Por que fazer intercâmbio científico internacional?

Com base em uma palestra que dei ano passado no I Simpósio do PPG-Ecologia da UFMG, resolvi escrever sobre os intercâmbios internacionais para cientistas. Afinal de contas, por que é bom participar deles?

Vou tomar como ponto de partida uma pergunta que me fizeram alguns anos atrás:

“Mas, Marco, por que preciso ir para fora, se a ciência é uma cultura internacional e, portanto, teoricamente o que se faz lá também se faz aqui?”

Antes de prosseguir e desenvolver a resposta, quero deixar clara uma coisa: como em todo assunto complexo, não vou dar conselhos do tipo “tudo”, “nada”, “com certeza”, “sempre” ou “nunca”. Vou falar da minha própria experiência pessoal, baseada no que eu mesmo vivi e nas inúmeras conversas sobre o tema que tive com centenas de alunos e colegas de várias universidades brasileiras e estrangeiras, incluindo pessoas envolvidas na coordenação de programas de intercâmbio. Falo também como scholar de alguns desses programas, tendo feito doutorado sandwich e postdoc no exterior, além de ter trabalhado como pesquisador fora do Brasil.

Para começar a responder a pergunta feita acima, é necessário deixar claro que há cientistas que conseguem desenvolver belas carreiras sem nunca terem feito intercâmbio internacional. Trata-se de colegas “fora da curva”, que são verdadeiros “feijões mágicos” capazes de germinar e prosperar em qualquer solo. Mas eles são a exceção, não a regra. Então foquemos no que vale para a esmagadora maioria dos aspiras.

Apesar de a ciência ser como um enorme quebra-cabeças cooperativo internacional, como eu já disse em outros posts, ela é um jogo bem heterogêneo. As regras gerais são as mesmas em qualquer lugar: contrastar modelos conceituais contra a realidade, com base em lógica, teorias e dados empíricos, a fim de entender como a natureza funciona.

Contudo, cada pessoa ou equipe participante tem o seu jeito de procurar as peças e pensar sobre onde e como encaixá-las melhor. Portanto, a ciência feita em um determinado país nunca é exatamente igual à ciência feita em um outro país. Na verdade, a cultura científica, mesmo considerando-se apenas uma de suas comunidades especializadas (por exemplo, a Ecologia), varia até mesmo entre universidades de uma mesma cidade.

O ponto é que, se você passar a sua carreira inteira trabalhando apenas em um mesmo país, ou pior, em uma mesma universidade, acabará achando que só existe aquela forma de se fazer ciência. Esse “crescimento em estufa” pode não ser um empecilho para que outliers tomem contato indiretamente com outras formas de fazer ciência e, assim, se desenvolvam além da média. Mas, para a grande maioria dos cientistas em formação, isso pode ser mortal por três razões principais.

Primeiro, porque os aspiras que se formam totalmente imersos nos vieses e vícios de uma comunidade pequena e restrita demais geralmente se tornam profissionais com visão estreita, que não desenvolvem por completo o seu potencial.

Segundo, porque a comunicação científica não se dá apenas por via escrita (através de artigos e livros), mas também por contato pessoal direto. Assim, um bom networking, feito através de estágios temporários e visitas a outras instituições, é fundamental para um cientista ficar conhecido pela sua comunidade, aumentando o seu acesso em primeira mão a novidades e melhorando a chance de os seus trabalhos e idéias não passarem despercebidos em um nível internacional.

Terceiro, porque, se a instituição ou o país em que o aspira se entocar tiverem sérios problemas de infra-estrutura ou mentalidade, isso pode causar nele uma falsa impressão de que a ciência como um todo é daquele jeito; infelizmente, já vi isso tirar da carreira colegas aspiras que poderiam ter se tornado excelentes cientistas, caso tivessem experimentado ir para outros lugares e superar o trauma.

“Ok, Marco, então por que não fazer apenas um intercâmbio em outra instituição do mesmo país, evitando assim os grandes custos financeiros e pessoais de ir para o exterior por um tempo?”

É claro que intercâmbio dentro do próprio país é importante também! Recomendo especialmente que os aspiras circulem não apenas por outras instituições e cidades, mas especialmente fora das suas regiões de origem (há uma enorme heterogeneidade entre os  nossos “Brasis”). Só que isso não basta, se você quiser conhecer melhor a Ciência como um todo e não apenas uma das ciências existentes. A maior barreira cultural entre comunidades científicas se dá no nível do país. Abismos criados por diferenças culturais entre cientistas são observados especialmente entre países desenvolvidos, em desenvolvimento e subdesenvolvidos.

Considerando que este texto é voltado principalmente para brasileiros, faço a minha recomendação mais importante: conheçam a ciência feita em países desenvolvidos! Não estou falando apenas de frequentar congressos internacionais ou participar de redes sociais. Estou falando de fazer intercâmbio em países líderes da ciência mundial, como EUA, Inglaterra, Alemanha, França e Austrália. Pode ser através de estágios de curta duração (< 6 meses), estágios sandwich (estádias de 6 meses a 2 anos durante o mestrado ou o doutorado), cursos de pós-graduação integrais no exterior ou projetos de pós-doutorado (postdocs).

Nada substitui conhecer pessoalmente, no trabalho do dia a dia, como funciona uma universidade bem estruturada, que atua como um hub da ciência mundial, recebendo visitas de colegas do mundo todo e fomentando descobertas impressionantes que são discutidas internacionalmente.

Você não imagina como é trabalhar em um ambiente altamente profissional, com excelente infra-estrutura e protegido da “burrocracia” acadêmica brasileira. Você não imagina como é poder se concentrar apenas na sua tese dia após dia, em um laboratório onde as pessoas não conversam em paralelo durante o trabalho (elas o fazem apenas no restaurante ou na cafeteria) e onde cada material necessário para a sua pesquisa  já está disponível ou é conseguido na mesma semana que em foi encomendado. Você não imagina como é ser orientado por uma das maiores autoridades na sua área de interesse, tomando lições que te moldam profundamente como cientista.

Pois é, um intercâmbio no exterior pode lhe proporcionar tudo isso e muito mais. Você nunca mais verá a ciência da mesma forma e muitas portas antes desconhecidas se abrirão para você! Pode ser que você acabe até mesmo se estabelecendo nesse outro país (isso acontece com alguns poucos outliers) ou pode ser que você volte ao seu país de origem e contribua diretamente para o avanço da ciência nele. É como o retorno na jornada do herói. Depois de uma experiência como essa, muitas das suas certezas e planos vão mudar.

Além das vantagens profissionais de um intercâmbio, há também vantagens no lado pessoal. Conhecer um outro país é uma experiência fantástica, especialmente para quem é curioso por natureza (caso da maioria dos cientistas) ou tem alma de viajante (caso da maioria dos ecólogos). Passando alguns meses ou anos no exterior, você começa a ver o seu próprio país de outra forma. As qualidades e defeitos da sua terra natal ficam muito mais evidentes. Você passa a diferenciar, nas pequenas e nas grandes coisas, o que é fruto da sua própria opinião do que é costume cultural da sua família ou do seu país. Acredite: esse tipo de experiência pode mudar a sua vida!

Voltando ao lado profissional da experiência de intercâmbio, vale dizer que tomar contato mais profundamente com a ciência top equivale a abrir a sua cabeça com golpes de marreta (parafraseando o Nietzsche, rs). Sabe o que mais mexeu comigo, pessoalmente? Foi perceber que muitos dos erros que cometemos na ciência brasileira, que nos impedem de conseguir um maior avanço em qualidade e uma maior relevância internacional, são meros frutos de uma mentalidade atrasada e tacanha. Poderíamos fazer mais e melhor com os recursos que temos, sem precisar de mais grana, caso abandonássemos velhos vícios ligados a coronelismo científico, ufanismo, medo do novo e cegueira ideológica.

Antes de concluir este texto, preciso falar também sobre o lado ruim dos intercâmbios. Basicamente, dentre os reveses que podem ocorrer, há dois mais importantes.

Primeiro, pode ser que você descubra já no exterior que não consegue viver fora da sua terra natal nem mesmo por um mês. Infelizmente, algumas pessoas sentem tanta saudade de casa, que bloqueiam a si mesmas e acabam estragando a experiência. Antes de embarcar na aventura, pense bem sobre que tipo de pessoa você é: introvertida vs extrovertida, provinciana vs globetrotter, poliglota vs troglodita etc.

Segundo, pode ser que você erre na escolha da universidade ou do orientador e a experiência acabe não sendo tão boa quanto você esperava. Para evitar cair nesse segundo caso, você deve investir muito em um bom planejamento: pesquise bem sobre suas opções de universidade e orientador, considerando a sua área de especialização. Quando finalmente for se candidatar ao intercâmbio, dê um tiro de sniper ao invés de sair atirando para qualquer lado. Além disso, procure fazer o intercâmbio com o apoio de instituições internacionalmente reconhecidas; elas facilitam muito o processo.

De qualquer forma, para evitar problemas básicos e otimizar a sua experiência, só embarque em um intercâmbio internacional se tiver fluência em inglês. Além disso, se for para um país não-anglófono, procure estudar também o idioma local. Pelo menos o básico, para saber pedir um pão e uma cerveja. Lembre-se de que, em muitos países do Primeiro Mundo, praticamente todo mundo fala inglês dentro da universidade, o que garante o seu convívio profissional. Mas nem todos ou muito poucos falam inglês na rua.

“Mas, Marco, como então posso ter acesso a um intercâmbio internacional?”

Fácil. Hoje em dia há um oceano de possibilidades para brasileiros estagiarem no exterior. Havia o programa Ciência sem Fronteiras, que durou de 2011 a 2017 (tenho sérias críticas a esse programa, mas isso é tema para um outro post). Se você é um pós-graduando ou postdoc, consulte as bolsas oferecidas pela Capes, o CNPq e as agências de fomento estaduais (como a Fapesp).

No caso de alguns países específicos, como Alemanha e EUA, há renomados programas de intercâmbio bilaterais com décadas de tradição, como os oferecidos pelo DAADHumboldt Stiftung e Fullbright Foundation. Dependendo do país, há bolsas oferecidas até mesmo pela própria universidade estrangeira. Dependendo da sua área de pesquisa e de quão aplicada ela é, há também bolsas oferecidas por empresas privadas.

Pessoalmente, sugiro fortemente se tornar scholar de um programa com excelente reputação, com o qual você possa manter um relacionamento que vai muito além da duração da bolsa, participando de clubes que são quase “maçônicos”. Por exemplo, o tratamento e atenção dados pela Humboldt Stiftung aos bolsistas e alumni é coisa de outro mundo; você volta muito mal acostumado.

Conselho final

Não pense que a ciência feita na sua universidade é a única ciência que existe. O mundo é muito maior do que isso. Vá lá fora e veja por si mesmo!

Die gefährlichste Weltanschauung ist die Weltanschauung derer, die die Welt nie angeschaut haben” – Alexander von Humboldt.

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