Como dar uma palestra

Cientistas comunicam suas descobertas principalmente através de artigos e livros. Contudo, a comunicação oral também é fundamental e retroalimenta a escrita. Portanto, todos os cientistas, introvertidos e extrovertidos, precisam desenvolver essa habilidade. Vamos conversar sobre isso.

Resolvi escrever este guia, a fim de ajudar os meus alunos a se expressarem melhor oralmente. O texto está divido nos tópicos mais importantes para se fazer uma boa apresentação. Vale ressaltar que se trata apenas de um conjunto de dicas básicas, que não substituem o treinamento com um bom orientador ou tampouco a leitura de livros especializados.

Organizei o post na forma de perguntas e respostas. Vamos a elas!

Por que apresentar trabalhos também de forma oral?

Se a comunicação escrita é a mais importante entre cientistas, qual é a utilidade de se comunicar também oralmente?

Bom, os textos servem como documentos, que oficializam as informações e ajudam a diminuir sua deturpação ao longo do tempo. Afinal de contas, todo conhecimento oral sofre o famoso “efeito telefone sem fio” (deturpação na reprodução, conforme passa de pessoa a pessoa).

Mas comunicar idéias oralmente tem também suas vantagens, sendo um bom complemento à comunicação escrita. Quando você está diante de uma platéia, tem a oportunidade de interagir diretamente com ela. Além disso, as pessoas são animais sociais, então informações transmitidas pessoalmente tendem a ter um valor adicional.

Esse contato direto em eventos científicos e cursos nos permite estabelecer relações mais fortes com colegas e alunos, estreitando assim laços sociais na comunidade acadêmica e ajudando a criar uma boa reputação.

As palestras e artigos atuam em simbiose na tarefa de divulgar descobertas e convencer a comunidade científica de que elas fazem sentido.

Quais são as diferenças básicas entre a comunicação escrita e a oral?

A principal diferença se deve ao fato de o autor do trabalho estar presente no momento da troca de informações.

Em uma palestra, o público pode tirar dúvidas imediatamente, permitindo ao autor receber feedback em tempo real. Na comunicação escrita, apesar de não ocorrer comunicação instantânea, ambos os lados têm mais tempo para digerir as idéias.

Outra diferença fundamental é a durabilidade da mensagem. Na comunicação escrita, você escreve as suas idéias em um documento oficial (livro, artigo, monografia, apostila etc.), sendo que assim elas sobrevivem muito além do seu próprio tempo de vida, mantendo a forma original. Isso não é possível na comunicação oral, a não ser que se grave a palestra. Mas assistir ao vídeo depois não tem o mesmo efeito de assistir a uma palestra ao vivo.

Você deve lembrar também que, quando alguém lê um texto, pode fazer pausas quando necessário e retomá-lo depois. Na apresentação oral, o público é seu refém.

O que devo levar em conta ao planejar uma apresentação?

Tendo em mente as diferenças entre as comunicações escrita e oral, pode-se planejar uma apresentação de forma eficiente. Você deve considerar os seguintes aspectos principais, comentados em detalhes nas próximas seções.

1. Tenha uma boa história para contar

Capriche na forma da sua palestra, pois ela é fundamental para passar a mensagem. Contudo, não adianta usar um embrulho bonito para um presente ruim.

Tenha sempre uma boa história para contar. Foque cada palestra em uma única mensagem central clara, objetiva e interessante. Você pode até incluir algumas poucas mensagens secundárias, mas uma boa palestra deve ter um fio condutor claro e apresentar uma moral da história ao final. Isso porque uma palestra, assim como um artigo, é um argumento.

Uma palestra confusa, que dá voltas e voltas sem chegar a lugar algum, ou que trata “da vida, do universo e de tudo mais”, invariavelmente se torna chata e perde o público logo nos primeiros minutos.

2. Uma boa palestra deve soar como uma conversa

Pense sobre todas as palestras que você assistiu na vida. Provavelmente, só umas dez ficaram na sua memória. Uma parte delas te marcou por ser excelente, outra por ser péssima.

Pense sobre como eram as palestras desses dois grupos. Você verá que as palestras que te causaram uma ótima impressão soaram como conversas com o público. Independentemente do estilo pessoal do palestrante, aposto que parecia que ele estava falando diretamente com cada pessoa na platéia.

Pense sobre as melhores conversas que já teve na vida e dê a sua palestra como se estivesse contando uma estória. Funcionará bem melhor do que “falar” com um ponto distante no fundo da sala, ou pior, ler um texto no palco como se fazia antigamente.

3. As pessoas não conseguem se concentrar por muito tempo

É preciso respeitar a capacidade máxima de atenção contínua das pessoas, que gira em torno de 40–60 min, no máximo, evitando assim falar por um tempo longo demais. Na verdade, hoje em dia, na era das redes sociais e espertofones, esse tempo vem despencando. Muita gente mal consegue ficar quieta ou focada por 10 min.

Ok, considerando isso, saiba que a grande maioria das apresentações científicas, especialmente as famosas talks em congressos, gira em torno de 15 min, incluindo perguntas. Há exceções, contudo, como as keynotes de 50 min, dadas por silverbacks. Aulas e palestras maiores não devem ultrapassar os 50 min.

Especialmente se a sua apresentação acontecer em um congresso, respeite o tempo. O público tem que assistir a várias palestras em um mesmo dia e por isso deve estar cansado e disperso. Então você chamar a atenção das pessoas de forma positiva.

Faça piadas inteligentes (mas não em grande quantidade), use analogias divertidas, interaja com diferentes pessoas através de perguntas retóricas.

Além disso, olhe de vez em quando para uma pessoa específica, como se estivesse conversando com ela, e troque de pessoa frequentemente. Isso dará um toque mais pessoal à apresentação. Olho no olho!

4. Um slide, um minuto

Via de regra, para não estourar o tempo, planeje cerca de 1 slide por minuto em sua palestra. Se possível, use menos do que isso, depois que você pegar a manha de criar apresentações mais dinâmicas, baseadas em mais trocas de slides, porém sem falar mais rápido.

5. Um slide, uma ideia

Slides não são paginas de livros! Nada é pior do que escrever ou transcrever um parágrafo inteiro, cheio de informações, em um slide. Isso não faz o menor sentido! Em cada slide apresente apenas uma única ideia ao público. Isso vai tornar muito mais fácil acompanhar o seu raciocínio.

6. Não se perca nos detalhes

Detalhes são para textos escritos. Em uma apresentação oral, concentre-se no que é essencial, ou seja, o contexto do trabalho, seus objetivos, o padrão geral dos resultados e principalmente suas conclusões.

Sempre reserve tempo para as perguntas. Afinal de contas, não tem sentido desperdiçar a oportunidade de interagir em tempo real com o público.

7. Use pouco texto!

Na verdade, use quase nenhum texto.

Slides não devem conter textos grandes demais, porque o foco principal da platéia deve ser no que estamos falando. Escrevendo demais, você cria uma confusão extremamente ruim entre ler e ouvir.

Você precisa usar apenas tópicos ou palavras-chave. O slide serve como complemento à sua fala. Lembre-se: em uma palestra, você é a legenda!

8. Somos animais visuais

Você deve considerar que somos animais visuais. Portanto, tudo quanto possível deve ser explicado com imagens, não palavras. Você precisa usar diagramas, fotos, desenhos, vídeos, animações e afins.

“Show, don’t tell”

Mantra dos cineastas

Fora isso, o material deve ser atraente, caprichado e objetivo, de modo a prender a atenção da platéia. Você tem que evitar qualquer material mal preparado ou com estética ruim, como fotos desfocadas e mal enquadradas, desenhos mal feitos e transparências velhas e amareladas.

9. Slides devem ter bom contraste

Quando você usa slides ou transparências, deve sempre buscar um bom contraste entre o conteúdo e o fundo.

Se a apresentação ocorrer em uma sala mais escura, o fundo deve ser mais claro, e vice-versa, mas sem um contraste forte demais entre a luminosidade da sala e do slide, o que cansa a vista. É fundamental examinar antes o local onde falará, a fim de saber de antemão o que é necessário para aumentar a chance de uma comunicação bem-sucedida.

Para ficar seguro em diferentes situações, prefira fundos não muito claros nem muito escuros para os seus slides.

10. Atenção às cores

Pode parecer bobagem, mas é muito importante planejar bem o esquema de cores de um slide.

Há toda uma psicologia por trás das cores, que influencia a nossa forma de receber, processar e guardar uma mensagem. Um slide precisa ser ser bonito e também causar a impressão visual correta, de acordo com o impacto que você quer causar no público. Enquanto um esquema de cores pode fazer os espectadores dormirem, outros esquemas podem deixá-los agitados, tristes, alegres ou pensativos.

Leve em conta também o “humor” do tema da sua palestra ao definir o esquema de cores. Uma palestra sobre um tema pesado e triste, como o câncer infantil, talvez não fique bem com um esquema de cores circense.

11. Evite fontes rebuscadas

Nos textos dos slides, você deve sempre evitar fontes “serifadas”, ou seja, aquelas letras cheias de perninhas e enfeites, como Brush Script. Prefira fontes simples, como Arial. Fontes serifadas (sem excessos) são melhores para a comunicação escrita em textos longos, como artigos e livros, pois relaxam a vista nesses casos.

12. Escolha o equipamento de acordo com a situação

Antes de dar uma palestra ou aula, procure saber o tipo de equipamento disponível: datashow, retroprojetor, projetor de slides analógico, quadro branco, quadro negro, DVD, internet etc.

Escolha o que lhe parecer mais adequado e certifique-se da disponibilidade no dia. Se for usar um computador com datashow, saiba qual versão do Powerpoint, Keynote, Impress ou Prezi estará disponível.

13. Atenção ao enquadramento

Uma coisa que quase todos se esquecem de considerar, mas que leva muitos ao desastre, é o enquadramento dos slides. É muito comum ocorrerem problemas de enquadramento, devido à diferenças de resolução entre o computador e o projetor, ou mesmo devido a intrusão demoníaca.

Sendo assim, nunca use o espaço todo do slide. Deixe sempre margens ligeiramente vazias em todos os lados, apenas com o fundo geral. Isso evitará sérias dores de cabeça, como eixos de gráficos sendo cortados.

14. O seguro morreu de velho

Como sempre pode ocorrer incompatibilidade entre programas de slides (e.g. Powerpoint x Keynote), ou mesmo entre versões de um mesmo programa (e.g. Powerpoint 2007 vs. 365), é melhor se prevenir. Em congressos, onde você nunca sabe de antemão as condições exatas de apresentação, prefira fazer uma apresentação sem vídeos, sons, transições de slides ou efeitos especiais.

Salve o arquivo em format PDF, pois quase todo computador tem o Adobe Acrobat Reader, que permite exibição em tela cheia e passa slides da mesma forma que os programas de slides. Além disso, PDFs quase não sofrem com problemas de compatibilidade, permitindo visualizar seu arquivo até mesmo em computadores com sistemas operacionais diferentes (e.g. Windows, MacOS, Linux, iOS ou Android).

Há várias formas de salvar um arquivo PPT ou KEY como PDF, seja com as opções default do sistema, ou através de addons e programas gratuitos.

15. Como saber se você obteve sucesso?

A comunicação pode ser considerada bem-sucedida, quando a maioria do público entende a mensagem que você quis passar, mas é claro que é difícil avaliar isso sem ler a mente das pessoas.

Você pode estimar o seu sucesso de maneiras indiretas, como quando a sua palestra provoca reações positivas no público (e.g. aplausos entusiasmados). Se as pessoas fizerem perguntas, isso é um bom sinal. Se as perguntas não forem sobre a sua mensagem em si, mas avançarem dentro do assunto discutido, isso é um ótimo sinal, pois as pessoas te entenderam e se interessaram pelo assunto.

Se, além disso, algumas pessoas te procurarem no intervalo ou te escreverem depois com mais perguntas aprofundadas, então o seu sucesso foi realmente grande.

Onde aprender mais?

Se você quiser aprender os fundamentos da oratória explicados neste post, matricule-se na minha disciplina de pós-graduação na USP: Comunicação Oral.

Sugestões de leitura

  1. Ted Talks. O Guia Oficial do Ted Para Falar em Público
  2. Oral Presentation Advice
  3. A ciência do slide perfeito
  4. A Psicologia das Cores
  5. Ten Secrets to Giving a Good Scientific Talk
  6. Three tips for giving a great research talk
  7. How Not To Give a Scientific Talk

Agradeço a diversos colegas que contribuíram com sugestões para este guia.

* Primeira versão publicada originalmente em 2007, mas atualizada constantemente depois disso.

Exemplo de um bom slide

Este slide foi usado em uma palestra dada por mim na Annual Meeting of the Association for Tropical Biology and Conservation 2008, pela qual recebi o Luis F. Bacardi Award.

Exemplo de uma excelente palestra TED

emma teeling

A famosa keynote do iPhone

Nessa apresentação, Steve Jobs apresentou para o mundo de forma magistral o gadget que revolucionaria completamente os conceitos de telefone celular, PDA e MP3 player. Jobs, como sempre, deu um verdadeiro show. Muitas das técnicas que ele usa funcionam também em palestras científicas.

Cortella dando dicas preciosas

Ouça o grande filósofo Mario Sergio Cortella, explicando como aprendeu a falar em público.

Pensando fora da caixinha 1

Inovar é sempre bom, especialmente para cientistas. Levando isso em conta, saiba que hoje em dia há alternativas ao consagrado esquema de slides ao estilo Powerpoint. Cogite tentar um formato mais dinâmico na sua próxima palestra, como por exemplo o Prezi ou o eMaze. Veja os slides de uma palestra que apresentei na Humboldt Kolleg 2014, usando o Prezi:

prezi hk2014

Pensando fora da caixinha 2

Estude retórica e melhore a sua capacidade de convencer o público, tanto de forma oral quanto escrita. Ouça um excelente episódio do Nerdcast com uma introdução à essa arte.

nerdcast retorica

Pensando fora da caixinha 3

Para se tornar ainda mais convincente, estude também as descobertas mais recentes sobre cognição feitas pela neurociência. Novamente recomendo começar por um Nerdcast sobre o tema, no qual fizeram um belo apanhado de informações úteis.

nerdcast neurociencia

Cuidado com o DAA!

deficit de atencao em apresentacoes daa

#sadbuttrue (by PhD Comics)

conference presentation phd comics

(Fonte da imagem destacada: keynote de apresentação do iPhone em 2007, dada pelo saudoso Steve Jobs)

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22 respostas para “Como dar uma palestra”

  1. Oi Marco! Palestrei pela primeira vez essa semana; suas dicas foram valiosas, muito obrigado! O único detalhe, no meu caso, foi a respiração: no decorrer dos aproximadamente 35 min. de palestra eu fiquei ser ar! (principalmente no começo)

    Respirar corretamente é importante (acredito que o melhor seja respirar sem “estufar o peito”, “pela barriga”), mas com certeza há alguma técnica específica. Para a próxima, vou manter um ritmo de fala constante, em um tom de voz constante e não errarei na dicção (alguma coisa estava diferente comigo, eu quase me descobri gago!); tive dificuldade em manter o microfone a uma distância constante da boca também, por incrível que pareça…

    Em suma, considerando o segundo dos três P’s (Planejamento, Prática e Presença) mencionados pela Vivian Rio Stella (https://youtu.be/dz_hHf_2yfs), a prática, de fato, requer prática. =)

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    1. Oi Lenon, de nada! Respiração é fundamental não só nas aulas e palestras, mas na vida! Eu uso as técnicas de respiração que aprendi nas artes marciais e no zen, pois elas me ajudam em tudo. Mas existem técnicas da música e da fonoaudiologia que são ainda mais adequadas para palestras. Eu mesmo devo experimentar um tratamento com uma fono em breve para melhorar meu uso da voz e evitar calos (tem dias que dou 8 h de de aulas seguidas!). Recomendo que você procure uma fono ou uma escola de música. Um abraço!

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  2. Ótimo! Fiz uma apresentação (comunicação oral) na sexta-feira e se tivesse tido contato com seu texto antes, poderia ter me saído melhor.
    Parabéns!

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