É possível separar vida e trabalho?

Essa é uma das perguntas mais antigas da humanidade. Infelizmente, ela não tem uma resposta universal ou simples. Portanto, resta apenas refletirmos sobre ela com calma. Vamos então retomar a nossa série de posts sobre o mundo do trabalho.

É curioso contemplar a “sabedoria” das redes sociais.

Pare, respire e pense. Você vai notar que a maioria das pessoas é simplesmente crédula demais, ainda mais na vida online. Basta alguém inventar uma estorinha bizarra, que todo mundo acredita, curte e compartilha. Por exemplo, aquela estorinha sobre a suposta origem da palavra “c*ralho”.

“Ai, que horror, o Marco quase falou palavrão!”

De acordo com o que dizem nas redes sociais, a raiz de tão viril vocábulo seria naval… Sério. Originalmente, esse firme pedúnculo da última flor do Lácio seria o cesto de observação que costumava ficar nas gáveas dos navios a vela. Sabe qualé? Aquele cesto de onde os piratas dos filmes gritam “terra à vista”! (aceita pix? rs) Na boa véi, basta dar uma olhadinha rápida em qualquer dicionário para essa etimologia murchar. Se você quiser conferir a explicação real, leia o excelente verbete da Wikipedia (e aproveite para fazer uma doação à plataforma). Haja groselha!

Outra groselha que tem ganhado corpo nos últimos anos tem a ver com a separação entre vida e trabalho. “Guerreiros de teclado” andam dizendo por aí que a ideia de separar essas duas dimensões da existência humana seria uma invenção capitalista. Um vil estratagema criado para forçar os trabalhadores a se tornarem cada vez mais produtivos. Pior do que o nonsense dessa fake news é tanta gente sair repetindo-a por aí.

Ao invés de ajudar a propagar fake news, se você sair do universo ilusório das redes sociais um pouco e dedicar mais tempo aos livros, especialmente os clássicos, ficará surpreso. A questão do equilíbrio entre vida e trabalho vem sendo pensada por grandes religiosos, filósofos, estadistas e cientistas há milênios. Não estou falando apenas daquela galerinha eloquente da Grécia antiga, tipo Platão e Aristoteles. Refiro-me também a uma gente diferenciada que circulou bem antes pelo Oriente, como Sidarta Gautama e Lao-Tzu. Isso, fora sábios mais recentes, como Karl Marx e Adam Smith. O que não falta é gente trabalhando com a questão do trabalho.

Essa questão voltou aos holofotes recentemente graças a uma formidável série da Apple TV: Severance (Ruptura). Ela segue essa visão negativa que virou modinha nas redes sociais. Contudo, apresenta seu argumento de forma muito mais inteligente do que no caótico emaranhado de fios das timelines, com um bom embasamento filosófico e uma produção primorosa. Bem resumidamente, sem dar spoilers, a série leva ao absurdo o argumento contra a separação entre vida e trabalho. O mais legal é que o faz para provocar uma desconcertante reflexão. Recomendo-a fortemente a quem se angustia com a questão do trabalho e a quem curte distopias cyberpunk em geral.

Por falar em cyberpunk, gente que nasceu nos anos 70 e cresceu nos 80, como eu, sob ameaças como holocausto nuclear, ditadura, hiperinflação, poluição e pandemia de AIDS, ficava apostando se o mundo caminharia para um futuro mais a la Mad Max ou Blade Runner. Eu acho que a segunda opção está ganhando, pelo menos em um primeiro momento.

Bom, retornando dessa digressão nerd, proponho aqui cinco pontos para reflexão. Eu não seria tolo de tentar resolver em um simples post uma questão tão complexa e antiga. Quero apenas ajudar a melhorar a qualidade das inquietações na sua mente.

1. O trabalho é uma dimensão da vida

Sim, isso é verdade, o que torna impossível separar totalmente trabalho e vida. O primeiro está contido na segunda. Isso, pelo menos em teoria, porque tem gente que vive para o trabalho, seja por escolha própria ou por opressão. De qualquer forma, trabalho tem tudo a ver com sobrevivência e, nos humanos, ainda por cima tem um significado cultural gigante. Assim, o trabalho tem também um peso considerável na construção da nossa identidade. Não existe vida sem trabalho.

2. Pare de pensar em extremos

Mesmo não existindo vida sem trabalho, dá para separar as duas coisas em diferentes graus. Não caia na falácia dos extremos, que envenena o discurso público contemporâneo. Se você seguir a sabedoria das redes sociais, vai acabar achando que talvez deva misturar vida e trabalho completamente, por exemplo morando no seu emprego, porque “enquanto você dorme os outros estão produzindo”. Ou então vai achar que deve separar os dois por completo, tornando-se duas pessoas em uma, como na série mencionada. Como já dizia Sidarta Gautama, a verdade está no caminho do meio. Quando grandes sábios filosofavam sobre separar vida e trabalho, estavam falando sobre manter algumas relações, interesses e atividades exclusivamente em cada uma dessas caixinhas. Obviamente, sempre há uma interseção entre elas. Isso porque você continua sendo a mesma pessoa em casa e no laboratório, então o que você vive em um lugar afeta o que experimenta no outro. O que você pode regular, de acordo com a sua realidade individual, é o tamanho e o conteúdo dessa interseção.

3. Separando vida e trabalho, você tem refúgios para as horas ruins

Considerando que uma interseção entre vida e trabalho é inevitável, uma das maiores vantagens de separar as coisas, pelo menos parcialmente, é ter para onde correr quando o bicho pega. Sério, quem nunca teve uma treta no trabalho, quase perdendo a linha com os colegas em uma semana particularmente tensa, mas felizmente esfriou a cabeça ao voltar para o conforto do lar? Você, leitor, nunca passou por um desentendimento doméstico e depois se sentiu aliviado ao chegar no laboratório e poder colocar a sua mente em outras coisas? Já imaginou que inferno, se todos os seus amigos e o seu cônjuge fossem também seus colegas? A parada é a seguinte: quem passa vinte e quatro horas por dia na universidade, ou pior, frequenta-a até mesmo nas férias, constrói uma vida bitolada e sem válvulas de escape.

4. Separando vida e trabalho, você consegue cultivar ambos de forma mais plena

Válvulas de escape são cruciais não apenas para manter a saúde, mas também para turbinar a produtividade e a criatividade. Elas renovam as nossas energias, evitam que espanemos e promovem crossovers. Por exemplo, uma experiência maravilhosa relatada por muitas pessoas criativas, que trabalham em ocupações intelectuais, são os insights conseguidos quando estão fazendo outras coisas. Sério, às vezes, em pleno sábado, remando a sua prancha no swell, você liga os pontos e descobre como consertar um bug naquele código que está escrevendo para analisar os dados de um artigo, por exemplo. Mas bons insights só acontecem para as pessoas que não apenas trabalham duro e se apropriam dos problemas que tentam resolver, mas também dão à mente a oportunidade de desfrutar de ócio e descanso. É incrível: muito do que você vive fora do trabalho acaba se convertendo em ideias fora da caixinha que desatam nós impensáveis nos seus projetos. Da mesma forma, ao deixar o trabalho da porta para fora quando você chega em casa, você consegue ser um cônjuge ou pai muito melhor, por focar de verdade na sua família e também em si mesmo. Esqueça aquela bobagem autocondescendente sobre “horas de qualidade”. A sua família precisa mesmo é de muitas horas contigo, tantas quantas forem possíveis!

5. Nossas relações sociais mais significativas costumam ser feitas fora do trabalho

Por fim, pense o seguinte. No trabalho, todos, sem exceção, somos descartáveis. Você pode até se achar a última pipoquinha doce do saquinho rosa. Mas tenha certeza de que semana que vem vai aparecer uma nova pipoquinha mais doce do que você. Sério, caia na real! No dia em que o teu chefe te morder e achar que você não está mais tão doce assim, ele te cuspirá fora. Não se esqueça também das fofocas, intrigas e facadas nas costas, tão comuns em ambientes patologicamente competitivos, como a academia. A coisa muda de figura nas relações familiares. Óbvio que rolam tretas em família também; Tolstoi que o diga. Só que não estou falando apenas das relações com parentes, com os quais você supostamente é obrigado a conviver, só porque eles compartilham mais genes contigo do que com outros humanos. Família de verdade é um grupo social bem mais restrito, que inclui apenas os parentes e amigos mais especiais. Ou seja, as pessoas que realmente importam na sua vida. Essas pessoas não estão nem aí para a sua produtividade e ficarão ao seu lado na alegria e na tristeza, na citação e no ostracismo. Todos precisamos de uma rede de apoio, mas não conte com construí-la no trabalho.

Pensamento final

Apesar de ser impossível separar completamente vida e trabalho, dá para deixar cada coisa em seu lugar, mas com alguma coisa em comum. Assim, você terá uma vida com horizontes mais amplos, muito mais produtiva e saudável.

(Fonte da imagem destacada: Apple TV)

Agradecimentos

Agradeço à Regina pelas inúmeras conversas que tivemos sobre o equilíbrio entre vida e trabalho.

7 respostas para “É possível separar vida e trabalho?”

  1. Ótimas reflexões 🙂 Às quais irei colocar aqui alguns contrapontos (ou talvez nem sejam contrapontos) com base na minha experiência pessoal…

    Eu na verdade sempre ouvi muito mais argumentos por separar o máximo possível a vida do trabalho do que argumentos contrários. Bom, exceto os “trabalhe enquanto eles dormem” os quais eu tendo a ignorar. Mas, é uma separação que para mim nunca funcionou muito bem. Por exemplo, praticamente todas as minhas amizades se originaram e mantiveram na Universidade. Acho que atualmente só tenho uma amizade que não surgiu na vida universitária! E olha que não foi por falta de fazer coisas fora (música, artes marciais, aulas de palhaçaria….).

    Só que é claro que essas amizades não foram criadas apenas dentro da universidade. Momentos de ajuda em campo, trabalhos em grupo, escrever artigos junto, ajuda em campo, discussões acadêmicas, já falei de ajuda em campo? foram essenciais. Momentos de jogar peteca e fazer piqueniques também 🙂

    Acho que um ponto para separar menos trabalho de outros aspectos da vida é que, tal qual uma tripulação pirata [adivinha qual anime estou assistindo agora?], uma equipe de trabalho em que haja relações de amizade entre as pessoas funciona melhor, caso haja também um bom entrosamento profissional. Dá mais vontade de trabalhar junto e produzir coisas e o trabalho ocorre de forma mais fluida. E um outro ponto é que passamos tanto tempo trabalhando que para mim o trabalho é uma parte muito importante da vida e deve estar no mesmo patamar que os outros pontos.

    Mas isso em relação à separação nas relações pessoais… As quais eu no geral não separo. Separação temporal e espacial é outra coisa…

    Até o final do doutorado eu meio que trabalhava o tempo todo e de forma aleatória, e no pós-doc decidi separar. Parei de trabalhar em casa, ajeitei meu espaço em casa para realmente não trabalhar nele e fazia tudo que precisava no lab. Dava muito certo, fiquei mais produtivo e mais relaxado. Ao ser contratado na UFBA continuei fazendo isso, deixei minha casa perfeitamente organizada para não trabalhar e meu trabalho estava todo na UFBA. (E aí veio a pandemia e acabou com tudo isso, mas ainda cogito voltar a viver sem internet quando tudo se normalizar. Era tão libertador não ter internet em casa.)

    Então, sim, acho que separação temporal e espacial – trabalhar em um ambiente, não-trabalhar em outro ambiente – realmente é uma boa e melhora ambos aspectos da sua vida. Isto quando for possível ter dois ambientes; que podem ser dois espaços na mesma casa ou até mesmo dois espaços em um cômodo. E outra coisa que funciona é usar regularmente três palavras mágicas: “Fechei o expediente.” Depois que fecho o expediente, só volto a trabalhar no dia seguinte (ou assim tento).

    E pra finalizar, gostaria de compartilhar aqui dois posts que escrevi sobre temas relacionados a este:
    https://anotherecoblog.wordpress.com/2020/05/06/atividades-nao-academicas-uteis-academicamente/
    https://anotherecoblog.wordpress.com/2018/01/12/ter-uma-vida-faz-bem-pro-lattes/

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    1. Oi, Pavel! Valeu pelos ótimos comentários.

      Você trouxe um desdobramento fundamental dessa questão. A separação entre vida e trabalho pode se dar em diferentes eixos: espacial, temporal, conjugal, social, psicológico, financeiro e por aí vai. Logo, de acordo com a sua realidade pessoal, você pode decidir separar as coisas num eixo, mas não nos outros. Em dois eixos, mas não em quatorze.

      Na minha experiência pessoal, e considerando também relatos de amigos, colegas e parentes, o eixo mais complicado é o conjugal. Sério, via de regra, trabalhar junto com seu cônjuge, por exemplo sendo colegas de departamento, costuma criar uma carga bem pesada sobre a relação. Mas isso, como tudo mais, depende da realidade específica do casal.

      O eixo mais fácil e saudável de separar é o espacial. Eu passei por experiências muito similares às suas. Agora, neste quase-pós-pandemia, estou voltando a fazer uma boa separação espacial entre casa e lab.

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      1. Interessantes as reflexões! Estou em meu primeiro pós-doutorado, e tentando separar as coisas um pouco (até a primeira metade deste projeto, meu foco era “trabalhar sempre que possível, sem deixar a família para trás” (somos um casal de pós-docs com um filho pequeno). Só que com essa mentalidade… como dizer? … acabou gerando um sentinela que ficava o tempo todo buscando janelas para o trabalho (ah, o menino foi tomar banho! – vou correndo lidar com alguns emails). E não está fácil cavar espaços “protegidos” do trabalho. Mas continuamos, na esperança de que seja possível conciliar a carreira com outros interesses! Um abraço!

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        1. Oi, Tassio! Obrigado pelo seu comentário. Sei bem do que você está falando. Tive meu filho durante o doutorado e conheço essa realidade. Na minha experiência pessoal, esse lance de “trabalhar sempre que possível, sem deixar a família para trás” não funciona mesmo. É mais saudável para a família e para o trabalho separar as coisas temporal e espacialmente, na medida do possível, é claro. Vida de pai acadêmico não é fácil! Minha solução pessoal foi trabalhar menos horas por dia, só que cada vez mais focado durante o horário de trabalho.

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