texto com base nas perguntas que me fazem com maior freqüência. Muito do que eu falei vale também para recomendações informais, feitas de boca a boca e não em papel timbrado. Por fim, minha última recomendação: bom senso e cortesia não fazem mal a ninguém.

Leituras adicionais:

dilbert carta de recomendacao

Fonte: http://dilbert.com.

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9 respostas para “Carta de recomendação: fiança científica”

  1. Oi Marco, seu blog é sempre uma surpresa legal. Para alguém que passou para o outro lado da força a pouco tempo (bom, nem tão pouco tempo assim, quase estou acabando o estágio probatório), seu blog sempre traz perspectivas interessantes para me tornar um melhor orientador. Quanto a carta de recomendação tem este texto interessante do presidente da Sociedade de Biologia do Desenvolvimento: http://www.sdbonline.org/sites/SDBe-news/Winter2014/Secret_to_Getting_the_Postdoc_You_Want.html O que ele sugere é que ao invés de você pedir ao fiador uma carta, você deve oferecer o contato do fiador ao empregador. Dessa forma, o contato fica direto entre as duas entidades.

    1. Obrigado pela dica! Quanto ao que você falou, depende das normas do empregador. Tem universidades, agências ou empresas que (1) preferem que você passe o contato; outras (2) preferem que você mande o fiador enviar diretamente uma carta. O candidato tem que seguir as normas estabelecidas, não tem escolha. Eu prefiro a opção 2 para uma primeira triagem e a opção 1 para a short list.

  2. Legal demais!

    Já vi um caso de uma aluna que pediu uma carta para um professor, que negou. Ela insistiu, ele negou de novo. Depois de muita encheção de saco, ele fez a carta. Depois, com informações dos bastidores (era uma seleção de mestrado), soube que a carta detonava a menina.

    Moral da história: se o professor achou melhor não escrever sua carta, não insista! 😛

    1. Conheço vários casos surreais como esse, rsrsrs. Além dessa moral que você falou, pela ótica do candidato, tem outra moral, pela ótica do fiador: nunca escreva uma carta para alguém que não merece.

  3. Grande Marco! Devo lhe dizer algo: antes de conhecer seu blog estudava metodologia. Hoje, estudo os dois rsrs

    Parabéns pela iniciativa que com certeza é de grande ajuda para todos nós pesquisadores!

  4. Olá Prof. Marco, acho que você anda lendo pensamentos. Estava precisando ler um texto sobre esse assunto. Adorei! Parabéns! Sou fã do seu blog!!!! Um abraço, Joice.

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