Será que vale a pena publicar também em revistas menores?

Em um mundo hiper-competitivo, compensa investir parte do seu currículo também em revistas sem tanto glamour?

Ser cientista não é fácil.

Outro dia eu estava conversando com um colega sobre o quanto o sarrafo só sobe na nossa carreira. O que na nossa geração era suficiente para conquistar um emprego hoje já não garante nem uma bolsa de postdoc para os nossos alunos. Cada nova geração tem que produzir mais e melhor do que a anterior e, assim, a corrida vai ficando cada vez mais apertada.

Nesse cenário de produtividade crescente, uma tendência se consolidou nas últimas duas décadas: publicar em revistas top, verdadeiros sonhos de consumo. Em outras palavras, revistas cheia du tômperro (Jackin 2019). Naturalmente, os primeiros exemplos que vêm à cabeça são Nature, Science e PNAS. Entretanto, a hype engloba também aquelas que são top de uma determinada área, como Ecology, Ecology Letters e Nature Ecology & Evolution (para quem é ecólogo). Até os anos 1990, pouca gente se preocupava com isso no Brasil, mas a nossa realidade mudou rapidamente.

Essa mudança, ocorrida também em vários outros países, provocou engarrafamentos de proporções épicas nas revistas top. Afinal de contas, todos querem conquistar um espaço nelas para vencer a brutal competição por bolsas, empregos e auxílios. Essa não é uma missão fácil, pois  as über-revistas rejeitam mais de 90% dos manuscritos que recebem.

Logo, uma primeira razão para publicar também em revistas menores é que as revistas maiores não comportam todos os trabalhos produzidos por todos os cientistas do mundo. Pronto, acho que já posso ir terminando o post por aqui, rs.

Agora falando sério, fora essa razão óbvia (mas da qual muitos se esquecem), quero apontar aqui algumas outras mais sutis e complexas, que também são importantes e devem ser consideradas.

Só que primeiro vamos à premissas, como de costume em todo tema polêmico aqui no blog:

  1. Aqui neste post, considero como revistas menores aquelas que atingem um público menor. Elas são lidas e citadas por menos cientistas e assim alcançam um fator de impacto abaixo da mediana da respectiva área (a da Ecologia está em 2.29, por exemplo). Se você perguntar para outro colega, provavelmente o critério dele diferirá do meu. Tem gente que considera tudo que não estiver no top 10 de uma área como “menor”. Além disso, uso aqui o fator de impacto como critério de corte apenas porque isso é de praxe na ciência internacional, mas vale lembrar que métricas desse tipo têm suas limitações. É bom ressaltar também que as revistas menores não são todas iguais entre si;
  2. Revista menor não é sinônimo de revista nacional. Muita gente confunde as coisas, porque em geral temos mais contato com as revistas menores do nosso próprio país do que com as de outros. É improvável que um brasileiro conheça uma revista menor do Azerbaijão e vice-versa;
  3. Revista menor não é sinônimo de revista pior. Existem excelentes revistas com impacto pequeno, que são citadas por poucas pessoas porque o tema delas é muito especializado. Pode ser também que elas foquem em divulgar incrementos ao conhecimento e não novidades bombásticas. Ciência incremental é tão importante quanto ciência inovadora. Assim, o melhor veículo para o seu trabalho depende, acima de tudo, do escopo dele;
  4. Estou supondo que você, leitor, não seja um oportunista ou carreirista, que tenta encher currículo na marra. Escrevi este texto para aspiras, novatos e sêniores que se preocupam tanto com a qualidade da ciência que produzem, quanto com a comunicação eficiente dela. Afinal de contas, quem escreve um artigo quer ser lido e citado;
  5. Não existe uma estratégia universalmente válida para construir um bom currículo. Até mesmo porque cada indivíduo estabelece as suas próprias metas na carreira. O seu currículo deve refletir principalmente os seus valores pessoais e os seus objetivos profissionais, e não apenas estar alinhado com as tendências da sua geração.

Ok, estando claras essas premissas, vamos em frente. Já adianto que convidei um colega excepcionalmente bem-sucedido para escrever aqui sobre as vantagens de tentar publicar em revistas top. Assim, em breve vocês poderão ler esse contraponto.

Então, se todo mundo quer publicar nas revistas mais badaladas de cada área, quais seriam as razões para publicar também nas revistas menores?

1. Revistas menores ajudam a construir uma ciência com identidade.

Sim, isso pode parecer um cliché nacionalista, mas é verdade. Quando os cientistas de um determinado país só publicam em revistas editadas por colegas de outros países, acabam se tornando reféns das tendências alheias.

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Quem é você na ciência? Fonte da imagem.

Isso porque a ciência não é uma uma atividade puramente racional e imparcial, mas uma cultura humana com seus próprios vieses. Dessa maneira, apesar de a construção do conhecimento ser um grande quebra-cabeças internacional, cada país tem um jeito de jogar e um foco dentro do jogo. Quando você submete um artigo para uma revista, mesmo que isso não esteja explícito, está aceitando a maneira de jogar dela. Na prática, isso quer dizer que visões muito diferentes da que os editores consideram como “correta” dificilmente ganham espaço.

Por isso, é fundamental que um país em desenvolvimento, que pretende um dia ser um dos líderes da ciência mundial. também tenha as suas próprias revistas além de publicar nas revistas alheias. Só assim poderemos nos tornar membros institucionais, e não apenas individuais, do seleto clube dos criadores de tendências. Este é um caso em que os conceitos de menor e nacional confluem.

Contudo, mesmo quando não há essa confluência, as revistas menores podem também participar da construção de uma identidade: a sua. São as revistas menores, independentemente de serem nacionais ou estrangeiras, que constroem os alicerces do seu perfil como cientista individual. É nelas que você publica os trabalhos incrementais específicos da sua área de interesse. As revistas top, por sua vez, dão espaço apenas para trabalhos inovadores. Novamente, ambos os tipos de trabalhos são importantes e quase ninguém (salvo alguns casos suspeitos) produz apenas ciência inovadora.

2. Revistas menores dão espaço para as opiniões de cientistas iniciantes.

Em 99.9% do tempo, somos virtualmente proibidos de especular sobre qualquer tema ou emitir opiniões puramente racionais sem embasamento empírico (no sentido filosófico). Contudo, a ciência contemporânea é filha da filosofia e, portanto, um pouco de especulação e opinião também faz parte do jogo.

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Boas especulações também fazem da parte da solução de problemas. Fonte da imagem.

Mas você só conseguirá espaço para “dar uma viajada”, depois que acumular uma espécie de “crédito de publicação”. Ou seja, depois que tiver conquistado respeito no pequeno mundo acadêmico, publicando bons artigos e fazendo bom networking. Via de regra, você chegará lá quando for pelo menos um mid career researcher, apesar de isso poder ocorrer antes em casos raros.

Enquanto você não chegar lá, provavelmente só poderá emitir opiniões nas seções do tipo “fórum” de revistas menores ou boletins de sociedades acadêmicas. Considere esses espaços como excelentes dojos para treinar estilos de redação, formas de expressão e construções argumentativas que fogem ao feijão-com-arroz acadêmico. Arrisque, ouse e evolua.

3. Revistas menores te conectam a uma comunidade especializada.

Essa talvez seja uma das maiores vantagens. A não ser que você seja muito seletivo e “não queira se misturar com essa gentalha” (Florinda 1971), certamente você entende a importância de se enturmar com os especialistas no seu tema de estudo que moram no mesmo país ou estado que você.

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O que você já fez pela sua tribo? Fonte da imagem.

Uma das melhores formas de começar a ser notado por esses colegas é publicar em revistas menores no começo da sua carreira. Isso te permitirá fazer um bom networking, que deve ser complementado com participação regular nos eventos organizados pela tribo de interesse.

Mesmo depois que você já tiver se integrado à essa tribo e estiver estabelecido na carreira, continue publicando nas revistas menores editadas por ela. Isso demonstra que você se importa e tem senso comunitário. Você poderá até passar a contribuir como editor associado de uma dessas revistas, o que é uma experiencia muito valiosa para conhecer melhor as engrenagens da ciência.

4. Revistas menores servem como treino para você melhorar na redação.

Ninguém nasce sabendo escrever. Sério, a gente até aprende a falar simplesmente imitando os nossos parentes mais velhos. Mas a redação é uma habilidade bem menos natural, que precisa ser aprendida através de técnica e prática. E o estilo de escrita científico é bem peculiar, demandando um alto investimento para ser dominado.

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Pratique, pratique, pratique! Fonte da imagem.

Assim, é improvável que o seu primeiro artigo, fruto da IC, seja publicado na Science. A não ser que você seja um outlier. Só que outliers, por definição, são a ínfima minoria de qualquer população.

Então, já que estatisticamente é improvável que você seja um outlier, você vai precisar praticar muito, de revista em revista, até se tornar íntimo da última flor do Lácio e, principalmente, da lingua franca. As revistas menores são excelentes espaços de treino também nesse caso. Isso porque elas recebem muito menos submissões dos que as top e, portanto, são menos seletivas.

Aos poucos, conforme você for publicando em revistas de diferentes tamanhos, irá progredindo não só na arte de escrever, mas também no nobre ritual de argumentar com editores e revisores. E, mais importante, começará a estimar de maneira mais precisa as chances de um determinado manuscrito entrar em uma determinada revista.

5. Revistas menores são mais adequadas para publicar os trabalhos dos seus alunos.

Fica aqui uma dica para os novatos que já conquistaram a faixa preta e começam a orientar alunos. Na verdade, esta dica serve também para os sêniores, que com o passar dos anos acabaram se distanciando da realidade dos aspiras (#quemnunca).

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Novas gerações de alunos entram na universidade em média sempre com a mesma idade. É você quem vai ficando cada vez mais velho… Fonte da imagem.

O ponto é que um bom alvo para você não necessariamente representa um bom alvo para os seus aspiras. Cientistas em diferentes fases da carreira apresentam diferentes níveis de habilidade e experiência.

Para entender isso melhor, vamos mudar da ciência para o jiu-jitsu. Você acharia justo um faixa preta e um faixa branca rolarem juntos e serem julgados pelos mesmos critérios em um torneio?

Não, né. Então transponha esse exemplo para a ciência. Exigir que um aluno seu publique como primeiro autor nas mesmas revistas top que você não é realista e nem saudável. Isso é colocar pressão demais na fase errada.

Deixe que os seus aspiras comecem mirando em alvos mais baixos do que você. Considere a altura do sarrafo pulado por pessoas que estão na mesma fase da carreira que eles. Afinal de contas, é com os pares deles que os seus aspiras vão competir.

Nem tudo são flores

Apesar de este não ser o foco deste post, quero comentar rapidamente algumas razões para não publicar em revistas menores:

A. Algumas revistas menores são simplesmente ruins.

Infelizmente, isso é verdade em alguns casos. Há revistas que são pequenas porque merecem. E merecem porque são gerenciadas de forma incompetente ou até mesmo predatória. Sabe, por exemplo, aquela revista de um certo “clube do churrasco”, onde os bróders publicam os papers dos bróders, que eles não conseguiram colocar em nenhuma outra revista? Fique atento a sinais desse tipo e corra para as montanhas!

B. Algumas revistas menores não são lidas por ninguém.

Não adianta se dar ao trabalho de desenvolver um projeto e depois comunicá-lo através de um artigo caprichado, se ninguém vai prestar atenção em você. Quem escreve quer ser lido e citado. Ponto. Se você optar por mandar o seu manuscrito para um revista menor, seja por qual razão for, além de checar se ela é mesmo honesta, cheque também se ela é lida de fato pelo público-alvo que você espera. Saiba escolher a mais adequada dentre as menores.

C. Algumas revistas menores são vitimistas e, no fundo, não querem melhorar.

Se você já é um cientista mais experiente e gostaria de mandar alguns papers para uma revista menor, porque quer investir nela e vê-la crescer, primeiro confira se vale mesmo a pena o esforço. Há revistas que são auto-sabotadas pelos próprios editores, tornando-se prisioneiras de uma mentalidade obtusa. Não há missão de resgate que as salve, então é melhor deixar a seleção natural seguir seu curso nesses casos. Se você realmente acha que na sua área temática específica há ainda demanda por uma boa revista menor, de repente vale a pena alocar a sua energia criativa na fundação de uma nova revista.

Conselho final

Nem só de proteínas é feita uma dieta saudável. Quem é monstro e quer sair da jaula (birlll!) precisa também de carboidratos, fibras, vitaminas, sais minerais e outros nutrientes. O mesmo vale para a sua produção científica. Procure construir um portfólio de publicação diversificado, sustentável e saudável, que ao mesmo tempo te mantenha no rumo do sucesso, mas também te permita dar um retorno à sua comunidade, sem te levar ao burnout.

E aí? Você conhece mais razões para publicar também em revistas menores? Compartilhe conosco a sua opinião aqui nos comentários.

 

(Fonte da imagem destacada)

17 respostas para “Será que vale a pena publicar também em revistas menores?”

  1. Mais um ótimo post Prof. Marco. Obrigado!
    Na verdade, sempre levanto esse tema em algumas conversas paralelas nas rodinhas acadêmicas rsrs. Na universidade onde faço doutorado o foco é (quase) sempre no IF alto, mas nos concursos das universidades que tenho interesse em trabalhar no futuro, os editais poucas vezes classificam os artigos publicados pelos candidatos pelo Qualis, muito menos pelo IF. Assim a pontuação na hora da prova de títulos. fica “igual pra tudo”. Ai vem a inquietação: foco no IF (maiores chances de bolsas, financiamentos, etc) ou foco nas menores (que em teoria e de acordo com o post, são mais acessíveis para nos aspiras)?

    1. De nada, Marcelo. Nossa, é uma pergunta complexa essa.

      O seu foco realmente depende dos seus objetivos profissionais. Se pensarmos no geral, o melhor é construir um CV coerente, contendo revistas de todos os estratos, que deixe clara a sua identidade como cientista. Mas é bom publicar em pelo menos algumas revistas top para dar um diferencial ao seu CV. Ou seja, tente construir um CV sólido, que se destaca na multidão tanto pelo coerência quanto por alguns pontos brilhantes.

      Contudo, brilho nem sempre é necessário para vencer, dependendo de onde você quer trabalhar. Tem gente que consegue se destacar por outras vias. Por exemplo, com um currículo feito basicamente de publicações sem muito glamour, mas em grande número. Dependendo do lugar, esse perfil vence. Na verdade, é o perfil mais comum no Brasil, pois ainda valorizamos muito a quantidade em detrimento da qualidade.

      No lado da qualidade, há ainda uma minoria de cientistas que age como “sniper”, publicando poucos artigos quase exclusivamente em revistas top. Esse é um perfil bem mais comum na América do Norte e Europa.

      Estando você na briga por empregos aqui no Brasil, é importante pensar de maneira estratégica considerando a competição com os colegas que focam no mesmo nicho que você. Minha recomendação para os meus orientados diretos é ignorar o Qualis, pois acho que o sistema não faz sentido, além de as regras mudarem toda hora (como planejar uma carreira a longo prazo mirando em um alvo móvel?). Eu sugiro que eles foquem especialmente no público-alvo, escopo e reputação das revistas, como expliquei naquele outro post sobre a escolha da revista. Sugiro considerarem também o IF, sim, mas não como critério primário de escolha.

      Boa sorte!

  2. Marco, adorei o seu texto.
    É muito importante para nós “aspira” ver pesquisadores do mais alto gabarito, como você, se posicionar dessa maneira sobre assuntos mega importantes para a formação de um pesquisador brasileiro. Eu me senti muito reconfortado com suas palavras.
    O texto me fez pensar que estou no caminho certo.
    Grato!

    1. Mais um post excelente do teu blog. O texto me inspirou e me deu o gás final para finalizar um trabalho numa ‘revista menor’. Estou começando agora a escrever meus próprios artigos sozinhos e o texto me fez redimensionar corretamente na questão da publicação. Obrigado.

  3. Muito bom esse texto! Concordo plenamente, acredito que publicar nas revistas menores é importante como treino, é bom pro currículo e também é bom pra ciência como um todo. Publiquei o meu primeiro artigo na Brazilian Journal of Biology*, em 2011, e este é meu quarto artigo mais citado (15 citações; não é lá grande coisa, mas é um tema meio específico! E meu artigo mais citado, com 46 citações [conforme Google Scholar], publiquei na Plant Ecology – que é uma revista boa embora não uma revista topzera – em 2013) – ou seja, pessoas lêem e citam essas revistas também.

    Um motivo adicional que eu daria é porque nessas revistas conseguimos publicar informações de base que seriam difíceis de serem aceitas em revistas maiores. Afinal, sabemos muito pouco sobre a história natural de grande maioria das nossas espécies e sobre a ecologia, ou mesmo composição de espécies, de grande parte dos lugares. Revistas menores frequentemente aceitam artigos com este enfoque, e precisamos disso para fazer pesquisas mais interessantes. Afinal, como testar hipóteses interessantes e que façam sentido sem termos antes um conhecimento da história natural dos seres que estudamos? E são trabalhos relativamente mais simples, que podem ser feitos com qualidade em uma iniciação científica, assim também estimulando o interesse pela pesquisa científica 🙂

    1. Obrigado, Pavel! Concordo contigo, valeu por levantar esse ponto adicional! A história natural hoje em dia fica quase que exclusivamente nas revistas menores. Ela se enquadra na categoria dos trabalhos descritivos na maioria das vezes, apesar de também ser possível testar hipóteses em história natural.

      1. Fui olhar agora, por curiosidade, e vi que o meu segundo artigo mais citado também saiu numa revista menor, focada totalmente em Mastozoologia. Está com 114 citações no Google Scholar. O meu primeiro mais citado (130) saiu numa revista mais geral de Ecologia Tropical, com IF acima da mediana da área.

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