O que é um preprint?

Será que vale a pena publicar o seu artigo antes de publicar o seu artigo?

“Como assim, Marco, ficou doido?!”

Calma, rs! Permita-me explicar essa parada. Antes de mais nada, levante a mão quem nunca reclamou do sistema de publicação acadêmica!

cri… cri… cri… 🦗

As motivações 

Cientistas sempre reclamam de um monte de coisas, às vezes com razão. Uns 20 anos atrás, duas das coisas que mais nos irritavam no pequeno mundo da publicação eram a demora no processo editorial e a queda-de-braço com editores e revisores.

O primeiro problema melhorou graças à tecnologia. Evoluímos das antigas bonecas impressas e separatas em papel especial para um processo que rola inteiro online, da submissão à publicação. Existem sistemas de editoração pagos e gratuitos, alguns até open source, que facilitam muito a vida de autores, revisores e editores. Já o segundo problema continua na mesma, pois o peer review ainda é o nosso principal mecanismo de controle de qualidade. Ele nos enerva, mas faz maravilhas por artigos!

O ponto é que, hoje, além de termos que sobreviver a uma brutal competição por espaço nas melhores revistas, a maior pedra no nosso sapato se tornou o controle da esmagadora maioria delas por grandes editoras multinacionais. O trabalho que antes era feito principalmente por sociedades acadêmicas aos poucos foi sendo dominado por conglomerados de mídia. Vários problemas surgiram com essa mudança, mas essa questão já foi esmiuçada em outros textos.

Muitos de nós, cientistas, estamos incomodados. Movimentos diversos têm surgido para tentar retomar as rédeas do sistema de publicação acadêmica e atualizá-lo. Há desde manifestos mais convencionais, como o DORA, até verdadeiras iniciativas piratas (Aaaarrr! ☠️), como o Sci-Hub, um verdadeiro Napster da ciência. Todos eles se relacionam de alguma forma a um movimento maior: Open Science.

O que são preprints?

É dentro desse universo da ciência aberta que uma solução relativamente antiga tem ganhado cada vez mais popularidade: os preprints.

“Mas, Marco, quem são eles, onde vivem, do que se alimentam?!”

Calma, tudo isso você verá nesta sexta, no Marco Repórter 🎬😁. Um preprint (ou “pré-publicação”) é uma versão crua de um artigo científico, ainda não publicado em uma revista científica tradicional.

Podemos dizer então que um preprint é um manuscrito que você deixou prontinho para submeter a uma revista. Ele já contém todos os elementos planejados por você e seus coautores (texto, análises, tabelas, figuras, suplementos etc.), já está no formato da primeira revista-alvo e já passou por lapidação. Ou seja, você poderia clicar no botão “submit” ➡️ agora mesmo, se quisesse.

Só que você não clica nesse botão só no sistema da revista tradicional. Em paralelo, você clica nesse botão também no sistema de um repositório de preprints da sua preferência. Vale ressaltar que esses repositórios não são revistas científicas, porque eles não têm um sistema editorial completo e nem revisam o seu manuscrito, dentre outras diferenças. Ou seja, nesses repositórios, o seu manuscrito fica disponível em formato PDF do jeito que você o mandou. Ninguém vai te ajudar a melhorá-lo, nem vai diagramá-lo para ficar com cara de artigo final. No máximo, ele ganhará uma marca d’água em um canto das páginas, incluindo um aviso de “não-revisado”.

Entre nós, biólogos, preprints ainda são uma novidade, causando certo frisson. Mas eles já são usados por cientistas de outras áreas há décadas. O primeiro repositório online de preprints foi o arXiv, inaugurado em 1991 por físicos do Laboratório Nacional de Los Alamos, EUA. Ele funciona até hoje, sendo o principal do ramo.

Outras iniciativas similares até foram criadas antes dele. Na verdade, antes mesmo da internet, na época dos manuscritos submetidos em três vias impressas, com os nomes científicos sublinhados com linhas onduladas 😂. Infelizmente, elas não vingaram, devido a dificuldades técnicas e à pressão das editoras. Bom, na verdade, se a gente considerar que as revistas científicas tradicionais existem desde 1665, quando saiu o primeiro número da Philosophical Transactions of the Royal Society, preprints até que podem ser vistos como uma novidade.

Agora nos anos 2010, vários outros repositórios surgiram, muitos deles especializados em determinados nichos. O favorito dos biólogos hoje é o bioRxiv. E há novidades que vão além, como a plataforma Authorea, que permite a postagem de textos enquanto eles ainda estão sendo escritos, com direito a ferramentas colaborativas! É uma mistura de preprint com Google Docs. Para quem curte análises quantitativas e programação, temos ainda o GitHub, que no fundo é também uma rede social, excelente para compartilhar toda a parte analítica de um artigo: scripts, funções, pacotes e software.

Prós

“Mas, Marco, qual é vantagem de eu depositar também um preprint, se já estou submetendo o manuscrito para uma revista ao mesmo tempo?!”

Boa pergunta! Obrigado por fazê-la. Vamos então fazer um top 5 com as principais vantagens:

1. As suas descobertas são divulgadas mais rápido

A motivação original que levou à criação dos primeiros repositórios de preprints já foi comentada: a demora na publicação formal. O tempo de publicação caiu muito nas últimas duas décadas, mas continua lento, ainda mais considerando a velocidade do fluxo de informações no mundo de hoje.

Todo cientista ou aspira que já publicou um artigo científico sabe quanta paciência é necessária. Mesmo se você der sorte e o seu artigo for aceito pela primeira revista, o processo todo demora em torno de 1 ano (sendo realista, sem contar a malandragem do “reject/resubmit“, que magicamente zera o cronômetro). Fora o fato que, dada a enorme competição por espaço, hoje é normal um manuscrito passar por umas 3 revistas antes de ser aceito. Por isso, você pode precisar de 2 anos ou mais para finalmente ver o seu trabalho publicado na versão final e oficial.

Algumas revistas tentam acelerar o processo. Elas vem publicando online first ou ahead of print já há alguns anos. Isso nada mais é do que a versão final do seu artigo, já publicada oficialmente no site da revista, mas ainda avulsa, sem estar incluída em um volume e número. Considerando que esse lance de “volume e número” está caindo em desuso depois do advento da publicação online, outras revistas encontraram formas de dar um gás adicional. Elas publicam online até mesmo artigos aceitos, mas que ainda não passaram pela última rodada de revisão, muito menos pela revisão editorial e pelo copy editing. Essas revistas estão quase caminhando na direção de fazer uma parte do trabalho dos repositórios de preprints.

Em suma, preprints permitem que as suas descobertas sejam divulgadas para o mundo imediatamente, correndo menos risco de virarem old news. Também contribuem para uma ciência mais ágil as revistas com sistema de revisão fast track, reservado para casos especiais. Por exemplo, preprints e fast track ajudaram muito a acelerar pesquisas emergenciais e troca de informações durante o surto de zika virus em 2015, permitindo uma resposta rápida da academia e dos governos.

2. As pessoas não precisam pagar para ler um preprint

Levando-se em conta os preços abusivos comentados lá no começo deste texto (o famigerado paywall), essa é uma enorme vantagem social. A sua ciência fica acessível a todos, pelo menos financeiramente falando.

Se nem mesmo cientistas em países estáveis com financiamento governamental conseguem pagar 30 dólares por artigo, que dirá um cientista sem verba, trabalhando em um país subdesenvolvido, que só conta com as moedas do próprio bolso?

Um dos pontos principais do movimento da ciência aberta é justamente acabar com a cobrança por conteúdo científico, tornando amplamente acessíveis informações e conhecimento produzidos com dinheiro público.

3. Resultados negativos podem ser divulgados mais facilmente

Uma das maiores tretas contemporâneas na ciência é o chamado viés de publicação. Resultados de projetos “que deram certo”, ou seja, que confirmaram as previsões e, assim, apoiaram a hipótese de trabalho, têm muito mais chance de serem publicados do que resultados que refutam as expectativas iniciais.

Da mesma forma, resultados que apoiam paradigmas amplamente aceitos também são publicados mais facilmente do que resultados que atacam o mainstream de uma área. Isso é um problema enorme para quem tenta fazer uma síntese sobre um determinado assunto polêmico e trabalha com meta-análise, por exemplo.

4. Você começa a receber críticas e sugestões mais rápido

Como todo bom cientista sabe, não existe ciência sem crítica. Tradicionalmente, a revisão por pares acontece durante o processo editorial, ou seja, depois que o manuscrito foi submetido a uma revista e foi previamente aceito por um editor (no popular, “passou do porteiro”, rs).

Entretanto, hoje se tem discutido muito a revisão pré-publicação, que seria feita antes da submissão do manuscrito a uma revista. Alguns cientistas sugerem que essa revisão prévia deveria ser feita usando as redes sociais.

Preprints são uma das formas mais eficientes de ouvir a opinião de colegas de fora do seu círculo imediato e, graças a elas, conseguir melhorar um artigo antes mesmo de ele começar sua jornada dentro do sistema oficial.

5. O seu trabalho ganha mais visibilidade

O preprint contribui para a notoriedade da sua pesquisa bem antes da publicação formal. Isso porque ele fica acessível de graça e muitos repositórios fazem divulgação ampla nas redes sociais. E, depois que o artigo oficial sai, uma coisa alimenta a outra. Ou seja, você aumenta as chances de o seu trabalho ser lido, citado e usado.

Contras

Nem tudo são flores no mundo dos preprints, por isso eles ainda geram muita controvérsia fora da bolha dos físicos e matemáticos. Vamos examinar o top 5 do dark side.

1. A falta de revisão aumenta a chance de propagação de erros

Uma das coisas que mais aumentam a credibilidade da ciência é justamente o seu sistema de auto-policiamento. A revisão por pares é um dos pilares desse sistema, pois ela ajuda enormemente a separar o joio do trigo. Ela filtra a vasta maioria dos artigos ruins ou fraudulentos, antes que eles ganhem o selo de aprovação acadêmica dado por uma revista científica tradicional.

No caso dos preprints, que não passam por revisão antes de saírem online, não há filtragem alguma. Então eles podem acabar sendo utilizados de forma equivocada por pessoas que não entendem a diferença entre preprint e artigo. Preprints são úteis especialmente para colegas cientistas que trabalham com o mesmo assunto dos autores e querem se adiantar na troca de figurinhas. Mas eles devem ser usados com cuidado pela imprensa e pelo público leigo, pois ainda não passaram pelo batismo de fogo do peer review.

A divulgação prematura de estudos talvez seja a maior polêmica envolvendo os preprints. Eles também podem ser abusados por pseudocientistas, que não conseguem publicar suas groselhas em revistas científicas, então só as “publicam” em repositórios de preprints. Para quem está assistindo ao jogo de fora da Academia parece tudo a mesma coisa. Só que não é, como já explicado. Temos que tomar cuidado mesmo.

2. Algumas revistas não aceitam artigos que saíram antes como preprints

Infelizmente, algumas revistas requerem novidade absoluta. Logo, não permitem que artigos publicados nelas tenham saído como preprints antes, para não perderem a primazia.

Por outro lado, até mesmo revistas top como a Nature abraçaram a cultura dos preprints. Tudo depende de como a revista interpreta o papel de um preprint. Antes de depositar um preprint, cheque as normas e a embargo policy da revista-alvo onde pretende publicá-lo formalmente depois.

3. Preprints estragam a novidade do artigo formal

Pegando o gancho do item anterior, algumas revistas e cientistas veem os preprints como uma espécie de spoiler acadêmico. Essa é uma visão controversa. A descoberta incrível que você acabou de fazer pode ser apresentada ao mundo primeiro em um preprint para depois ser oficializada em um artigo. Uma coisa não invalida a outra.

É como se desdobrássemos o processo em mais etapas. Na Física, considera-se que a publicação de novidades científicas começa nos congressos, passa pelos preprints e termina com os artigos.

4. Alguém pode roubar as suas ideias

Um dos perigos mais concretos dos preprints é o scooping. Ou seja, em linguagem jornalística, o ato de alguém “furar a sua notícia”, dando ela antes de você.

Isso de fato pode acontecer e alguns cientistas relatam terem passado por esse tipo de trapaça. Algum colega mal intencionado lê o seu preprint, acha aquilo tudo genial e resolver adiantar um trabalho parecido que já estava fazendo, publicando a descoberta na sua frente. Tem uns até piores, que chegam a pegar dados do seu material suplementar e fazer outras análises e publicar os resultados antes mesmo de o seu artigo sair. Na verdade, scooping acontece até mesmo dentro do sistema de publicação tradicional. Há casos relatados de roubo de ideias por revisores de manuscritos e até mesmo por assessores de agências de fomento, que têm acesso a novidades ainda na fase de projeto.

Por outro lado, um preprint pode servir como prova de primazia em uma descoberta, pois ele é um tipo de registro bibliográfico. Atualmente, além de depositarem preprints, alguns cientistas têm registrado suas hipóteses e desenho experimental antes mesmo de executarem seus projetos. Essa é uma forma de garantir que você não cometeu fraude, acochambrando resultados e previsões a posteriori. De quebra, você ainda obtém mais um registro das suas ideias originais, em caso de scooping.

5. Duas versões do mesmo trabalho podem causar confusão entre os leitores

Como a imprensa e a sociedade devem interpretar as suas descobertas científicas, caso leiam primeiro o seu preprint e depois descubram que o artigo ficou muito diferente dele, até mesmo em termos das conclusões?

Isso acontece em alguns casos, porque o processo de revisão por pares é tão eficiente, que às vezes os seus colegas enxergam ângulos nos seus resultados que nem você mesmo tinha visto. Mas há como evitar confusão. Por exemplo, quase todos os repositórios de preprints permitem que se atualize o manuscrito e demais arquivos quantas vezes o autor quiser. E, depois que o artigo sai, eles incluem um link com o DOI do artigo na homepage do preprint. Portanto, há avisos de que o preprint é um trabalho que não passou por peer review, há avisos de alterações e há também avisos sobre a versão oficial publicada.

O que falta mesmo é conversarmos mais sobre os preprints, especialmente com a imprensa, para explicar direito qual é o papel deles e como funcionam. Na verdade, precisamos ter essa conversa também entre nós, acadêmicos.

Exemplo

Veja um excelente trabalho sobre redes multicamada (um tema que eu adoro! 😍), em versão preprint e artigo.

  • Pilosof et al. 2017: The multilayer nature of ecological networks ➡︎ primeiro ele saiu como preprint no famoso arXiv em 2015, com direito a três versões, e depois foi publicado como artigo na Nature Ecology and Evolution em 2017. Notem que um está linkado ao outro.

Conclusão

Pesando os prós e contras do sistema de preprints e depois de conversar com colaboradores da Física, no nosso laboratório decidimos abraçar essa cultura. Temos publicado preprints dos nossos artigos (como este, este e este), tão logo os submetemos pela primeira vez a uma revista científica.

Daqui a um tempo reporto para vocês o saldo dessa experiência. Até agora ele tem sido positivo. Penso que, no mínimo, vale a pena cientistas de todas as áreas conhecerem melhor essa alternativa.

O Sci-Hub e os repositórios de preprints podem mudar para melhor o sistema de publicação científica, assim como o Napster fez com o mercado de música digital. Isso talvez nos salve da crise em que nos metemos por comodidade e falta de visão.

Sugestões de leitura

  1. A máquina que trava a ciência
  2. Por que publicar preprints?
  3. The preprint dilemma
  4. What’s up with preprints?
  5. Napster: da ilegalidade no final dos anos 1990 ao streaming legal em 2016
  6. Publication of peer review reports in Proceedings B and Royal Society Open Science

 

(Fonte da imagem destacada)

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2 respostas para “O que é um preprint?”

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