Faça estágios de graduação!

Na maioria dos cursos de ciências naturais, é virtualmente impossível um aspira sair da graduação pronto para exercer a profissão escolhida, a não ser que tenha feito bons estágios. Vamos conversar sobre isso?

Seguindo uma sugestão de um leitor do blog, o Prof. Henrique Mews, resolvi abordar mais um tema que não é trabalhado tão claramente com os aspiras: os estágios de graduação. A experiência que eles oferecem é fundamental tanto para quem almeja uma carreira acadêmica, quanto para quem tem em vista qualquer outro caminho profissional.

Vamos então reforçar o pressuposto principal deste texto: nas ciências naturais, quase ninguém sai da graduação pronto para exercer a profissão. #prontofalei

Na verdade, a maioria dos alunos sai da graduação absurdamente verde, mesmo tendo um histórico de notas impecável. A única exceção geral são os cursos de licenciatura: independente da área do conhecimento, geralmente um licenciado sai da graduação pronto para  atuar imediatamente como profissional liberal em uma escola. É claro que a qualidade como professor melhora com o tempo, através de treinamento adicional e experiência. É claro também que nem todos os cursos de licenciatura são bons. Contudo, tendo um diploma de licenciatura em mãos, via de regra o jovem profissional já tem as ferramentas básicas para ganhar a vida com o curso que concluiu. Em algumas áreas mais técnicas, como as engenharias, a Computação e o Direito, o mesmo ocorre. Por que será que a realidade é diferente nos cursos de ciências naturais, como Biologia, Física e Química?

Na minha opinião, por uma razão: muita teoria, pouca prática. Enquanto nas licenciaturas e nos cursos com perfil mais técnico a prática é enfatizada, nos cursos com perfil mais acadêmico o foco é colocado no conteúdo teórico. E, para piorar, esse volume enorme de teoria costuma ser passado através de aulas “cuspe-e-giz”.

Deixe-me explicar melhor. No Brasil e alguns outros países, como comentei em outro texto, o ensino básico na maioria das escolas costuma ser fundamentado na obediência e na repetição. O aluno espera passivamente pelas informações passadas pelo professor, sem nunca transformar informação em conhecimento através da prática e da reflexão. Infelizmente, o mesmo modelo se repete frequentemente no ensino superior, especialmente nos cursos de ciências naturais: aprendizado passivo focado em teoria. Mesmo as aulas práticas nesses cursos costumam ser guiadas demais, com professores e tutores levando os alunos pelas mãos. Os alunos raramente são estimulados a estudar orientados por problemas complexos que devem tentar resolver sozinhos. Além disso, a carga horária de aulas costuma ser gigantesca, sobrando pouco tempo para os aspiras respirarem, pensarem e estudarem por conta própria.

Enquanto não reformamos o nosso sistema educacional (inshallah isso ocorra um dia!), há uma solução ao alcance de todo aluno de graduação: estagiar.

No campo das ciências naturais, estágios são obrigatórios na grade curricular dos cursos de licenciatura e sua carga horária é grande. Isso é ótimo, pois permite que os aspiras treinem a aplicação dos conhecimentos aprendidos. Já nos cursos de bacharelado, estágios nem sempre são obrigatórios; depende muito da universidade e do curso. E, muitas vezes, mesmo quando os estágios acadêmicos são obrigatórios, eles são encarados de maneira pro forma. Muitos alunos de TCC e afins sequer recebem cursos formais sobre método científico e planejamento de projetos, pois acredita-se que essas coisas serão ensinadas pelo orientador (o que nem sempre acontece…).

É claro que muitos aspiras de bacharelado acabam procurando estágios por conta própria durante a graduação, seja para darem os primeiros passos mais sérios na Jornada do Cientista, seja para aprenderem habilidades mais concretas que poderão usar no mercado de trabalho, ou seja porque simplesmente imitam o que os colegas estão fazendo. O que falta é os aspiras serem ensinados a buscarem estágios de forma mais consciente, sabendo exatamente que tipo de profissional desejam se tornar e o que precisam extrair da experiência para alcançarem suas metas de carreira.

Outra falha do sistema é que falta uma maior variedade de estágios nas ciências naturais, especialmente na Biologia. Quem deseja sair da graduação com maior habilidade prática tem virtualmente apenas duas opções: sair já qualificado como professor de escola ou ingressar na Jornada do Cientista e investir mais muitos anos na qualificação em pesquisa, antes de poder andar com as próprias pernas. E os aspiras que prefeririam trabalhar não como professores ou cientistas, mas como consultores, gestores, administradores, políticos, analistas etc.?

Bom, aos que buscam um caminho diferente das opções default oferecidas dentro da universidade, recomendo fortemente buscarem estágios fora dela. Por exemplo, um estudante de Biologia que adoraria trabalhar com ecopolítica ou gestão ambiental deve procurar estágios em organizações não-governamentais e organizações internacionais de meio ambiente, onde seja possível aprender na prática como solucionar conflitos entre humanos e outras espécies. Já outro biólogo em formação que curte também Direito, e gostaria de trabalhar no lado legal da solução de conflitos ambientais, deve procurar estágio em um escritório especializado. Já alguém que curte consultoria tem muito mais a ganhar estagiando em uma empresa de licenciamento ambiental, do que em um laboratório acadêmico dentro da universidade.

Estar pronto para exercer uma profissão envolve diferentes coisas. O mais importante é conquistar habilidade prática na área escolhida. Também vale ressaltar que estágios são ótimos para ensinar jovens profissionais a trabalharem em grupo, uma competência que não é treinada direito em disciplinas de graduação, especialmente quando os alunos têm liberdade de associação (efeito “vou fazer com meus amigos”). Além dessas duas coisas, um graduando também deve cultivar seu networking profissional desde cedo, pois grandes oportunidades na carreira acabam surgindo via contatos a um ou dois graus de separação.

No caso específico de um graduando que deseja se tornar cientista, estagiar com um bom orientador é vital, como já comentei detalhadamente em outro texto. Fazer ciência é muito, muito complicado, e aprender sozinho é uma opção que dá certo apenas nos filmes e desenhos animados.

Por fim, reforço o conselho aos aspiras que ainda estão na graduação: não pensem que apenas cursar as disciplinas da grade curricular e tirar boas notas fará de vocês profissionais bem preparados.

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Fonte da imagem.

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6 respostas para “Faça estágios de graduação!”

  1. Marco, na sua opinião, é melhor fazer um estágio longo no mesmo lab (tipo, ficar três anos sob a orientação da mesma pessoa) ou fazer mais estágios menores (passar por três-cinco labs difeferentes nestes três anos)?

    1. Oi Pavel, tomo como premissa apenas N ≥ 1, rs. Mas o “N estagial” exato depende da pessoa, do que ela está buscando e de quando ela finalmente encontra o que busca. Por exemplo, se um aspira consegue um determinado estágio formal e encontra nele o seu lugar na profissão, acho que pode tranqüilamente ficar ali o resto da graduação. Por outro lado, se, depois de um mês, o aspira percebe que odeia o estágio ou se sente morno em relação a ele, a melhor coisa é mudar. Mas gostaria de botar algumas condições nessa história, mesmo que o aspira ame seu estágio de graduação e fique nele até se formar: (i) é importante, sim, buscar outros estágios mais curtos ou informais em paralelo durante a graduação, como por exemplo voluntariados de férias, para conhecer mais possibilidades na profissão; e (ii) se o aspira optar pela Jornada do Cientista, é importante não cursar todos os níveis acadêmicos no mesmo lugar, mas sim mudar de universidade no mestrado, depois mais uma vez no doutorado e mais uma vez no postdoc.

      1. Legal 🙂
        E interessante como às vezes orientadores se sentem incomodados quando alguém faz um estágio de um mês, decide que prefere outra área e muda, né? Como se mudar de lab fosse algo ofensivo…

        1. Aí entramos em outra questão espinhosa: a vaidade. Pior que essa mentalidade tribal se repete até no nível dos professores: muitos, ainda hoje, em pleno século XXI, ainda veem com maus olhos colegas que passam num concurso, não curtem a universidade, e resolvem prestar outro concurso. Muita gente vê o cargo de professor não como um emprego, mas como uma espécie de seita…

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