Resoluções de ano novo

Que tal começar este ano mudando de atitude?

O mundo vive uma época tensa e o Brasil acaba de passar por um ano particularmente difícil. É uma crise econômica, social, política, moral e ambiental, apimentada por eleições toxicamente polarizadas. Amizades, namoros e casamentos acabaram por causa de brigas de torcidas. A Academia não saiu ilesa e vivemos uma crise em nosso relacionamento com o governo e a sociedade.

Precisamos urgentemente mudar algumas das nossas atitudes para revertermos a situação. Sim, parte da culpa é nossa. Bom, eu acredito em arrumar primeiro o meu quarto, antes de arrumar o mundo. Assim, proponho uma agenda positiva para o nosso microcosmo neste ano que começa.

Trata-se de pequenas atitudes individuais, que têm o potencial de escalonar e iluminar a nossa comunidade. Cuidando de nós mesmos, e principalmente uns dos outros, podemos tornar a Academia um lugar mais sadio e produtivo.

Que tal mudar de atitude? Você pode até mesmo usar uma dessas sugestões como resolução de ano novo (ainda dá tempo!).

1. Pare de falar mal dos seus colegas.

A carreira acadêmica, assim como outras de alta performance, é extremamente competitiva. Logo, quem está nela tende a ficar se comparando aos outros o tempo todo. Mentes fracas acabam depreciando sistematicamente tudo o que é diferente do espelho. Infelizmente, mentes fortes acabam reverberando essa mesma bad vibe. Assim alimentamos a fofoca, um dos piores venenos no mundo acadêmico. A fofoca destrói reputações, erode relacionamentos e piora a saúde mental de todos.

Antes de curtir, comentar ou compartilhar algo sobre um colega, reflita: (i) essa informação é mesmo verdadeira? (ii) Essa informação diz respeito a você de alguma forma? (iii) Levar a sério ou divulgar essa informação poderia melhorar a vida das pessoas envolvidas? Lembre-se:

“Falar é prata, calar é ouro” (ditado popular alemão)

Contudo, falar mal de colegas nas esferas adequadas, em situações bem específicas, às vezes é necessário para resolver problemas concretos. Só que essas situações deveriam ser raríssimas e ocorrer nas instituições corretas, não no cafezinho.

2. Respeite quem pensa diferente de você.

Como sugerido no item 1, a vaidade talvez seja a principal fraqueza dos acadêmicos. Ela leva muitos a pensarem que a maneira deles de ver o mundo e de praticar a ciência é a única válida. Não à toa, assistimos brigas de egos o tempo todo em reuniões de departamentos, programas de pós-graduação, institutos, conselhos e reitorias.

Que tal tentar uma abordagem nova? Toda vez que você discordar de um colega e ficar furioso com o “absurdo que ele falou”, pare por alguns segundos e respire fundo. Pergunte o que o levou a ter aquela opinião e ouça-o de coração aberto. Examine não apenas o argumento dele, mas também o contexto de onde vieram as premissas que embasam esse argumento. Não se esqueça de que opiniões sobre política, futebol ou religião costumam ser feitas de 1% razão e 99% emoção. Procure entender melhor também quem tem um foco diferente do seu dentro da universidade.

Fazendo esse exercício de empatia regularmente, aos poucos você descobrirá que tudo tem um lado yin e outro yang.

3. Ajude quem está em uma situação ruim.

Todos nós, mesmo os mais bem-sucedidos, passamos por crises pessoais ou profissionais de tempos em tempos. Esteja pronto para jogar uma boia, quando notar alguém se afogando. Pode ser um colega em um nível inferior da carreira ou até mesmo um superior hierárquico. Note que pessoas em dificuldades, via de regra, tendem a se fechar e se tornar mais difíceis, então precisam do dobro da sua caridade habitual.

Lembre-se de que, em certas ocasiões, ajudar significa acolher em silêncio, sem julgar. Em outras ocasiões, ajudar significa aconselhar. E há ocasiões em que ajudar significa dizer palavras duras, mas necessárias.

Desenvolva a sua empatia e a sua sensibilidade, até tornar-se capaz de discernir de qual tipo de ajuda cada colega está precisando em cada momento. Sinta também quando a sua interferência em um problema pode mais atrapalhar do que ajudar.

4. Julgue os seus colegas não apenas pelo que produzem, mas também por como se comportam.

Do que adianta alguém ser um gênio da ciência, um verdadeiro outlier com um Lattes dois desvios-padrão acima da média da área, se o sujeito for intratável? Obviamente, como estamos falando de uma comunidade profissional, a produtividade é, sim, importante. Ainda mais quando as nossas atividades são financiadas com o suado dinheiro do contribuinte.

O ponto é que uma comunidade não é feita apenas dos seus produtos, mas principalmente dos seus membros e de como eles se comportam. Pessoas tóxicas são capazes de arrastar um sistema inteiro para baixo, mesmo que, individualmente, apresentem ótimos resultados. Com o tempo, elas podem destruir a si mesmas, aos colegas e à instituição.

Dessa maneira, saiba pesar bem produtividade e personalidade. E tome muito cuidado para não criar cobra em casa.

5. Separe as suas opiniões profissionais das suas opiniões pessoais.

Sim, como todo cidadão, você tem direito a ter opinião sobre todo e qualquer tema. Mas lembre-se de duas coisas: (i) você não precisa ter opinião sobre tudo e (ii) você não deve dar opinião sobre tudo.

Se você é um cientista com título de doutor, tem validação social como autoridade em um determinado tema técnico. E você sabe muito bem que há uma enorme diferença entre uma opinião pessoal e um parecer técnico. Portanto, fale em público apenas sobre o tema que domina. Deixe as conversas sobre outros temas para rodas particulares com colegas, amigos e parentes.

Se a sociedade nota que você embola o meio de campo, você perde credibilidade. Por exemplo, se você é do tipo que adora fazer pregação política nas redes sociais, um dia as pessoas param de te ouvir até mesmo quando você fala sobre a sua especialidade. Se você se comporta assim, como espera que alguém acredite que você quer mesmo resolver um problema relacionado a ciência, educação, tecnologia ou inovação, e não está apenas defendendo os interesses de um partido ou político de estimação? Quando muitos cientistas se comportam assim, a Academia como um todo perde credibilidade.

Conselho final

Em 2019, mantenha a sua mente de principiante e tenha cuidado com o que pensa, fala e faz. O mundo precisa de mais moderados e menos radicais. Acadêmicos devem almejar ser exemplos de temperança em épocas de extremismo.

Sugestão de leitura

shinsetsu

 

(Imagem em destaque: fogos no réveillon de Copacabana. Foto por Marco Mello.)

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5 respostas para “Resoluções de ano novo”

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