Como sugerir revisores e editores para um manuscrito

Imagine se fosse possível escolher quem julga os seus trabalhos submetidos a publicação? Não precisa imaginar: hoje, várias revistas aceitam sugestões de editores e revisores. Aqui vou dar algumas dicas sobre como fazer isso.

Como eu não me canso de repetir, publicar em boas revistas está cada vez mais difícil em um mundo lotado de cientistas, competindo entre si ferozmente por espaço, atenção, verbas, bolsas e cargos. Assim, é importante não apenas fazer boa ciência, mas também estudar e praticar exaustivamente a comunicação científica. Além disso, hoje é fundamental aprender técnicas avançadas e macetes de publicação. Aqui vou tratar de uma escolha crucial que podemos influenciar: o editor associado e os revisores de um manuscrito.

“Sério que podemos fazer essas sugestões, Marco?”

Sim, meu caro aspira, podemos. Uma grande parte das revistas, incluindo as top de diversas áreas, hoje aceita sugestões de revisores feitas pelo autor correspondente do manuscrito. Essas sugestões geralmente são feitas em campos específicos dos sistemas de submissão online, sendo que algumas revistas pedem também que elas sejam explicadas mais detalhadamente nas cover letters.

As revistas maiores, com estrutura editorial complexa, aceitam até mesmo sugestões de editores associados. Ou seja, você pode influenciar a escolha da pessoa que ficará diretamente responsável por arbitrar o seu processo. Isso porque manuscritos submetidos a revistas grandes caem primeiro nas mãos de um editor de recebimento, que fica encarregado de ver se o trabalho está dentro do escopo e formato exigidos. Só depois é que esse editor decide barrar o trabalho na porta ou mandá-lo para um editor associado.

E a coisa não para por aí: hoje há também listas negras! Sim, há revistas que aceitam sugestões de editores e revisores a serem evitados. Essa possibilidade foi criada para permitir que pessoas vítimas de perseguição acadêmica evitem ser avaliadas por seus desafetos. Infelizmente, algumas pessoas abusam do sistema e usam essas sugestões para excluir do processo editorial colegas que não concordam com suas abordagem ou linhas de pensamento e, por isso, acabariam colocando muita coisa em cheque. Sempre tem gente que não sabe brincar…

Obviamente, como essa história parece boa demais, recomendo tomar cuidado. Há coisas que são fatos no campo dos sugestões. Outras coisas representam oportunidades ou armadilhas. Vamos tratar delas uma por uma.

Premissas:

  1. Você escreveu um bom manuscrito, baseado em boa ciência e com boa redação;
  2. Você fez o dever de casa antes de escolher a revista;
  3. Você não está tentando dar um jeitinho, ou seja, burlar o sistema;

Objetivo:

  1. Aumentar a chance de que as pessoas que vão julgar o seu trabalho realmente entendam dele e o examinem com atenção e isenção.

Fatos:

  1. A combinação de revisores designados para um manuscrito tem grande influência sobre a probabilidade de ele ser aceito ou não. Isso porque as revistas estão lotadas; logo, elas procuram pêlo em ovo para rejeitar trabalhos e fazer a fila andar. Esse engarrafamento faz com que qualquer problema apontado pelos revisores, por menor que seja, tenha o potencial de causar a rejeição de um artigo. Por exemplo, um revisor que não entende bem do tema ou da abordagem do trabalho pode acabar fazendo uma revisão mal-feita de um manuscrito bom.
  2. Nem sempre as sugestões são acatadas pelo editor. Pode ser que o editor considere as suas sugestões limitadas, fracas ou camaradas (mais à frente explico isso melhor), e acabe ele mesmo procurando outros revisores. Nunca se sabe. Além disso, mesmo que o editor acate as suas sugestões, muitos revisores acabam recusando o serviço por estarem ocupados demais. A resultante dessas forças pode ser uma lista que não contenha suas sugestões.
  3. A lista negra é uma vaca de dois legumes. Ela pode servir para evitar perseguição ou para gerar fofoca, dependendo da postura do editor e da sua postura.

Oportunidades:

  1. Conseguir uma boa combinação de revisores pode aumentar muito a chance de um bom trabalho ser aceito, ou, pelo menos, de um bom trabalho não ser recusado por preguiça, incompetência ou picuinha dos revisores.
  2. Sugerir o editor associado te permite garantir que ao menos uma pessoa envolvida no julgamento vai entender direito o seu trabalho e o contexto dele.
  3. Você pode usar a lista negra com sabedoria, caso tenha algum inimigo acadêmico real.

Armadilhas:

  1. Sugerir grandes silverbacks da sua área como revisores nem sempre é bom. Por um lado, geralmente são eles que mais entendem do tema e conhecem a comunidade que o investiga e seus costumes. Por outro lado, eles são pessoas muito ocupadas, que rejeitam a maioria dos convites que recebem. Logo, ao sugerir um líder da área, você pode simplesmente estar desperdiçando munição. Há também a ameaça representada por alguns silverbacks dominadores, que boicotam qualquer visão diferente da deles. De qualquer forma, incluir silverbacks na lista mostra ao editor que você conhece a estrutura social da sua comunidade, então não é um noob.
  2. Muito cuidado com pessoas que têm reputação de serem vaidosas demais. Elas geralmente costumam querer aparecer até mesmo em revisões e o seu artigo pode ser detonado como dano colateral do show particular delas. O mesmo cuidado deve ser tomado com pessoas com reputação de serem competitivas demais: muitas usam as revisões como uma chance de sabotar os trabalhos dos competidores.
  3. Sugestões de pessoas a serem evitadas, ao invés de te ajudarem a evitar perseguição, podem servir como fonte de fofoca acadêmica, como dito antes. Sim, editores também são humanos, demasiado humanos. Não se exponha à toa.
  4. Sugestões limitadas, por exemplo, incluindo apenas pessoas que trabalham com o tema do artigo, mas não com a abordagem utilizada, podem levar o trabalho a ser visto por ângulos parecidos demais entre si. Mesmo que isso não influencie a aceitação pelo editor, você pode desperdiçar a chance de ganhar novos olhares, que poderiam levar a grandes melhorias no contexto, análise e interpretação.
  5. Sugestões fracas, por exemplo, de pessoas inexpressivas na área do manuscrito, podem passar a impressão de que você noobou a lista e não sabe sequer quem entende do que. Isso também pode queimar o seu filme e levar à rejeição sumária do manuscrito.
  6. Sugestões camaradas, por exemplo, de colegas que trabalham na mesma instituição que você ou de ex-orientadores, são ótimas para queimar o seu filme e levar o manuscrito à rejeição sumária. Não tente dar um “jeitinho”, pois a malandragem não passa despercebida.

Considerando isso tudo então, e apesar de não haver uma fórmula mágica para isso, lá vai um passo a passo para fazer boas sugestões:

  1. Sugira um editor associado que seja um líder ou pelo menos tenha destaque na área do seu trabalho;
  2. Sugira um mix de revisores que contenha: (i) cientistas cujos trabalhos você está citando no trabalho em submissão, (ii) cientistas que entendam do tema, abordagem e modelo so seu trabalho; e (ii) uma combinação de silverbacks, mestres, novatos e até mesmo alguns doutorandos, em alguns casos;
  3. Sugira o número máximo de pessoas permitido;
  4. Evite usar a lista negra;
  5. Nunca sugira pessoas do seu círculo profissional imediato, como colegas de instituição, ex-orientadores, ex-alunos e coautores recentes;
  6. Faça o dever de casa e descubra as universidades, sites e e-mails das pessoas que sugerir, pois terá que incluir essas informações no formulário online de sugestões;
  7. Prepare boas justificativas curtas (1 linha) sobre a adequação de cada revisor sugerido, pois é possível que você tenha que defender a sua lista no formulário ou na cover letter.

Boa sorte!

Para saber mais:

o-SUGGESTION-BOX-facebook

Fonte da imagem.

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3 Replies to “Como sugerir revisores e editores para um manuscrito”

  1. Legal!
    Eu, quando tenho a oportunidade, sugiro revisores que entendam de diferentes aspectos do trabalho, e normalmente são pessoas que cito naquele estudo. Por exemplo, se me lembro corretamente, ao submeter meu artigo de efeitos de borda sobre serapilheira no cerrado, sugeri um revisor expert em cerrado e outro que trabalhou bastante com efeitos de borda sobre serapilheira. Uma vantagem de o trabalho ser revisado por alguém que citei nele é que a pessoa irá perceber se a citei erroneamente.

    1. Excelente, Pavel! Incluir gente que você mesmo cita é uma ótima ideia, pois aumenta muito a chance de a pessoa entender o seu trabalho e estar interessada em montar o mesmo puzzle. Eu também tento diversificar meus revisores, visando aumentar a chance de eles cobrirem os ângulos mais importantes: tema, abordagem e táxon.

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