Cientista tem que ter apetite!

Vejo cada vez mais alunos que parecem totalmente perdidos em seus estágios, mestrados ou doutorados. Alguns dão a impressão de estar sofrendo o tempo todo. Outros seguem a passos lentos, devagar, quase parando. Quero dar a eles um conselho duro, mas fundamental.

O fato é que a ciência profissional é uma carreira muito difícil e competitiva, que requer um investimento pessoal descomunal e dá muito mais retorno para a mente do que para o bolso. Assim, beneficiar-se das descobertas da ciência é para todos, mas fazê-las é para quem tem o perfil psicológico e o treinamento corretos. Para alertar pessoas que talvez estejam no caminho errado, antes que elas desperdicem muito tempo, energia e dinheiro e depois se arrependam de escolhas malfeitas, resolvi escrever sobre algo essencial para um “aspira” da ciência: o apetite.

Como nos cursos de ciências naturais das universidades públicas (Biologia, Ecologia, Física, Química etc.) a maior parte dos exemplos de profissionais (role models) que os alunos têm são os próprios professores com contratos 40h+DE (i.e., quarenta horas por semana, com dedicação exclusiva), que são acadêmicos por natureza, muitos acabam achando que a carreira acadêmica é a única opção existente ou talvez a melhor de todas. Esse problema é menor ou inexistente em carreiras como Medicina ou Direito, nas quais a maioria dos professores trabalha em outros empregos, em paralelo às aulas, com um regime 20h ou 40h sem DE, dando aos alunos exemplos concretos de outros possíveis caminhos profissionais.

Bom, caro aspira, só na Biologia existem muitas outras possibilidades. Ninguém é obrigado a ser cientista! Somando a essa cisma o acesso pouco seletivo aos programas de pós-graduação que temos hoje em dia, com ingresso fácil demais nos piores cursos e bolsas garantidas para a maioria dos alunos nos melhores cursos, o resultado é um monte de gente na pós-graduação que não tem a menor vocação para estar ali. Não quer dizer que essas pessoas não seriam bons profissionais em outras carreiras: elas apenas estão vivendo a vida de outra pessoa, como diria o Steve Jobs.

Não adianta querer dar uma de camarada e enganar os aspiras com falsas esperanças, como muitos colegas fazem. É preciso uma combinação rara de características pessoais para progredir na carreira acadêmica e fazer da construção de conhecimento novo o seu ganha-pão. No mínimo, você tem que ser curioso, inteligente, disciplinado, perseverante e saber receber críticas. E trabalhar realmente duro. Não estou dizendo que cientistas são pessoas especiais, os “escolhidos”, blablabla. Estou dizendo apenas que, em carreiras de alto nível, como a ciência, a música de orquestra, o alto sacerdócio ou um esporte olímpico, não basta ter apenas um ou alguns dos traços de personalidade necessários à respectiva carreira. Você tem que ter todos esses traços de personalidade, receber treinamento adequado e ainda usar os seus dons de forma inteligente.

Além disso, como nunca me canso de repetir, não há nenhuma outra razão para querer se tornar um cientista, além de ser obcecado por perguntas e ter uma fome de conhecimento insaciável. Não se iluda: após décadas de investimento na sua formação, sem garantia alguma e sob enorme pressão, se você arrumar mesmo um emprego estável na Academia, seja como professor ou pesquisador, a maior parte das recompensas que obterá será puramente intelectual e não financeira ou social. Praticamente ninguém fica rico ou famoso fazendo ciência, ainda mais no Brasil, onde professores, pesquisadores e intelectuais de um modo geral são vistos com pena, desdém ou ódio.

Assim, a motivação para ingressar na Jornada do Cientista deve vir de dentro de você mesmo, aspira. Um estudante acadêmico que precisa de elogios ou chicotadas o tempo todo certamente está cursando a carreira errada. Assim, fica a dica: preste atenção a alguns sinais reveladores. Aqui vou comentar sobre algumas barbaridades que tenho ouvido cada vez com mais frequência entre muitos aspiras (não todos, felizmente!). Se você se identificar com qualquer um desses sinais, search your feelings e repense as suas escolhas profissionais.

1. “Eu acho tão chato ter sempre uma pilha de artigos e livros para ler”

O que você está fazendo na universidade então? A universidade é (ou deveria ser) o templo do conhecimento, onde ler é um prazer, um vício, e nunca uma obrigação. Se você só quer saber de “ler” nas redes sociais e tem preguiça de abrir um livro grande, sem figuras, vá fazer qualquer outra coisa, menos ser pesquisador ou professor. Há inúmeras profissões por aí e muitas delas não requerem tanto esforço intelectual quanto exigido na Academia. A sociedade precisa de um pequeno número de cientistas, mas de um grande número de profissionais liberais, técnicos e trabalhadores manuais bem treinados e bem remunerados. Todos os tipos de profissão honesta são importantes e honrados. Se estudar para o resto da vida não é a sua praia, não tenha vergonha disso, levante âncora e parta para outros mares. Só não dê murro em ponta de faca. Se você não tem apetite pela leitura, por que escolheu uma carreira onde os livros são o ar que se respira?

2. “Eu adoro fazer estágio no meu lab, mas ando tão sem tempo para as atividades que o meu orientador inventa”

Você acha que a sua falta de tempo vai melhorar ao longo da carreira? Você acha que professores ficam de pernas ao ar, enquanto apenas os alunos, coitados, é que trabalham duro? Ao progredir em cada fase na Jornada do Cientista, mais complicadas as coisas ficarão. Se você achar a graduação pesada demais, certamente vai chorar no mestrado (a pós-graduação é o lugar onde a criança chora e a mãe não escuta…). Se você achar o mestrado pesado demais, certamente vai entrar em depressão no doutorado. Se, mesmo com essa preguiça toda, você conseguir entrar em um doutorado, mas achar o curso pesado demais, provavelmente não vai conseguir uma vaga de postdoc e a sua carreira estará com os dias contados. O ponto é que, desde cedo, se você não entender que gerenciar bem o seu tempo é fundamental não só no trabalho, mas também na vida pessoal, então não vai chegar muito longe na Academia e nem nas suas relações familiares, amorosas e amistosas. Tempo livre não se pede, não se espera: se inventa. Se você realmente ama a ciência e quer ser um profissional do conhecimento, então vai ter que dar um jeito de arrumar janelas de tempo para o seu estágio, mesmo que a carga de aulas da graduação seja massacrante no Brasil. Se não tem apetite pelo seu estágio, por que não vai fazer outra coisa?

3. “Meu orientador vive me perturbando, perguntando se eu já fiz a análise X que ele recomendou. Poxa, ele precisa ficar perguntando a mesma coisa a cada seis meses?”

Aspira que só funciona na base do controle remoto está na carreira errada. Ponto. Seu orientador sugeriu X para você fazer na tese? Então faça não apenas X, mas apresente a ele 3X na próxima reunião. Não é para impressioná-lo, mas sim porque você está apaixonado pelo seu projeto. Orientador não é babá. Orientador não é psicoterapeuta. Orientador não é confessor. Orientador serve para tirar dúvidas, apontar caminhos e ensinar habilidades essenciais. Uma vez que o seu orientador te abriu uma determinada porta, passar por ela e trilhar o caminho apontado cabe única e exclusivamente a você. A tal análise X que ele te pediu certamente é somente a ponta de um iceberg. Descubra o tamanho dessa montanha de gelo! Um bom aspira da ciência não precisa andar de mãos dadas: ele tem tanta iniciativa e curiosidade, que caminha sozinho, mesmo que tropece muitas vezes. Uma das principais coisas que separam quem tem vocação para cientista de quem não a tem é a disposição para trabalhar sempre um pouco mais. Se você mesmo não tem apetite pelo seu projeto, por que decidiu desenvolvê-lo?

4. “Estou até agora esperando o meu orientador me explicar o tema Y. Enquanto eu não receber esse feedback, não saio do lugar”

Qual de voces dois já tem o título acadêmico em questão (BSc, MSc, PhD etc.): você ou o seu orientador? Ah, ele, não é mesmo… Então a tese é sua, não dele. Corra atrás! A vontade de responder a pergunta proposta no projeto deve vir de você. A iniciativa e a empolgação devem vir de você. É você quem deve ficar obcecado por montar o tal quebra-cabeças. É você quem deve correr atrás de aprender as habilidades e conhecimentos de que precisa. Não espere o seu orientador: estude, trabalhe, progrida. Conte com ele para ajudar a focar melhor sua energia. Mas nunca conte com ele para dar o próximo passo. Se você não tem apetite pelo caminho, por que trilhá-lo?

5. “Nossa, não cumpri uma obrigação Z exigida pelo meu PPG. Tudo bem, pois eles têm que ser compreensivos já que eu não tenho experiência, né?”

Sério que eu preciso explicar isso para adultos? Na cultura brasileira somos tolerantes demais com malandros, enrolados e preguiçosos. Deveríamos guardar a nossa compaixão para quem realmente a merece, não a desperdiçando com bebês adultos. Não inverta os valores! Se você ingressou em um determinado programa de pós-graduação, automaticamente fica implícito que você aceitou o respectivo estatuto, regimento, normas etc. Te deram um prazo para a qualificação? Cumpra-o! Te deram um prazo para a defesa da tese? Respeite-o! Estipularam uma qualidade mínima aceitável para uma tese ser aprovada? Supere-a! Ninguém tem que ser compreensivo: você é que tem que ser responsável e proativo. Se você não tem apetite pelas tarefas inerentes a uma pós-graduação, por que cursá-la?

Conselho final

Foi você quem escolheu ser cientista, então mexa-se. Ninguém te deve nada, você não é especial e o sucesso nasce do trabalho duro.

Sugestões de leitura

kennedyFonte

Legenda (em 12/09/15):

Neste post, felizmente, a maioria entendeu a mensagem! Contudo, algumas pessoas sequer se deram ao trabalho de ler o texto até o fim ou simplesmente não entenderam o tom sarcástico. Recebi mensagens com desaforos, xingamentos e até mesmo ameaças à minha integridade física. A esses analfabetos funcionais com tendências violentas, dou três sugestões:

  1. Sempre leiam um texto até o final, antes de decidirem se concordam ou discordam das ideias apresentadas.
  2. Caso se identifiquem com alguma das críticas feitas neste ou outro texto, ao invés de entrarem no “modo defensivo”, também conhecido como “burro empacado”, reflitam sobre as suas próprias ações ao invés de agredirem os outros para aliviarem a culpa de si mesmos.
  3. Antes de me fazerem uma ameaça neste blog, lembrem-se de que é bem fácil identificar os autores dos comentários. Saibam também que eu frequento os mesmos ambientes e eventos acadêmicos que muitos de vocês, que temos conhecidos em comum, e que eu nunca me esqueço de alguém que me ameaça.

De qualquer forma, editei um pouco o texto, removendo o sarcasmo. Essa figura de linguagem é ótima para desabafar, mas não funciona muito bem para passar uma mensagem. Hoje em dia, na Era do Mimimi, ao verem um dedo apontando para a Lua, várias pessoas se concentram no dedo e deixam de apreciar a glória celestial.

Outro ponto nada popular, mas importante de ser comentado, é o bem público. Quem entra na Jornada do Cientista seguindo a manada, sem pensar, desperdiça dinheiro público em um país onde muitas pessoas ainda morrem de fome todos os dias e muitos pais de família têm que alimentar e educar os filhos com um salário mínimo. Uma bolsa de mestrado, da qual muitos jovens bem-nascidos reclamam, vale quase o dobro do salário mínimo nas agências que pagam menos; uma bolsa de doutorado vale quase o triplo. Uma bolsa de pós-doutorado pode chegar a seis salários mínimos. Não é pouco. Pense que quem ganha uma dessas bolsas está recebendo vencimentos bem acima da média brasileira para estudar, enquanto outros jovens têm que pagar para estudar e se desdobram entre estudo e trabalho. Agora que o cinto apertou e a vacas emagreceram, se você perceber que a pós-graduação não é sua praia, desocupe logo a vaga e passe a oportunidade para quem realmente a merece. Desistindo de uma jornada que não é sua antes de desperdiçar ainda mais tempo e dinheiro seus, dos outros e do Estado, você, no fundo, está fazendo um enorme favor a si mesmo. Você está se dando a oportunidade de repensar a sua jornada e o seu ikigai.

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30 respostas para “Cientista tem que ter apetite!”

  1. Uma amiga publicou no facebook essa postagem. ACHEI SENSACIONAL! Tenho vários amigos que se encaixam nesse perfil, e muitos nem se deram conta.
    Uma pena que iniciativas incríveis como seu blog sejam tão difíceis de achar… Parabéns!

  2. Excelente, Marco!! Hoje em dia é muito fácil conseguir entrar numa pós-graduação e ficar mamando na teta do governo por dois anos. Muitos alunos desempregados acabam indo pra esse lado e se formam mestres e doutores traumatizados com a acadêmia, pois não tinham vocação para isto. Um abraço e muito obrigado pelos ótimos posts.

  3. Primeiramente, ótimo texto e que ele sirva de ajuda para aqueles que estão perdidos por aí. Parabéns.
    Não sei se fico triste ou feliz agora, mas de qualquer forma, obrigado.
    Me identifiquei com texto e confesso que a um bom tempo venho me questionando se escolhi ingressar no curso certo. Ao fim da minha vida escolar eu terminei optando pelo curso de Bacharelado em Ciências Biológicas por apenas gostar da maior parte dos assuntos passados em sala de aula. Terminei sendo aprovado no vestibular e estou persistindo no curso há 7 períodos, já reprovei algumas matérias e tenho certa dificuldade para entender vários assuntos de outras, mas por outro lado eu gosto do estágio que consegui, gosto de aprender coisas novas. Por fim me pergunto o que eu faria depois da graduação e se eu fizesse alguma pós o que eu faria depois? Se hipoteticamente eu conseguisse o título de doutor não saberia o que fazer posteriormente e se eu trancasse o curso agora não saberia muito menos em qual outro ingressar.

    1. Lucas, não desanime. Eu escrevi esse texto em um tom mais ácido do que o habitual, justamente para provocar vocês, aspiras, fazendo-os refletir seriamente. Existem vários motivos para você não estar curtindo o seu curso, dentre eles: (i) Biologia não ser a sua praia, (ii) o curso em que você está não ser bom por alguma razão (professores, disciplinas, infraestrutura etc.), (iii) o curso em que você está não ser compatível com o seu perfil. Leve em conta também que o que aprendemos em um estágio, seja em pesquisa, ensino ou extensão, fica bem mais próximo da realidade da profissão do que o que aprendemos em sala de aula. Considere também que a Biologia não é uma coisa única em toda parte e que cursos diferentes podem ter perfis muito diferentes. Casos como o seu podem requerer uma outra solução menos radical do que largar tudo: tentar o mesmo curso em outra instituição. Já pensou em tentar cursar Biologia em outra universidade ou fazer um estágio longo em outro país? Leia um outro post sobre intercâmbio.

      1. Vi algumas de suas publicações agora. Conheci seu texto pelo facebook da Suzana Herculano-Houzel. Marco, trouxe uma luz num momento bem difícil para mim. De repensar o que é orientar, e o que é selecionar um aluno para orientação. Queria te agradecer enormemente pelo convite à reflexão.
        Posso sugerir alguns tópicos para reflexão?

        PS: vi que vc trabalha com sistemas complexos e ecologia. num passado muuuito distante fiz a mesma coisa, e então, passei a te admirar mais ainda, pois de fato isso não é pra qualquer um.

        1. Izabel, fico muito feliz em saber que o meu texto atingiu seu objetivo: fazer as pessoas refletirem sobre a carreira. Escrevi-o em um tom mais ácido do que o habitual justamente para provocar, incomodar. Nossa carreira é tão corrida e competitiva, que muitas vezes a gente fica sobrecarregado e vai na onda, não pensa sobre o sentido maior do que está fazendo. Vejo um monte de alunos entrando sem pensar na pós-graduação simplesmente porque muitos colegas estão indo ou porque parece a maneira mais rápida de conseguir uma fonte de renda nos primeiros anos depois de formado. Claro que você pode sugerir tópicos, ideias para posts são sempre muito bem-vindas. Muito do que escrevo aqui nasceu a partir de sugestões e conversas. Um abraço.

      2. hehehhe.. assim… ontem fui a uma defesa, e fiquei bem impressionada com um monte de celular gravando ate a arguição… eu era da banca, fiquei um pouco inibida hehehe

        1. Olha, confesso que também fico inibido quando estão gravando áudio ou vídeo em bancas. Acho invasivo. Vivemos em tempos de paranoia tão grande com o politicamente correto, que a gente nunca sabe quando alguém vai pinçar e distorcer algo que a gente falou.

  4. Concordo com muita coisa no texto, mas o ser humano (quase) sempre busca o caminho mais fácil, e com aluno não é diferente.
    Hoje, o que as empresas exigem numa vaga de emprego? E os programas de pós-graduação? Qual seria o caminho mais fácil? Muitos processos seletivos de doutorado, por exemplo, exigem a apresentação de um projeto no ato da inscrição, e muitas vezes isso nem é avaliado como deveria e frequentemente é elaborado pelo próprio orientador. Como a habilidade de escrever um projeto pode ser tão desconsiderada em se tratando de um futuro doutor?
    É fácil, para um professor, reclamar do aluno mais lento quando a produção cai, mas eu pergunto: por que o aceitou? Você não é capaz de selecionar um bom candidato?
    Nós sabemos que o sistema pede por números e bla bla bla, mas o que você, professor, tem feito para mudar esse cenário? Você concordou com essa situação ao aceitar esse tipo de aluno.
    Enfim, tem muito aluno ruim e muito dinheiro sendo mal investido, e isso não vai mudar tão cedo. Mas eles estão ocupando o espaço que lhes foi oferecido por vocês.
    E sim, cientista precisa ter apetite… Mesmo após a mudança de bolsa para salário. Apetite para mudar o que está errado. Afinal, reclamar é fácil; até um aluno lento e perdido faz.

    1. Thiago, sim, concordo, tem muito professor ruim por aí, que não tem critério para escolher alunos, fica com o lab inchado e depois reclama do caos. Na verdade, tem muitos que nem reclamam e nem dão atenção aos alunos: aceitam 30 para ver se, por sorte, 1 ou 2 dão certo espontaneamente. Mas este blog é focado em ajudar os aspiras, não os seniores, porque eu acredito que burro velho não aprende truque novo, ainda mais burro velho que não pode ser demitido, rs. E, sim, eu faço a minha parte e não fico só reclamando. Basta notar que dedico uma fatia preciosa do meu tempo a escrever este blog com dicas, dentre várias outras ações para ajudar os aspiras da ciência. Eu mesmo sou criticado por muitos colegas por ser seletivo demais e ter um grupo de pesquisas pequeno para os padrões brasileiros. E pretendo ficar cada vez mais seletivo no futuro. O ponto é: estou disposto a fazer ensino em massa (estou falando de turmas de 200 alunos, ao estilo de Harvard, se a universidade permitisse) na graduação, que é onde realmente deve haver mais gente na universidade e onde é aceitável que mais gente esteja perdida, ainda tentando se encontrar profissionalmente. Mas defendo que a pós-graduação deva ser muito mais seletiva. Não tanto com relação à formação prévia, pois tem muita gente boa que depende apenas de uma oportunidade para aprender e florescer, mas com relação ao potencial do aluno e adequação de seu perfil a cada tipo de curso de PG.

  5. Concordo em muitas coisas, inclusive sou orientador e orientando também, mas acho que tem muita gente na universidade que está acostumado a meter o pau no trabalho dos outros muitas vezes esquecendo como foi a sua própria trajetória e nivelando por cima todo aquele que está na academia. Além do grande ego que existe por parte de muitos professores, que competem entre si e que muitas vezes fazem é desorientar seus alunos. Observamos também as exigências ridículas da Capes por publicações que muitas vezes são motivos de diversas doenças em professores e alunos. Vejo amigos professores na universidade que são retirados de programas de pós-graduação por ausência de publicações em um curto período de tempo só porque a coordenação do programa está querendo elevar o nível da capes. Considerando também que quase 100% de estudantes de doutorado adquirem alguma doença ao longo do doutoramento por stress e pressão e nem sempre por mimimi ou falta de organização. Isso é preocupante do ponto de vista da carreira de uma pessoa. É preciso também rever esse sistema. Precisamos saber motivar estudantes a pesquisarem e não desistirem de suas carreiras quando percebemos que aquele é o caminho que a pessoa realmente quer. É claro que é preciso deixar visível as exigências que serão feitas ao pesquisador, mas é preciso ver os problemas que ainda temos em nosso sistema de ensino, que sofre reclamação de muitos professores. É preciso sempre ver os dois lados, por isso gosto do lugar de orientando e orientador.

    1. Sim, concordo, tem muito professor ruim por aí e o nosso sistema é péssimo. Mas, neste blog, foco nos aspiras, pois é eles que eu quero ajudar, mesmo que seja dando conselhos duros algumas vezes, como em textos como este. O ponto é que eu acredito que burro velho não aprende truque novo, ainda mais burro velho que não pode ser demitido, então cansei de falar sobre esses problemas com meus colegas professores. Nos aspiras ainda tenho esperança, pois são eles que podem pensar fora da caixinha e, quiçá, mudar de forma mais profunda a ciência brasileira nas próximas gerações. Faço a minha parte aqui no blog, em sala de aula, no lab e nos congressos da vida, e espero, assim, plantar sementes.

    2. Perfeita colocação. O ambiente da universidade federal está cada vez mais nojento, com professores colocando os nomes dos seus comparsas em artigos e publicações de qualquer espécie só para alongar o Lattes do outro. O nome de fulano está em todos as publicações do ciclano e vice versa. Uma nojeira incitada pela própria CAPES. Já vi muitos desenvolvendo doenças justamente por não concordarem com esse “way of life”. Saí da vida acadêmica após meu doutorado muito mais por essa nojeira que descobri na universidade que qualquer outro motivo. Não tinha condições psicológicas nenhuma de conviver com pessoas daquele tipo. Existem sim muitos professores “cientistas” honestos, mas a maioria ali está preocupada somente na competição de egos. Um nojo.

      1. Petra, não discordo da sua colocação, apenas não acho que valha para a maioria. Tem muita gente trabalhando séria na universidade, apesar de o sistema como um todo estar equivocado em várias coisas. E sujeira, infelizmente, a gente vê por toda parte. Já trabalhei fora da Academia e as coisas são até piores no mundo real. O ponto é que convencionou-se malhar a Capes e os professores, mas há muita coisa errada também do lado dos alunos. Quando escrevo esses textos mais duros é a fim de cachoalhar os aspiras e incentivá-los a repensarem coisas que se tornaram a normalidade.

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